marcelobenini

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Flores de Kafka


As cores sequestradas 

Mistificadas em jardins 

Ciano, magenta, amarelo e preto

Adesivos, banners, catálogos, prospectos

Brindes, camisetas, painéis

Uniformes anunciam a impossibilidade

De não estar mais dentro daquelas cores

De viver além do azul ou do vermelho

De fugir da identidade

De jogar o corpo fora da escala.
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Biografia
Marcelo Benini nasceu em 1970 na cidade de Cataguases, Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Vive em uma comunidade rural próxima a Brasília/DF.

Poemas

20

Flores de Kafka


As cores sequestradas 

Mistificadas em jardins 

Ciano, magenta, amarelo e preto

Adesivos, banners, catálogos, prospectos

Brindes, camisetas, painéis

Uniformes anunciam a impossibilidade

De não estar mais dentro daquelas cores

De viver além do azul ou do vermelho

De fugir da identidade

De jogar o corpo fora da escala.
176

Palíndromo


Encontro sombras nos olhos negros

Sob a copa da árvore

No fundo do rio

Posso sair do rio

Mas estaria sob a copa da árvore

Posso cortar as árvores

Lá estariam os olhos negros

Posso fechar os olhos

Só restariam sombras.
102

Cada batida na tecla do piano é uma ausência


Os vizinhos reclamam do barulho

Mas nunca reclamam do silêncio

Dos imensos vazios entre uma nota e outra

É neles que a pianista está gritando.
167

Degredo


Deste país nada sei

Nele não respiro

Moro no país das árvores caídas

Dos banheiros sujos

Das escolas que enganam 

Tropeço nas manhãs sóbrias

E infames deste lugar

Que não reconheço

Quero as noites sem pátria

Dos copos vazios

Do país de ontem.
169

Amantes


Nossa infâmia começa cedo

A luz devassa,

A cama bisbilhotada

 

Os corpos esquartejados

De ontem

 

Precisamos nos remontar

Já é dia.
175

Solfejo de coisas quase apagadas


Quando um menino bebe a água do rio
O rio corre para dentro do menino
O menino discursa o rio
Até que mije o rio outra vez.
126

Tanger


Uma fina chuva cai sobre a estrada que vara os pastos

Há uma voz em tudo

Na chuva, no capim-gordura, no boi que não se move

A voz nunca se cala

Tange a tudo e a todos

 

Na pequena estrada enlameada

O homem segue sem ouvir a voz.
120

Passarinho


Só sei fazer poemas com passarinho

Todas as palavras cabem em passarinho

Dor, por exemplo, é uma palavra que

A gente não pensa em passarinho

Mas dor é passarinho

Na palavra gaiola 

Saudade é uma palavra passarinho 

Que procura terras distantes 

Deus é passarinho no mamão

Amor é a palavra passarinho disfarçada

De passarinho.
181

O mesmo ainda


Um menino sentado na cerca do curral

Menino é tempo enorme

Só as vacas conseguem.
114

Antes...


Antes do antes somos bloco de pedra

Se nascemos, àquele que detém o cinzel nos destinamos

Aos pequenos golpes diários: contratos, telefonemas, juros

Antes pedra, antiguidade e templo, agora forma e obra

A ausência de virtude do escultor nos enfeia

De narizes, bocas e olheiras fundas 

Presos em reter um dia a pedra que fomos 

Em salas fechadas ao público

Aguardamos a retrospectiva dos artistas menores.
189

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