Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

5

O gato e o pássaro

Outro dia, parei minha caminhada matinal
Para ver um gato se aproximar de um pássaro.
O gato além de colocar o mundo no mudo
Ainda se movia como se não existisse movimento.
E o pássaro parecia que estava em outro mundo.


Mas eu já tinha visto um pássaro brincar com a morte.
Em uma outra manhã eu vi um pássaro
Voar da grade de uma quadra de esporte
Para pousar em uma árvore.
Mas não foi um voo qualquer.
No chão, entre um ponto e outro,
Havia um gato.
Se o pássaro fosse um jato
(Daqueles que deixam uma linha no céu),
O voo não deixaria uma linha no ar,
Deixaria um arco.
Um arco sorrindo para o céu.
O pássaro que estava no alto,
passou a centímetros da boca do gato,
Parecia que iria beliscá-lo.
O pássaro saiu sorrindo
E o gato ficou digerindo a gozação.

 

Mas a ideia de uma brincadeira perigosa
Foi embora.
O pássaro estava com a cara no chão

Procurando comida.
O pássaro da quadra de esporte era senhor da situação.
Já o pássaro com a cara no chão
Não estava a par do alçapão. 
Ele lutava pela comida.
Quem luta para não morrer de fome

Não pode enxergar bem o mundo ao seu redor.

A angústia tomou conta de mim.
O gato tinha uma casa, tinha o que comer
Não precisava pegar aquele pobre passarinho.
Mas aquele gato tinha o instinto dos donos,
Não precisava ter necessidade para devorar uma vida.


Decidi intervir.
Mal me movi, ouvi uma voz.
Olhei para trás,
Duas criaturas me chamaram.
Tinham feito uma aposta.
Eu não poderia intervir.
Os dois estavam ansiosos.
Um torcendo para o bicho pegar
E o outro querendo ganhar a aposta.
Tentei convencê-los a desistir dela.
Foi em vão.
Fui ao fundo dos olhos das criaturas
E não vi resquícios de compaixão.


Uma vida estava prestes a ser devorada.
O devorador e os apostadores estavam em fina sintonia.
Todos querendo ganhar.
A vida em jogo.
Eu por covardia ou prudência,
Limitei-me a dizer que ia torcer para o pássaro voar.
Um deles sorriu.
Mas mal acabei de falar,
O outro riu,
Riu melhor, gargalhou, ganhou a aposta.

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Pássaros

Nos dias da minha infância,
Eu subia o morro do caju para subir nos cajueiros
E olhar pro céu por cima dos coqueiros.
Rompia a copa do cajueiro,
Olhava para os horizontes
E via o mundo todo.

O mundo era aquilo,

Era o que os meus olhos conseguiam ver. 

Nos caminhos da minha infância,
Eu via o verde nas minhas mãos
E nuvens de algodão
Que realçavam as alegrias do céu azul
Daquele mundo que existia em mim.


Quando o sol ia embora,
Vinha a lua com um sorriso sem fim,
Meus olhos viajavam
Apreciando a lua e as estrelas,

Que desfilavam para mim.

Para os meus olhos

Não eram as nuvens que davam a sensação

De ver a lua e as estrelas em movimentação.


A inexistência de luz artificial
Iluminava a minha existência.
Essa luz esconderia a maioria das estrelas,
Enfraqueceria o elo

E deixaria a lua com um sorriso amarelo.


Hoje quando vejo o céu ameaçado por nuvens sombrias
Busco o céu da minha infância
Para seguir no meu caminho,

Apreciando o sol que dá bom dia,
Os pássaros que cantam com alegria
E as árvores que bailam com o sopro do vento.

 

Fujo pra respirar aquele ar,

Corro para abraçar
O lago que me fazia saltitar. 
Fecho os olhos para ver
As pedras que eu jogava,
Que faziam salto triplo na superfície da água.

Meus pés saíam do chão

E as minhas mãos socavam o ar.

