Nanquim
Aprendi com as árvores A escolher um dia de chuva para tombar E pôr a culpa no vento Para que ninguém desconfie Da minha imensa vontade de cair.
Stravinsky
Agora temos uma casa Larga e vazia Uma casa com um único objeto, no centro da sala {o piano Uma casa feita para reunirmos o silêncio Nenhum outro som do mundo Apenas a contingência do piano E com o passar do tempo, se no móvel {habitassem abelhas Um pequeno ruído nos incomodaria Por horas, dias, meses resistiríamos em reconhecer Nossa impontual virtude.
Etimologia da palavra romance
Pegam uma coisa E a chamam de pedra A ela atribuem substância E passamos ao convívio Dessa coisa De matar passarinho De colocar no trilho do trem De fazer casa E de calçar as coisas pensas E toda vez que pegamos Uma dessas coisas Chamada pedra E a atiramos ao rio O fundo da coisa nominada rio Já não é mais só fundo Porque uns pés inesperadamente Podem tocar a pedra e cair E inventar uma outra coisa Que alguém, com a mão estendida, possa Atribuir substância de fazer casa E de calçar as coisas pensas.
Flores de Kafka
As cores sequestradas Mistificadas em jardins Ciano, magenta, amarelo e preto Adesivos, banners, catálogos, prospectos Brindes, camisetas, painéis Uniformes anunciam a impossibilidade De não estar mais dentro daquelas cores De viver além do azul ou do vermelho De fugir da identidade De jogar o corpo fora da escala.
Degredo
Deste país nada sei Nele não respiro Moro no país das árvores caídas Dos banheiros sujos Das escolas que enganam Tropeço nas manhãs sóbrias E infames deste lugar Que não reconheço Quero as noites sem pátria Dos copos vazios Do país de ontem.
A bailarina literata
A bailarina literata não se move Os músicos tocam apreensivos Algumas tosses E olhares inertes Duas horas transcorreram Até os agradecimentos Poucos aplausos Poucas visitas ao camarim Ninguém percebeu A beleza daquele Romeu e Julieta Dentro dela.
Amantes
Nossa infâmia começa cedo A luz devassa, A cama bisbilhotada Os corpos esquartejados De ontem Precisamos nos remontar Já é dia.
Passarinho
Só sei fazer poemas com passarinho Todas as palavras cabem em passarinho Dor, por exemplo, é uma palavra que A gente não pensa em passarinho Mas dor é passarinho Na palavra gaiola Saudade é uma palavra passarinho Que procura terras distantes Deus é passarinho no mamão Amor é a palavra passarinho disfarçada De passarinho.
Antes...
Antes do antes somos bloco de pedra Se nascemos, àquele que detém o cinzel nos destinamos Aos pequenos golpes diários: contratos, telefonemas, juros Antes pedra, antiguidade e templo, agora forma e obra A ausência de virtude do escultor nos enfeia De narizes, bocas e olheiras fundas Presos em reter um dia a pedra que fomos Em salas fechadas ao público Aguardamos a retrospectiva dos artistas menores.
Terra sem males
Todas as palavras rudes Formam as montanhas que foi um dia Minas Gerais Toda máquina renasce No contingente ser das máquinas Todo o embaraço humano Ignorado pelos gatos Todo vazio entre átomos Tudo que se rompeu Fios, barragens, amores Tratados Restos de construções gramaticais Anais das instituições A promessa de vir e não vir Vidas em corpos arrestados Presos a esse imenso vazio Que desmatamos As cidades são pastos cinzas Sem onças Apanha-se a vida no chão Até que haja o consenso de que todo pasto É cinza Fica mesmo é um mato Um imenso De precários rebocos.