Personificação
O sorriso escorre da lágrima perversa. A falta da carne lateja entre os dentes.
Na sobridez do calor. O corpo títere em tuas mãos, na leveza que o conduz, macias na pele. Pluma suave que cavalga minuciosamente nos tênues flancos.
A língua cálida, na saliva branda que banha os delírios pérfidos, derrama-se nas costas nua, despida de candura. Lampeja no silêncio e se esvai.
Nas ondas abscônditas, perdem-se vias e estradas, definham-se em avareza.
Nos olhos entreabertos, os sonhos ébrios estancam na saudade ofegante.
Na tez que dança, nos movimentos inconstantes, na fúria amotina, corrói caminhos e prumos sem rumos.
O vento embala e balança os cabelos que caem nos dedos, aglutina.
No dédalo de martírios, a imagem se transfigura, rostos se confundem, se encantam, se perdem no esplendor da euforia.
E na sinfonia do sussurro, o canto se dissipa em melodia.
Assimetrias
Nos olhos, cinzas!
Na imensidão do olhar sob as nuvens.
A gota que cai, o sangue escorre.
Da voz arquejada!
Na pele que ainda sente...
O toque da dor exaustiva.
A vela apaga.
Reacende!
As marcas permanecem.
Em prece, o mundo desaparece.
Das cores finitas, daltonismo da alma.
Discordância da vida cansativa
E não se move, pensamento fatigado.
No coração que bate, sentido.
Na razão do que não é.
Do ser que não existiu.
Recomeço e queda na mesma dimensão.
Imersão!
Acabou e apenas começou!
Somente
E na saudade se instaura a dor.
A desmedida solidão arrasa n'alma da mesma forma que o toque inebria o corpo. O que resta são fragmentos de pensamento, nos devaneios que torturam a mente.
Nas mãos que imploram pela carícia tenra na tez. A firmeza em que tomas a carne. A perversa lamúria da insensatez.
O beijo que arrasta mares, oceanos. Entre ondas de salivas, na língua que declama a poesia mais pura e ao mesmo instante percorre todos os instintos.
Os cabelos emaranhados caem nas costas e atravessam os dedos que se agarram.
Nas curvas sinuosas do desejo, movimentos impetuosos, dislexia de prazer.
O contorno das formas, à sombra da perfeição mais imperfeita.
Em suores que se misturam, num banho náufrago de perdição.
Na esquizofrenia da vida, se perdem caminhos...
... Obscuros, malditos, soturnos. Bastam-se!
Soturno
E quando o olhar se torna impenetrável. No que foi dominado pela letargia.
Na lucidez desmoronada.
Nas mãos intocáveis, abstinência do zelo incompreensível.
Nas asas corroídas, no voo imperfeito.
Do medo da fé perdida.
E das constelações lúgrubes que escorrem das lágrimas imprecisas.
Na dor interminável que dispersa na morte incontida.
No tempo etéreo, que passa despercebido.
Do sangue que queima, rasga a malha sem vida. Do corpo que carrega a existência. Dos lábios que desconhecem o beijo.
E não precisa falar das rosas, elas já murcharam. Perderam o viço.
A solidão acompanhada da penúria.
Na penumbra do dia que perdeu a manhã. Da noite que não amanhece. Estagnado!
Das luas e sóis que se passaram no toque.
E na música que toca, que sorva, destrói pensamentos, arrasa sinfonias, descama orquestras e finda na melodia do alento.
Nenhum
Nada do amor, senão nos passos lentos de uma caminhada, dentro das curvas da memória.
Sonhos perdidos em veredas inalcançáveis.
Na brusca interjeição do voo do pássaro longíquo.
Na falta escalvada dos beijos enraizados na solidão da boca.
Onde se esconde o abraço da dor.
Em cada pulsar do peito faminto, em cores desbotadas no cerne da carne.
No fogo ateado de tarde no alvorecer.
Nada que o amor ao amor se complete. Nada senão abotoaduras desnudas, que nos versos de Neruda percorrem à brisa da tez.
Opostos
No que navega instintivamente! Os preceitos criados na memória da ilusão.
Visões distorcidas, absurdas. Verdades inerentes, incoerentes. As mentiras são mais sensatas e sempre foram.
Ah! O pensamento! Razões e emoções se perdem, completam, não há certo e errado.
