marinasatiro

marinasatiro

Perfil
9 570 Visualizações

Naquele quarto

E o coração permanece conforme o quarto de antes.

À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.

A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.

O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.

O silêncio é absoluto!

Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.

O corpo permanece execrado em dor.

As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.

De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.

No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.

O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.

Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.

E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.

E a presença da falta, faz mais falta que antes.

E a dor que consome, dói mais que antes.

E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
Ler poema completo

Poemas

30

Naquele quarto

E o coração permanece conforme o quarto de antes.

À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.

A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.

O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.

O silêncio é absoluto!

Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.

O corpo permanece execrado em dor.

As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.

De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.

No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.

O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.

Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.

E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.

E a presença da falta, faz mais falta que antes.

E a dor que consome, dói mais que antes.

E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
315

Incrédula

E ela rezou com todo o fervor de sua alma.

Clamou o mais alto que sua voz poderia alcançar.

Mas não sabia que a fé era ineficiente.

Foram muitas e tantas orações milagrosas, mas que perderam o valor diante à insensatez da vida.

Ninguém ouviu a sua súplica!

E ela chorou com todo o ardor que irradiava o seu ventre.

Mas as lágrimas não acalmavam o coração.

E foram muitas e tantas, mas que desfaleceram-se diante o desgosto da vida.

Ninguém enxergava o seu pranto!

A devoção remota ainda era a única salvação de suas forças.

Mas a esperança já a estrangulara.

Nesse tempo, as valsas de Tchaikovsky se apagaram, Neruda perdeu seus versos, a tragédia nunca pertenceu à Ésquilo e todas as flores amaldiçoadas por Baudelaire eram as únicas que exalavam o buquê resplandescente.

Diante do precipício, nem Deus, nem fé, nem esperança e nem devoção.

Era somente ela e sua dor.

E assim segue o cortejo!
311

Liberdade

Podes escrever os mais belos versos esta noite, mas os meus certamente serão os mais tristes.

Na riqueza da alma, nasceu um oceano de amarguras.

E autoproclamo a angústia a fiel e mais imperfeita das piedades.

De palavras fervorosas fiz um mundo e no mundo vi um espelho, no espelho o meu submundo.

No clamor havia a súplica, tal qual era o desejo.

Do meu corpo belicoso, vive o mar de fronteiras e caminhos. Dissolutos!

Em olhares sombrios construí uma muralha, onde cinzas do sangue derramado sobrepujam a razão perdida.

E no singular mais que plural me fiz exígua de mim.

Libertei-me!
334

Carmenere

Posso degustar do vinho que bebes, e embriagar-me nos taninos do teu beijo.

Passam-se noites e luas e sóis, no carmenere que escorre por dentro. E no gole do desejo, à meia taça, às costas nuas, delicada como a seda transparente.

Na limpidez dos dedos, o toque que traspassa...

Na nuca dedilha adágios e compõe melodias, desce no dorso levemente, harmoniza versos em poesias, estrutura do corpo na pele.

Flui e juntamente inebria o véu do íntimo.

Pulsa no peito o que esvai das entranhas.

E goteja na tez, sublime!

E no enredo de nós, tecem caminhos e abrem-se mares.

Na taça que finaliza e se finda o pensamento exaurido.
374

1940

Nos olhos de antes, profundos e oriundos de toda a pureza exaltada. Morada de pores de sóis eternos e longínquos.

Como a tempestade que devasta terras e ares, deixa nua a carne, provoca a fúria dos mares e marés, afogando todos os vestígios.

No olhar que a soberba morre e o orgulho se envaidece. Distante, perdido, perverso. Triste!

Na decadência estarrecida, num simples passo da bailarina. Enlace de uma vida retida...

E o passado passou, mas tudo ficou.

Como a árvore avita, enraizada no solo, que ainda exala o cheiro da terra molhada.

Na lágrima que cai, continuamente.

No sorriso, decaiu a armadura. Máscaras engessadas sob o viés solitário. Diversas facetas em uma única face.

Do ontem adormecido no hoje, restam apenas as sombras para o amanhã enfurecido.
290

Passou

A lágrima escorre na face, que lentamente contorna as feições enrubescidas.

O sangue caminha internamente! Devagar, tênue, na calmaria do mar traiçoeiro e quente como as ondas repentinas.

O som da água fustiga no corpo nu! Gotas de orvalho caem e se misturam.

Indolor...

A dor é a extensão. Gemelar!

