Manuel Santos

Manuel Santos

n. 1960 PT PT

n. 1960-06-24, Lisboa

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A forma do fim

Ganha forma a sombra do luar,
não a sombra fresca das figueiras
nas manhãs de Agosto, onde devagar
o sol troca, o louro trigo pelas eiras.

Ganha forma o desejo de vingança,
perto do fim, a crescer dentro do peito.
Penumbra de uma vida que balança
já perdida e percorrida sem proveito.

Ganha forma o ar que não respiro,
a forma da raiva que não tenho,
dos sons que do silêncio já retiro

do grito interminável que contenho.
Ganha forma a morte em sons de festa,
a correr, vermelho vivo pela testa.



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Poemas

4

Não vejo em Lisboa

Não vejo em Lisboa o que me seduz

O céu está escondido por um véu de água

Mesmo que um milagre nos devolva a luz

O que soube a mel, sabe agora a mágoa.

Foi longo o caminho, para chegar aqui

Cheio da incerteza que a ansiedade traz

E por cada passo que dou para ti

Sinto que me foges nos passos que dás

Quebrou-se o encanto, acabou o carinho

O frio do Inverno, mudou o olhar

E eu fiquei nos dias a sonhar sozinho

A olhar a lua, de noite e a rezar.

É dessa maneira que agradeço a Deus

Todos os momentos, os meus e os teus.

Manuel Santos Jan2012

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Coração de Jade

A pressa da flecha

A sair do arco

O vento a rasgar

As velas do barco

O desejo que tenho

De correr o mundo

No tempo preciso

De meio segundo

Mil milhas por hora

Ao som redutor

Das ondas na quilha

Das pás do motor

Para ver de perto

Um coração de jade

Em cada destino

Em cada cidade

Chegar e partir

Sair e voltar

O arco e a flecha

E um barco no mar…

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Outro caminho

Não tenho outro caminho

Além do teu olhar azul claro, de água e mar.

Nada mais me chama. Nada me devolve

A alma reflectida no espelho cristalino das aguas

Inesperadamente paradas.

Desisti de procurar outro caminho,

Algum atalho, ou trilho perdido nas palavras.

Não descubro outra maneira

De chegar ao teu corpo e apenas os teus olhos

Me guiam a um destino sem condição.

E é tanto o medo de me perder, de te perder

Nessa luz azul de final de verão.

661

Se tu não estás

De que me vale, o corpo trespassado acair no chão

As mãos no peito, os olhos de carvão aperder a luz.

De que me vale sentir fria a terra queme seduz

E o fio de sangue vivo a correr na mão

Se tu não estás.

De que me vale, a brisa na face, o vento

Frio das palavras, se em mim, nadasobreviveu.

Se ao cair no chão, a terra dura, é océu

Onde voo, imagino e invento

Sempre que tu não estás.

Mas tu não estás em nenhum lado.

E eu estou aqui, procuro por ti e trago,

No rosto um sorriso, sem vontade, largo

Tudo o que me desespera. Desesperado

Porque tu não estás.

m.sts (10.10.2013)

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