Naquele quarto
E o coração permanece conforme o quarto de antes.
À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.
A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.
O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.
O silêncio é absoluto!
Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.
O corpo permanece execrado em dor.
As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.
De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.
No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.
O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.
Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.
E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.
E a presença da falta, faz mais falta que antes.
E a dor que consome, dói mais que antes.
E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
Segredo
A saudade invadiu o escondido, onde os olhos penetram marejados.
A mão que percorre sozinha o corpo, calejada se esvai.
A mente que traz na lembrança a doçura do beijo tentador. O mel escorre no fel da boca.
O vinho do sangue derramado nas curvas, estala na língua atraente. Perdeu-se no último suspiro, no ar que respira ofegante no ouvido, suave, descrente.
Lateja nas entranhas, o gozo irracional, no suor do crepúsculo, que goteja ao anoitecer. A carne que desliza nos dedos, na firmeza do toque, no que prende, repreende, repuxa.
Nos cabelos emaranhados, na saliva obscena, afogada na angústia.
No ímpeto que viaja, embriagada. Sufoca!
No pensamento que maltrata.
No calor da tua sombra, no brilho do olhar insano, lascivo dentro do que preenche.
No arrepio que cai na pele perspicaz.
No que acompanha cada detalhe, nos sentidos que aguçam o pecado engasgado no mistério.
No que faz derramar sagazmente, na chuva inóspita dentro de mim.
Naquilo que a fraqueza não apaga. E novamente o beijo! Ah! O beijo que enclausura alheiamente. Sem querer, forçadamente!
E toma, me tomas, nos tomamos! E na língua se proclama o veneno que alimenta, desnuda, sobrevive!
No sal que mata a sede. No silêncio que declara. E no que retrai, traz vida, incansavelmente!
Perdida
O desejo imprudente que sobe nas vísceras. Ardente e obsceno; fugaz e sereno. Cobiça da pele que queima e ateia o juízo.
Da saudade perdida no meu refúgio e liberta da insensatez do teu sorriso. No grito cerrado, preso na garganta do meu silêncio.
Na voz que ensurdece, declínio da carne, se entrega, me entrego no eclipse da boca que enseja a língua travessa. E percorre o meu infinito afoito, envolto, dentro de nós, se desfazem os nós.
Imersa, submersa, na saliva que penetra no horizonte dos devaneios. Nas curvas tênues, sinuosas da aurora do meu domínio.
E com o corpo tece o meu ímpeto, costura, desenha, remodela o poente. É do teu sabor diluído por dentro, que se adentra, devora, derrama o clamor e embriaga a volúpia concisa, onde me perco na veemência dos teus lençóis.
Carmenere
Posso degustar do vinho que bebes, e embriagar-me nos taninos do teu beijo.
Passam-se noites e luas e sóis, no carmenere que escorre por dentro. E no gole do desejo, à meia taça, às costas nuas, delicada como a seda transparente.
Na limpidez dos dedos, o toque que traspassa...
Na nuca dedilha adágios e compõe melodias, desce no dorso levemente, harmoniza versos em poesias, estrutura do corpo na pele.
Flui e juntamente inebria o véu do íntimo.
Pulsa no peito o que esvai das entranhas.
E goteja na tez, sublime!
E no enredo de nós, tecem caminhos e abrem-se mares.
Na taça que finaliza e se finda o pensamento exaurido.
Lápide
Sob a solidão do sepulcro, de folhas secas e mortas.
O vazio das vozes surdas.
Na chama apagada da vela petrificada. Sombras de vultos arquejados no olhar sôfrego e contido.
De joelhos dobrados num pranto regado de martírio. Júbilo da escassez da vida!
A flor perene que cresce na morte, graceja da dor alheia. Covarde carne que sova o amor.
Segredos escusos na própria alma. No choro perverso, que destrói o olhar sem brio.
O abrigo desgraçado que restou da infâmia. Rastejo da incoerência.
Palavras ofuscadas pela visão já distorcida.
Pensamento que aos poucos se esvai. Temerosos ao esquecimento.
Lamento do tempo que contorce as ilusões.
Onde a tristeza fez morada, o cortejo segue etéreo.
Tempo
E ela olhava pelo vão da janela com olhos desconhecidos.
