Teu nome
Se você fosse uma palavra, certamente seria a mais bela,
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou o chamasse de caminho, mas não qualquer um,
você seria aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamá-lo de mistério ou de infinito,
já que não posso imaginar sua dimensão.
Seu nome poderia ser chuva, rio
ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés
e lembraria o balanço do seu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra você.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem, esperança, memória,
sem dúvida, seu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e você teria nome e sobrenome.
Autora: Ive Nenflidio
Tormenta
A tempestade anuncia um tempo sombrio,
tempo de perseguição,
tempo da indelicadeza,
ainda bem que tens a tua intuição, querida amada!
Quando enxergares as tropas dos homens da petulância,
dos braços da intolerância,
foge! corre!
Deixo para ti um tempo de sabores e amores,
você que passeia em meus pensamentos!
Autora: Ive Nenflidio
Veredas
Algumas estradas, as mais belas ainda me levam até você!
Estou em seus pensamentos?
Cante-me uma prece,
crie belas melodias dedilhadas...
Estou em sua mente?
Venha me visitar, invada meus sonhos,
brinque com meus desejos...
Sente saudade?
Desenha-me uma canção,
recita-me uma sinfonia...
Sente minha falta?
Venha me ter...
Me quer? Mereça-me.
Autora: Ive Nenflidio
Segundas intenções
Lua, quero visitar sua outra face,
será que existe outro Jorge com seu dragão?
Quiçá conhecesse as suas crateras profundas,
seus desmedidos mistérios e,
por fim, conhecesse algo que me courace,
me guiando para um lugar alcantilado,
um refúgio inabitado,
um raro amor que me envolvesse,
amaria assistindo o infinito,
fitando estrelas ritmadas;
se esse homem forasteiro enfim surgisse e
dentro daquele vagão me provocasse,
partiríamos para uma contestável contravenção.
Autora: Ive Nenflidio
Vírus mortal
Ouço o silêncio daquela estrada plana,
penso em Havana,
cidade que eliminou o vírus letal,
penso nas águas que conduzem a chalana,
me deito em posição fetal,
durmo um sono merecido,
lembro do edital,
desperto fortalecida,
vamos criar um recital?
Autora: Ive Nenflidio
Eu sem você
Será que nunca estarei em teus braços?
(Re)desenho novas formas de viver sem ti,
admito que estava terrivelmente equivocada.
Complicado seguir sem ouvir tua voz,
sem te perceber em meus sonhos,
sem sentir mais meu corpo incendiar.
Complicado não receber tua visita no meio da noite,
reconhecer que era tudo uma adorável ilusão.
Complicado não ter mais para quem escrever.
A vida...
idealizamos caminhos que nunca percorreremos,
abraços que nunca teremos,
olhares que nunca trocaremos,
paixões que nunca concretizaremos,
beijos que nunca receberemos.
Autora: Ive Nenflidio
Viajar
Para viajar, basta existir.
Concordo com essa fala de Fernando Pessoa,
muitas vezes viajamos na nossa imaginação
ao lermos um bom livro, ao assistirmos a um filme,
a um espetáculo musical ou percorrendo céus e estradas;
seja na ficção ou no dia-a-dia da realidade frenética,
sempre estamos viajando.
Viver é caminhar para a maior de todas as viagens, a morte!
Autora: Ive Nenflidio
Prece
Penso nas dores do mundo
E nos algozes sem alma
Penso no Cristo torturado
No sofrimento de seres mutilados
Penso nos famintos isolados
Em campos de refugiados
Penso nas crianças com corações dilacerados
Nos homens atormentados
Penso no silêncio dos violentados
Nos seres desesperados
Penso em antigas civilizações
Nas lamentações
Em velhas reinvindicações
Penso nas mentes doentes
Nas mães impotentes
E nos heróis resistentes
Que o medo não me afaste dos meus sonhos
Que as dores não me tirem a esperança
Que a frieza dos homens não me cegue
Que a hipocrisia não me afaste do justo
Que os temores que sinto não me impeçam de ir até você
Autora: Ive Nenflidio
Somos atores
Na eterna expectativa para o início do espetáculo,
estamos apartados, concentrados, cenas complementares.
Me preparo para o grande ato,
observo as cortinas do proscênio do antigo teatro,
penso na nossa primeira troca de olhares,
idealizo belas interpretações.
Primeiro ato...
Você chega de mansinho,
extraordinária espera,
como já esteve em outros bastidores.
se aproxima calmo,
não te reconheço, face desconhecida;
observo teu corpo,
te vejo com contornos indefinidos,
visão encoberta, visão turva,
luzes apagadas.
Segundo ato...
Corações de tempos antigos,
almas atadas
finalmente se encontram,
estão unidos para dramas encenados
ao som de antigas árias,
trocam olhares silenciosos,
toques sutis,
abraços cerrados,
desejos aflorados,
súbito calor,
palavras confundidas, fictícias,
difusas, perdidas...
Finalmente te reconheço, você estava em meus pensamentos...
Guardado em instantes, eternizados.
Fim do segundo ato.
Autora: Ive Nenflidio
Tempos autoritários
Rasgo o peito já tão dilacerado,
quero arrancar essa dor.
Perversa ausência,
apaga esse tempo de aflição,
não existe compaixão nas mãos do torturador.
Estou à espreita, vigio do alto dos mirantes, busco respostas,
fico sem explicações, sem conclusões...
Você era apenas um sonhador,
buscava sua utopia nos livros de Thomas More.
Jamais encontrou!
Amado...
Não existe arrependimentos nas mãos do feroz algoz
tirano que separa meus olhos dos teus.
Será que partiu?
Será que és tu aquela estrela mais cintilante?
Autora: Ive Nenflidio