marinasatiro

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Naquele quarto

E o coração permanece conforme o quarto de antes.

À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.

A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.

O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.

O silêncio é absoluto!

Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.

O corpo permanece execrado em dor.

As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.

De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.

No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.

O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.

Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.

E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.

E a presença da falta, faz mais falta que antes.

E a dor que consome, dói mais que antes.

E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
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Poemas

30

Incrédula

E ela rezou com todo o fervor de sua alma.

Clamou o mais alto que sua voz poderia alcançar.

Mas não sabia que a fé era ineficiente.

Foram muitas e tantas orações milagrosas, mas que perderam o valor diante à insensatez da vida.

Ninguém ouviu a sua súplica!

E ela chorou com todo o ardor que irradiava o seu ventre.

Mas as lágrimas não acalmavam o coração.

E foram muitas e tantas, mas que desfaleceram-se diante o desgosto da vida.

Ninguém enxergava o seu pranto!

A devoção remota ainda era a única salvação de suas forças.

Mas a esperança já a estrangulara.

Nesse tempo, as valsas de Tchaikovsky se apagaram, Neruda perdeu seus versos, a tragédia nunca pertenceu à Ésquilo e todas as flores amaldiçoadas por Baudelaire eram as únicas que exalavam o buquê resplandescente.

Diante do precipício, nem Deus, nem fé, nem esperança e nem devoção.

Era somente ela e sua dor.

E assim segue o cortejo!
313

Desespero

Porque me desfaleço em cada pensamento que elevo a ti. Nas pálidas paredes das lamentações.

A falta! Não há olhares, nem brios, não há vida.

O sofrimento acompanhado, em conjunto, junto à carne fúnebre.

Na música sem melodia, na voz que não mais alcança, na cegueira do ventre. Todos estão surdos!

A dor, extensão do âmago irreprimido.

A luxúria do devaneio futuro.

Acabou! Não há palavras, nem vento, não há sol.

O nada que preenche o coração vazio, cárcere de um corpo decomposto.

Na sublime decepção, na lágrima andarilha, na doença maldita.

Todos estão mortos!

A medicina, declínio que insurge.

A mentira vomitada no inferno.

Escondeu! Infimamente, a solidão dos muitos, incontida nas entrelinhas da face dilacerada.
340

Liberdade

Podes escrever os mais belos versos esta noite, mas os meus certamente serão os mais tristes.

Na riqueza da alma, nasceu um oceano de amarguras.

E autoproclamo a angústia a fiel e mais imperfeita das piedades.

De palavras fervorosas fiz um mundo e no mundo vi um espelho, no espelho o meu submundo.

No clamor havia a súplica, tal qual era o desejo.

Do meu corpo belicoso, vive o mar de fronteiras e caminhos. Dissolutos!

Em olhares sombrios construí uma muralha, onde cinzas do sangue derramado sobrepujam a razão perdida.

E no singular mais que plural me fiz exígua de mim.

Libertei-me!
337

Quisera

Quisera eu fazer abrigo das angústias que preambulam os pensamentos. No patamar das dores invencíveis à vida. Dos tempos remotos de uma distância infinita. Gracejo da morte.

Pudera eu sorrir nas consternações intermináveis. O sonho desiludido perdido no ventre. Nas vicissitudes das buscas internamente perenes. Sangue arquejado.

Quisera no olhar sombrio, escarnar a lágrima  do refúgio inerte. Nos braços que embalam o nada preso no peito. Do que não desprende e guarda os anseios.

Pudera ao chorar, rezar em silêncio. Nas mãos trêmulas, onde os dedos se aninham. No sofrimento incessante maior que o domínio. Na felicidade triste de um reencontro, que se enclausura n'alma.
299

Nenhum

Nada do amor, senão nos passos lentos de uma caminhada, dentro das curvas da memória.

Sonhos perdidos em veredas inalcançáveis.

Na brusca interjeição do voo do pássaro longíquo.

Na falta escalvada dos beijos enraizados na solidão da boca.

Onde se esconde o abraço da dor.

Em cada pulsar do peito faminto, em cores desbotadas no cerne da carne.

No fogo ateado de tarde no alvorecer.

Nada que o amor ao amor se complete. Nada senão abotoaduras desnudas, que nos versos de Neruda percorrem à brisa da tez.
322

Perdida

O desejo imprudente que sobe nas vísceras. Ardente e obsceno; fugaz e sereno. Cobiça da pele que queima e ateia o juízo.

