Manuel Santos

Manuel Santos

n. 1960 PT PT

n. 1960-06-24, Lisboa

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A forma do fim

Ganha forma a sombra do luar,
não a sombra fresca das figueiras
nas manhãs de Agosto, onde devagar
o sol troca, o louro trigo pelas eiras.

Ganha forma o desejo de vingança,
perto do fim, a crescer dentro do peito.
Penumbra de uma vida que balança
já perdida e percorrida sem proveito.

Ganha forma o ar que não respiro,
a forma da raiva que não tenho,
dos sons que do silêncio já retiro

do grito interminável que contenho.
Ganha forma a morte em sons de festa,
a correr, vermelho vivo pela testa.



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Poemas

1

A honra perdida

Já se pode ouvir no ar
o som de um lírico canto,
cheirar a cera das velas
sentir o fumo e o pranto
de toda a honra perdida.

Ver um corpo abandonado
ao sopro frio da brisa,
numa teia de momentos
perdidos logo á partida,
na fúria dos sentimentos.

A fina seda rasgada
e duas gotas de sangue
que vejo correr em fio,
da fonte suja da vida
ao leito quente e vazio.

Um corpo que se insinua
no vermelho que perdia,
entre cortinas e véus,
cores e madeiras da índia,
olhos tão negros os seus.

Um livro aberto de espanto
em frente ao altar sagrado.
Onde a pálida rosa caída
era o sinal declarado,
de toda a honra perdida.
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