És Rio Menino
Pensas que é mar!
Desconcertante oceano azul com correntes gélidas e silêncio arrebatador,
com águas glaucas e gosto de lágrimas insalubres,
que migrando sob distintos rumos afunda naves em grandes naufrágios, em revoltos maremotos.
O Deus Netuno mostra sua força, buscando mistérios escondidos em cavernas,
por vezes mostra-se calmo e disfarça, acalentando a velha canoa ancorada na praia,
num pacato bailado de melodia dissonante.
Atinado, insidioso, mar fatalmente traiçoeiro, organismo absoluto poderoso
com ondas ferozes, abatimento mortal, faz desaparecer ínsulas, escava rochas,
revela sua fúria e exibe o interior da íngreme falésia de taludes de tons alaranjados e cor de mel.
Amado...
Não és mar!
Não és raso e nem esse fundo arrasador!
Conheço-te!
Não és espuma, nem sal!
És rio!
És doce!
E procuras navegar novos leitos,
és água que verte,
Você...
Rio menino,
rio que transborda,
rio que contorna os obstáculos,
rio que extravasa a procura de novos canais,
rio que flui,
Água doce que preenche a cisterna,
que banha o solo,
que traz esperança,
que faz brotar o sustento,
que transborda a moringa,
És Rio doce, rio Menino!
busca a correnteza,
busca novas aventuras,
em noite banhada de luz,
seus olhos reluzem, cor de avelã.
Amado...
Você sai à procura de um lugar de cavas profundas,
lugar que encontrará o justo repouso,
rio banhando,
rio aguando,
Eu?
Sou leito árido,
Você...
Rio que mata a minha sede!
Autora: Ive Nenflidio
Entressonho e fricção
Antes de você chegar me encontrava em silêncio,
entorpecida como os vulcões dormentes,
tristes e acanhados.
Chegastes lentamente,
desenhamos enredos,
teias arranjadas com sublimes intenções.
Conversamos sobre poesia e filosofia,
nos aproximamos, graciosas afinidades,
logo, sentimos a brutal dor da saudade.
Você recitou um poema,
o meu preferido,
declamou delicadamente.
Foram olhares distantes que penetraram em minha alma,
criando pequenas fogueiras que saíram das páginas do livro dos Abraços
e hoje incendeiam meu corpo.
Foram ditas palavras sigilosas, indecentes histórias;
de peito aberto te contei meus maiores segredos,
meus maiores desejos.
Você me acalmou com palavras,
me ajudou a enterrar fantasmas,
me libertar das algemas, esquecer o passado,
já não penso no estrago.
Com medo, você tentou se isolar,
talvez por temer o desconhecido
ou por não acreditar cegamente em minhas palavras.
Decidi também me afastar,
notei os riscos de algo tão raro,
tudo ficou fora de controle.
Você passou a fazer parte dos meus sonhos,
alvoradas solitárias em que percebo você,
ainda bem que tenho a lua, minha aliada!
Sou moradora das ausências,
me encontro e me perco em águas turvas,
solidão inevitável, sou viajante das utopias,
vivo perto das estrelas.
Sangro em noites de tormenta,
desafio o oceano de águas profundas,
singro, aceito as rajadas.
Em muitas noites experimento você,
coração dispara, calor toma conta,
procuro você no cômodo vazio.
Tenho um olhar de abismo
e te encontro na névoa, te procuro na imensidão,
falo contigo em pensamentos,
te chamo, espero o abraço, procuro suas mãos.
Procuro sua força!
Imagino você me prendendo em seus braços,
abraço potente, apartando meus cabelos
e submergindo seu rosto no emaranhado dos fios.
Procuro seu cheiro,
procuro sua pele,
procuro seus olhos escrupulosos,
procuro você.
Quero sua boca enérgica,
quero-te inteiro,
preciso preencher o vazio.
Sinto meu corpo tremer, enrijecer,
perco a fala, perco o chão,
aceito enlouquecer,
boca que seca.
Coração dispara, desejo em profusão,
espero seus doces lábios,
sua barba marcando meu corpo,
arranhando meus sentidos.
Um dia te chamo
e você me apresenta novos caminhos,
me mostra o acaso, outras amarrações.
E, por fim, nos entregaremos nas estradas da cantiga,
como trilhos solitários à espera da passagem dos trens!
Você?
Meu poema mais belo!
Autora: Ive Nenflidio
Teu nome
Se você fosse uma palavra, certamente seria a mais bela,
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou o chamasse de caminho, mas não qualquer um,
você seria aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamá-lo de mistério ou de infinito,
já que não posso imaginar sua dimensão.
Seu nome poderia ser chuva, rio
ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés
e lembraria o balanço do seu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra você.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem, esperança, memória,
sem dúvida, seu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e você teria nome e sobrenome.
Autora: Ive Nenflidio
Abortando voo
Dizia Fernando Sabino, os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. Eu não finjo que não tenho, ao contrário, admito que tenho pavor, mas como é necessário voar, tento não pensar ou focar na ação, simplesmente voo.
Meu medo tem uma origem, numa decolagem. A aeronave prestes a subir abortou, foram alguns segundos de frenagem com a pista molhada, os ruídos eram intensos e os passageiros tiveram seus corpos projetados violentamente.
O mais assustador não foi o ato de frear de forma súbita ou os gritos ou, ainda, os rostos assustados da tripulação, o mais perturbador foi saber que dentro dos aviões são transportados passageiros e que alguns sinônimos da palavra são: breve, fugaz, efêmero, finito.
Autora: Ive Nenflidio