Marcelo Benini nasceu em 1970 na cidade de Cataguases, Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Vive em uma comunidade rural próxima a Brasília/DF.
A pedra é para o musgo repouso O musgo é para a pedra o tempo
*
Às vezes recebia no quarto um sanhaço E despia-se para o enleio Olvidava o que tinha de casca, Preferindo a brisa O traupídeo, porém, tinha dogmas de asa E partia O vento e a noite encolhiam-na A residuozinho de gente.
*
Um dia houve um cismar de adélias Na beira do rio Os peixinhos se regalaram de sol Os bem-te-vis de azul Sob o sol da tarde as cercas crinavam de éguas E os arames se resignaram das farpas, Como rosas Os canários ignoravam os espinhos Para docemente pegar cabelos baios E nidificar o mundo Os canários chegavam o mundo para o amarelo Do outro lado, o rio plangia.
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A marche do enfant Rimbaud
Um militar
Tem tendência a passarinho
Pode ser a saíra
Ou o soldadinho
Todo dia carrega seu fuzil
Engraxa suas botas
Canta o Hino à Bandeira
Um dia descuidaram
E fugiu o passarinho
Levou cantil, botas e fuzil
Encontrou outros tantos
Companheiros
Foi fazer revolução
De passarinhos.
128
Retrato com abelha no cabelo
Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.
102
Prorrompimento da poesia
Todo calendário venta em maio
Todo vento existe até que as coisas caiam
Uma jarra é um vento no chão
Todo dicionário é museu de palavras
O homem que lê dicionários visita
Os vestidos da palavra
Mas palavra tem vestido
Pergunta alguém
Sim, palavra tem vaidade
De loja
Só o poeta conhece a nudez da palavra
A palavra nua em brasas de dicionário
Um vento derruba a jarra
Em maio.
131
Etimologia da palavra romance
Pegam uma coisa
E a chamam de pedra
A ela atribuem substância
E passamos ao convívio
Dessa coisa
De matar passarinho
De colocar no trilho do trem
De fazer casa
E de calçar as coisas pensas
E toda vez que pegamos
Uma dessas coisas
Chamada pedra
E a atiramos ao rio
O fundo da coisa nominada rio
Já não é mais só fundo
Porque uns pés inesperadamente
Podem tocar a pedra e cair
E inventar uma outra coisa
Que alguém, com a mão estendida, possa
Atribuir substância de fazer casa
E de calçar as coisas pensas.
175
Terra sem males
Todas as palavras rudes
Formam as montanhas que foi um dia
Minas Gerais
Toda máquina renasce
No contingente ser das máquinas
Todo o embaraço humano
Ignorado pelos gatos
Todo vazio entre átomos
Tudo que se rompeu
Fios, barragens, amores
Tratados
Restos de construções gramaticais
Anais das instituições
A promessa de vir e não vir
Vidas em corpos arrestados
Presos a esse imenso vazio
Que desmatamos
As cidades são pastos cinzas
Sem onças
Apanha-se a vida no chão
Até que haja o consenso de que todo pasto
É cinza
Fica mesmo é um mato
Um imenso
De precários rebocos.
178
Stravinsky
Agora temos uma casa
Larga e vazia
Uma casa com um único objeto, no centro da sala
{o piano
Uma casa feita para reunirmos o silêncio
Nenhum outro som do mundo
Apenas a contingência do piano
E com o passar do tempo, se no móvel
{habitassem abelhas
Um pequeno ruído nos incomodaria
Por horas, dias, meses resistiríamos em reconhecer