marinasatiro

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Naquele quarto

E o coração permanece conforme o quarto de antes.

À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.

A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.

O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.

O silêncio é absoluto!

Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.

O corpo permanece execrado em dor.

As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.

De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.

No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.

O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.

Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.

E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.

E a presença da falta, faz mais falta que antes.

E a dor que consome, dói mais que antes.

E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
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Poemas

30

Livros, apenas

Não desejo ver-te pelo ângulo de livros definhando nas prateleiras e nem na poeira enraizada nas mãos trêmulas.

Ainda não consigo ler-te!

O cheiro que traz vívida as lembranças de outrora. Pensamento enclausurado na ânsia do amargor.

Nas páginas folheadas, uma nova história. A mesma, a de sempre. Palavras que não descrevem a angústia indescritível. Nem Poe, Baudelaire, Neruda ou Shakespeare, meros apenas em sua própria arte, desdém dos sentimentos, apenas isto.

Não quero lembrar os momentos que apenas ficaram e fincaram. Nem ao menos sentir novamente o que já tomas demasiado e inexplicavelmente.

O toque é imortal e basta apenas enxergar o que os olhos jamais atingirão.

O caminhar das letras que se formam, na palavra ilegível que surge a cada delinear, no pulsar paulatinamente da carne que ouve Chopin, o mesmo, o de sempre, igual e diferente a cada noturno.

Não desejo ver-te! Não preciso lamentar-me!

Mas há pedaços em todos os cantos, em todos os contos, em todas as poesias, nas lágrimas de solidão e no coração dilacerado.
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Nenhum

Nada do amor, senão nos passos lentos de uma caminhada, dentro das curvas da memória.

Sonhos perdidos em veredas inalcançáveis.

Na brusca interjeição do voo do pássaro longíquo.

Na falta escalvada dos beijos enraizados na solidão da boca.

Onde se esconde o abraço da dor.

Em cada pulsar do peito faminto, em cores desbotadas no cerne da carne.

No fogo ateado de tarde no alvorecer.

Nada que o amor ao amor se complete. Nada senão abotoaduras desnudas, que nos versos de Neruda percorrem à brisa da tez.
322

Adágio fúnebre

Segue o cortejo no peito, como um adágio infinito.

Como encontrá-lo onde não mais caminhas?

Na estrada perdida, só há escuridão na imensidão do olhar. No soturno alento do desalento, desalinho entre os versos lúgubres de Albinoni.

Ofuscado! O perfume das rosas se esvaiu do sepulcro.

No tormento insolente, da embriaguez indecente, a cegueira da desilusão. Metade do coração! Nada mais que a carne petrificada.

Nas ruínas da ausência, a saudade se reconstrói, no martírio da súplica não atendida.

A canção perdeu a poesia mais bela! A alma não mais acampa na paixão!

No fim, da fotografia despedaçada, das palavras indescritíveis, dos amores inalcançáveis, onde mora a modéstia da angústia.

E no que dissipa os conceitos, preceitos, cai nas asas de voo intenso. Desenfreadas sem rumo, nas alças da solidão, preâmbulo do calabouço das inverdades não ditas.

E na lágrima insolúvel, rodopio da bailarina, vertigem do pensamento. Vai-se a desgraça abstrata, descabida, desprovida nas lamentações.

Na inconstância do que se perdura. Encanto! Onde se perdeu o espelho do vislumbre?
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Acabou

Nos olhos púrpuros que transfiguram a falência do abandono. Caídos, sem brio, mal acabados em saudades. Das lágrimas insólitas, que jorram a escassez do amor.

Somente de prantos sobrevivem!

Na fúria da falta, na falta constante. Na presença, que permeia o vão da solidão. Do sombrio, que a alma não mais preenche.

Ausência do elo perverso.

Remanejam-se sonhos, perdem-se os devaneios.

Do instante em que o coração trafega nos martírios incabíveis do impreenchível. Desfez a vida infinda no destino infiel.

As asas se partiram. O voo se tornou imperfeito.

A morte não é o fim da vida, que não mais a possui.
343

Perdoa-me

Perdoa-me pelo sorriso perdido, que ora se compõe nos lábios inesperadamente. Pelo riso não dado, fuga dos pensamentos hostis.

Pelo beijo que adormece o anseio, que como um raio inebria o inconsciente e padece na solidão da língua traiçoeira.

Perdoa-me pelas mãos que tocam e sentem e afagam e distorcem. Pelos dedos que acariciam, que prendem, envolvem e cessam o devaneio.

