Segundas intenções
Lua, quero visitar sua outra face,
será que existe outro Jorge com seu dragão?
Quiçá conhecesse as suas crateras profundas,
seus desmedidos mistérios e,
por fim, conhecesse algo que me courace,
me guiando para um lugar alcantilado,
um refúgio inabitado,
um raro amor que me envolvesse,
amaria assistindo o infinito,
fitando estrelas ritmadas;
se esse homem forasteiro enfim surgisse e
dentro daquele vagão me provocasse,
partiríamos para uma contestável contravenção.
Autora: Ive Nenflidio
Dualidades
Sou como duas extremidades do apontado lápis que esculpe
Sou remanso das águas largas quando me olhas depois do amor
Sou calmaria nas noites sem vento quando existimos em noites de lua
Sou mar inquieto de águas espumejantes que bailam confusas, distantes de ti
Sou chuva delicada que refresca
Sou tormenta destruidora que rompe o silêncio
Sou assim!
Certa e perdida, às vezes encontrada, outras desaparecida
Por vezes, um livro aberto, outras um relicário de mistério encoberto!
Autora: Ive Nenflidio
Vírus mortal
Ouço o silêncio daquela estrada plana,
penso em Havana,
cidade que eliminou o vírus letal,
penso nas águas que conduzem a chalana,
me deito em posição fetal,
durmo um sono merecido,
lembro do edital,
desperto fortalecida,
vamos criar um recital?
Autora: Ive Nenflidio
Por onde andas, meu amor?
Te perdi, quase o tive em meus braços!
Perco a esperança
Cadê você?
Onde está minha fé?
Também a perdi?
Agora não tenho mais nada, só dúvidas
Transformei pensamentos em fantasmas
Não creio mais na humanidade
Não conheço mais o significado de confiança
Vivo uma vida covarde, não construí nada
Sou nada sem ti
Meus desejos adormeceram num sono infinito
Não sinto mais nada
O vazio arraigado me habita
Tenho uma ferida aberta a nunca secar
Um pesadelo sem lágrimas
Meus pulmões já não trabalham
Estou sufocada, afogando na imensa tristeza
Uma busca sem fim
Por onde andas, meu amor?
Você me mostrou que é possível amar
Me emprestou a beleza
Mínimas sutilezas
Pequenos momentos
Por onde andas?
Quanta aflição! Quero te encontrar!
Quero descansar desta busca exaustiva
Não quero mais enfrentar seres bárbaros
Não existe poesia na brutalidade
Não existe poesia na perda
Na impossibilidade de tocá-lo
Troquei realidades por sonhos
E não gosto do que vivo
Uma vida plástica, artificial
Vazia de você!
Sonhei algumas noites que recebia cartas
Eram tuas as palavras. Por onde andas?
Autora: Ive Nenflidio (Traços de uma ditadura)
Contemplação
Velo cuidadosamente seu sono,
me distraio em pensamentos íntimos.
Reflito!
Examino detalhadamente sua alma, cada fragmento,
és indecifrável,
és vulnerável.
Deliciosa contemplação,
estudo atentamente sua anatomia,
sua face adorável;
despertas em abundante deleite,
como-te com os olhos...
Acato, me entrego!
Sou tua!
Autora: Ive Nenflidio
Cantigas
Por ti recito uma canção
Canto poemas
Delineio temas
Descanso olhos exauridos
Rezo uma oração
Registro novos versos
Caderno de páginas em branco
Ilustro traços
Caracteres onde encontro você
Fomos atraídos, entregues ao prazer
Agora repousamos
Adormecemos silentes
Figuramos serenos
Autora: Ive Nenflidio
Apressa-te
Procuro palavras, respostas
Mensagens nas ondas eletromagnéticas
Só encontro o silêncio
Se afasta acanhado
Te dou espaço
Quero-te inteiro
Quando desejares
Vens a mim
Desejo encoberto
Só me pertence o que abraço
E assim me guio aos seus braços
Estranho intruso de pupilas entontecidas
Não demores!
Preciso falar em seu ouvido
Direi palavras proibidas
Brincarei com os seus cinco sentidos
Te conduzirei ao Vale da Lua
Lugar de cantos e encantos
Autora: Ive Nenflidio
Não seja breve
São pequenas intenções sutilmente afloradas,
em que vivencio sensações ocultas,
onde sinto seu corpo sorrateiro junto ao meu.
Sou berço acolhedor onde dormem os grãos,
chão incinerado para a semeadura
que, como enigmas, brota o alimento.
Encontro-me perdida, presa em sonhos onde você me domina,
invade sem consentimento e
docemente embala como o avanço e recuo das águas.
É corpo ardente, corpo abrasado, rebentação.
Em meus sonhos, você se revela secretamente,
árvore da vida, jardim pecador, és fruto proibido.
Desperto e sinto você, força que permeia,
fecho os olhos, quero voltar aos sonhos onde te percebo.
Autora: Ive Nenflidio
Viajar
Para viajar, basta existir.
Concordo com essa fala de Fernando Pessoa,
muitas vezes viajamos na nossa imaginação
ao lermos um bom livro, ao assistirmos a um filme,
a um espetáculo musical ou percorrendo céus e estradas;
seja na ficção ou no dia-a-dia da realidade frenética,
sempre estamos viajando.
Viver é caminhar para a maior de todas as viagens, a morte!
Autora: Ive Nenflidio
Lusco-fusco
Na busca por novos caminhos,
tento decifrar desatualizadas cartas,
primitivos manuscritos com raros caracteres,
não compreendo, são frases implícitas,
confusas visões... bifurcações...
Confesso segredos em breves distrações;
definitivo lusco-fusco,
singela luz do declínio,
doce crepúsculo,
chega sem pressa...
É um fugaz divisor das águas.
Estou inquieta, tento meditar, busco a paz,
não sinto o vento, estou ardendo,
você partiu levando um pedaço de mim,
penso em tuas mãos caminhando em meu corpo,
fotografo teu rosto para te esquecer,
procuro a melhor metáfora poética.
Autora: Ive Nenflidio