Há vida na morte, sublime!
No que esvaiu exaustivamente! Os anseios perturbados na dor do olhar.
Releitura em lembranças tristes, incontidas. Lágrimas perduram e consolam, assolam e esbravejam, são as mesmas que caem sorrindo.
No amor! Saudoso e doentio, entende o delírio da fuga absurda, insensata.
Há um espelho, irreflexo!
Nos sonhos decorrentes, ilógicos, imprecisos. E num piscar o mundo acorda.
Desalento
E na melancolia da dor, se estagna a saudade, não do que se foi, mas do que se eternizou no peito.
As lembranças não se apagam, mas se confundem numa fúnebre procissão dentro da memória. No incabível. Na solidão perene. Na insensatez do pranto. No arquejar sôfrego.
A lágrima que reaviva os sentidos, o pulsar que instiga o coração cansado. E o nada que perpetua e preenche indecente o amargor da inexistência.
E na ausência do beijo, na amnésia das palavras, no carinho contido, morre a sanidade.
Invenção que atordoa, demência dos devaneios perdidos.
No ímpeto da clemência, a angústia roga uma prece. Que de olhos marejados, se junte os pedaços, cansados de andar descalço.
Desespero
Porque me desfaleço em cada pensamento que elevo a ti. Nas pálidas paredes das lamentações.
A falta! Não há olhares, nem brios, não há vida.
O sofrimento acompanhado, em conjunto, junto à carne fúnebre.
Na música sem melodia, na voz que não mais alcança, na cegueira do ventre. Todos estão surdos!
A dor, extensão do âmago irreprimido.
A luxúria do devaneio futuro.
Acabou! Não há palavras, nem vento, não há sol.
O nada que preenche o coração vazio, cárcere de um corpo decomposto.
Na sublime decepção, na lágrima andarilha, na doença maldita.
Todos estão mortos!
A medicina, declínio que insurge.
A mentira vomitada no inferno.
Escondeu! Infimamente, a solidão dos muitos, incontida nas entrelinhas da face dilacerada.
Incrédula
E ela rezou com todo o fervor de sua alma.
Clamou o mais alto que sua voz poderia alcançar.
Mas não sabia que a fé era ineficiente.
Foram muitas e tantas orações milagrosas, mas que perderam o valor diante à insensatez da vida.
Ninguém ouviu a sua súplica!
E ela chorou com todo o ardor que irradiava o seu ventre.
Mas as lágrimas não acalmavam o coração.
E foram muitas e tantas, mas que desfaleceram-se diante o desgosto da vida.
Ninguém enxergava o seu pranto!
A devoção remota ainda era a única salvação de suas forças.
Mas a esperança já a estrangulara.
Nesse tempo, as valsas de Tchaikovsky se apagaram, Neruda perdeu seus versos, a tragédia nunca pertenceu à Ésquilo e todas as flores amaldiçoadas por Baudelaire eram as únicas que exalavam o buquê resplandescente.
Diante do precipício, nem Deus, nem fé, nem esperança e nem devoção.
Era somente ela e sua dor.
E assim segue o cortejo!
Adágio fúnebre
Segue o cortejo no peito, como um adágio infinito.
Como encontrá-lo onde não mais caminhas?
Na estrada perdida, só há escuridão na imensidão do olhar. No soturno alento do desalento, desalinho entre os versos lúgubres de Albinoni.
Ofuscado! O perfume das rosas se esvaiu do sepulcro.
No tormento insolente, da embriaguez indecente, a cegueira da desilusão. Metade do coração! Nada mais que a carne petrificada.
Nas ruínas da ausência, a saudade se reconstrói, no martírio da súplica não atendida.
A canção perdeu a poesia mais bela! A alma não mais acampa na paixão!
No fim, da fotografia despedaçada, das palavras indescritíveis, dos amores inalcançáveis, onde mora a modéstia da angústia.
E no que dissipa os conceitos, preceitos, cai nas asas de voo intenso. Desenfreadas sem rumo, nas alças da solidão, preâmbulo do calabouço das inverdades não ditas.
E na lágrima insolúvel, rodopio da bailarina, vertigem do pensamento. Vai-se a desgraça abstrata, descabida, desprovida nas lamentações.
Na inconstância do que se perdura. Encanto! Onde se perdeu o espelho do vislumbre?