Pelo corpo que busca, objeto do prazer desmedido. Da carne impura, que sana a vontade da tua.

Perdoa-me pela saudade que esconde o breu da contemplação. No coração que desperta no gozo infindo.

Pelas manhãs arranhadas na desilusão dos sonhos.

Perdoa-me!

Só não perdoe o amor! Esse inconstante que tece no peito o desejo do olhar.
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Desespero

Porque me desfaleço em cada pensamento que elevo a ti. Nas pálidas paredes das lamentações.

A falta! Não há olhares, nem brios, não há vida.

O sofrimento acompanhado, em conjunto, junto à carne fúnebre.

Na música sem melodia, na voz que não mais alcança, na cegueira do ventre. Todos estão surdos!

A dor, extensão do âmago irreprimido.

A luxúria do devaneio futuro.

Acabou! Não há palavras, nem vento, não há sol.

O nada que preenche o coração vazio, cárcere de um corpo decomposto.

Na sublime decepção, na lágrima andarilha, na doença maldita.

Todos estão mortos!

A medicina, declínio que insurge.

A mentira vomitada no inferno.

Escondeu! Infimamente, a solidão dos muitos, incontida nas entrelinhas da face dilacerada.
335

Opostos

No que navega instintivamente! Os preceitos criados na memória da ilusão.

Visões distorcidas, absurdas. Verdades inerentes, incoerentes. As mentiras são mais sensatas e sempre foram.

Ah! O pensamento! Razões e emoções se perdem, completam, não há certo e errado.

Há vida na morte, sublime!

No que esvaiu exaustivamente! Os anseios perturbados na dor do olhar.

Releitura em lembranças tristes, incontidas. Lágrimas perduram e consolam, assolam e esbravejam, são as mesmas que caem sorrindo.

No amor! Saudoso e doentio, entende o delírio da fuga absurda, insensata.

Há um espelho, irreflexo!

Nos sonhos decorrentes, ilógicos, imprecisos. E num piscar o mundo acorda.
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Desalento

E na melancolia da dor, se estagna a saudade, não do que se foi, mas do que se eternizou no peito.

As lembranças não se apagam, mas se confundem numa fúnebre procissão dentro da memória. No incabível. Na solidão perene. Na insensatez do pranto. No arquejar sôfrego.

A lágrima que reaviva os sentidos, o pulsar que instiga o coração cansado. E o nada que perpetua e preenche indecente o amargor da inexistência.

E na ausência do beijo, na amnésia das palavras, no carinho contido, morre a sanidade.

Invenção que atordoa, demência dos devaneios perdidos.

No ímpeto da clemência, a angústia roga uma prece. Que de olhos marejados, se junte os pedaços, cansados de andar descalço.
329

Fim do mundo

Navegaste em minhas ilusões e acorrentaste as lamentações.

No suplício da tua angústia, desbravaste o meu mar.

Deixaste pedaços de ti em minhas ilhas. Uma a uma.

Ancoraste a tua voluptuosidade nas ondas do meu corpo perverso.

O desejo impuro foi fisgado pelo o meu chamariz.

No lampejo dos sonhos afogo-me em teus furacões. Devassa, nefasta, impura, mundana na tua fruição.

As terras se dispersaram, o dia anoiteceu, a lua enclausurou o sol no meu paraíso. As nuvens carregadas do profano.

Relâmpagos e trovões do meu íntimo. Jorram-se águas dos mares infindos da nossa lascívia.

Universos  destruídos, nosso leito, meu mar no teu mar, fim do mundo!
323

Tempo

E ela olhava pelo vão da janela com olhos desconhecidos.

No pensamento que se esvaía da mente.

O cheiro do perfume exalava de sua pele, aveludada.

Sob lágrimas exauridas, sublime face da tristeza vencida.

E ela findava, fixamente. Na saudade que confundia os martírios. As imagens debruçadas ao vento, levada pelo tempo perdido, o ar que não respira sozinho.

Perda dos sentidos. Desencanto perfeito da inesperança.

E ela gritava silenciosamente! E no clamor de sua alma, ápice do maior devaneio. Ninguém a ouvia, nem ela mesmo.

Amnésia das ilusões profundas. E no amargor da língua, na profusão do amor. No último pulsar.

E ela! Ela ainda menina, ainda perdida. Desconhece a si. A criança se desfez!
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Comentários (1)

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Uma grata surpresa encontrar versos dotados de tanta poesia. Parabéns!