O mesmo ainda
Um menino sentado na cerca do curral Menino é tempo enorme Só as vacas conseguem.
Flores de Kafka
As cores sequestradas Mistificadas em jardins Ciano, magenta, amarelo e preto Adesivos, banners, catálogos, prospectos Brindes, camisetas, painéis Uniformes anunciam a impossibilidade De não estar mais dentro daquelas cores De viver além do azul ou do vermelho De fugir da identidade De jogar o corpo fora da escala.
Antes...
Antes do antes somos bloco de pedra Se nascemos, àquele que detém o cinzel nos destinamos Aos pequenos golpes diários: contratos, telefonemas, juros Antes pedra, antiguidade e templo, agora forma e obra A ausência de virtude do escultor nos enfeia De narizes, bocas e olheiras fundas Presos em reter um dia a pedra que fomos Em salas fechadas ao público Aguardamos a retrospectiva dos artistas menores.
Nanquim
Aprendi com as árvores A escolher um dia de chuva para tombar E pôr a culpa no vento Para que ninguém desconfie Da minha imensa vontade de cair.
Amantes
Nossa infâmia começa cedo A luz devassa, A cama bisbilhotada Os corpos esquartejados De ontem Precisamos nos remontar Já é dia.
Palíndromo
Encontro sombras nos olhos negros Sob a copa da árvore No fundo do rio Posso sair do rio Mas estaria sob a copa da árvore Posso cortar as árvores Lá estariam os olhos negros Posso fechar os olhos Só restariam sombras.
A bailarina literata
A bailarina literata não se move Os músicos tocam apreensivos Algumas tosses E olhares inertes Duas horas transcorreram Até os agradecimentos Poucos aplausos Poucas visitas ao camarim Ninguém percebeu A beleza daquele Romeu e Julieta Dentro dela.
Passarinho
Só sei fazer poemas com passarinho Todas as palavras cabem em passarinho Dor, por exemplo, é uma palavra que A gente não pensa em passarinho Mas dor é passarinho Na palavra gaiola Saudade é uma palavra passarinho Que procura terras distantes Deus é passarinho no mamão Amor é a palavra passarinho disfarçada De passarinho.
Tanger
Uma fina chuva cai sobre a estrada que vara os pastos Há uma voz em tudo Na chuva, no capim-gordura, no boi que não se move A voz nunca se cala Tange a tudo e a todos Na pequena estrada enlameada O homem segue sem ouvir a voz.
Solfejo de coisas quase apagadas
Quando um menino bebe a água do rio O rio corre para dentro do menino O menino discursa o rio Até que mije o rio outra vez.