Teu nome
Se você fosse uma palavra, certamente seria a mais bela,
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou o chamasse de caminho, mas não qualquer um,
você seria aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamá-lo de mistério ou de infinito,
já que não posso imaginar sua dimensão.
Seu nome poderia ser chuva, rio
ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés
e lembraria o balanço do seu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra você.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem, esperança, memória,
sem dúvida, seu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e você teria nome e sobrenome.
Autora: Ive Nenflidio
Tormenta
A tempestade anuncia um tempo sombrio,
tempo de perseguição,
tempo da indelicadeza,
ainda bem que tens a tua intuição, querida amada!
Quando enxergares as tropas dos homens da petulância,
dos braços da intolerância,
foge! corre!
Deixo para ti um tempo de sabores e amores,
você que passeia em meus pensamentos!
Autora: Ive Nenflidio
Devoção
Estou acesa, clamo por ti!
Inviável mundo
Vida efêmera
Vida rasa
Corpos separados pela cólera
Estamos distantes
Intermitente privação
Distanciamento que corrói
Não fui capaz de tê-lo em meus braços
Sem seus abraços
Procuro decifrar dilemas
Abandono trincheiras
Me liberto de algemas
Autora: Ive Nenflidio (Calendas de Março)
Prece
Penso nas dores do mundo
E nos algozes sem alma
Penso no Cristo torturado
No sofrimento de seres mutilados
Penso nos famintos isolados
Em campos de refugiados
Penso nas crianças com corações dilacerados
Nos homens atormentados
Penso no silêncio dos violentados
Nos seres desesperados
Penso em antigas civilizações
Nas lamentações
Em velhas reinvindicações
Penso nas mentes doentes
Nas mães impotentes
E nos heróis resistentes
Que o medo não me afaste dos meus sonhos
Que as dores não me tirem a esperança
Que a frieza dos homens não me cegue
Que a hipocrisia não me afaste do justo
Que os temores que sinto não me impeçam de ir até você
Autora: Ive Nenflidio
Cantigas
Por ti recito uma canção
Canto poemas
Delineio temas
Descanso olhos exauridos
Rezo uma oração
Registro novos versos
Caderno de páginas em branco
Ilustro traços
Caracteres onde encontro você
Fomos atraídos, entregues ao prazer
Agora repousamos
Adormecemos silentes
Figuramos serenos
Autora: Ive Nenflidio
Entressonho e fricção
Antes de você chegar me encontrava em silêncio,
entorpecida como os vulcões dormentes,
tristes e acanhados.
Chegastes lentamente,
desenhamos enredos,
teias arranjadas com sublimes intenções.
Conversamos sobre poesia e filosofia,
nos aproximamos, graciosas afinidades,
logo, sentimos a brutal dor da saudade.
Você recitou um poema,
o meu preferido,
declamou delicadamente.
Foram olhares distantes que penetraram em minha alma,
criando pequenas fogueiras que saíram das páginas do livro dos Abraços
e hoje incendeiam meu corpo.
Foram ditas palavras sigilosas, indecentes histórias;
de peito aberto te contei meus maiores segredos,
meus maiores desejos.
Você me acalmou com palavras,
me ajudou a enterrar fantasmas,
me libertar das algemas, esquecer o passado,
já não penso no estrago.
Com medo, você tentou se isolar,
talvez por temer o desconhecido
ou por não acreditar cegamente em minhas palavras.
Decidi também me afastar,
notei os riscos de algo tão raro,
tudo ficou fora de controle.
Você passou a fazer parte dos meus sonhos,
alvoradas solitárias em que percebo você,
ainda bem que tenho a lua, minha aliada!
Sou moradora das ausências,
me encontro e me perco em águas turvas,
solidão inevitável, sou viajante das utopias,
vivo perto das estrelas.
Sangro em noites de tormenta,
desafio o oceano de águas profundas,
singro, aceito as rajadas.
Em muitas noites experimento você,
coração dispara, calor toma conta,
procuro você no cômodo vazio.
Tenho um olhar de abismo
e te encontro na névoa, te procuro na imensidão,
falo contigo em pensamentos,
te chamo, espero o abraço, procuro suas mãos.
