A lucidez da loucura
Não há saudade sem tormento
Finitude sem nostalgia
Ou amor sem sustento
Não há saudade sem tormento
Finitude sem nostalgia
Ou amor sem sustento
Percorro o teu corpo com a
língua
Recolho os teus fluidos
saboreando cada um
A vulva envolta em
movimentos avulsos
Sorve com sofreguidão o
sabor do teu sexo
É nos meus ombros que quero
as tuas mãos
Quando te oferto o meu torso
e toda a minha vontade de te sentir
Os cabelos são rédeas presas
que regem a nossa vontade
Os mamilos, esses roço-os no
cetim que húmido se forma no nosso mar de deleite.
Nos
teus lábios tens pérolas de tempo
Janelas
abertas de brisas frescas
E
uma crescente claridade luzente
Quando
partes levas os meus lábios nos teus
E
com eles furtas-me o silêncio
Deixando-me
a tua voz no meu peito
Da
minha boca levas a palavra que te digo
A
todos os instantes que o silêncio impera
Entre
o castanho e o verde do nosso olhar
Não posso dizer-te que te
amo
Quando já antes o disse
centenas de vezes
Não pode ser amor o que
sinto
Quando nunca antes o tinha
sentido
Não sendo amor, que outra
coisa pode ser
Quando no laço do abraço
O meu corpo é essência
E a minha alma é mais do que
o meu ser
Toda
a poesia que escrevo
É
arrancada da alma
De
gume afiado abro o peito
E
derramo todas as palavras
As
que doem caem duras no chão
As
que magoam não replicam
Há
também os versos de alento
E
as palavras de amor
Essas
espalho-as pelo corpo
Para
que a tua língua as recolha
E
em ti permaneçam
Sem
que eu as tenha dito
Masturbar
é uma forma de arte
É
conduzir ao centro do corpo
Os
dedos que teimosamente escorregam
Carregam
e esfregam os lábios que não falam
Aqueles
que apenas emitem prazer e desejo
E
que sorvem num simples gesto a energia dos corpos.
Trepam
os vales e as ondas do corpo
Caminhando
extasiados e inebriados pelo odor do sexo
Empurrados
por uma mão febril
Que
incessante e sem dubiedade avança
Aprisionando num único gesto todo aquele mar
Nos
lábios das palavras sacia todo o prazer
Deitando
na língua os fluidos emanados pelo sexo
Extinguindo
o fogo, a febre e o desejo
Cobrindo
suavemente os lóbulos da boca
Para
com a língua recolher
O
desfalecimento dos espasmos que o corpo ainda liberta
Queria
esquecer quem fui
Apagar
todas as pegadas
Desprezar
todos os nomes
Queria
viver sem memórias
E
nascer na tua boca
Sempre
que me pronunciasses
Queria
renascer como Vénus
Na
concha das tuas mãos
Nos
teus lábios brotar
Toda
a minha alma
Repleta
de ti
Estou
cansada de ser mulher
Esgotada
de ser aquela que os homens procuram
Para
viver momentos de prazer
Estou
cansada de ser carne e gozo
Fatigada
de ser um ser vazio e sem alma
De
ser fonte de desejo e de não beijar
Estou
farta de mandar embora da minha vida
Quem
nunca deixei verdadeiramente entrar
Estou
sem sangue frio nas veias
Para
implacavelmente continuar a ser mulher
Fatigado,
o corpo deixo-o cair por entre os véus
Com
os braços prostrados sobre o ventre
Assim
permaneço
Sem
que o tempo ocupe espaço
Os
olhos deixo-os seguirem o seu rumo
Como
a folhagem de Outono também eles caem e se fecham
Não
sei se acordada ou a dormir
Reclino
a cabeça deixando os cabelos caídos pelo chão
Sonho
Viajo
para uma noite de Verão em que o horizonte te traz
E
contigo vem toda a vontade e loucura
Que
tornou a distância vazia
Ou
a estrada um paralelo que se cruza
Contigo
vieram histórias e narrativas
Dúvidas
que metamorfoseamos em verdade
Mãos
que se tornam asas
E
gestos incessantes que depravam, viciam e seduzem
Contigo
veio também o destempero
De
querer consumir num momento
Tudo
aquilo que não cabe numa vida
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