marinasatiro

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Naquele quarto

E o coração permanece conforme o quarto de antes.

À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.

A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.

O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.

O silêncio é absoluto!

Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.

O corpo permanece execrado em dor.

As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.

De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.

No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.

O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.

Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.

E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.

E a presença da falta, faz mais falta que antes.

E a dor que consome, dói mais que antes.

E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
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Poemas

30

Visões

A solidão aprisionada nas têmporas do desejo. Submerso na acidez do mar. Revolto!

Cachos que deslizam, dançam, na tez úmida. Dedos que enlaçam, cerram, na fria brisa da neblina.

De tempestades e trovões que ensejam, impregnados no deleite.

Retranca nas ancas aveludadas, teso. No contorcionismo das cores. Embriaga-se nas cataratas da língua, lânguida, lábil.

Na firmeza do toque, na saliência dos pelos. Luz que chama, clama, no choque da carne.

Da chuva no corpo, literal. Somente! No sal escorre o sabor do cálice, fonte inesgotável.

Na rigidez contínua, desfigura, absorto. Cárcere maldito, preciso, inconsequente. E no canto que ameniza, revela-se o ápice mor.
264

Apenas uma valsa

Há muitos anos, em ares remotos! Tão pequenina e indefesa. Ele conduziu a primeira valsa. A inocência perdurava na pureza da criança com ar de Cinderela com o seu príncipe. Mal escrevia os primeiros versos ou falava com a coerência de um ser.

Tempos mais tarde, na transição da semente em flor, onde os desejos foram aguçados pelo encantamento. Ainda pequena em teus braços, mas firme a bailar no teu ensejo. Nos olhares que se cruzavam e revelavam a impotência na adolescente persistente. Na delicadeza da música, no tom suave da tua mão ao conduzir os passos da vida adulta. A conclusão dos ensinos, lhe trouxe mais um passo, mal sabia que seria o último. Foi o mais intenso. Os sorrisos figurados, revelavam o fim de mais um capítulo, onde iniciaria de vez a caminhada com passos próprios.

As decisões, as eventuais dúvidas, se perduram na mente infantil. Passaram  muitos danúbios azuis, ou pretos, cisnes de todos os lagos envelheceram e as flores murcharam na valsa que não mais valseia.

O ciclo se encerra e o que resta são adágios e noturnos, que se transfiguram na angústia infinda da dor.

O vestido rasgou, o salto quebrou, o batom borrou, os cabelos se emaranharam num rosto sem olhares.

A rosa que havia brotado se encheu de espinhos e atiçam a si por várias e muitas vezes, mas se tornou imune a dor.

N'alma esbagaçada aprendeu a suportar o maltrato físico.

Seria Sbelius ou Vivaldi? No ensejo de uma valsa triste ou nas estações já inerentes? De Baudelaire a Rimbaud. O ballet perdeu o classicismo, no mesmo instante que a poesia desencantou do lirismo.

Era para ser a última, a única! Os olhos fecham e refletem o devaneio inalcançável. E se esvai!

Em passos de valsa, em lágrimas soberbas, na solidão que valseja no coração inerte.
301

Reencontro

Recomeço de ilusões, punição da carne insolúvel. Diversas versões inebriadas em dor.

No medo que persegue a insensatez dos sonhos. Em tons suaves, minúcias dedilhadas na pele eriçada.

Desbravado em nus de almas. Somente sós!

Olhares desconexos se despem em versos.

No toque que arqueja o ar e tremula o desejo.

Em lágrima, exprime o cais do corpo. Marcas debruçadas, expressão perdida!

Em voos esplêndidos, na língua flutuante dentro de caminhos sinuosos.

No tempo que consome e some, adormece na antiga fadiga.
308

Quisera

Quisera eu fazer abrigo das angústias que preambulam os pensamentos. No patamar das dores invencíveis à vida. Dos tempos remotos de uma distância infinita. Gracejo da morte.

Pudera eu sorrir nas consternações intermináveis. O sonho desiludido perdido no ventre. Nas vicissitudes das buscas internamente perenes. Sangue arquejado.

Quisera no olhar sombrio, escarnar a lágrima  do refúgio inerte. Nos braços que embalam o nada preso no peito. Do que não desprende e guarda os anseios.

Pudera ao chorar, rezar em silêncio. Nas mãos trêmulas, onde os dedos se aninham. No sofrimento incessante maior que o domínio. Na felicidade triste de um reencontro, que se enclausura n'alma.
297

Personificação

O sorriso escorre da lágrima perversa. A falta da carne lateja entre os dentes.

Na sobridez do calor. O corpo títere em tuas mãos, na leveza que o conduz, macias na pele. Pluma suave que cavalga minuciosamente nos tênues flancos.

A língua cálida, na saliva branda que banha os delírios pérfidos, derrama-se nas costas nua, despida de candura. Lampeja no silêncio e se esvai.

Nas ondas abscônditas, perdem-se vias e estradas, definham-se em avareza.

Nos olhos entreabertos, os sonhos ébrios estancam na saudade ofegante.

Na tez que dança, nos movimentos inconstantes, na fúria amotina, corrói caminhos e prumos sem rumos.

O vento embala e balança os cabelos que caem nos dedos, aglutina.