Procuro sua força!
Imagino você me prendendo em seus braços,
abraço potente, apartando meus cabelos
e submergindo seu rosto no emaranhado dos fios.
Procuro seu cheiro,
procuro sua pele,
procuro seus olhos escrupulosos,
procuro você.
Quero sua boca enérgica,
quero-te inteiro,
preciso preencher o vazio.
Sinto meu corpo tremer, enrijecer,
perco a fala, perco o chão,
aceito enlouquecer,
boca que seca.
Coração dispara, desejo em profusão,
espero seus doces lábios,
sua barba marcando meu corpo,
arranhando meus sentidos.
Um dia te chamo
e você me apresenta novos caminhos,
me mostra o acaso, outras amarrações.
E, por fim, nos entregaremos nas estradas da cantiga,
como trilhos solitários à espera da passagem dos trens!
Você?
Meu poema mais belo!
Autora: Ive Nenflidio
És Rio Menino
Pensas que é mar!
Desconcertante oceano azul com correntes gélidas e silêncio arrebatador,
com águas glaucas e gosto de lágrimas insalubres,
que migrando sob distintos rumos afunda naves em grandes naufrágios, em revoltos maremotos.
O Deus Netuno mostra sua força, buscando mistérios escondidos em cavernas,
por vezes mostra-se calmo e disfarça, acalentando a velha canoa ancorada na praia,
num pacato bailado de melodia dissonante.
Atinado, insidioso, mar fatalmente traiçoeiro, organismo absoluto poderoso
com ondas ferozes, abatimento mortal, faz desaparecer ínsulas, escava rochas,
revela sua fúria e exibe o interior da íngreme falésia de taludes de tons alaranjados e cor de mel.
Amado...
Não és mar!
Não és raso e nem esse fundo arrasador!
Conheço-te!
Não és espuma, nem sal!
És rio!
És doce!
E procuras navegar novos leitos,
és água que verte,
Você...
Rio menino,
rio que transborda,
rio que contorna os obstáculos,
rio que extravasa a procura de novos canais,
rio que flui,
Água doce que preenche a cisterna,
que banha o solo,
que traz esperança,
que faz brotar o sustento,
que transborda a moringa,
És Rio doce, rio Menino!
busca a correnteza,
busca novas aventuras,
em noite banhada de luz,
seus olhos reluzem, cor de avelã.
Amado...
Você sai à procura de um lugar de cavas profundas,
lugar que encontrará o justo repouso,
rio banhando,
rio aguando,
Eu?
Sou leito árido,
Você...
Rio que mata a minha sede!
Autora: Ive Nenflidio
Viajar
Para viajar, basta existir.
Concordo com essa fala de Fernando Pessoa,
muitas vezes viajamos na nossa imaginação
ao lermos um bom livro, ao assistirmos a um filme,
a um espetáculo musical ou percorrendo céus e estradas;
seja na ficção ou no dia-a-dia da realidade frenética,
sempre estamos viajando.
Viver é caminhar para a maior de todas as viagens, a morte!
Autora: Ive Nenflidio
Desejo infinito
Saudade da estrada
Sou barco ansiando
Som das águas chegando
Promessa lenta
Tempo ingrato
Te aguardo
Sofro por não te abraçar
Sou súbita morada
Destino escasso
Vivo além do tempo
Autora: Ive Nenflidio
O Sol e a Lua
No eclipse anelar ou total,
o Sol está sempre a abraçar a Lua,
a enlaça, a envolve.
Sedutor calor,
são companheiros apartados.
Ele, o Sol, por vezes, cingi incandescente;
outras vezes, carinhosamente, meticuloso, surge anel de fogo,
resplandecente.
Sol, força de energia vital, és terra!
Lua que estabiliza a terra e movimenta oceanos, és água!
Mar profundo x força intensa
são corpos celestes apaixonados
e frequentemente se encontram para carícias.
Às vezes vaidoso,
o Sol desenha para a Lua um surpreendente pôr,
já ela se mostra vermelha, corada de vergonha
e se revela mulher, sangrenta.
Autora: Ive Nenflidio