Manuel Santos

Manuel Santos

n. 1960 PT PT

n. 1960-06-24, Lisboa

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A forma do fim

Ganha forma a sombra do luar,
não a sombra fresca das figueiras
nas manhãs de Agosto, onde devagar
o sol troca, o louro trigo pelas eiras.

Ganha forma o desejo de vingança,
perto do fim, a crescer dentro do peito.
Penumbra de uma vida que balança
já perdida e percorrida sem proveito.

Ganha forma o ar que não respiro,
a forma da raiva que não tenho,
dos sons que do silêncio já retiro

do grito interminável que contenho.
Ganha forma a morte em sons de festa,
a correr, vermelho vivo pela testa.



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Poemas

2

Coração de Jade

A pressa da flecha

A sair do arco

O vento a rasgar

As velas do barco

O desejo que tenho

De correr o mundo

No tempo preciso

De meio segundo

Mil milhas por hora

Ao som redutor

Das ondas na quilha

Das pás do motor

Para ver de perto

Um coração de jade

Em cada destino

Em cada cidade

Chegar e partir

Sair e voltar

O arco e a flecha

E um barco no mar…

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Outro caminho

Não tenho outro caminho

Além do teu olhar azul claro, de água e mar.

Nada mais me chama. Nada me devolve

A alma reflectida no espelho cristalino das aguas

Inesperadamente paradas.

Desisti de procurar outro caminho,

Algum atalho, ou trilho perdido nas palavras.

Não descubro outra maneira

De chegar ao teu corpo e apenas os teus olhos

Me guiam a um destino sem condição.

E é tanto o medo de me perder, de te perder

Nessa luz azul de final de verão.

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