Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

Perfil
11 555 Visualizações

O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
Ler poema completo

Poemas

5

Mata verde

Na festa de Mata Verde, fantasia e realidade se confundem.
Saci-pererê, mula sem cabeça, bicho-papão, papa-figo, lobo mau…
Vão bem de verdade. São bem de verdade.
Eles falam o que querem e falam sério.
Brincadeira é querer amadurecer na festa de Mata Verde.
Querer distinguir o que é fantasia ou realidade é loucura,
É querer sarna pra se coçar,
É querer nadar contra a corrente,
É querer demais.
Ultrapassa os limites da brincadeira,
Que de brincadeira não tem nada.
Na festa de Mata Verde,
Há vantagem em ser criança
Ou brincar de criança.
Na verdade só meia dúzia de crianças se dão bem,
Mas o que importa na Mata é viver verde.
As chaves que abrem as portas e as porteiras
Não se movem de brincadeira,
Movem-se para movimentar:
O Saci-pererê, a mula sem cabeça, o bicho-papão, o papa-figo, o lobo mau e todos que estão na festa.
Movem-se para fazer a festa de quem não está na festa.
Na Mata, matérias verdes apodrecem sem jamais amadurecer.
A festa de Mata Verde é isso.
Não é pra brincar em serviço.
A festa da Mata cultiva profundamente o verde.
O saci-pererê, a mula sem cabeça, o bicho- papão, o papa-figo, o lobo mau…
Botam as crianças pra dançar,
Tiram os pés do chão e a cabeça do lugar.
Nessa festa quem quiser enxergar, ouvir, ou sentir com os próprios sentidos
Vai dar de cara com um vespeiro enlouquecido.

126

O Portão

Dormi no relento para entrar na escola.
Não foi bem dormir,
Passei a noite em uma rede a céu aberto
Olhando pra lua, pras estrelas e para mim.
Olhava para mim e saía de mim.
Não havia, nem eu queria, um espelho para eu me ver.
Eu me via com sono e com medo de dormir.
Medo de acordar com a chuva.
Medo do sereno não me acordar.
Medo de não acordar cedo,
Quatro da manhã.
Mas quatro da manhã seria suficiente
Ou a escola já estaria cheia?
Passar aquela noite que não passava
Para não passar pelo portão da escola
Era um pesadelo a ser tatuado na minha memória.
Não aguentei ficar na rede até às quatro horas.
Corri pra escola.
Já havia fila.
Meu coração acelerou.
A minha alma desapareceu na escuridão dentro de mim.
Quando o dia clareou passei pelo portão.
Mas passo mal quando vejo alguém dizer,

Com ingenuidade ou de má fé,
Que só não passa pelo portão quem não quer.

118

Por nada

Uma das minhas travessuras de criança
Era perseguir calangos e preás.
Os dois são inofensivos.
Mas a graça ou a desgraça de ser caçador,
Ou explorador, também me atravessou.
A caça não era para tirar proveito da caça,
Era para a carcaça da alma ou para a alma da carcaça. 

Era uma espécie de caça esportiva,

Para saciar o insaciável,
Para contar o que não conta.

Era uma fome sem nome que consome os sentidos

E segue cegamente a brincadeira.

Era tudo por nada.

Perseguindo calangos e preás,
Quando eu pisava num espinho,
Ou tropeçava numa pedra

Culpava quem tentava se salvar.

Petrificava o coração,

Ficava com sangue nos olhos,

Que não demorava a sujar as mãos.

A dor da minha estupidez

Ou a estupidez da minha dor,

O calango ou o preá,

Sem dever, ia pagar.

104

O Circo

Com vocês Nadine em passos de rumba!
Anunciou o palhaço e o circo aplaudiu.
Nadine flutuava como se estivesse na lua.
Um espectador que estava nas nuvens acenou para ela.
A borboleta pousou ao alcance das mãos do desgraçado.
A atriz pegou o boné do infeliz e usou como quis.
O circo pegou fogo.
O palhaço surfava nas chamas
Acesas por Nadine
E alimentadas pelos artistas da plateia.

Ao ser visto por Nadine
O meu indicador se moveu por conta própria.
A borboleta flutuou na minha alma
E sugou todos os meus sentidos.
As chamas que iluminavam o circo baixaram 
Em uma vela na palma da minha mão. 
A minha alma não sabia aonde ir.

Por alguns segundos
Colocaram o mundo no mudo.
Nas faces havia disfarces e sorrisinhos venenosos,
Que na minha ausência virariam gargalhadas intermináveis.
Pensei em ir embora,
Mas imaginei o palhaço usando o meu nome
Para conversar com o lugar vazio.
Na plateia todos se conheciam.
Fácil, fácil, o meu nome iria parar na boca do palhaço,
Que atuaria comigo sem a minha presença.


Imaginei piadas
E uma onda de gargalhadas como uma ola nas arquibancadas.
Uma onda de gargalhadas agitando o circo
Como se fossem redemoinhos endiabrados.

A voz dos meus avós ecoou nas paredes da memória: 
Meu querido,

Se na sua presença pegam leve com você,
Na sua ausência você será o alvo preferido.

Minhas orelhas não iriam esquentar, iriam incendiar.
Essa arte sempre desfilou no circo e fora dele.


Nadine nem parecia que tinha sido convidada
E abandonada no salão.
Tirou de letra e o show continuou.
O circo sempre continua no circo e fora dele.

O circo continua com ou sem pão

O circo toma conta de tudo

E cumpre a sua missão.

114

O Cavalo do Zezé

As abelhas pegaram o cavalo do Zezé.

O cavalo corria sem parar,

O enxame não o deixava respirar.

O cavalo corria em círculo,

Preso pelas cercas intransponíveis que estavam dentro de si.

A do cercadinho era dois fios de arames velhos,

Só um pouquinho da força do cavalo

Seria suficiente para derrubá-los.

 

Quanto mais corria, mais visitava a colmeia.

Transportava, cada vez mais, mais abelhas.

Correu, correu, correu...

Tropeçou, caiu e lá ficou.

 

Não foram as abelhas que venceram o cavalo.

Se fosse um cavalo selvagem

A história seria outra.

Mas o domesticado... 

O domesticado é tudo e não é ninguém

Mais que escravo e refém.

78

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.