Lista de Poemas

Naquele quarto

E o coração permanece conforme o quarto de antes.

À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.

A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.

O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.

O silêncio é absoluto!

Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.

O corpo permanece execrado em dor.

As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.

De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.

No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.

O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.

Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.

E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.

E a presença da falta, faz mais falta que antes.

E a dor que consome, dói mais que antes.

E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
304

1940

Nos olhos de antes, profundos e oriundos de toda a pureza exaltada. Morada de pores de sóis eternos e longínquos.

Como a tempestade que devasta terras e ares, deixa nua a carne, provoca a fúria dos mares e marés, afogando todos os vestígios.

No olhar que a soberba morre e o orgulho se envaidece. Distante, perdido, perverso. Triste!

Na decadência estarrecida, num simples passo da bailarina. Enlace de uma vida retida...

E o passado passou, mas tudo ficou.

Como a árvore avita, enraizada no solo, que ainda exala o cheiro da terra molhada.

Na lágrima que cai, continuamente.

No sorriso, decaiu a armadura. Máscaras engessadas sob o viés solitário. Diversas facetas em uma única face.

Do ontem adormecido no hoje, restam apenas as sombras para o amanhã enfurecido.
278

Desalento

E na melancolia da dor, se estagna a saudade, não do que se foi, mas do que se eternizou no peito.

As lembranças não se apagam, mas se confundem numa fúnebre procissão dentro da memória. No incabível. Na solidão perene. Na insensatez do pranto. No arquejar sôfrego.

A lágrima que reaviva os sentidos, o pulsar que instiga o coração cansado. E o nada que perpetua e preenche indecente o amargor da inexistência.

E na ausência do beijo, na amnésia das palavras, no carinho contido, morre a sanidade.

Invenção que atordoa, demência dos devaneios perdidos.

No ímpeto da clemência, a angústia roga uma prece. Que de olhos marejados, se junte os pedaços, cansados de andar descalço.
318

Segredo

A saudade invadiu o escondido, onde os olhos penetram marejados.

A mão que percorre sozinha o corpo, calejada se esvai.

A mente que traz na lembrança a doçura do beijo tentador. O mel escorre no fel da boca.

O vinho do sangue derramado nas curvas, estala na língua atraente. Perdeu-se no último suspiro, no ar que respira ofegante no ouvido, suave, descrente.

Lateja nas entranhas, o gozo irracional, no suor do crepúsculo, que goteja ao anoitecer. A carne que desliza nos dedos, na firmeza do toque, no que prende, repreende, repuxa.

Nos cabelos emaranhados, na saliva obscena, afogada na angústia.

No ímpeto que viaja, embriagada. Sufoca!

No pensamento que maltrata.

No calor da tua sombra, no brilho do olhar insano, lascivo dentro do que preenche.

No arrepio que cai na pele perspicaz.

No que acompanha cada detalhe, nos sentidos que aguçam o pecado engasgado no mistério.

No que faz derramar sagazmente, na chuva inóspita dentro de mim.

Naquilo que a fraqueza não apaga. E novamente o beijo! Ah! O beijo que enclausura alheiamente. Sem querer, forçadamente!

E toma, me tomas, nos tomamos! E na língua se proclama o veneno que alimenta, desnuda, sobrevive!

No sal que mata a sede. No silêncio que declara. E no que retrai, traz vida, incansavelmente!
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Fim do mundo

Navegaste em minhas ilusões e acorrentaste as lamentações.

No suplício da tua angústia, desbravaste o meu mar.

Deixaste pedaços de ti em minhas ilhas. Uma a uma.

Ancoraste a tua voluptuosidade nas ondas do meu corpo perverso.

O desejo impuro foi fisgado pelo o meu chamariz.

No lampejo dos sonhos afogo-me em teus furacões. Devassa, nefasta, impura, mundana na tua fruição.

As terras se dispersaram, o dia anoiteceu, a lua enclausurou o sol no meu paraíso. As nuvens carregadas do profano.

Relâmpagos e trovões do meu íntimo. Jorram-se águas dos mares infindos da nossa lascívia.