No dédalo de martírios, a imagem se transfigura, rostos se confundem, se encantam, se perdem no esplendor da euforia.

E na sinfonia do sussurro, o canto se dissipa em melodia.
309

Saudade

Hoje há mais dor na minha angústia; há mais solidão na minha saudade; há mais amor do que possa carregar.

Hoje o passado se revigora, o sentimento não cria forças e rouba a minha esperança. O coração partido carrega o que tanto martiriza. O corpo sobrevive da sensação de te ter como abrigo.

Hoje o sonho se distancia da realidade, a lembrança se apossa da fraqueza e torna o meu mundo mais solitário.

Sem sentir a lágrima torna à face, como súplica do tudo que foi tirado.

As palavras fogem perante o aperto e o ontem se tornou o presente mais doído.

Hoje há mais escuridão no meu olhar; há mais tristeza na minha decadência; há mais imagens do que minha mente possa aguentar.

Hoje o teu infinito permanece em mim; o teu amor se instaurou no peito e a tua voz tilinta em meu pensamento.

Hoje é o fim da minha estrada, mas meu caminho segue os teus passos, silenciosamente.

É o início da luta constante, com tudo o que faz arder na alma. O teu olhar, o teu sorriso, as tuas maiores lições, findaram em tudo que me compõe.

Hoje há mais angústia na minha dor; há mais saudade na minha solidão e há mais do ontem do que consiga suportar.
304

Segredo

A saudade invadiu o escondido, onde os olhos penetram marejados.

A mão que percorre sozinha o corpo, calejada se esvai.

A mente que traz na lembrança a doçura do beijo tentador. O mel escorre no fel da boca.

O vinho do sangue derramado nas curvas, estala na língua atraente. Perdeu-se no último suspiro, no ar que respira ofegante no ouvido, suave, descrente.

Lateja nas entranhas, o gozo irracional, no suor do crepúsculo, que goteja ao anoitecer. A carne que desliza nos dedos, na firmeza do toque, no que prende, repreende, repuxa.

Nos cabelos emaranhados, na saliva obscena, afogada na angústia.

No ímpeto que viaja, embriagada. Sufoca!

No pensamento que maltrata.

No calor da tua sombra, no brilho do olhar insano, lascivo dentro do que preenche.

No arrepio que cai na pele perspicaz.

No que acompanha cada detalhe, nos sentidos que aguçam o pecado engasgado no mistério.

No que faz derramar sagazmente, na chuva inóspita dentro de mim.

Naquilo que a fraqueza não apaga. E novamente o beijo! Ah! O beijo que enclausura alheiamente. Sem querer, forçadamente!

E toma, me tomas, nos tomamos! E na língua se proclama o veneno que alimenta, desnuda, sobrevive!

No sal que mata a sede. No silêncio que declara. E no que retrai, traz vida, incansavelmente!
316

Perdida

O desejo imprudente que sobe nas vísceras. Ardente e obsceno; fugaz e sereno. Cobiça da pele que queima e ateia o juízo.

Da saudade perdida no meu refúgio e liberta da insensatez do teu sorriso. No grito cerrado, preso na garganta do meu silêncio.

Na voz que ensurdece, declínio da carne, se entrega, me entrego no eclipse da boca que enseja a língua travessa. E percorre o meu infinito afoito, envolto, dentro de nós, se desfazem os nós.

Imersa, submersa, na saliva que penetra no horizonte dos devaneios. Nas curvas tênues, sinuosas da aurora do meu domínio.

E com o corpo tece o meu ímpeto, costura, desenha, remodela o poente. É do teu sabor diluído por dentro, que se adentra, devora, derrama o clamor e embriaga a volúpia concisa, onde me perco na veemência dos teus lençóis.
322

Lápide

Sob a solidão do sepulcro, de folhas secas e mortas.

O vazio das vozes surdas.

Na chama apagada da vela petrificada. Sombras de vultos arquejados no olhar sôfrego e contido.

De joelhos dobrados num pranto regado de martírio. Júbilo da escassez da vida!

A flor perene que cresce na morte, graceja da dor alheia. Covarde carne que sova o amor.

Segredos escusos na própria alma. No choro perverso, que destrói o olhar sem brio.

O abrigo desgraçado que restou da infâmia. Rastejo da incoerência.

Palavras ofuscadas pela visão já distorcida.

Pensamento que aos poucos se esvai. Temerosos ao esquecimento.

Lamento do tempo que contorce as ilusões.

Onde a tristeza fez morada, o cortejo segue etéreo.
332

Assimetrias

Nos olhos, cinzas!

Na imensidão do olhar sob as nuvens.

A gota que cai, o sangue escorre.

Da voz arquejada!

Na pele que ainda sente...

O toque da dor exaustiva.

A vela apaga.
Reacende!

As marcas permanecem.

Em prece, o mundo desaparece.

Das cores finitas, daltonismo da alma.

Discordância da vida cansativa

E não se move, pensamento fatigado.

No coração que bate, sentido.

Na razão do que não é.

Do ser que não existiu.

Recomeço e queda na mesma dimensão.

Imersão!

Acabou e apenas começou!
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Comentários (1)

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Uma grata surpresa encontrar versos dotados de tanta poesia. Parabéns!