Opostos
No que navega instintivamente! Os preceitos criados na memória da ilusão.
Visões distorcidas, absurdas. Verdades inerentes, incoerentes. As mentiras são mais sensatas e sempre foram.
Ah! O pensamento! Razões e emoções se perdem, completam, não há certo e errado.
Há vida na morte, sublime!
No que esvaiu exaustivamente! Os anseios perturbados na dor do olhar.
Releitura em lembranças tristes, incontidas. Lágrimas perduram e consolam, assolam e esbravejam, são as mesmas que caem sorrindo.
No amor! Saudoso e doentio, entende o delírio da fuga absurda, insensata.
Há um espelho, irreflexo!
Nos sonhos decorrentes, ilógicos, imprecisos. E num piscar o mundo acorda.
1940
Nos olhos de antes, profundos e oriundos de toda a pureza exaltada. Morada de pores de sóis eternos e longínquos.
Como a tempestade que devasta terras e ares, deixa nua a carne, provoca a fúria dos mares e marés, afogando todos os vestígios.
No olhar que a soberba morre e o orgulho se envaidece. Distante, perdido, perverso. Triste!
Na decadência estarrecida, num simples passo da bailarina. Enlace de uma vida retida...
E o passado passou, mas tudo ficou.
Como a árvore avita, enraizada no solo, que ainda exala o cheiro da terra molhada.
Na lágrima que cai, continuamente.
No sorriso, decaiu a armadura. Máscaras engessadas sob o viés solitário. Diversas facetas em uma única face.
Do ontem adormecido no hoje, restam apenas as sombras para o amanhã enfurecido.
Visões
A solidão aprisionada nas têmporas do desejo. Submerso na acidez do mar. Revolto!
Cachos que deslizam, dançam, na tez úmida. Dedos que enlaçam, cerram, na fria brisa da neblina.
De tempestades e trovões que ensejam, impregnados no deleite.
Retranca nas ancas aveludadas, teso. No contorcionismo das cores. Embriaga-se nas cataratas da língua, lânguida, lábil.
Na firmeza do toque, na saliência dos pelos. Luz que chama, clama, no choque da carne.
Da chuva no corpo, literal. Somente! No sal escorre o sabor do cálice, fonte inesgotável.
Na rigidez contínua, desfigura, absorto. Cárcere maldito, preciso, inconsequente. E no canto que ameniza, revela-se o ápice mor.
Acabou
Nos olhos púrpuros que transfiguram a falência do abandono. Caídos, sem brio, mal acabados em saudades. Das lágrimas insólitas, que jorram a escassez do amor.
Somente de prantos sobrevivem!
Na fúria da falta, na falta constante. Na presença, que permeia o vão da solidão. Do sombrio, que a alma não mais preenche.
Ausência do elo perverso.
Remanejam-se sonhos, perdem-se os devaneios.
Do instante em que o coração trafega nos martírios incabíveis do impreenchível. Desfez a vida infinda no destino infiel.
As asas se partiram. O voo se tornou imperfeito.
A morte não é o fim da vida, que não mais a possui.
Perdida
O desejo imprudente que sobe nas vísceras. Ardente e obsceno; fugaz e sereno. Cobiça da pele que queima e ateia o juízo.
Da saudade perdida no meu refúgio e liberta da insensatez do teu sorriso. No grito cerrado, preso na garganta do meu silêncio.
Na voz que ensurdece, declínio da carne, se entrega, me entrego no eclipse da boca que enseja a língua travessa. E percorre o meu infinito afoito, envolto, dentro de nós, se desfazem os nós.
Imersa, submersa, na saliva que penetra no horizonte dos devaneios. Nas curvas tênues, sinuosas da aurora do meu domínio.
E com o corpo tece o meu ímpeto, costura, desenha, remodela o poente. É do teu sabor diluído por dentro, que se adentra, devora, derrama o clamor e embriaga a volúpia concisa, onde me perco na veemência dos teus lençóis.
