Cantigas
Por ti recito uma canção
Canto poemas
Delineio temas
Descanso olhos exauridos
Rezo uma oração
Registro novos versos
Caderno de páginas em branco
Ilustro traços
Caracteres onde encontro você
Fomos atraídos, entregues ao prazer
Agora repousamos
Adormecemos silentes
Figuramos serenos
Autora: Ive Nenflidio
Devoção
Estou acesa, clamo por ti!
Inviável mundo
Vida efêmera
Vida rasa
Corpos separados pela cólera
Estamos distantes
Intermitente privação
Distanciamento que corrói
Não fui capaz de tê-lo em meus braços
Sem seus abraços
Procuro decifrar dilemas
Abandono trincheiras
Me liberto de algemas
Autora: Ive Nenflidio (Calendas de Março)
Revolução
Turbulento celeiro que guarda as armas da revolução
daqueles homens que fogem da tirania.
És um bandoleiro, um adorável aventureiro?
A esperança está perdida?
É tarde, muitas batalhas indecorosas,
com medalhas insignificantes.
Aproxima-te da morte!
Abandona, foge!
O céu negrume anuncia a abundante tempestade,
são tempos sombrios.
Quero-te vivo, amor avassalador!
Sepulta essa luta de territórios conspiratórios,
são tempos inglórios!
Autora: Ive Nenflidio (Calendas de Março)
Por onde andas, meu amor?
Te perdi, quase o tive em meus braços!
Perco a esperança
Cadê você?
Onde está minha fé?
Também a perdi?
Agora não tenho mais nada, só dúvidas
Transformei pensamentos em fantasmas
Não creio mais na humanidade
Não conheço mais o significado de confiança
Vivo uma vida covarde, não construí nada
Sou nada sem ti
Meus desejos adormeceram num sono infinito
Não sinto mais nada
O vazio arraigado me habita
Tenho uma ferida aberta a nunca secar
Um pesadelo sem lágrimas
Meus pulmões já não trabalham
Estou sufocada, afogando na imensa tristeza
Uma busca sem fim
Por onde andas, meu amor?
Você me mostrou que é possível amar
Me emprestou a beleza
Mínimas sutilezas
Pequenos momentos
Por onde andas?
Quanta aflição! Quero te encontrar!
Quero descansar desta busca exaustiva
Não quero mais enfrentar seres bárbaros
Não existe poesia na brutalidade
Não existe poesia na perda
Na impossibilidade de tocá-lo
Troquei realidades por sonhos
E não gosto do que vivo
Uma vida plástica, artificial
Vazia de você!
Sonhei algumas noites que recebia cartas
Eram tuas as palavras. Por onde andas?
Autora: Ive Nenflidio (Traços de uma ditadura)
Tormenta
A tempestade anuncia um tempo sombrio,
tempo de perseguição,
tempo da indelicadeza,
ainda bem que tens a tua intuição, querida amada!
Quando enxergares as tropas dos homens da petulância,
dos braços da intolerância,
foge! corre!
Deixo para ti um tempo de sabores e amores,
você que passeia em meus pensamentos!
Autora: Ive Nenflidio
Tempos autoritários
Rasgo o peito já tão dilacerado,
quero arrancar essa dor.
Perversa ausência,
apaga esse tempo de aflição,
não existe compaixão nas mãos do torturador.
Estou à espreita, vigio do alto dos mirantes, busco respostas,
fico sem explicações, sem conclusões...
Você era apenas um sonhador,
buscava sua utopia nos livros de Thomas More.
Jamais encontrou!
Amado...
Não existe arrependimentos nas mãos do feroz algoz
tirano que separa meus olhos dos teus.
Será que partiu?
Será que és tu aquela estrela mais cintilante?
Autora: Ive Nenflidio
Contemplação
Velo cuidadosamente seu sono,
me distraio em pensamentos íntimos.
Reflito!
Examino detalhadamente sua alma, cada fragmento,
és indecifrável,
és vulnerável.
Deliciosa contemplação,
estudo atentamente sua anatomia,
sua face adorável;
despertas em abundante deleite,
como-te com os olhos...
Acato, me entrego!
Sou tua!
Autora: Ive Nenflidio
Confluência
Acolho o inevitável e tento não polemizar.
Rara solidão, terrível cerceamento, malsucedido retiro obrigatório,
já não me deixo abater.
Guardei sentimentos, parei de vitimizar.
Aprendi a suportar a privação; resisto, não sofro mais no exílio.
Sou como pássaros migratórios aguardando o início da viagem.
Me conduzirei até você, irei ao seu encontro,
conto os dias e as noites.
Amado...
Não se afogue no álcool, não dramatize, pare de morrer,
aceite esse momento de conflitos internos!
Chegasses sem avisar e me consumisses com sua voz, com sua coragem,
tome fôlego!
Acalma o coração!
Logo meus olhos encontrarão os seus e,
apesar das forças contrárias, logo estarei em seus braços.
Você vem me encontrar, percorrerá infinitos caminhos,
fugirás para os meus braços, te entregarei meu ombro,
te direi palavras exageradas,
terei ciúmes das minhas mãos que te tocarão e
preencherei todo o meu corpo com o seu excesso.
Autora: Ive Nenflidio
Segundas intenções
Lua, quero visitar sua outra face,
será que existe outro Jorge com seu dragão?
Quiçá conhecesse as suas crateras profundas,
seus desmedidos mistérios e,
por fim, conhecesse algo que me courace,
me guiando para um lugar alcantilado,
um refúgio inabitado,
um raro amor que me envolvesse,
amaria assistindo o infinito,
fitando estrelas ritmadas;
se esse homem forasteiro enfim surgisse e
dentro daquele vagão me provocasse,
partiríamos para uma contestável contravenção.
Autora: Ive Nenflidio
Sonhos nº 1
Que estranho devaneio,
sonhei que o Sol me assistia com um largo sorriso,
aquentava meu corpo despido e observava.
Seu esplendor me ofuscava,
Cegava;
levantando, experimentei uma terrível vertigem.
Ao lado da cama, espreito a fenda da janela,
enxergo em grande delírio plantas com folhas secas,
entoando uma triste melodia.
Sol calado e quente,
és calor que fascina,
estou arrebatada e continuo observando.
Vejo pássaros numa desalinhada coreografia,
asas escancaradas,
vejo partículas de orvalho na vidraça.
Imagino aquele homem desconhecido
que eroticamente traduz meus sonhos,
como um pesquisador de oceanos profundos.
Com seu escafandro, me escava, me decifra,
busca conhecer meus mistérios.
Autora: Ive Nenflidio