O mesmo ainda
Um menino sentado na cerca do curral Menino é tempo enorme Só as vacas conseguem.
Tanger
Uma fina chuva cai sobre a estrada que vara os pastos Há uma voz em tudo Na chuva, no capim-gordura, no boi que não se move A voz nunca se cala Tange a tudo e a todos Na pequena estrada enlameada O homem segue sem ouvir a voz.
Cada batida na tecla do piano é uma ausência
Os vizinhos reclamam do barulho Mas nunca reclamam do silêncio Dos imensos vazios entre uma nota e outra É neles que a pianista está gritando.
Palíndromo
Encontro sombras nos olhos negros Sob a copa da árvore No fundo do rio Posso sair do rio Mas estaria sob a copa da árvore Posso cortar as árvores Lá estariam os olhos negros Posso fechar os olhos Só restariam sombras.
Solfejo de coisas quase apagadas
Quando um menino bebe a água do rio O rio corre para dentro do menino O menino discursa o rio Até que mije o rio outra vez.
Passarinho
Só sei fazer poemas com passarinho Todas as palavras cabem em passarinho Dor, por exemplo, é uma palavra que A gente não pensa em passarinho Mas dor é passarinho Na palavra gaiola Saudade é uma palavra passarinho Que procura terras distantes Deus é passarinho no mamão Amor é a palavra passarinho disfarçada De passarinho.
A bailarina literata
A bailarina literata não se move Os músicos tocam apreensivos Algumas tosses E olhares inertes Duas horas transcorreram Até os agradecimentos Poucos aplausos Poucas visitas ao camarim Ninguém percebeu A beleza daquele Romeu e Julieta Dentro dela.
Degredo
Deste país nada sei Nele não respiro Moro no país das árvores caídas Dos banheiros sujos Das escolas que enganam Tropeço nas manhãs sóbrias E infames deste lugar Que não reconheço Quero as noites sem pátria Dos copos vazios Do país de ontem.
Antes...
Antes do antes somos bloco de pedra Se nascemos, àquele que detém o cinzel nos destinamos Aos pequenos golpes diários: contratos, telefonemas, juros Antes pedra, antiguidade e templo, agora forma e obra A ausência de virtude do escultor nos enfeia De narizes, bocas e olheiras fundas Presos em reter um dia a pedra que fomos Em salas fechadas ao público Aguardamos a retrospectiva dos artistas menores.
Flores de Kafka
As cores sequestradas Mistificadas em jardins Ciano, magenta, amarelo e preto Adesivos, banners, catálogos, prospectos Brindes, camisetas, painéis Uniformes anunciam a impossibilidade De não estar mais dentro daquelas cores De viver além do azul ou do vermelho De fugir da identidade De jogar o corpo fora da escala.