Veredas
Algumas estradas, as mais belas ainda me levam até você!
Estou em seus pensamentos?
Cante-me uma prece,
crie belas melodias dedilhadas...
Estou em sua mente?
Venha me visitar, invada meus sonhos,
brinque com meus desejos...
Sente saudade?
Desenha-me uma canção,
recita-me uma sinfonia...
Sente minha falta?
Venha me ter...
Me quer? Mereça-me.
Autora: Ive Nenflidio
Devoção
Estou acesa, clamo por ti!
Inviável mundo
Vida efêmera
Vida rasa
Corpos separados pela cólera
Estamos distantes
Intermitente privação
Distanciamento que corrói
Não fui capaz de tê-lo em meus braços
Sem seus abraços
Procuro decifrar dilemas
Abandono trincheiras
Me liberto de algemas
Autora: Ive Nenflidio (Calendas de Março)
Não seja breve
São pequenas intenções sutilmente afloradas,
em que vivencio sensações ocultas,
onde sinto seu corpo sorrateiro junto ao meu.
Sou berço acolhedor onde dormem os grãos,
chão incinerado para a semeadura
que, como enigmas, brota o alimento.
Encontro-me perdida, presa em sonhos onde você me domina,
invade sem consentimento e
docemente embala como o avanço e recuo das águas.
É corpo ardente, corpo abrasado, rebentação.
Em meus sonhos, você se revela secretamente,
árvore da vida, jardim pecador, és fruto proibido.
Desperto e sinto você, força que permeia,
fecho os olhos, quero voltar aos sonhos onde te percebo.
Autora: Ive Nenflidio
Separação
Olho as vidraças, ninguém nas ruas, veredas desoladas,
luzes apagadas, vejo apenas o farolete que intercala cores, movimentos ritmados.
Em algumas casas solitárias, mulheres fatigadas vagueiam com suas angústias guardadas,
em outras,
amantes nuas passeiam nas noites sem lua.
Alguns homens esquivam-se, sentem-se pressionados,
são corpos enclausurados,
no mínimo dos seus poucos metros quadrados estão apartados.
E apesar de desejos aflorados, muitos corações estão dilacerados.
Autora: Ive Nenflidio
Confluência
Acolho o inevitável e tento não polemizar.
Rara solidão, terrível cerceamento, malsucedido retiro obrigatório,
já não me deixo abater.
Guardei sentimentos, parei de vitimizar.
Aprendi a suportar a privação; resisto, não sofro mais no exílio.
Sou como pássaros migratórios aguardando o início da viagem.
Me conduzirei até você, irei ao seu encontro,
conto os dias e as noites.
Amado...
Não se afogue no álcool, não dramatize, pare de morrer,
aceite esse momento de conflitos internos!
Chegasses sem avisar e me consumisses com sua voz, com sua coragem,
tome fôlego!
Acalma o coração!
Logo meus olhos encontrarão os seus e,
apesar das forças contrárias, logo estarei em seus braços.
Você vem me encontrar, percorrerá infinitos caminhos,
fugirás para os meus braços, te entregarei meu ombro,
te direi palavras exageradas,
terei ciúmes das minhas mãos que te tocarão e
preencherei todo o meu corpo com o seu excesso.
Autora: Ive Nenflidio
Alucinação
Sonho confuso:
como invenção de antigas memórias,
reparo carros enfileirados,
analiso o fluxo lento...
Apressados?
Só os corpos angustiados...
confinados em comboios.
Caminhos congestionados e desejos lépidos.
Em meio ao caos,
presencio inusitada beleza ofuscante,
contemplo um exuberante pôr-do-sol,
estaciono na estrada,
fotografo em pensamentos todas as cores,
que extravagante visão emocionada!
Vejo pássaros falantes e
me confundo com os motores silenciosos,
ouço melodias entoadas por anjos solitários,
como preces de eremitas
que, aprisionados na solidão,
contemplam o horizonte dos deuses.
Aprecio o entardecer, sigo...
não ouço buzinas, mas observo pelo espelho retrovisor
algo que ficou no passado,
vejo mãos gesticulando, corações agitados.
Entendo... Acelero!
Não desperto do breve devaneio,
permaneço presa ao mundo dos sonhos...
Autora: Ive Nenflidio
Encontro
Te espero em frente ao mar,
somos apenas eu e a lua,
estou a refletir sobre a imensidão do mundo.
Te espero!
Sou aquela de mechas douradas e costas nuas,
estou desarmada,
pele gélida, coração palpitante.
Quero tocá-lo, sentir teu pelo hirsuto de desejo,
te espero com um poema guiado pelo vento,
te espero com os lábios semicerrados,
sou silêncio, nenhum vocábulo.
Te tocarei com os olhos,
te falarei com as mãos
Examinarei cada parte,
te entregando fragmentos de todos os meus desejos.
Autora: Ive Nenflidio
Cantigas
Por ti recito uma canção
Canto poemas
Delineio temas
Descanso olhos exauridos
Rezo uma oração
Registro novos versos
Caderno de páginas em branco
Ilustro traços
Caracteres onde encontro você
Fomos atraídos, entregues ao prazer
Agora repousamos
Adormecemos silentes
Figuramos serenos
Autora: Ive Nenflidio
Prece
Penso nas dores do mundo
E nos algozes sem alma
Penso no Cristo torturado
No sofrimento de seres mutilados
Penso nos famintos isolados
Em campos de refugiados
Penso nas crianças com corações dilacerados
Nos homens atormentados
Penso no silêncio dos violentados
Nos seres desesperados
Penso em antigas civilizações
Nas lamentações
Em velhas reinvindicações
Penso nas mentes doentes
Nas mães impotentes
E nos heróis resistentes
Que o medo não me afaste dos meus sonhos
Que as dores não me tirem a esperança
Que a frieza dos homens não me cegue
Que a hipocrisia não me afaste do justo
Que os temores que sinto não me impeçam de ir até você
Autora: Ive Nenflidio
Somos atores
Na eterna expectativa para o início do espetáculo,
estamos apartados, concentrados, cenas complementares.
Me preparo para o grande ato,
observo as cortinas do proscênio do antigo teatro,
penso na nossa primeira troca de olhares,
idealizo belas interpretações.
Primeiro ato...
Você chega de mansinho,
extraordinária espera,
como já esteve em outros bastidores.
se aproxima calmo,
não te reconheço, face desconhecida;
observo teu corpo,
te vejo com contornos indefinidos,
visão encoberta, visão turva,
luzes apagadas.
Segundo ato...
Corações de tempos antigos,
almas atadas
finalmente se encontram,
estão unidos para dramas encenados
ao som de antigas árias,
trocam olhares silenciosos,
toques sutis,
abraços cerrados,
desejos aflorados,
súbito calor,
palavras confundidas, fictícias,
difusas, perdidas...
Finalmente te reconheço, você estava em meus pensamentos...
Guardado em instantes, eternizados.
Fim do segundo ato.
Autora: Ive Nenflidio