Sonhos nº 1
Que estranho devaneio,
sonhei que o Sol me assistia com um largo sorriso,
aquentava meu corpo despido e observava.
Seu esplendor me ofuscava,
Cegava;
levantando, experimentei uma terrível vertigem.
Ao lado da cama, espreito a fenda da janela,
enxergo em grande delírio plantas com folhas secas,
entoando uma triste melodia.
Sol calado e quente,
és calor que fascina,
estou arrebatada e continuo observando.
Vejo pássaros numa desalinhada coreografia,
asas escancaradas,
vejo partículas de orvalho na vidraça.
Imagino aquele homem desconhecido
que eroticamente traduz meus sonhos,
como um pesquisador de oceanos profundos.
Com seu escafandro, me escava, me decifra,
busca conhecer meus mistérios.
Autora: Ive Nenflidio
Desejo infinito
Saudade da estrada
Sou barco ansiando
Som das águas chegando
Promessa lenta
Tempo ingrato
Te aguardo
Sofro por não te abraçar
Sou súbita morada
Destino escasso
Vivo além do tempo
Autora: Ive Nenflidio
Devaneios
Distraída, pego-me pensando em ti,
amei sem que você soubesse,
sem que você percebesse.
Preciso me acostumar com a sua ausência
e buscar, na escassez de você,
respostas.
Não espero mais o beijo,
só ficaram planos e o querer.
Tento não pensar mais em ti.
Antes encontrava você dentro de mim,
agora tento eliminar as lembranças,
rasurar meus poemas, apagar seu nome.
Autora: Ive Nenflidio
Tempos autoritários
Rasgo o peito já tão dilacerado,
quero arrancar essa dor.
Perversa ausência,
apaga esse tempo de aflição,
não existe compaixão nas mãos do torturador.
Estou à espreita, vigio do alto dos mirantes, busco respostas,
fico sem explicações, sem conclusões...
Você era apenas um sonhador,
buscava sua utopia nos livros de Thomas More.
Jamais encontrou!
Amado...
Não existe arrependimentos nas mãos do feroz algoz
tirano que separa meus olhos dos teus.
Será que partiu?
Será que és tu aquela estrela mais cintilante?
Autora: Ive Nenflidio
Entressonho e fricção
Antes de você chegar me encontrava em silêncio,
entorpecida como os vulcões dormentes,
tristes e acanhados.
Chegastes lentamente,
desenhamos enredos,
teias arranjadas com sublimes intenções.
Conversamos sobre poesia e filosofia,
nos aproximamos, graciosas afinidades,
logo, sentimos a brutal dor da saudade.
Você recitou um poema,
o meu preferido,
declamou delicadamente.
Foram olhares distantes que penetraram em minha alma,
criando pequenas fogueiras que saíram das páginas do livro dos Abraços
e hoje incendeiam meu corpo.
Foram ditas palavras sigilosas, indecentes histórias;
de peito aberto te contei meus maiores segredos,
meus maiores desejos.
Você me acalmou com palavras,
me ajudou a enterrar fantasmas,
me libertar das algemas, esquecer o passado,
já não penso no estrago.
Com medo, você tentou se isolar,
talvez por temer o desconhecido
ou por não acreditar cegamente em minhas palavras.
Decidi também me afastar,
notei os riscos de algo tão raro,
tudo ficou fora de controle.
Você passou a fazer parte dos meus sonhos,
alvoradas solitárias em que percebo você,
ainda bem que tenho a lua, minha aliada!
Sou moradora das ausências,
me encontro e me perco em águas turvas,
solidão inevitável, sou viajante das utopias,
vivo perto das estrelas.
Sangro em noites de tormenta,
desafio o oceano de águas profundas,
singro, aceito as rajadas.
Em muitas noites experimento você,
coração dispara, calor toma conta,
procuro você no cômodo vazio.
Tenho um olhar de abismo
e te encontro na névoa, te procuro na imensidão,
falo contigo em pensamentos,
te chamo, espero o abraço, procuro suas mãos.
Procuro sua força!
Imagino você me prendendo em seus braços,
abraço potente, apartando meus cabelos
e submergindo seu rosto no emaranhado dos fios.
Procuro seu cheiro,
procuro sua pele,
procuro seus olhos escrupulosos,
procuro você.
Quero sua boca enérgica,
quero-te inteiro,
preciso preencher o vazio.