 

No céu com a lua e as estrelas
O silêncio falava,
Os vagalumes iluminavam
E as pedras voltavam
A me transformar em um pássaro saltitante.
Agora não era a pedra na água,
Era a pedra na pedra.
Se a pedra para a água era magrinha e espalhada.
A pedra para pedra
Era cheinha e bem pesada.
No cenário da noite
As pedras que eu jogava em pedras gigantes
Soltavam faíscas fascinantes.

Nos caminhos da minha infância
Eu corria olhando pro chão e o chão olhava pra mim

E passava sob os meus pés como se fosse uma esteira ergométrica.
Outras vezes eu olhava pro chão,
Mas não era para vê-lo ou ser visto. 
Agora o chão era uma espécie de telão.
Isso em plena luz do dia
Com o céu azul e o sol no meio do céu.
Nesse cenário qual projetor conseguiria pôr uma imagem no chão
E nela pôr a minha atenção?

Não, não, não!

Naquele campo que era o meu mundo

Ou no meu mundo que estava em campo
O chão era um telão para as sombras das nuvens.
Delas e atrás delas eu corria
E nelas eu via as graças do meu dia.

 

Hoje em dia, as crianças do meu lugar

Não estão no meu lugar,

Estão lá, mas não estão lá.

Estão no celular.

Não são livres para brincar, imaginar e enxergar.

55

A minha xícara de café

Matutando sobre o que é Deus,

Não consegui ir além do eu que é só o meu:

Deus é um ser primitivo de forças infinitas e inexplicáveis.

Não sei como viajar nessa viagem.

 

Matutando sobre o que é poesia

Também me perdi em plena luz do dia,

Parece que é tão inexplicável quanto Deus.

Não! Não é. É exagero meu.

A minha vó está me tachando de ateu,

Herege, arruaceiro, subversivo...

Mas eu quero apenas o que eu vivo

E estar feliz

Por não pôr a venda o meu nariz.

 

Viver para sentir, para imaginar

O belo e o elo entre o duelo

E a harmonia que pode originar

O fazer e o prazer do caramelo

E a percepção do peso do castelo

Sobre o chiado do chinelo.

 

O que é poesia?

O amor, a dor, a tristeza, a alegria?

A escuridão da noite, a luz do dia?

A desconstrução da construção?

O espanto que explode com o trovão?

A senha que assanha a emoção?

O vagalume que pisca por segurança e diversão?

A lata que contém o incontível?

Os olhos que veem o invisível?

É um passeio pelo ar, pelo mar e pelo chão

Que limpa a visão e alegra o coração?

Sei lá o que ela é.

Pode ser a minha xícara de café.

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Jurômetro

Juro que eu não sei pra onde vai o meu suor.

Juro que eu preciso desatar esse nó.

Juro que eu queria uma medida, que diga

Onde passeiam as causas de minha fadiga.

Juro que me vejo menor que uma formiga.

Juro que a neblina é inimiga,

Que não me deixa enxergar o mar que me abriga

E me obriga a suar, suar, suar sem parar

Para encher os rios que só correm para o mar,

Socorrem quem não precisa de socorro

E é pra essa brincadeira que eu corro.

Morro de correr

Para ser sugado pela mão que ninguém vê.

Juro, juro que eu quero um medidor

Que meça a minha dor

Nessa conversa do ameaçador,

Quadro pintado por quem jamais pintou.

Juro que uma medida que meça os juros

Mostrará o que é feito no escuro,

Onde os juros movem-se ao som dos cardeais.

Desconjuro! Juros que não acabam mais.

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O espírito

O espírito dos navios negreiros, da colonização

Dos juros, da inflação,

Das bolsas que me deixam sem chão

E de tantas outras pedras que dificultam a caminhada

É como semente enterrada:

Some pra dar lugar a uma nova,

Na qual a essência se renova.

 

A nova é a velha marca d'água.

O novo é de novo a barca furada.

Tudo muda e nada muda

No som que toca a grave e a aguda.

 

As notas estão nas mãos de Judas,

Que toca uma viola absurda,

Que viola as leis naturais

E torna imortais as linhagens dos feudais.

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