Por onde andas, meu amor?
Te perdi, quase o tive em meus braços!
Perco a esperança
Cadê você?
Onde está minha fé?
Também a perdi?
Agora não tenho mais nada, só dúvidas
Transformei pensamentos em fantasmas
Não creio mais na humanidade
Não conheço mais o significado de confiança
Vivo uma vida covarde, não construí nada
Sou nada sem ti
Meus desejos adormeceram num sono infinito
Não sinto mais nada
O vazio arraigado me habita
Tenho uma ferida aberta a nunca secar
Um pesadelo sem lágrimas
Meus pulmões já não trabalham
Estou sufocada, afogando na imensa tristeza
Uma busca sem fim
Por onde andas, meu amor?
Você me mostrou que é possível amar
Me emprestou a beleza
Mínimas sutilezas
Pequenos momentos
Por onde andas?
Quanta aflição! Quero te encontrar!
Quero descansar desta busca exaustiva
Não quero mais enfrentar seres bárbaros
Não existe poesia na brutalidade
Não existe poesia na perda
Na impossibilidade de tocá-lo
Troquei realidades por sonhos
E não gosto do que vivo
Uma vida plástica, artificial
Vazia de você!
Sonhei algumas noites que recebia cartas
Eram tuas as palavras. Por onde andas?
Autora: Ive Nenflidio (Traços de uma ditadura)
Apressa-te
Procuro palavras, respostas
Mensagens nas ondas eletromagnéticas
Só encontro o silêncio
Se afasta acanhado
Te dou espaço
Quero-te inteiro
Quando desejares
Vens a mim
Desejo encoberto
Só me pertence o que abraço
E assim me guio aos seus braços
Estranho intruso de pupilas entontecidas
Não demores!
Preciso falar em seu ouvido
Direi palavras proibidas
Brincarei com os seus cinco sentidos
Te conduzirei ao Vale da Lua
Lugar de cantos e encantos
Autora: Ive Nenflidio
Encontro
Te espero em frente ao mar,
somos apenas eu e a lua,
estou a refletir sobre a imensidão do mundo.
Te espero!
Sou aquela de mechas douradas e costas nuas,
estou desarmada,
pele gélida, coração palpitante.
Quero tocá-lo, sentir teu pelo hirsuto de desejo,
te espero com um poema guiado pelo vento,
te espero com os lábios semicerrados,
sou silêncio, nenhum vocábulo.
Te tocarei com os olhos,
te falarei com as mãos
Examinarei cada parte,
te entregando fragmentos de todos os meus desejos.
Autora: Ive Nenflidio
Lusco-fusco
Na busca por novos caminhos,
tento decifrar desatualizadas cartas,
primitivos manuscritos com raros caracteres,
não compreendo, são frases implícitas,
confusas visões... bifurcações...
Confesso segredos em breves distrações;
definitivo lusco-fusco,
singela luz do declínio,
doce crepúsculo,
chega sem pressa...
É um fugaz divisor das águas.
Estou inquieta, tento meditar, busco a paz,
não sinto o vento, estou ardendo,
você partiu levando um pedaço de mim,
penso em tuas mãos caminhando em meu corpo,
fotografo teu rosto para te esquecer,
procuro a melhor metáfora poética.
Autora: Ive Nenflidio
Contemplação
Velo cuidadosamente seu sono,
me distraio em pensamentos íntimos.
Reflito!
Examino detalhadamente sua alma, cada fragmento,
és indecifrável,
és vulnerável.
Deliciosa contemplação,
estudo atentamente sua anatomia,
sua face adorável;
despertas em abundante deleite,
como-te com os olhos...
Acato, me entrego!
Sou tua!
Autora: Ive Nenflidio
Trocas
– Mulher existente em meus pensamentos,
se neste instante eu sucumbisse,
você ainda me manteria em seus pensamentos?
Eu continuaria presente em seus sonhos?
– Sim, menino do mato,
você sobreviveria dentro de mim...
– Mulher, eu preciso conhecer novas estradas,
realizar uma grande viagem.
– Você não voltará?
