marcelobenini

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Perfil
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O mesmo ainda


Um menino sentado na cerca do curral

Menino é tempo enorme

Só as vacas conseguem.
Ler poema completo
Biografia
Marcelo Benini nasceu em 1970 na cidade de Cataguases, Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Vive em uma comunidade rural próxima a Brasília/DF.

Poemas

20

Nanquim


Aprendi com as árvores

A escolher um dia de chuva para tombar

E pôr a culpa no vento

Para que ninguém desconfie

Da minha imensa vontade de cair.
163

Amantes


Nossa infâmia começa cedo

A luz devassa,

A cama bisbilhotada

 

Os corpos esquartejados

De ontem

 

Precisamos nos remontar

Já é dia.
173

Retrato com abelha no cabelo


Escrevo o lado oposto de quem me lê

Nunca pensei ser compreendido

Senão por passarinhos e saguis 

As frutas me ajudaram mais que os

Dicionários de verbos e regimes  

E as gramáticas

As palavras com as quais me importo

Ciscam 

O vento que escrevo está nas folhas

Dos buritis

Só faço versos que têm sopro

No coração.
99

Stravinsky


Agora temos uma casa

Larga e vazia

Uma casa com um único objeto, no centro da sala

                                                                       {o piano

Uma casa feita para reunirmos o silêncio

Nenhum outro som do mundo

Apenas a contingência do piano

 

E com o passar do tempo, se no móvel

{habitassem abelhas

Um pequeno ruído nos incomodaria

Por horas, dias, meses resistiríamos em reconhecer

Nossa impontual virtude.
161

Assentamento


Com o tempo meus pensamentos criaram raízes

Porém ainda meus olhos eram livres

Até que meus olhos criaram raízes

 

Minha boca dizia coisas

Até que as palavras criaram raízes

 

Meus braços balançavam no vento

Minhas mãos remexiam uns cabelos bonitos e negros

Minhas mãos criaram raízes

 

Minhas pernas partiam

Nem bem amanhecia e minhas pernas partiam

Até criarem raízes.
107

Tentativas para ausência de chão


A pedra é para o musgo repouso
O musgo é para a pedra o tempo

*

Às vezes recebia no quarto um sanhaço
E despia-se para o enleio
Olvidava o que tinha de casca,
Preferindo a brisa
O traupídeo, porém, tinha dogmas de asa
E partia
O vento e a noite encolhiam-na
A residuozinho de gente.

*

Um dia houve um cismar de adélias
Na beira do rio
Os peixinhos se regalaram de sol
Os bem-te-vis de azul
Sob o sol da tarde as cercas crinavam de éguas
E os arames se resignaram das farpas,
Como rosas
Os canários ignoravam os espinhos
Para docemente pegar cabelos baios
E nidificar o mundo
Os canários chegavam o mundo para o amarelo
Do outro lado, o rio plangia.
126

Terra sem males


Todas as palavras rudes 

Formam as montanhas que foi um dia

Minas Gerais

 

Toda máquina renasce 

No contingente ser das máquinas

 

Todo o embaraço humano 

Ignorado pelos gatos  

Todo vazio entre átomos 

Tudo que se rompeu 

Fios, barragens, amores

Tratados

 

Restos de construções gramaticais

Anais das instituições

A promessa de vir e não vir 

 

Vidas em corpos arrestados

Presos a esse imenso vazio

Que desmatamos

As cidades são pastos cinzas

Sem onças

 

Apanha-se a vida no chão 

Até que haja o consenso de que todo pasto

É cinza 

 

Fica mesmo é um mato

Um imenso

De precários rebocos.
177

Prorrompimento da poesia


Todo calendário venta em maio

Todo vento existe até que as coisas caiam 

Uma jarra é um vento no chão  

Todo dicionário é museu de palavras  

O homem que lê dicionários visita

Os vestidos da palavra 

Mas palavra tem vestido

Pergunta alguém

Sim, palavra tem vaidade

De loja 

Só o poeta conhece a nudez da palavra

A palavra nua em brasas de dicionário

Um vento derruba a jarra 

Em maio.
131

Etimologia da palavra romance


Pegam uma coisa

E a chamam de pedra

A ela atribuem substância

E passamos ao convívio 

Dessa coisa 

De matar passarinho

De colocar no trilho do trem

De fazer casa

E de calçar as coisas pensas

E toda vez que pegamos 

Uma dessas coisas 

Chamada pedra

E a atiramos ao rio

O fundo da coisa nominada rio

Já não é mais só fundo

Porque uns pés inesperadamente 

Podem tocar a pedra e cair 

E inventar uma outra coisa 

Que alguém, com a mão estendida, possa

Atribuir substância de fazer casa

E de calçar as coisas pensas.
174

A marche do enfant Rimbaud


Um militar  

Tem tendência a passarinho

Pode ser a saíra

Ou o soldadinho

Todo dia carrega seu fuzil

Engraxa suas botas

Canta o Hino à Bandeira

Um dia descuidaram 

E fugiu o passarinho

Levou cantil, botas e fuzil

Encontrou outros tantos

Companheiros 

Foi fazer revolução

De passarinhos.
127

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