Desalento
E na melancolia da dor, se estagna a saudade, não do que se foi, mas do que se eternizou no peito.
As lembranças não se apagam, mas se confundem numa fúnebre procissão dentro da memória. No incabível. Na solidão perene. Na insensatez do pranto. No arquejar sôfrego.
A lágrima que reaviva os sentidos, o pulsar que instiga o coração cansado. E o nada que perpetua e preenche indecente o amargor da inexistência.
E na ausência do beijo, na amnésia das palavras, no carinho contido, morre a sanidade.
Invenção que atordoa, demência dos devaneios perdidos.
No ímpeto da clemência, a angústia roga uma prece. Que de olhos marejados, se junte os pedaços, cansados de andar descalço.
Personificação
O sorriso escorre da lágrima perversa. A falta da carne lateja entre os dentes.
Na sobridez do calor. O corpo títere em tuas mãos, na leveza que o conduz, macias na pele. Pluma suave que cavalga minuciosamente nos tênues flancos.
A língua cálida, na saliva branda que banha os delírios pérfidos, derrama-se nas costas nua, despida de candura. Lampeja no silêncio e se esvai.
Nas ondas abscônditas, perdem-se vias e estradas, definham-se em avareza.
Nos olhos entreabertos, os sonhos ébrios estancam na saudade ofegante.
Na tez que dança, nos movimentos inconstantes, na fúria amotina, corrói caminhos e prumos sem rumos.
O vento embala e balança os cabelos que caem nos dedos, aglutina.
No dédalo de martírios, a imagem se transfigura, rostos se confundem, se encantam, se perdem no esplendor da euforia.
E na sinfonia do sussurro, o canto se dissipa em melodia.
Somente
E na saudade se instaura a dor.
A desmedida solidão arrasa n'alma da mesma forma que o toque inebria o corpo. O que resta são fragmentos de pensamento, nos devaneios que torturam a mente.
Nas mãos que imploram pela carícia tenra na tez. A firmeza em que tomas a carne. A perversa lamúria da insensatez.
O beijo que arrasta mares, oceanos. Entre ondas de salivas, na língua que declama a poesia mais pura e ao mesmo instante percorre todos os instintos.
Os cabelos emaranhados caem nas costas e atravessam os dedos que se agarram.
Nas curvas sinuosas do desejo, movimentos impetuosos, dislexia de prazer.
O contorno das formas, à sombra da perfeição mais imperfeita.
Em suores que se misturam, num banho náufrago de perdição.
Na esquizofrenia da vida, se perdem caminhos...
... Obscuros, malditos, soturnos. Bastam-se!
Perdoa-me
Perdoa-me pelo sorriso perdido, que ora se compõe nos lábios inesperadamente. Pelo riso não dado, fuga dos pensamentos hostis.
Pelo beijo que adormece o anseio, que como um raio inebria o inconsciente e padece na solidão da língua traiçoeira.
Perdoa-me pelas mãos que tocam e sentem e afagam e distorcem. Pelos dedos que acariciam, que prendem, envolvem e cessam o devaneio.
Pelo corpo que busca, objeto do prazer desmedido. Da carne impura, que sana a vontade da tua.
Perdoa-me pela saudade que esconde o breu da contemplação. No coração que desperta no gozo infindo.
Pelas manhãs arranhadas na desilusão dos sonhos.
Perdoa-me!
Só não perdoe o amor! Esse inconstante que tece no peito o desejo do olhar.
Reencontro
Recomeço de ilusões, punição da carne insolúvel. Diversas versões inebriadas em dor.
No medo que persegue a insensatez dos sonhos. Em tons suaves, minúcias dedilhadas na pele eriçada.
Desbravado em nus de almas. Somente sós!
Olhares desconexos se despem em versos.
No toque que arqueja o ar e tremula o desejo.
Em lágrima, exprime o cais do corpo. Marcas debruçadas, expressão perdida!
Em voos esplêndidos, na língua flutuante dentro de caminhos sinuosos.
No tempo que consome e some, adormece na antiga fadiga.