Trocas
– Mulher existente em meus pensamentos,
se neste instante eu sucumbisse,
você ainda me manteria em seus pensamentos?
Eu continuaria presente em seus sonhos?
– Sim, menino do mato,
você sobreviveria dentro de mim...
– Mulher, eu preciso conhecer novas estradas,
realizar uma grande viagem.
– Você não voltará?
Quero que você me ensine tudo,
quero aprender a observar as nuvens,
aquelas com formas de bichos e
as grandes Cumulus Nimbus.
Por que foges de mim, menino do mato?
Quero aprender contigo
a contemplar o pôr-do-sol e a compreender
todos os fenômenos naturais,
quero conhecer todas as paletas da mata,
todos os perfumes das flores.
Menino que mora dentro de mim,
Por que o cheiro da relva molhada é
diferente do perfume da terra encharcada?
– Não posso responder todas as
suas indagações, querida amiga...
há muitos lugares a serem explorados,
eu devo desbravar novos destinos,
subir a montanha,
procuro novos perfumes
com notas puras,
preciso percorrer todas as chapadas,
escalar todos os picos,
serão singelos momentos e
no alto de cumes
plantarei rosas vermelhas pra ti;
meus olhos enxergarão longe e
te sentirei junto a mim,
serei devorado por pensamentos,
terei espasmos dolorosos.
– Por que foges de mim?
Menino...
sem ti como conhecerei os perigos dos mares, rios e cachoeiras?
preciso desafiar meu corpo em longas caminhadas,
você me mostraria novas trilhas,
decifraríamos todas as cores do arco-íris,
sem pestanejar,
me olharia,
iluminaria meus questionamentos,
eu enxergaria o mundo com os seus olhos de menino.
– Mulher, se eu ficasse aqui junto a ti...
você que está presente em minhas entranhas,
com seu perfume visceral,
no mais fundo da minha busca instintiva,
sei que as coisas simplesmente
não permaneceriam iguais,
não posso ficar,
delicada mulher de largos sorrisos,
não fique triste!
não sou daqui,
sou do mato,
sou livre e estou preso,
sou como um pássaro enclausurado, não canto mais.
E esse cantador você não pode mudar!
Autora: Ive Nenflidio
Viajar
Para viajar, basta existir.
Concordo com essa fala de Fernando Pessoa,
muitas vezes viajamos na nossa imaginação
ao lermos um bom livro, ao assistirmos a um filme,
a um espetáculo musical ou percorrendo céus e estradas;
seja na ficção ou no dia-a-dia da realidade frenética,
sempre estamos viajando.
Viver é caminhar para a maior de todas as viagens, a morte!
Autora: Ive Nenflidio
Devaneios
Distraída, pego-me pensando em ti,
amei sem que você soubesse,
sem que você percebesse.
Preciso me acostumar com a sua ausência
e buscar, na escassez de você,
respostas.
Não espero mais o beijo,
só ficaram planos e o querer.
Tento não pensar mais em ti.
Antes encontrava você dentro de mim,
agora tento eliminar as lembranças,
rasurar meus poemas, apagar seu nome.
Autora: Ive Nenflidio
Desejo infinito
Saudade da estrada
Sou barco ansiando
Som das águas chegando
Promessa lenta
Tempo ingrato
Te aguardo
Sofro por não te abraçar
Sou súbita morada
Destino escasso
Vivo além do tempo
Autora: Ive Nenflidio
Paixões impossíveis
No mais violento do meu martírio,
deixo-te ir,
amor improvável,
amo-te livre!
Voa para me esquecer
e se sentir saudades;
voa para voltar,
volte para me amar.
No mais íntimo da minha volúpia,
chegue sem pressa!
Autora: Ive Nenflidio
És Rio Menino
Pensas que é mar!
Desconcertante oceano azul com correntes gélidas e silêncio arrebatador,
com águas glaucas e gosto de lágrimas insalubres,
que migrando sob distintos rumos afunda naves em grandes naufrágios, em revoltos maremotos.
O Deus Netuno mostra sua força, buscando mistérios escondidos em cavernas,
por vezes mostra-se calmo e disfarça, acalentando a velha canoa ancorada na praia,
num pacato bailado de melodia dissonante.
