1940
Nos olhos de antes, profundos e oriundos de toda a pureza exaltada. Morada de pores de sóis eternos e longínquos.
Como a tempestade que devasta terras e ares, deixa nua a carne, provoca a fúria dos mares e marés, afogando todos os vestígios.
No olhar que a soberba morre e o orgulho se envaidece. Distante, perdido, perverso. Triste!
Na decadência estarrecida, num simples passo da bailarina. Enlace de uma vida retida...
E o passado passou, mas tudo ficou.
Como a árvore avita, enraizada no solo, que ainda exala o cheiro da terra molhada.
Na lágrima que cai, continuamente.
No sorriso, decaiu a armadura. Máscaras engessadas sob o viés solitário. Diversas facetas em uma única face.
Do ontem adormecido no hoje, restam apenas as sombras para o amanhã enfurecido.
Carmenere
Posso degustar do vinho que bebes, e embriagar-me nos taninos do teu beijo.
Passam-se noites e luas e sóis, no carmenere que escorre por dentro. E no gole do desejo, à meia taça, às costas nuas, delicada como a seda transparente.
Na limpidez dos dedos, o toque que traspassa...
Na nuca dedilha adágios e compõe melodias, desce no dorso levemente, harmoniza versos em poesias, estrutura do corpo na pele.
Flui e juntamente inebria o véu do íntimo.
Pulsa no peito o que esvai das entranhas.
E goteja na tez, sublime!
E no enredo de nós, tecem caminhos e abrem-se mares.
Na taça que finaliza e se finda o pensamento exaurido.
Incrédula
E ela rezou com todo o fervor de sua alma.
Clamou o mais alto que sua voz poderia alcançar.
Mas não sabia que a fé era ineficiente.
Foram muitas e tantas orações milagrosas, mas que perderam o valor diante à insensatez da vida.
Ninguém ouviu a sua súplica!
E ela chorou com todo o ardor que irradiava o seu ventre.
Mas as lágrimas não acalmavam o coração.
E foram muitas e tantas, mas que desfaleceram-se diante o desgosto da vida.
Ninguém enxergava o seu pranto!
A devoção remota ainda era a única salvação de suas forças.
Mas a esperança já a estrangulara.
Nesse tempo, as valsas de Tchaikovsky se apagaram, Neruda perdeu seus versos, a tragédia nunca pertenceu à Ésquilo e todas as flores amaldiçoadas por Baudelaire eram as únicas que exalavam o buquê resplandescente.
Diante do precipício, nem Deus, nem fé, nem esperança e nem devoção.
Era somente ela e sua dor.
E assim segue o cortejo!
Naquele quarto
E o coração permanece conforme o quarto de antes.
À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.
A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.
O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.
O silêncio é absoluto!
Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.
O corpo permanece execrado em dor.
As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.
De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.
No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.
O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.
Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.
E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.
E a presença da falta, faz mais falta que antes.
E a dor que consome, dói mais que antes.
E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
Liberdade
Podes escrever os mais belos versos esta noite, mas os meus certamente serão os mais tristes.
Na riqueza da alma, nasceu um oceano de amarguras.
E autoproclamo a angústia a fiel e mais imperfeita das piedades.
De palavras fervorosas fiz um mundo e no mundo vi um espelho, no espelho o meu submundo.
No clamor havia a súplica, tal qual era o desejo.
Do meu corpo belicoso, vive o mar de fronteiras e caminhos. Dissolutos!
Em olhares sombrios construí uma muralha, onde cinzas do sangue derramado sobrepujam a razão perdida.
E no singular mais que plural me fiz exígua de mim.
Libertei-me!
Passou
A lágrima escorre na face, que lentamente contorna as feições enrubescidas.
O sangue caminha internamente! Devagar, tênue, na calmaria do mar traiçoeiro e quente como as ondas repentinas.
O som da água fustiga no corpo nu! Gotas de orvalho caem e se misturam.
Indolor...
A dor é a extensão. Gemelar!
No perfume exalado, do jasmim putrefaciente!
A boca que outrora emanava mel, carrega as rugas pertinentes da degradação.
O olhar habitado no semblante fez-se pequenino diante da solidez da angústia.
Do que era rijo e se desfez, vertia das entranhas!
A carne decruada!
E o tempo...
Migalhas perdidas, infindas, nada se refaz!
Não para, não, para!
Os sons imperceptíveis...
Que embalam os sonhos!
Nas diversidades do corpo e da alma
Acabou e passou
E tudo recomeça!
Momento
Da janela de visão contorcida, enquanto se enchem os lençóis.
No pensamento devastador!
A árvore embala as folhas, mas não saem do lugar. No contorno do céu sombrio, de ventos tenros e nuvens secas.
Nada mudou! O clamor da súplica, os versos da poesia, as ilações da solidão.
Estagnou no mundo que não passou!
A dor que preenche, até o vazio inabitável. Na escuridão da manhã, que segue o olhar marejado.
O poeta que carrega e deixa os versos em lágrimas.
No luar apagado em cortes e da luz longínqua que abarroa o cenário intenso.
Nos movimentos sinuosos inalterantes dos sentidos.
Ao som diáfono de um Neruda desconhecido, onde o corpo se aninha sem abrigo.
Em ópera do amor total, desfalece em prece inconstante.
Assimetrias
Nos olhos, cinzas!
Na imensidão do olhar sob as nuvens.
A gota que cai, o sangue escorre.
Da voz arquejada!
Na pele que ainda sente...
O toque da dor exaustiva.
A vela apaga.
Reacende!
As marcas permanecem.
Em prece, o mundo desaparece.
Das cores finitas, daltonismo da alma.
Discordância da vida cansativa
E não se move, pensamento fatigado.
No coração que bate, sentido.
Na razão do que não é.
Do ser que não existiu.
Recomeço e queda na mesma dimensão.
Imersão!
Acabou e apenas começou!
Opostos
No que navega instintivamente! Os preceitos criados na memória da ilusão.
Visões distorcidas, absurdas. Verdades inerentes, incoerentes. As mentiras são mais sensatas e sempre foram.
Ah! O pensamento! Razões e emoções se perdem, completam, não há certo e errado.
Há vida na morte, sublime!
No que esvaiu exaustivamente! Os anseios perturbados na dor do olhar.
Releitura em lembranças tristes, incontidas. Lágrimas perduram e consolam, assolam e esbravejam, são as mesmas que caem sorrindo.
No amor! Saudoso e doentio, entende o delírio da fuga absurda, insensata.
Há um espelho, irreflexo!
Nos sonhos decorrentes, ilógicos, imprecisos. E num piscar o mundo acorda.
Lápide
Sob a solidão do sepulcro, de folhas secas e mortas.
O vazio das vozes surdas.
Na chama apagada da vela petrificada. Sombras de vultos arquejados no olhar sôfrego e contido.
De joelhos dobrados num pranto regado de martírio. Júbilo da escassez da vida!
A flor perene que cresce na morte, graceja da dor alheia. Covarde carne que sova o amor.
Segredos escusos na própria alma. No choro perverso, que destrói o olhar sem brio.
O abrigo desgraçado que restou da infâmia. Rastejo da incoerência.
Palavras ofuscadas pela visão já distorcida.
Pensamento que aos poucos se esvai. Temerosos ao esquecimento.
Lamento do tempo que contorce as ilusões.
Onde a tristeza fez morada, o cortejo segue etéreo.