Teu nome
Se você fosse uma palavra, certamente seria a mais bela,
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou o chamasse de caminho, mas não qualquer um,
você seria aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamá-lo de mistério ou de infinito,
já que não posso imaginar sua dimensão.
Seu nome poderia ser chuva, rio
ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés
e lembraria o balanço do seu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra você.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem, esperança, memória,
sem dúvida, seu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e você teria nome e sobrenome.
Autora: Ive Nenflidio
Tormenta
A tempestade anuncia um tempo sombrio,
tempo de perseguição,
tempo da indelicadeza,
ainda bem que tens a tua intuição, querida amada!
Quando enxergares as tropas dos homens da petulância,
dos braços da intolerância,
foge! corre!
Deixo para ti um tempo de sabores e amores,
você que passeia em meus pensamentos!
Autora: Ive Nenflidio
Eu sem você
Será que nunca estarei em teus braços?
(Re)desenho novas formas de viver sem ti,
admito que estava terrivelmente equivocada.
Complicado seguir sem ouvir tua voz,
sem te perceber em meus sonhos,
sem sentir mais meu corpo incendiar.
Complicado não receber tua visita no meio da noite,
reconhecer que era tudo uma adorável ilusão.
Complicado não ter mais para quem escrever.
A vida...
idealizamos caminhos que nunca percorreremos,
abraços que nunca teremos,
olhares que nunca trocaremos,
paixões que nunca concretizaremos,
beijos que nunca receberemos.
Autora: Ive Nenflidio
Apressa-te
Procuro palavras, respostas
Mensagens nas ondas eletromagnéticas
Só encontro o silêncio
Se afasta acanhado
Te dou espaço
Quero-te inteiro
Quando desejares
Vens a mim
Desejo encoberto
Só me pertence o que abraço
E assim me guio aos seus braços
Estranho intruso de pupilas entontecidas
Não demores!
Preciso falar em seu ouvido
Direi palavras proibidas
Brincarei com os seus cinco sentidos
Te conduzirei ao Vale da Lua
Lugar de cantos e encantos
Autora: Ive Nenflidio
Sonho
Nasci numa cidade de nevoeiros,
bruma que faz vanescer estradas;
em algumas noites percebo você,
cravado nas nuvens de chão,
és rara visão.
Extraordinária ilusão,
estás perto da terra, perto do infinito,
homem estrangeiro,
como és terrivelmente cruel,
incendeia meu corpo!
Autora: Ive Nenflidio
Revolução
Turbulento celeiro que guarda as armas da revolução
daqueles homens que fogem da tirania.
És um bandoleiro, um adorável aventureiro?
A esperança está perdida?
É tarde, muitas batalhas indecorosas,
com medalhas insignificantes.
Aproxima-te da morte!
Abandona, foge!
O céu negrume anuncia a abundante tempestade,
são tempos sombrios.
Quero-te vivo, amor avassalador!
Sepulta essa luta de territórios conspiratórios,
são tempos inglórios!
Autora: Ive Nenflidio (Calendas de Março)
O Sol e a Lua
No eclipse anelar ou total,
o Sol está sempre a abraçar a Lua,
a enlaça, a envolve.
Sedutor calor,
são companheiros apartados.
Ele, o Sol, por vezes, cingi incandescente;
outras vezes, carinhosamente, meticuloso, surge anel de fogo,
resplandecente.
Sol, força de energia vital, és terra!
Lua que estabiliza a terra e movimenta oceanos, és água!
Mar profundo x força intensa
são corpos celestes apaixonados
e frequentemente se encontram para carícias.
Às vezes vaidoso,
o Sol desenha para a Lua um surpreendente pôr,
já ela se mostra vermelha, corada de vergonha
e se revela mulher, sangrenta.
Autora: Ive Nenflidio
Entressonho e fricção
Antes de você chegar me encontrava em silêncio,
entorpecida como os vulcões dormentes,
tristes e acanhados.
Chegastes lentamente,
desenhamos enredos,
teias arranjadas com sublimes intenções.
Conversamos sobre poesia e filosofia,
nos aproximamos, graciosas afinidades,
logo, sentimos a brutal dor da saudade.
Você recitou um poema,
o meu preferido,
declamou delicadamente.
Foram olhares distantes que penetraram em minha alma,
criando pequenas fogueiras que saíram das páginas do livro dos Abraços
e hoje incendeiam meu corpo.
Foram ditas palavras sigilosas, indecentes histórias;
de peito aberto te contei meus maiores segredos,
meus maiores desejos.
Você me acalmou com palavras,
me ajudou a enterrar fantasmas,
me libertar das algemas, esquecer o passado,
já não penso no estrago.
Com medo, você tentou se isolar,
talvez por temer o desconhecido
ou por não acreditar cegamente em minhas palavras.
Decidi também me afastar,
notei os riscos de algo tão raro,
tudo ficou fora de controle.
Você passou a fazer parte dos meus sonhos,
alvoradas solitárias em que percebo você,
ainda bem que tenho a lua, minha aliada!
Sou moradora das ausências,
me encontro e me perco em águas turvas,
solidão inevitável, sou viajante das utopias,
vivo perto das estrelas.
Sangro em noites de tormenta,
desafio o oceano de águas profundas,
singro, aceito as rajadas.
Em muitas noites experimento você,
coração dispara, calor toma conta,
procuro você no cômodo vazio.
Tenho um olhar de abismo
e te encontro na névoa, te procuro na imensidão,
falo contigo em pensamentos,
te chamo, espero o abraço, procuro suas mãos.
Procuro sua força!
Imagino você me prendendo em seus braços,
abraço potente, apartando meus cabelos
e submergindo seu rosto no emaranhado dos fios.
Procuro seu cheiro,
procuro sua pele,
procuro seus olhos escrupulosos,
procuro você.
Quero sua boca enérgica,
quero-te inteiro,
preciso preencher o vazio.
Sinto meu corpo tremer, enrijecer,
perco a fala, perco o chão,
aceito enlouquecer,
boca que seca.
Coração dispara, desejo em profusão,
espero seus doces lábios,
sua barba marcando meu corpo,
arranhando meus sentidos.
Um dia te chamo
e você me apresenta novos caminhos,
me mostra o acaso, outras amarrações.
E, por fim, nos entregaremos nas estradas da cantiga,
como trilhos solitários à espera da passagem dos trens!
Você?
Meu poema mais belo!
Autora: Ive Nenflidio
Contemplação
Velo cuidadosamente seu sono,
me distraio em pensamentos íntimos.
Reflito!
Examino detalhadamente sua alma, cada fragmento,
és indecifrável,
és vulnerável.
Deliciosa contemplação,
estudo atentamente sua anatomia,
sua face adorável;
despertas em abundante deleite,
como-te com os olhos...
Acato, me entrego!
Sou tua!
Autora: Ive Nenflidio
Tempos autoritários
Rasgo o peito já tão dilacerado,
quero arrancar essa dor.
Perversa ausência,
apaga esse tempo de aflição,
não existe compaixão nas mãos do torturador.
Estou à espreita, vigio do alto dos mirantes, busco respostas,
fico sem explicações, sem conclusões...
Você era apenas um sonhador,
buscava sua utopia nos livros de Thomas More.
Jamais encontrou!
Amado...
Não existe arrependimentos nas mãos do feroz algoz
tirano que separa meus olhos dos teus.
Será que partiu?
Será que és tu aquela estrela mais cintilante?
Autora: Ive Nenflidio