Paixões impossíveis
No mais violento do meu martírio,
deixo-te ir,
amor improvável,
amo-te livre!
Voa para me esquecer
e se sentir saudades;
voa para voltar,
volte para me amar.
No mais íntimo da minha volúpia,
chegue sem pressa!
Autora: Ive Nenflidio
Cantorias
Quando te encontrei,
logo te reconheci,
amigo de vidas passadas,
temos uma potente conexão,
manifestada em súbito entusiasmo
de tempos antigos envoltos em mistérios;
és cantador de histórias,
me contava seus amores e
falava em versos, poemas que não compreendi,
frases implícitas que jamais traduzi,
deduzi.
Provoquei você, tempo e espaço,
e aos poucos você decifrou meus sentimentos,
leu os traçados da minha mão,
leu a minha mente, pensamentos íntimos.
Alma batida, em sonhos, assisto aos vestígios de tempos distantes,
sem pactos ou promessas, apenas falas impressas.
Você tomou para ti o meu coração, amor impossível!
Não sabia que seria tão intenso, amor aniquilador!
Você perturbou meu sono, se encantou com os meus poemas, soube como me arrebatar, doces palavras, olhares remotos.
No nosso previsível recanto esquecido dos sonhos,
finalmente te encontro.
É um lugar inatingível onde brinca com minhas urgências,
Invadindo o meu corpo, me tomando para ti,
e nessas noites refuto, refuso, te evito,
desisto, me entrego!
Autora: Ive Nenflidio
Prece
Penso nas dores do mundo
E nos algozes sem alma
Penso no Cristo torturado
No sofrimento de seres mutilados
Penso nos famintos isolados
Em campos de refugiados
Penso nas crianças com corações dilacerados
Nos homens atormentados
Penso no silêncio dos violentados
Nos seres desesperados
Penso em antigas civilizações
Nas lamentações
Em velhas reinvindicações
Penso nas mentes doentes
Nas mães impotentes
E nos heróis resistentes
Que o medo não me afaste dos meus sonhos
Que as dores não me tirem a esperança
Que a frieza dos homens não me cegue
Que a hipocrisia não me afaste do justo
Que os temores que sinto não me impeçam de ir até você
Autora: Ive Nenflidio
Abortando voo
Dizia Fernando Sabino, os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. Eu não finjo que não tenho, ao contrário, admito que tenho pavor, mas como é necessário voar, tento não pensar ou focar na ação, simplesmente voo.
Meu medo tem uma origem, numa decolagem. A aeronave prestes a subir abortou, foram alguns segundos de frenagem com a pista molhada, os ruídos eram intensos e os passageiros tiveram seus corpos projetados violentamente.
O mais assustador não foi o ato de frear de forma súbita ou os gritos ou, ainda, os rostos assustados da tripulação, o mais perturbador foi saber que dentro dos aviões são transportados passageiros e que alguns sinônimos da palavra são: breve, fugaz, efêmero, finito.
Autora: Ive Nenflidio