Tempo
E ela olhava pelo vão da janela com olhos desconhecidos.
No pensamento que se esvaía da mente.
O cheiro do perfume exalava de sua pele, aveludada.
Sob lágrimas exauridas, sublime face da tristeza vencida.
E ela findava, fixamente. Na saudade que confundia os martírios. As imagens debruçadas ao vento, levada pelo tempo perdido, o ar que não respira sozinho.
Perda dos sentidos. Desencanto perfeito da inesperança.
E ela gritava silenciosamente! E no clamor de sua alma, ápice do maior devaneio. Ninguém a ouvia, nem ela mesmo.
Amnésia das ilusões profundas. E no amargor da língua, na profusão do amor. No último pulsar.
E ela! Ela ainda menina, ainda perdida. Desconhece a si. A criança se desfez!
Nenhum
Nada do amor, senão nos passos lentos de uma caminhada, dentro das curvas da memória.
Sonhos perdidos em veredas inalcançáveis.
Na brusca interjeição do voo do pássaro longíquo.
Na falta escalvada dos beijos enraizados na solidão da boca.
Onde se esconde o abraço da dor.
Em cada pulsar do peito faminto, em cores desbotadas no cerne da carne.
No fogo ateado de tarde no alvorecer.
Nada que o amor ao amor se complete. Nada senão abotoaduras desnudas, que nos versos de Neruda percorrem à brisa da tez.
Momento
Da janela de visão contorcida, enquanto se enchem os lençóis.
No pensamento devastador!
A árvore embala as folhas, mas não saem do lugar. No contorno do céu sombrio, de ventos tenros e nuvens secas.
Nada mudou! O clamor da súplica, os versos da poesia, as ilações da solidão.
Estagnou no mundo que não passou!
A dor que preenche, até o vazio inabitável. Na escuridão da manhã, que segue o olhar marejado.
O poeta que carrega e deixa os versos em lágrimas.
No luar apagado em cortes e da luz longínqua que abarroa o cenário intenso.
Nos movimentos sinuosos inalterantes dos sentidos.
Ao som diáfono de um Neruda desconhecido, onde o corpo se aninha sem abrigo.
Em ópera do amor total, desfalece em prece inconstante.
Liberdade
Podes escrever os mais belos versos esta noite, mas os meus certamente serão os mais tristes.
Na riqueza da alma, nasceu um oceano de amarguras.
E autoproclamo a angústia a fiel e mais imperfeita das piedades.
De palavras fervorosas fiz um mundo e no mundo vi um espelho, no espelho o meu submundo.
No clamor havia a súplica, tal qual era o desejo.
Do meu corpo belicoso, vive o mar de fronteiras e caminhos. Dissolutos!
Em olhares sombrios construí uma muralha, onde cinzas do sangue derramado sobrepujam a razão perdida.
E no singular mais que plural me fiz exígua de mim.
Libertei-me!
Quisera
Quisera eu fazer abrigo das angústias que preambulam os pensamentos. No patamar das dores invencíveis à vida. Dos tempos remotos de uma distância infinita. Gracejo da morte.
Pudera eu sorrir nas consternações intermináveis. O sonho desiludido perdido no ventre. Nas vicissitudes das buscas internamente perenes. Sangue arquejado.
Quisera no olhar sombrio, escarnar a lágrima do refúgio inerte. Nos braços que embalam o nada preso no peito. Do que não desprende e guarda os anseios.
Pudera ao chorar, rezar em silêncio. Nas mãos trêmulas, onde os dedos se aninham. No sofrimento incessante maior que o domínio. Na felicidade triste de um reencontro, que se enclausura n'alma.
Opostos
No que navega instintivamente! Os preceitos criados na memória da ilusão.
Visões distorcidas, absurdas. Verdades inerentes, incoerentes. As mentiras são mais sensatas e sempre foram.
Ah! O pensamento! Razões e emoções se perdem, completam, não há certo e errado.
Há vida na morte, sublime!
No que esvaiu exaustivamente! Os anseios perturbados na dor do olhar.
Releitura em lembranças tristes, incontidas. Lágrimas perduram e consolam, assolam e esbravejam, são as mesmas que caem sorrindo.
No amor! Saudoso e doentio, entende o delírio da fuga absurda, insensata.
Há um espelho, irreflexo!
Nos sonhos decorrentes, ilógicos, imprecisos. E num piscar o mundo acorda.
Lápide
Sob a solidão do sepulcro, de folhas secas e mortas.
O vazio das vozes surdas.
Na chama apagada da vela petrificada. Sombras de vultos arquejados no olhar sôfrego e contido.
De joelhos dobrados num pranto regado de martírio. Júbilo da escassez da vida!
A flor perene que cresce na morte, graceja da dor alheia. Covarde carne que sova o amor.
Segredos escusos na própria alma. No choro perverso, que destrói o olhar sem brio.
O abrigo desgraçado que restou da infâmia. Rastejo da incoerência.
Palavras ofuscadas pela visão já distorcida.
Pensamento que aos poucos se esvai. Temerosos ao esquecimento.
Lamento do tempo que contorce as ilusões.
Onde a tristeza fez morada, o cortejo segue etéreo.
Assimetrias
Nos olhos, cinzas!
Na imensidão do olhar sob as nuvens.
A gota que cai, o sangue escorre.
Da voz arquejada!
Na pele que ainda sente...
O toque da dor exaustiva.
A vela apaga.
Reacende!
As marcas permanecem.
Em prece, o mundo desaparece.
Das cores finitas, daltonismo da alma.
Discordância da vida cansativa
E não se move, pensamento fatigado.
No coração que bate, sentido.
Na razão do que não é.
Do ser que não existiu.
Recomeço e queda na mesma dimensão.
Imersão!
Acabou e apenas começou!
Incrédula
E ela rezou com todo o fervor de sua alma.
Clamou o mais alto que sua voz poderia alcançar.
Mas não sabia que a fé era ineficiente.
Foram muitas e tantas orações milagrosas, mas que perderam o valor diante à insensatez da vida.
Ninguém ouviu a sua súplica!
E ela chorou com todo o ardor que irradiava o seu ventre.
Mas as lágrimas não acalmavam o coração.
E foram muitas e tantas, mas que desfaleceram-se diante o desgosto da vida.
Ninguém enxergava o seu pranto!
A devoção remota ainda era a única salvação de suas forças.
Mas a esperança já a estrangulara.
Nesse tempo, as valsas de Tchaikovsky se apagaram, Neruda perdeu seus versos, a tragédia nunca pertenceu à Ésquilo e todas as flores amaldiçoadas por Baudelaire eram as únicas que exalavam o buquê resplandescente.
Diante do precipício, nem Deus, nem fé, nem esperança e nem devoção.
Era somente ela e sua dor.
E assim segue o cortejo!
Desalento
E na melancolia da dor, se estagna a saudade, não do que se foi, mas do que se eternizou no peito.
As lembranças não se apagam, mas se confundem numa fúnebre procissão dentro da memória. No incabível. Na solidão perene. Na insensatez do pranto. No arquejar sôfrego.
A lágrima que reaviva os sentidos, o pulsar que instiga o coração cansado. E o nada que perpetua e preenche indecente o amargor da inexistência.
E na ausência do beijo, na amnésia das palavras, no carinho contido, morre a sanidade.
Invenção que atordoa, demência dos devaneios perdidos.
No ímpeto da clemência, a angústia roga uma prece. Que de olhos marejados, se junte os pedaços, cansados de andar descalço.