Atinado, insidioso, mar fatalmente traiçoeiro, organismo absoluto poderoso
com ondas ferozes, abatimento mortal, faz desaparecer ínsulas, escava rochas,
revela sua fúria e exibe o interior da íngreme falésia de taludes de tons alaranjados e cor de mel.
Amado...
Não és mar!
Não és raso e nem esse fundo arrasador!
Conheço-te!
Não és espuma, nem sal!
És rio!
És doce!
E procuras navegar novos leitos,
és água que verte,
Você...
Rio menino,
rio que transborda,
rio que contorna os obstáculos,
rio que extravasa a procura de novos canais,
rio que flui,
Água doce que preenche a cisterna,
que banha o solo,
que traz esperança,
que faz brotar o sustento,
que transborda a moringa,
És Rio doce, rio Menino!
busca a correnteza,
busca novas aventuras,
em noite banhada de luz,
seus olhos reluzem, cor de avelã.
Amado...
Você sai à procura de um lugar de cavas profundas,
lugar que encontrará o justo repouso,
rio banhando,
rio aguando,
Eu?
Sou leito árido,
Você...
Rio que mata a minha sede!
Autora: Ive Nenflidio
Segundas intenções
Lua, quero visitar sua outra face,
será que existe outro Jorge com seu dragão?
Quiçá conhecesse as suas crateras profundas,
seus desmedidos mistérios e,
por fim, conhecesse algo que me courace,
me guiando para um lugar alcantilado,
um refúgio inabitado,
um raro amor que me envolvesse,
amaria assistindo o infinito,
fitando estrelas ritmadas;
se esse homem forasteiro enfim surgisse e
dentro daquele vagão me provocasse,
partiríamos para uma contestável contravenção.
Autora: Ive Nenflidio
Por onde andas, meu amor?
Te perdi, quase o tive em meus braços!
Perco a esperança
Cadê você?
Onde está minha fé?
Também a perdi?
Agora não tenho mais nada, só dúvidas
Transformei pensamentos em fantasmas
Não creio mais na humanidade
Não conheço mais o significado de confiança
Vivo uma vida covarde, não construí nada
Sou nada sem ti
Meus desejos adormeceram num sono infinito
Não sinto mais nada
O vazio arraigado me habita
Tenho uma ferida aberta a nunca secar
Um pesadelo sem lágrimas
Meus pulmões já não trabalham
Estou sufocada, afogando na imensa tristeza
Uma busca sem fim
Por onde andas, meu amor?
Você me mostrou que é possível amar
Me emprestou a beleza
Mínimas sutilezas
Pequenos momentos
Por onde andas?
Quanta aflição! Quero te encontrar!
Quero descansar desta busca exaustiva
Não quero mais enfrentar seres bárbaros
Não existe poesia na brutalidade
Não existe poesia na perda
Na impossibilidade de tocá-lo
Troquei realidades por sonhos
E não gosto do que vivo
Uma vida plástica, artificial
Vazia de você!
Sonhei algumas noites que recebia cartas
Eram tuas as palavras. Por onde andas?
Autora: Ive Nenflidio (Traços de uma ditadura)
Lusco-fusco
Na busca por novos caminhos,
tento decifrar desatualizadas cartas,
primitivos manuscritos com raros caracteres,
não compreendo, são frases implícitas,
confusas visões... bifurcações...
Confesso segredos em breves distrações;
definitivo lusco-fusco,
singela luz do declínio,
doce crepúsculo,
chega sem pressa...
É um fugaz divisor das águas.
Estou inquieta, tento meditar, busco a paz,
não sinto o vento, estou ardendo,
você partiu levando um pedaço de mim,
penso em tuas mãos caminhando em meu corpo,
fotografo teu rosto para te esquecer,
procuro a melhor metáfora poética.
Autora: Ive Nenflidio
Dualidades
Sou como duas extremidades do apontado lápis que esculpe
Sou remanso das águas largas quando me olhas depois do amor
Sou calmaria nas noites sem vento quando existimos em noites de lua
Sou mar inquieto de águas espumejantes que bailam confusas, distantes de ti
Sou chuva delicada que refresca
Sou tormenta destruidora que rompe o silêncio
Sou assim!
Certa e perdida, às vezes encontrada, outras desaparecida
Por vezes, um livro aberto, outras um relicário de mistério encoberto!
Autora: Ive Nenflidio