No pensamento que se esvaía da mente.
O cheiro do perfume exalava de sua pele, aveludada.
Sob lágrimas exauridas, sublime face da tristeza vencida.
E ela findava, fixamente. Na saudade que confundia os martírios. As imagens debruçadas ao vento, levada pelo tempo perdido, o ar que não respira sozinho.
Perda dos sentidos. Desencanto perfeito da inesperança.
E ela gritava silenciosamente! E no clamor de sua alma, ápice do maior devaneio. Ninguém a ouvia, nem ela mesmo.
Amnésia das ilusões profundas. E no amargor da língua, na profusão do amor. No último pulsar.
E ela! Ela ainda menina, ainda perdida. Desconhece a si. A criança se desfez!
1940
Nos olhos de antes, profundos e oriundos de toda a pureza exaltada. Morada de pores de sóis eternos e longínquos.
Como a tempestade que devasta terras e ares, deixa nua a carne, provoca a fúria dos mares e marés, afogando todos os vestígios.
No olhar que a soberba morre e o orgulho se envaidece. Distante, perdido, perverso. Triste!
Na decadência estarrecida, num simples passo da bailarina. Enlace de uma vida retida...
E o passado passou, mas tudo ficou.
Como a árvore avita, enraizada no solo, que ainda exala o cheiro da terra molhada.
Na lágrima que cai, continuamente.
No sorriso, decaiu a armadura. Máscaras engessadas sob o viés solitário. Diversas facetas em uma única face.
Do ontem adormecido no hoje, restam apenas as sombras para o amanhã enfurecido.
Quisera
Quisera eu fazer abrigo das angústias que preambulam os pensamentos. No patamar das dores invencíveis à vida. Dos tempos remotos de uma distância infinita. Gracejo da morte.
Pudera eu sorrir nas consternações intermináveis. O sonho desiludido perdido no ventre. Nas vicissitudes das buscas internamente perenes. Sangue arquejado.
Quisera no olhar sombrio, escarnar a lágrima do refúgio inerte. Nos braços que embalam o nada preso no peito. Do que não desprende e guarda os anseios.
Pudera ao chorar, rezar em silêncio. Nas mãos trêmulas, onde os dedos se aninham. No sofrimento incessante maior que o domínio. Na felicidade triste de um reencontro, que se enclausura n'alma.
De olhos fechados
Nos olhos em que as lágrimas embalam ao som de soluços, desbravam a face cálida. O que não se pode ver! Desespero do mundo.
Na tristeza que persevera, a saudade instaurada na dor, repugnante.
Aflição do desejo incontido.
A pele insensível, insolente. Acabou a arte!
No pensamento que vive, na morte que aprisiona a vida, sozinha.
No retrato empoeirado, sem importância.
Os dias são anos, o tempo tênue. Na alma esmorecida, incabível no horizonte.
A música que canta e não encanta. Relembra o sorriso perdido na face. Do dia que a noite roubou, da noite que escureceu os suplícios.
No grito ensurdecedor, âmago arrasado no precipício.
A destruição revelada no pessimismo insistente.
Na esperança da desesperança.
Do luto infindável que carrega-se por si e só.
A êxtase do martírio, no pulsar do sangue que não mais queima.
Na frieza, na rijeza dos sonhos inexistentes.
E a poesia soberba, de versos hipócritas. Na melancolia exibicionista, sem efeito.
A traição no abandono.
Da respiração que não mais alcança o perfume, intenso, evaporou, se desfez!
Visões
A solidão aprisionada nas têmporas do desejo. Submerso na acidez do mar. Revolto!
Cachos que deslizam, dançam, na tez úmida. Dedos que enlaçam, cerram, na fria brisa da neblina.
De tempestades e trovões que ensejam, impregnados no deleite.
Retranca nas ancas aveludadas, teso. No contorcionismo das cores. Embriaga-se nas cataratas da língua, lânguida, lábil.
Na firmeza do toque, na saliência dos pelos. Luz que chama, clama, no choque da carne.
Da chuva no corpo, literal. Somente! No sal escorre o sabor do cálice, fonte inesgotável.
Na rigidez contínua, desfigura, absorto. Cárcere maldito, preciso, inconsequente. E no canto que ameniza, revela-se o ápice mor.