No perfume exalado, do jasmim putrefaciente!

A boca que outrora emanava mel, carrega as rugas pertinentes da degradação.

O olhar habitado no semblante fez-se pequenino diante da solidez da angústia.

Do que era rijo e se desfez, vertia das entranhas!

A carne decruada!

E o tempo...

Migalhas perdidas, infindas, nada se refaz!

Não para, não, para!

Os sons imperceptíveis...

Que embalam os sonhos!

Nas diversidades do corpo e da alma

Acabou e passou

E tudo recomeça!
301

Momento

Da janela de visão contorcida, enquanto se enchem os lençóis.

No pensamento devastador!

A árvore embala as folhas, mas não saem do lugar. No contorno do céu sombrio, de ventos tenros e nuvens secas.

Nada mudou! O clamor da súplica, os versos da poesia, as ilações da solidão.

Estagnou no mundo que não passou!

A dor que preenche, até o vazio inabitável. Na escuridão da manhã, que segue o olhar marejado.

O poeta que carrega e deixa os versos em lágrimas.

No luar apagado em cortes e da luz longínqua que abarroa o cenário intenso.

Nos movimentos sinuosos inalterantes dos sentidos.

Ao som diáfono de um Neruda desconhecido, onde o corpo se aninha sem abrigo.

Em ópera do amor total, desfalece em prece inconstante.
364

Soturno

E quando o olhar se torna impenetrável. No que foi dominado pela letargia.

Na lucidez desmoronada.

Nas mãos intocáveis, abstinência do zelo incompreensível.

Nas asas corroídas, no voo imperfeito.

Do medo da fé perdida.

E das constelações lúgrubes que escorrem das lágrimas imprecisas.

Na dor interminável que dispersa na morte incontida.

No tempo etéreo, que passa despercebido.

Do sangue que queima, rasga a malha sem vida. Do corpo que carrega a existência. Dos lábios que desconhecem o beijo.

E não precisa falar das rosas, elas já murcharam. Perderam o viço.

A solidão acompanhada da penúria.

Na penumbra do dia que perdeu a manhã.  Da noite que não amanhece. Estagnado!

Das luas e sóis que se passaram no toque.

E na música que toca, que sorva, destrói pensamentos, arrasa sinfonias, descama orquestras e finda na melodia do alento.
295

Somente

E na saudade se instaura a dor.

A desmedida solidão arrasa n'alma da mesma forma que o toque inebria o corpo. O que resta são fragmentos de pensamento, nos devaneios que torturam a mente.

Nas mãos que imploram pela carícia tenra na tez. A firmeza em que tomas a carne. A perversa lamúria da insensatez.

O beijo que arrasta mares, oceanos. Entre ondas de salivas, na língua que declama a poesia mais pura e ao mesmo instante percorre todos os instintos.

Os cabelos emaranhados caem nas costas e atravessam os dedos que se agarram.

Nas curvas sinuosas do desejo, movimentos impetuosos, dislexia de prazer.

O contorno das formas, à sombra da perfeição mais imperfeita.

Em suores que se misturam, num banho náufrago de perdição.

Na esquizofrenia da vida, se perdem caminhos...

... Obscuros, malditos, soturnos. Bastam-se!
306

De olhos fechados

Nos olhos em que as lágrimas embalam ao som de soluços, desbravam a face cálida. O que não se pode ver! Desespero do mundo.

Na tristeza que persevera, a saudade instaurada na dor, repugnante.

Aflição do desejo incontido.

A pele insensível, insolente. Acabou a arte!

No pensamento que vive, na morte que aprisiona a vida, sozinha.

No retrato empoeirado, sem importância.

Os dias são anos, o tempo tênue. Na alma esmorecida, incabível no horizonte.

A música que canta e não encanta. Relembra o sorriso perdido na face. Do dia que a noite roubou, da noite que escureceu os suplícios.

No grito ensurdecedor, âmago arrasado no precipício.

A destruição revelada no pessimismo insistente.

Na esperança da desesperança.

Do luto infindável que carrega-se por si e só.

A êxtase do martírio, no pulsar do sangue que não mais queima.

Na frieza, na rijeza dos sonhos inexistentes.

E a poesia soberba, de versos hipócritas. Na melancolia exibicionista, sem efeito.

A traição no abandono.

Da respiração que não mais alcança o perfume, intenso, evaporou, se desfez!
319

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Uma grata surpresa encontrar versos dotados de tanta poesia. Parabéns!