Cantorias
Quando te encontrei,
logo te reconheci,
amigo de vidas passadas,
temos uma potente conexão,
manifestada em súbito entusiasmo
de tempos antigos envoltos em mistérios;
és cantador de histórias,
me contava seus amores e
falava em versos, poemas que não compreendi,
frases implícitas que jamais traduzi,
deduzi.
Provoquei você, tempo e espaço,
e aos poucos você decifrou meus sentimentos,
leu os traçados da minha mão,
leu a minha mente, pensamentos íntimos.
Alma batida, em sonhos, assisto aos vestígios de tempos distantes,
sem pactos ou promessas, apenas falas impressas.
Você tomou para ti o meu coração, amor impossível!
Não sabia que seria tão intenso, amor aniquilador!
Você perturbou meu sono, se encantou com os meus poemas, soube como me arrebatar, doces palavras, olhares remotos.
No nosso previsível recanto esquecido dos sonhos,
finalmente te encontro.
É um lugar inatingível onde brinca com minhas urgências,
Invadindo o meu corpo, me tomando para ti,
e nessas noites refuto, refuso, te evito,
desisto, me entrego!
Autora: Ive Nenflidio
Vírus mortal
Ouço o silêncio daquela estrada plana,
penso em Havana,
cidade que eliminou o vírus letal,
penso nas águas que conduzem a chalana,
me deito em posição fetal,
durmo um sono merecido,
lembro do edital,
desperto fortalecida,
vamos criar um recital?
Autora: Ive Nenflidio
Sonhos nº 1
Que estranho devaneio,
sonhei que o Sol me assistia com um largo sorriso,
aquentava meu corpo despido e observava.
Seu esplendor me ofuscava,
Cegava;
levantando, experimentei uma terrível vertigem.
Ao lado da cama, espreito a fenda da janela,
enxergo em grande delírio plantas com folhas secas,
entoando uma triste melodia.
Sol calado e quente,
és calor que fascina,
estou arrebatada e continuo observando.
Vejo pássaros numa desalinhada coreografia,
asas escancaradas,
vejo partículas de orvalho na vidraça.
Imagino aquele homem desconhecido
que eroticamente traduz meus sonhos,
como um pesquisador de oceanos profundos.
Com seu escafandro, me escava, me decifra,
busca conhecer meus mistérios.
Autora: Ive Nenflidio
Abortando voo
Dizia Fernando Sabino, os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. Eu não finjo que não tenho, ao contrário, admito que tenho pavor, mas como é necessário voar, tento não pensar ou focar na ação, simplesmente voo.
Meu medo tem uma origem, numa decolagem. A aeronave prestes a subir abortou, foram alguns segundos de frenagem com a pista molhada, os ruídos eram intensos e os passageiros tiveram seus corpos projetados violentamente.
O mais assustador não foi o ato de frear de forma súbita ou os gritos ou, ainda, os rostos assustados da tripulação, o mais perturbador foi saber que dentro dos aviões são transportados passageiros e que alguns sinônimos da palavra são: breve, fugaz, efêmero, finito.
Autora: Ive Nenflidio