Quero que você me ensine tudo,
quero aprender a observar as nuvens,
aquelas com formas de bichos e
as grandes Cumulus Nimbus.
Por que foges de mim, menino do mato?
Quero aprender contigo
a contemplar o pôr-do-sol e a compreender
todos os fenômenos naturais,
quero conhecer todas as paletas da mata,
todos os perfumes das flores.
Menino que mora dentro de mim,
Por que o cheiro da relva molhada é
diferente do perfume da terra encharcada?
– Não posso responder todas as
suas indagações, querida amiga...
há muitos lugares a serem explorados,
eu devo desbravar novos destinos,
subir a montanha,
procuro novos perfumes
com notas puras,
preciso percorrer todas as chapadas,
escalar todos os picos,
serão singelos momentos e
no alto de cumes
plantarei rosas vermelhas pra ti;
meus olhos enxergarão longe e
te sentirei junto a mim,
serei devorado por pensamentos,
terei espasmos dolorosos.
– Por que foges de mim?
Menino...
sem ti como conhecerei os perigos dos mares, rios e cachoeiras?
preciso desafiar meu corpo em longas caminhadas,
você me mostraria novas trilhas,
decifraríamos todas as cores do arco-íris,
sem pestanejar,
me olharia,
iluminaria meus questionamentos,
eu enxergaria o mundo com os seus olhos de menino.
– Mulher, se eu ficasse aqui junto a ti...
você que está presente em minhas entranhas,
com seu perfume visceral,
no mais fundo da minha busca instintiva,
sei que as coisas simplesmente
não permaneceriam iguais,
não posso ficar,
delicada mulher de largos sorrisos,
não fique triste!
não sou daqui,
sou do mato,
sou livre e estou preso,
sou como um pássaro enclausurado, não canto mais.
E esse cantador você não pode mudar!
Autora: Ive Nenflidio
Sonhos nº 1
Que estranho devaneio,
sonhei que o Sol me assistia com um largo sorriso,
aquentava meu corpo despido e observava.
Seu esplendor me ofuscava,
Cegava;
levantando, experimentei uma terrível vertigem.
Ao lado da cama, espreito a fenda da janela,
enxergo em grande delírio plantas com folhas secas,
entoando uma triste melodia.
Sol calado e quente,
és calor que fascina,
estou arrebatada e continuo observando.
Vejo pássaros numa desalinhada coreografia,
asas escancaradas,
vejo partículas de orvalho na vidraça.
Imagino aquele homem desconhecido
que eroticamente traduz meus sonhos,
como um pesquisador de oceanos profundos.
Com seu escafandro, me escava, me decifra,
busca conhecer meus mistérios.
Autora: Ive Nenflidio
Sonho
Nasci numa cidade de nevoeiros,
bruma que faz vanescer estradas;
em algumas noites percebo você,
cravado nas nuvens de chão,
és rara visão.
Extraordinária ilusão,
estás perto da terra, perto do infinito,
homem estrangeiro,
como és terrivelmente cruel,
incendeia meu corpo!
Autora: Ive Nenflidio
Dualidades
Sou como duas extremidades do apontado lápis que esculpe
Sou remanso das águas largas quando me olhas depois do amor
Sou calmaria nas noites sem vento quando existimos em noites de lua
Sou mar inquieto de águas espumejantes que bailam confusas, distantes de ti
Sou chuva delicada que refresca
Sou tormenta destruidora que rompe o silêncio
Sou assim!
Certa e perdida, às vezes encontrada, outras desaparecida
Por vezes, um livro aberto, outras um relicário de mistério encoberto!
Autora: Ive Nenflidio
Revolução
Turbulento celeiro que guarda as armas da revolução
daqueles homens que fogem da tirania.
És um bandoleiro, um adorável aventureiro?
A esperança está perdida?
É tarde, muitas batalhas indecorosas,
com medalhas insignificantes.
Aproxima-te da morte!
Abandona, foge!
O céu negrume anuncia a abundante tempestade,
são tempos sombrios.
Quero-te vivo, amor avassalador!
Sepulta essa luta de territórios conspiratórios,
são tempos inglórios!
Autora: Ive Nenflidio (Calendas de Março)