Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

4

Zé Preto

Jogaram o Zé Preto no lixo.

Envergaram a coluna do Zé.

Nunca vi nada igual.

Deve existir por aí, mas eu nunca vi.

 

Subindo uma ladeira,

O Zé, se quisesse andar de quatro pé,

Era só estender os braços para onde o nariz apontava.

Ele tinha que fazer contorcionismo

Era pra olhar pro céu.

O Zé Preto era um homem envergado

Pelo peso nas costas de seus ascendentes.

 

Lançar o recém-nascido no lixo

É a continuação de uma história.

Os proprietários da mãe do Zé

Precisavam de comida na mesa,

Roupa lavada e casa arrumada.

Jogaram o Zé Preto no lixo.

198

Pedaço de madeira

Jogaram-me num poço e eu não sabia nadar.

Aquilo que um jogador de futebol faz

Para cabecear uma bola no terceiro andar

Eu fazia para respirar.

Os espectadores festejavam.

Não sei quantas bolas cabeceei.

Por estarem saciados

Ou para o festival não dar errado,

Puxaram-me da água.

Os risos rolaram pelo chão.

 

Depois todos foram nadar.

Do meu lado ficou apenas um pedaço de madeira,

Com o qual eu me armei

E nenhum outro menino percebeu.

Com os sentimentos que me esmagavam

Lancei o troço na cabeça de um deles.

 

Começou a corrida.

Enquanto eles saíam da água

Eu abri uns trinta metros.

Mas havia meninos maiores, mais velozes.

Então, invadi a área dos cansanções.

Na roça era comum ser sapecado por urtiga bebê.

Mas o cansanção deve ser coisa do demônio.

Não foi o bom Deus quem criou aquela planta.

Os perseguidores desistiram de mim.

Mas eu conheci o fogo do inferno.

 

Pergunto ao meu eu,

Por que fazemos com o outro

O que não gostaríamos que o outro nos fizesse?

Miro o fundo da minha alma,

O fim do horizonte,

Tudo que é e não é meu

E me perco nesse breu.

172

O Bêbado

Eu vi um bêbado ser um brinquedo

Para crianças de várias idades.

As crianças cutucavam o bêbado

Com a cumplicidade dos pais e dos demais adultos.

Os pais diziam:

– Meninos parem com isso!

Mas ficavam mordendo os lábios, 

Para não rirem na frente dos meninos.

Os travessos percebiam e o espetáculo continuava.

 

O “parem com isso” era um faz de conta,

Parecia certas lutas contra a fome, a destruição do meio ambiente...

Parecia com o papel de quem faz que não vê o rolo compressor

Que esmaga crianças, mulheres, idosos e a construção da humanidade. 

 

O bêbado era um brinquedo.

Os travessos davam petelecos nas orelhas, 

Puxavam os cabelos, chutavam as pernas

Atormentavam o bêbado,

Que em vão procurava humanidade na Humanidade:

– Vocês não estão vendo isso não!

 

O bêbado não fazia mal a ninguém.

Se segurava em uma garrafa de cachaça

E depois cantarolava meia hora e apagava.

Meia hora de “lata d'água na cabeça” e outras parecidas. 

Nenhuma música inadequada para aqueles ouvidos.

Nenhuma palavra obscena, nenhuma ameaça.

Nada, nada, nada...

Sem forças para ficar de pé,

Não correria nem de um leão faminto.

Inofensivo, indefeso, desamparado...

Não tinha ninguém por ele.

Tudo que tinha era a música e o álcool.

 

O prazer de ver o outro tropeçar, cair, meter os pés pelas mãos,

Não nos larga depois que os tropeções de um circense ou de um parente não têm mais graça.

Largamos as fraldas, a farda da alfabetização,

Os dentes de leite, as bonecas, os brinquedos

E um punhado de segredos,

Mas a diversão com o tropeção do outro não.

E o bêbado sendo levado pelo vento,

Se segurando nas paredes,

Colocando as mãos no chão, era uma diversão. 

Mas isso ainda era pouco

Para as inesgotáveis necessidades que nos consomem.

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Sonho Eletrocutado

Nunca fui um sonhador, mas sonhei ser jogador.
Na frente da minha casa ou na estrada empoeirada,
Por onde passavam mais animais que gente
E o carro que passava era o de boi,
Eu mostrava intimidade com a pelota.

Todo dia à tardinha,
Depois da escola e da labuta,
Com aquela energia que só as crianças têm,
Eu bailava com a bola até o sol ir embora.

Aos dez anos eu jogava com as crianças,
Aos doze, com os adultos;
Aos quinze...
Um raio eletrocutou o meu sonho.

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