Universos  destruídos, nosso leito, meu mar no teu mar, fim do mundo!
313

Personificação

O sorriso escorre da lágrima perversa. A falta da carne lateja entre os dentes.

Na sobridez do calor. O corpo títere em tuas mãos, na leveza que o conduz, macias na pele. Pluma suave que cavalga minuciosamente nos tênues flancos.

A língua cálida, na saliva branda que banha os delírios pérfidos, derrama-se nas costas nua, despida de candura. Lampeja no silêncio e se esvai.

Nas ondas abscônditas, perdem-se vias e estradas, definham-se em avareza.

Nos olhos entreabertos, os sonhos ébrios estancam na saudade ofegante.

Na tez que dança, nos movimentos inconstantes, na fúria amotina, corrói caminhos e prumos sem rumos.

O vento embala e balança os cabelos que caem nos dedos, aglutina.

No dédalo de martírios, a imagem se transfigura, rostos se confundem, se encantam, se perdem no esplendor da euforia.

E na sinfonia do sussurro, o canto se dissipa em melodia.
300

Acabou

Nos olhos púrpuros que transfiguram a falência do abandono. Caídos, sem brio, mal acabados em saudades. Das lágrimas insólitas, que jorram a escassez do amor.

Somente de prantos sobrevivem!

Na fúria da falta, na falta constante. Na presença, que permeia o vão da solidão. Do sombrio, que a alma não mais preenche.

Ausência do elo perverso.

Remanejam-se sonhos, perdem-se os devaneios.

Do instante em que o coração trafega nos martírios incabíveis do impreenchível. Desfez a vida infinda no destino infiel.

As asas se partiram. O voo se tornou imperfeito.

A morte não é o fim da vida, que não mais a possui.
330

Perdida

O desejo imprudente que sobe nas vísceras. Ardente e obsceno; fugaz e sereno. Cobiça da pele que queima e ateia o juízo.

Da saudade perdida no meu refúgio e liberta da insensatez do teu sorriso. No grito cerrado, preso na garganta do meu silêncio.

Na voz que ensurdece, declínio da carne, se entrega, me entrego no eclipse da boca que enseja a língua travessa. E percorre o meu infinito afoito, envolto, dentro de nós, se desfazem os nós.

Imersa, submersa, na saliva que penetra no horizonte dos devaneios. Nas curvas tênues, sinuosas da aurora do meu domínio.

E com o corpo tece o meu ímpeto, costura, desenha, remodela o poente. É do teu sabor diluído por dentro, que se adentra, devora, derrama o clamor e embriaga a volúpia concisa, onde me perco na veemência dos teus lençóis.
312

Passou

A lágrima escorre na face, que lentamente contorna as feições enrubescidas.

O sangue caminha internamente! Devagar, tênue, na calmaria do mar traiçoeiro e quente como as ondas repentinas.

O som da água fustiga no corpo nu! Gotas de orvalho caem e se misturam.

Indolor...

A dor é a extensão. Gemelar!

No perfume exalado, do jasmim putrefaciente!

A boca que outrora emanava mel, carrega as rugas pertinentes da degradação.

O olhar habitado no semblante fez-se pequenino diante da solidez da angústia.

Do que era rijo e se desfez, vertia das entranhas!

A carne decruada!

E o tempo...

Migalhas perdidas, infindas, nada se refaz!

Não para, não, para!

Os sons imperceptíveis...

Que embalam os sonhos!

Nas diversidades do corpo e da alma

Acabou e passou

E tudo recomeça!
289

Reencontro

Recomeço de ilusões, punição da carne insolúvel. Diversas versões inebriadas em dor.

No medo que persegue a insensatez dos sonhos. Em tons suaves, minúcias dedilhadas na pele eriçada.

Desbravado em nus de almas. Somente sós!

Olhares desconexos se despem em versos.

No toque que arqueja o ar e tremula o desejo.

Em lágrima, exprime o cais do corpo. Marcas debruçadas, expressão perdida!

Em voos esplêndidos, na língua flutuante dentro de caminhos sinuosos.

No tempo que consome e some, adormece na antiga fadiga.
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Comentários (1)

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jrunder

Uma grata surpresa encontrar versos dotados de tanta poesia. Parabéns!