manuelluiz

manuelluiz

Editor

n. 0000-00-00, Lisboa

Perfil
6 685 Visualizações

Teu nome


Se você fosse uma palavra, certamente seria a mais bela,

talvez eu te chamasse de adorável,

ser encantado que desorienta minhas razões. 

Ou o chamasse de caminho, mas não qualquer um,

você seria aquele com harmonioso cenário,

ainda poderia chamá-lo de mistério ou de infinito,

já que não posso imaginar sua dimensão.

Seu nome poderia ser chuva, rio

ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,

também te chamaria de marés

e lembraria o balanço do seu corpo sobre o meu.

Então começo a divagar por pensamentos e me vem a saudade,

palavra bonita que também me lembra você.
 
Recordo tantas outras belas palavras:

coragem, esperança, memória,

sem dúvida, seu nome seria o mais sublime de todos.

Mas nome bonito mesmo é liberdade

e você teria nome e sobrenome.

 
Autora: Ive Nenflidio
Ler poema completo

Poemas

34

Sonhos nº 1

Que estranho devaneio,

sonhei que o Sol me assistia com um largo sorriso,

aquentava meu corpo despido e observava.

Seu esplendor me ofuscava,

Cegava;

levantando, experimentei uma terrível vertigem.

Ao lado da cama, espreito a fenda da janela,

enxergo em grande delírio plantas com folhas secas,

entoando uma triste melodia.

Sol calado e quente,

és calor que fascina,

estou arrebatada e continuo observando.

Vejo pássaros numa desalinhada coreografia,

asas escancaradas,

vejo partículas de orvalho na vidraça.

Imagino aquele homem desconhecido

que eroticamente traduz meus sonhos,

como um pesquisador de oceanos profundos.

Com seu escafandro, me escava, me decifra,

busca conhecer meus mistérios.

Autora: Ive Nenflidio
197

Desejo infinito


Saudade da estrada

Sou barco ansiando

Som das águas chegando

Promessa lenta

Tempo ingrato

Te aguardo

Sofro por não te abraçar

Sou súbita morada

Destino escasso

Vivo além do tempo

 
Autora: Ive Nenflidio

231

Devaneios

Distraída, pego-me pensando em ti,

amei sem que você soubesse,

sem que você percebesse.

Preciso me acostumar com a sua ausência

e buscar, na escassez de você,

respostas.

​Não espero mais o beijo,

só ficaram planos e o querer.

Tento não pensar mais em ti.

​Antes encontrava você dentro de mim,

agora tento eliminar as lembranças,

rasurar meus poemas, apagar seu nome.

Autora: Ive Nenflidio

231

Tempos autoritários


Rasgo o peito já tão dilacerado,

quero arrancar essa dor.

Perversa ausência,

apaga esse tempo de aflição,

não existe compaixão nas mãos do torturador. 

Estou à espreita, vigio do alto dos mirantes, busco respostas,

fico sem explicações, sem conclusões...

Você era apenas um sonhador,

buscava sua utopia nos livros de Thomas More.

Jamais encontrou!

Amado...

Não existe arrependimentos nas mãos do feroz algoz

tirano que separa meus olhos dos teus.

Será que partiu?

Será que és tu aquela estrela mais cintilante?

Autora: Ive Nenflidio
168

Entressonho e fricção

Antes de você chegar me encontrava em silêncio,

entorpecida como os vulcões dormentes,

tristes e acanhados.

 Chegastes lentamente,

desenhamos enredos,

teias arranjadas com sublimes intenções.

Conversamos sobre poesia e filosofia,

nos aproximamos, graciosas afinidades,

logo, sentimos a brutal dor da saudade.

Você recitou um poema,

o meu preferido,

declamou delicadamente.

Foram olhares distantes que penetraram em minha alma,

criando pequenas fogueiras que saíram das páginas do livro dos Abraços

e hoje incendeiam meu corpo.

Foram ditas palavras sigilosas, indecentes histórias;

de peito aberto te contei meus maiores segredos,

meus maiores desejos.

Você me acalmou com palavras,

me ajudou a enterrar fantasmas,

me libertar das algemas, esquecer o passado,

já não penso no estrago.

Com medo, você tentou se isolar,

talvez por temer o desconhecido

ou por não acreditar cegamente em minhas palavras.

Decidi também me afastar,

notei os riscos de algo tão raro,

tudo ficou fora de controle.

Você passou a fazer parte dos meus sonhos,

alvoradas solitárias em que percebo você,

ainda bem que tenho a lua, minha aliada!

Sou moradora das ausências,

me encontro e me perco em águas turvas,

solidão inevitável, sou viajante das utopias,

vivo perto das estrelas.

Sangro em noites de tormenta,

desafio o oceano de águas profundas,

singro, aceito as rajadas.

Em muitas noites experimento você,

coração dispara, calor toma conta,

procuro você no cômodo vazio.

Tenho um olhar de abismo

e te encontro na névoa, te procuro na imensidão,

falo contigo em pensamentos,

te chamo, espero o abraço, procuro suas mãos.

