Eu sem você
Será que nunca estarei em teus braços?
(Re)desenho novas formas de viver sem ti,
admito que estava terrivelmente equivocada.
Complicado seguir sem ouvir tua voz,
sem te perceber em meus sonhos,
sem sentir mais meu corpo incendiar.
Complicado não receber tua visita no meio da noite,
reconhecer que era tudo uma adorável ilusão.
Complicado não ter mais para quem escrever.
A vida...
idealizamos caminhos que nunca percorreremos,
abraços que nunca teremos,
olhares que nunca trocaremos,
paixões que nunca concretizaremos,
beijos que nunca receberemos.
Autora: Ive Nenflidio
Somos atores
Na eterna expectativa para o início do espetáculo,
estamos apartados, concentrados, cenas complementares.
Me preparo para o grande ato,
observo as cortinas do proscênio do antigo teatro,
penso na nossa primeira troca de olhares,
idealizo belas interpretações.
Primeiro ato...
Você chega de mansinho,
extraordinária espera,
como já esteve em outros bastidores.
se aproxima calmo,
não te reconheço, face desconhecida;
observo teu corpo,
te vejo com contornos indefinidos,
visão encoberta, visão turva,
luzes apagadas.
Segundo ato...
Corações de tempos antigos,
almas atadas
finalmente se encontram,
estão unidos para dramas encenados
ao som de antigas árias,
trocam olhares silenciosos,
toques sutis,
abraços cerrados,
desejos aflorados,
súbito calor,
palavras confundidas, fictícias,
difusas, perdidas...
Finalmente te reconheço, você estava em meus pensamentos...
Guardado em instantes, eternizados.
Fim do segundo ato.
Autora: Ive Nenflidio
Separação
Olho as vidraças, ninguém nas ruas, veredas desoladas,
luzes apagadas, vejo apenas o farolete que intercala cores, movimentos ritmados.
Em algumas casas solitárias, mulheres fatigadas vagueiam com suas angústias guardadas,
em outras,
amantes nuas passeiam nas noites sem lua.
Alguns homens esquivam-se, sentem-se pressionados,
são corpos enclausurados,
no mínimo dos seus poucos metros quadrados estão apartados.
E apesar de desejos aflorados, muitos corações estão dilacerados.
Autora: Ive Nenflidio
Sonhos nº 1
Que estranho devaneio,
sonhei que o Sol me assistia com um largo sorriso,
aquentava meu corpo despido e observava.
Seu esplendor me ofuscava,
Cegava;
levantando, experimentei uma terrível vertigem.
Ao lado da cama, espreito a fenda da janela,
enxergo em grande delírio plantas com folhas secas,
entoando uma triste melodia.
Sol calado e quente,
és calor que fascina,
estou arrebatada e continuo observando.
Vejo pássaros numa desalinhada coreografia,
asas escancaradas,
vejo partículas de orvalho na vidraça.
Imagino aquele homem desconhecido
que eroticamente traduz meus sonhos,
como um pesquisador de oceanos profundos.
Com seu escafandro, me escava, me decifra,
busca conhecer meus mistérios.
Autora: Ive Nenflidio
Apressa-te
Procuro palavras, respostas
Mensagens nas ondas eletromagnéticas
Só encontro o silêncio
Se afasta acanhado
Te dou espaço
Quero-te inteiro
Quando desejares
Vens a mim
Desejo encoberto
Só me pertence o que abraço
E assim me guio aos seus braços
Estranho intruso de pupilas entontecidas
Não demores!
Preciso falar em seu ouvido
Direi palavras proibidas
Brincarei com os seus cinco sentidos
Te conduzirei ao Vale da Lua
Lugar de cantos e encantos
Autora: Ive Nenflidio
Devaneios
Distraída, pego-me pensando em ti,
amei sem que você soubesse,
sem que você percebesse.
Preciso me acostumar com a sua ausência
e buscar, na escassez de você,
respostas.
