Manuel Santos

Manuel Santos

n. 1960 PT PT

n. 1960-06-24, Lisboa

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A forma do fim

Ganha forma a sombra do luar,
não a sombra fresca das figueiras
nas manhãs de Agosto, onde devagar
o sol troca, o louro trigo pelas eiras.

Ganha forma o desejo de vingança,
perto do fim, a crescer dentro do peito.
Penumbra de uma vida que balança
já perdida e percorrida sem proveito.

Ganha forma o ar que não respiro,
a forma da raiva que não tenho,
dos sons que do silêncio já retiro

do grito interminável que contenho.
Ganha forma a morte em sons de festa,
a correr, vermelho vivo pela testa.



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Poemas

4

Já é madrugada

A força não é tudo o que me move,
a espalhar as cores com que te pinto.
A tela não é toda a minha insónia,
os olhos já não vêem o que sinto.

O tempo, já não corre a meu favor,
a luz vai-se apagando na memoria,
por entre cinzas, fumo e calor
o amor vai perdendo toda a gloria.

E no calor do fogo em que ardeu,
a tua imagem e a minha mão
muito se ganhou e se perdeu,

na claridade de um novo dia,
subtraindo ao amor a perfeição
que a penumbra da noite sugeria.


Manuel Santos    Abril 09







 











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A forma do fim

Ganha forma a sombra do luar,
não a sombra fresca das figueiras
nas manhãs de Agosto, onde devagar
o sol troca, o louro trigo pelas eiras.

Ganha forma o desejo de vingança,
perto do fim, a crescer dentro do peito.
Penumbra de uma vida que balança
já perdida e percorrida sem proveito.

Ganha forma o ar que não respiro,
a forma da raiva que não tenho,
dos sons que do silêncio já retiro

do grito interminável que contenho.
Ganha forma a morte em sons de festa,
a correr, vermelho vivo pela testa.



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Chuva de Verão

Do céu de Lisboa
cai a agua do teu banho matinal,
que refresca e corre as sete colinas,
até ao rio.
O sol de Lisboa
são os teus olhos fechados.
E eu, o cabelo molhado
à espera da mão.
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A honra perdida

Já se pode ouvir no ar
o som de um lírico canto,
cheirar a cera das velas
sentir o fumo e o pranto
de toda a honra perdida.

Ver um corpo abandonado
ao sopro frio da brisa,
numa teia de momentos
perdidos logo á partida,
na fúria dos sentimentos.

A fina seda rasgada
e duas gotas de sangue
que vejo correr em fio,
da fonte suja da vida
ao leito quente e vazio.

Um corpo que se insinua
no vermelho que perdia,
entre cortinas e véus,
cores e madeiras da índia,
olhos tão negros os seus.

Um livro aberto de espanto
em frente ao altar sagrado.
Onde a pálida rosa caída
era o sinal declarado,
de toda a honra perdida.
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