Da saudade perdida no meu refúgio e liberta da insensatez do teu sorriso. No grito cerrado, preso na garganta do meu silêncio.

Na voz que ensurdece, declínio da carne, se entrega, me entrego no eclipse da boca que enseja a língua travessa. E percorre o meu infinito afoito, envolto, dentro de nós, se desfazem os nós.

Imersa, submersa, na saliva que penetra no horizonte dos devaneios. Nas curvas tênues, sinuosas da aurora do meu domínio.

E com o corpo tece o meu ímpeto, costura, desenha, remodela o poente. É do teu sabor diluído por dentro, que se adentra, devora, derrama o clamor e embriaga a volúpia concisa, onde me perco na veemência dos teus lençóis.
325

Perdoa-me

Perdoa-me pelo sorriso perdido, que ora se compõe nos lábios inesperadamente. Pelo riso não dado, fuga dos pensamentos hostis.

Pelo beijo que adormece o anseio, que como um raio inebria o inconsciente e padece na solidão da língua traiçoeira.

Perdoa-me pelas mãos que tocam e sentem e afagam e distorcem. Pelos dedos que acariciam, que prendem, envolvem e cessam o devaneio.

Pelo corpo que busca, objeto do prazer desmedido. Da carne impura, que sana a vontade da tua.

Perdoa-me pela saudade que esconde o breu da contemplação. No coração que desperta no gozo infindo.

Pelas manhãs arranhadas na desilusão dos sonhos.

Perdoa-me!

Só não perdoe o amor! Esse inconstante que tece no peito o desejo do olhar.
328

Momento

Da janela de visão contorcida, enquanto se enchem os lençóis.

No pensamento devastador!

A árvore embala as folhas, mas não saem do lugar. No contorno do céu sombrio, de ventos tenros e nuvens secas.

Nada mudou! O clamor da súplica, os versos da poesia, as ilações da solidão.

Estagnou no mundo que não passou!

A dor que preenche, até o vazio inabitável. Na escuridão da manhã, que segue o olhar marejado.

O poeta que carrega e deixa os versos em lágrimas.

No luar apagado em cortes e da luz longínqua que abarroa o cenário intenso.

Nos movimentos sinuosos inalterantes dos sentidos.

Ao som diáfono de um Neruda desconhecido, onde o corpo se aninha sem abrigo.

Em ópera do amor total, desfalece em prece inconstante.
366

Carmenere

Posso degustar do vinho que bebes, e embriagar-me nos taninos do teu beijo.

Passam-se noites e luas e sóis, no carmenere que escorre por dentro. E no gole do desejo, à meia taça, às costas nuas, delicada como a seda transparente.

Na limpidez dos dedos, o toque que traspassa...

Na nuca dedilha adágios e compõe melodias, desce no dorso levemente, harmoniza versos em poesias, estrutura do corpo na pele.

Flui e juntamente inebria o véu do íntimo.

Pulsa no peito o que esvai das entranhas.

E goteja na tez, sublime!

E no enredo de nós, tecem caminhos e abrem-se mares.

Na taça que finaliza e se finda o pensamento exaurido.
376

Personificação

O sorriso escorre da lágrima perversa. A falta da carne lateja entre os dentes.

Na sobridez do calor. O corpo títere em tuas mãos, na leveza que o conduz, macias na pele. Pluma suave que cavalga minuciosamente nos tênues flancos.

A língua cálida, na saliva branda que banha os delírios pérfidos, derrama-se nas costas nua, despida de candura. Lampeja no silêncio e se esvai.

Nas ondas abscônditas, perdem-se vias e estradas, definham-se em avareza.

Nos olhos entreabertos, os sonhos ébrios estancam na saudade ofegante.

Na tez que dança, nos movimentos inconstantes, na fúria amotina, corrói caminhos e prumos sem rumos.

O vento embala e balança os cabelos que caem nos dedos, aglutina.

No dédalo de martírios, a imagem se transfigura, rostos se confundem, se encantam, se perdem no esplendor da euforia.

E na sinfonia do sussurro, o canto se dissipa em melodia.
310

Comentários (1)

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Uma grata surpresa encontrar versos dotados de tanta poesia. Parabéns!