Não espero mais o beijo,
só ficaram planos e o querer.
Tento não pensar mais em ti.
Antes encontrava você dentro de mim,
agora tento eliminar as lembranças,
rasurar meus poemas, apagar seu nome.
Autora: Ive Nenflidio
Por onde andas, meu amor?
Te perdi, quase o tive em meus braços!
Perco a esperança
Cadê você?
Onde está minha fé?
Também a perdi?
Agora não tenho mais nada, só dúvidas
Transformei pensamentos em fantasmas
Não creio mais na humanidade
Não conheço mais o significado de confiança
Vivo uma vida covarde, não construí nada
Sou nada sem ti
Meus desejos adormeceram num sono infinito
Não sinto mais nada
O vazio arraigado me habita
Tenho uma ferida aberta a nunca secar
Um pesadelo sem lágrimas
Meus pulmões já não trabalham
Estou sufocada, afogando na imensa tristeza
Uma busca sem fim
Por onde andas, meu amor?
Você me mostrou que é possível amar
Me emprestou a beleza
Mínimas sutilezas
Pequenos momentos
Por onde andas?
Quanta aflição! Quero te encontrar!
Quero descansar desta busca exaustiva
Não quero mais enfrentar seres bárbaros
Não existe poesia na brutalidade
Não existe poesia na perda
Na impossibilidade de tocá-lo
Troquei realidades por sonhos
E não gosto do que vivo
Uma vida plástica, artificial
Vazia de você!
Sonhei algumas noites que recebia cartas
Eram tuas as palavras. Por onde andas?
Autora: Ive Nenflidio (Traços de uma ditadura)
Confluência
Acolho o inevitável e tento não polemizar.
Rara solidão, terrível cerceamento, malsucedido retiro obrigatório,
já não me deixo abater.
Guardei sentimentos, parei de vitimizar.
Aprendi a suportar a privação; resisto, não sofro mais no exílio.
Sou como pássaros migratórios aguardando o início da viagem.
Me conduzirei até você, irei ao seu encontro,
conto os dias e as noites.
Amado...
Não se afogue no álcool, não dramatize, pare de morrer,
aceite esse momento de conflitos internos!
Chegasses sem avisar e me consumisses com sua voz, com sua coragem,
tome fôlego!
Acalma o coração!
Logo meus olhos encontrarão os seus e,
apesar das forças contrárias, logo estarei em seus braços.
Você vem me encontrar, percorrerá infinitos caminhos,
fugirás para os meus braços, te entregarei meu ombro,
te direi palavras exageradas,
terei ciúmes das minhas mãos que te tocarão e
preencherei todo o meu corpo com o seu excesso.
Autora: Ive Nenflidio
Encontro
Te espero em frente ao mar,
somos apenas eu e a lua,
estou a refletir sobre a imensidão do mundo.
Te espero!
Sou aquela de mechas douradas e costas nuas,
estou desarmada,
pele gélida, coração palpitante.
Quero tocá-lo, sentir teu pelo hirsuto de desejo,
te espero com um poema guiado pelo vento,
te espero com os lábios semicerrados,
sou silêncio, nenhum vocábulo.
Te tocarei com os olhos,
te falarei com as mãos
Examinarei cada parte,
te entregando fragmentos de todos os meus desejos.
Autora: Ive Nenflidio
Segundas intenções
Lua, quero visitar sua outra face,
será que existe outro Jorge com seu dragão?
Quiçá conhecesse as suas crateras profundas,
seus desmedidos mistérios e,
por fim, conhecesse algo que me courace,
me guiando para um lugar alcantilado,
um refúgio inabitado,
um raro amor que me envolvesse,
amaria assistindo o infinito,
fitando estrelas ritmadas;
se esse homem forasteiro enfim surgisse e
dentro daquele vagão me provocasse,
partiríamos para uma contestável contravenção.
Autora: Ive Nenflidio