Procuro sua força!

Imagino você me prendendo em seus braços,

abraço potente, apartando meus cabelos

e submergindo seu rosto no emaranhado dos fios.

Procuro seu cheiro,

procuro sua pele,

procuro seus olhos escrupulosos,

procuro você.

Quero sua boca enérgica,

quero-te inteiro,

preciso preencher o vazio.

Sinto meu corpo tremer, enrijecer,

perco a fala, perco o chão,

aceito enlouquecer,

boca que seca.

Coração dispara, desejo em profusão,

espero seus doces lábios,

sua barba marcando meu corpo,

arranhando meus sentidos.

Um dia te chamo

e você me apresenta novos caminhos,

me mostra o acaso, outras amarrações.

E, por fim, nos entregaremos nas estradas da cantiga,

como trilhos solitários à espera da passagem dos trens!

Você?

Meu poema mais belo!


Autora: Ive Nenflidio
221

Revolução


Turbulento celeiro que guarda as armas da revolução

daqueles homens que fogem da tirania.

És um bandoleiro, um adorável aventureiro?

A esperança está perdida?

É tarde, muitas batalhas indecorosas,

com medalhas insignificantes.

Aproxima-te da morte!

Abandona, foge!

 
O céu negrume anuncia a abundante tempestade,

são tempos sombrios.

Quero-te vivo, amor avassalador!

Sepulta essa luta de territórios conspiratórios,

são tempos inglórios!

 
Autora: Ive Nenflidio (Calendas de Março)

148

Somos atores


Na eterna expectativa para o início do espetáculo,

estamos apartados, concentrados, cenas complementares.

Me preparo para o grande ato,

observo as cortinas do proscênio do antigo teatro,

penso na nossa primeira troca de olhares,

idealizo belas interpretações.

Primeiro ato...

Você chega de mansinho,

extraordinária espera,

como já esteve em outros bastidores.

se aproxima calmo,

não te reconheço, face desconhecida;

observo teu corpo,

te vejo com contornos indefinidos,

visão encoberta, visão turva,

luzes apagadas.

Segundo ato...

Corações de tempos antigos,

almas atadas

finalmente se encontram,

estão unidos para dramas encenados

ao som de antigas árias,

trocam olhares silenciosos,

toques sutis,

abraços cerrados,

desejos aflorados,

súbito calor,

palavras confundidas, fictícias,

difusas, perdidas...

Finalmente te reconheço, você estava em meus pensamentos...

Guardado em instantes, eternizados.

Fim do segundo ato.

 
Autora: Ive Nenflidio

153

Alucinação

Sonho confuso:

como invenção de antigas memórias,

reparo carros enfileirados, 

analiso o fluxo lento...

Apressados?

Só os corpos angustiados...

confinados em comboios.

Caminhos congestionados e desejos lépidos.

Em meio ao caos,

presencio inusitada beleza ofuscante,

contemplo um exuberante pôr-do-sol,

estaciono na estrada,

fotografo em pensamentos todas as cores,

que extravagante visão emocionada!

Vejo pássaros falantes e

me confundo com os motores silenciosos,

ouço melodias entoadas por anjos solitários,

como preces de eremitas

que, aprisionados na solidão,

contemplam o horizonte dos deuses. 

Aprecio o entardecer, sigo...

não ouço buzinas, mas observo pelo espelho retrovisor

algo que ficou no passado,

vejo mãos gesticulando, corações agitados.

Entendo... Acelero!

Não desperto do breve devaneio,

permaneço presa ao mundo dos sonhos...

Autora: Ive Nenflidio
211

Encontro

Te espero em frente ao mar,

somos apenas eu e a lua,

estou a refletir sobre a imensidão do mundo.

Te espero!

Sou aquela de mechas douradas e costas nuas,

estou desarmada,

pele gélida, coração palpitante. 

Quero tocá-lo, sentir teu pelo hirsuto de desejo,

te espero com um poema guiado pelo vento,

te espero com os lábios semicerrados,

sou silêncio, nenhum vocábulo.

Te tocarei com os olhos,

te falarei com as mãos

Examinarei cada parte,

te entregando fragmentos de todos os meus desejos.

Autora: Ive Nenflidio

232

Separação


Olho as vidraças, ninguém nas ruas, veredas desoladas,

luzes apagadas, vejo apenas o farolete que intercala cores, movimentos ritmados.

Em algumas casas solitárias, mulheres fatigadas vagueiam com suas angústias guardadas,

em outras,

amantes nuas passeiam nas noites sem lua.

Alguns homens esquivam-se, sentem-se pressionados,

são corpos enclausurados,

no mínimo dos seus poucos metros quadrados estão apartados.

E apesar de desejos aflorados, muitos corações estão dilacerados.


Autora: Ive Nenflidio
202

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
joaoeuzebio

LINDO POEMA SÃOPALAVRAS ENCANTADAS QUE NOS FAZEM VIAJAR