Sinto meu corpo tremer, enrijecer,
perco a fala, perco o chão,
aceito enlouquecer,
boca que seca.
Coração dispara, desejo em profusão,
espero seus doces lábios,
sua barba marcando meu corpo,
arranhando meus sentidos.
Um dia te chamo
e você me apresenta novos caminhos,
me mostra o acaso, outras amarrações.
E, por fim, nos entregaremos nas estradas da cantiga,
como trilhos solitários à espera da passagem dos trens!
Você?
Meu poema mais belo!
Autora: Ive Nenflidio
Revolução
Turbulento celeiro que guarda as armas da revolução
daqueles homens que fogem da tirania.
És um bandoleiro, um adorável aventureiro?
A esperança está perdida?
É tarde, muitas batalhas indecorosas,
com medalhas insignificantes.
Aproxima-te da morte!
Abandona, foge!
O céu negrume anuncia a abundante tempestade,
são tempos sombrios.
Quero-te vivo, amor avassalador!
Sepulta essa luta de territórios conspiratórios,
são tempos inglórios!
Autora: Ive Nenflidio (Calendas de Março)
Somos atores
Na eterna expectativa para o início do espetáculo,
estamos apartados, concentrados, cenas complementares.
Me preparo para o grande ato,
observo as cortinas do proscênio do antigo teatro,
penso na nossa primeira troca de olhares,
idealizo belas interpretações.
Primeiro ato...
Você chega de mansinho,
extraordinária espera,
como já esteve em outros bastidores.
se aproxima calmo,
não te reconheço, face desconhecida;
observo teu corpo,
te vejo com contornos indefinidos,
visão encoberta, visão turva,
luzes apagadas.
Segundo ato...
Corações de tempos antigos,
almas atadas
finalmente se encontram,
estão unidos para dramas encenados
ao som de antigas árias,
trocam olhares silenciosos,
toques sutis,
abraços cerrados,
desejos aflorados,
súbito calor,
palavras confundidas, fictícias,
difusas, perdidas...
Finalmente te reconheço, você estava em meus pensamentos...
Guardado em instantes, eternizados.
Fim do segundo ato.
Autora: Ive Nenflidio
Alucinação
Sonho confuso:
como invenção de antigas memórias,
reparo carros enfileirados,
analiso o fluxo lento...
Apressados?
Só os corpos angustiados...
confinados em comboios.
Caminhos congestionados e desejos lépidos.
Em meio ao caos,
presencio inusitada beleza ofuscante,
contemplo um exuberante pôr-do-sol,
estaciono na estrada,
fotografo em pensamentos todas as cores,
que extravagante visão emocionada!
Vejo pássaros falantes e
me confundo com os motores silenciosos,
ouço melodias entoadas por anjos solitários,
como preces de eremitas
que, aprisionados na solidão,
contemplam o horizonte dos deuses.
Aprecio o entardecer, sigo...
não ouço buzinas, mas observo pelo espelho retrovisor
algo que ficou no passado,
vejo mãos gesticulando, corações agitados.
Entendo... Acelero!
Não desperto do breve devaneio,
permaneço presa ao mundo dos sonhos...
Autora: Ive Nenflidio
Encontro
Te espero em frente ao mar,
somos apenas eu e a lua,
estou a refletir sobre a imensidão do mundo.
Te espero!
Sou aquela de mechas douradas e costas nuas,
estou desarmada,
pele gélida, coração palpitante.
Quero tocá-lo, sentir teu pelo hirsuto de desejo,
te espero com um poema guiado pelo vento,
te espero com os lábios semicerrados,
sou silêncio, nenhum vocábulo.
Te tocarei com os olhos,
te falarei com as mãos
Examinarei cada parte,
te entregando fragmentos de todos os meus desejos.
Autora: Ive Nenflidio
Separação
Olho as vidraças, ninguém nas ruas, veredas desoladas,
luzes apagadas, vejo apenas o farolete que intercala cores, movimentos ritmados.
Em algumas casas solitárias, mulheres fatigadas vagueiam com suas angústias guardadas,
em outras,
amantes nuas passeiam nas noites sem lua.
Alguns homens esquivam-se, sentem-se pressionados,
são corpos enclausurados,
no mínimo dos seus poucos metros quadrados estão apartados.
E apesar de desejos aflorados, muitos corações estão dilacerados.
Autora: Ive Nenflidio