Soturno
E quando o olhar se torna impenetrável. No que foi dominado pela letargia.
Na lucidez desmoronada.
Nas mãos intocáveis, abstinência do zelo incompreensível.
Nas asas corroídas, no voo imperfeito.
Do medo da fé perdida.
E das constelações lúgrubes que escorrem das lágrimas imprecisas.
Na dor interminável que dispersa na morte incontida.
No tempo etéreo, que passa despercebido.
Do sangue que queima, rasga a malha sem vida. Do corpo que carrega a existência. Dos lábios que desconhecem o beijo.
E não precisa falar das rosas, elas já murcharam. Perderam o viço.
A solidão acompanhada da penúria.
Na penumbra do dia que perdeu a manhã. Da noite que não amanhece. Estagnado!
Das luas e sóis que se passaram no toque.
E na música que toca, que sorva, destrói pensamentos, arrasa sinfonias, descama orquestras e finda na melodia do alento.
Desespero
Porque me desfaleço em cada pensamento que elevo a ti. Nas pálidas paredes das lamentações.
A falta! Não há olhares, nem brios, não há vida.
O sofrimento acompanhado, em conjunto, junto à carne fúnebre.
Na música sem melodia, na voz que não mais alcança, na cegueira do ventre. Todos estão surdos!
A dor, extensão do âmago irreprimido.
A luxúria do devaneio futuro.
Acabou! Não há palavras, nem vento, não há sol.
O nada que preenche o coração vazio, cárcere de um corpo decomposto.
Na sublime decepção, na lágrima andarilha, na doença maldita.
Todos estão mortos!
A medicina, declínio que insurge.
A mentira vomitada no inferno.
Escondeu! Infimamente, a solidão dos muitos, incontida nas entrelinhas da face dilacerada.
Visões
A solidão aprisionada nas têmporas do desejo. Submerso na acidez do mar. Revolto!
Cachos que deslizam, dançam, na tez úmida. Dedos que enlaçam, cerram, na fria brisa da neblina.
De tempestades e trovões que ensejam, impregnados no deleite.
Retranca nas ancas aveludadas, teso. No contorcionismo das cores. Embriaga-se nas cataratas da língua, lânguida, lábil.
Na firmeza do toque, na saliência dos pelos. Luz que chama, clama, no choque da carne.
Da chuva no corpo, literal. Somente! No sal escorre o sabor do cálice, fonte inesgotável.
Na rigidez contínua, desfigura, absorto. Cárcere maldito, preciso, inconsequente. E no canto que ameniza, revela-se o ápice mor.
Acabou
Nos olhos púrpuros que transfiguram a falência do abandono. Caídos, sem brio, mal acabados em saudades. Das lágrimas insólitas, que jorram a escassez do amor.
Somente de prantos sobrevivem!
Na fúria da falta, na falta constante. Na presença, que permeia o vão da solidão. Do sombrio, que a alma não mais preenche.
Ausência do elo perverso.
Remanejam-se sonhos, perdem-se os devaneios.
Do instante em que o coração trafega nos martírios incabíveis do impreenchível. Desfez a vida infinda no destino infiel.
As asas se partiram. O voo se tornou imperfeito.
A morte não é o fim da vida, que não mais a possui.
Nenhum
Nada do amor, senão nos passos lentos de uma caminhada, dentro das curvas da memória.
Sonhos perdidos em veredas inalcançáveis.
Na brusca interjeição do voo do pássaro longíquo.
Na falta escalvada dos beijos enraizados na solidão da boca.
Onde se esconde o abraço da dor.
Em cada pulsar do peito faminto, em cores desbotadas no cerne da carne.
No fogo ateado de tarde no alvorecer.
Nada que o amor ao amor se complete. Nada senão abotoaduras desnudas, que nos versos de Neruda percorrem à brisa da tez.
Quisera
Quisera eu fazer abrigo das angústias que preambulam os pensamentos. No patamar das dores invencíveis à vida. Dos tempos remotos de uma distância infinita. Gracejo da morte.
Pudera eu sorrir nas consternações intermináveis. O sonho desiludido perdido no ventre. Nas vicissitudes das buscas internamente perenes. Sangue arquejado.
Quisera no olhar sombrio, escarnar a lágrima do refúgio inerte. Nos braços que embalam o nada preso no peito. Do que não desprende e guarda os anseios.
Pudera ao chorar, rezar em silêncio. Nas mãos trêmulas, onde os dedos se aninham. No sofrimento incessante maior que o domínio. Na felicidade triste de um reencontro, que se enclausura n'alma.
Tempo
E ela olhava pelo vão da janela com olhos desconhecidos.
No pensamento que se esvaía da mente.
O cheiro do perfume exalava de sua pele, aveludada.
Sob lágrimas exauridas, sublime face da tristeza vencida.
E ela findava, fixamente. Na saudade que confundia os martírios. As imagens debruçadas ao vento, levada pelo tempo perdido, o ar que não respira sozinho.
Perda dos sentidos. Desencanto perfeito da inesperança.
E ela gritava silenciosamente! E no clamor de sua alma, ápice do maior devaneio. Ninguém a ouvia, nem ela mesmo.
Amnésia das ilusões profundas. E no amargor da língua, na profusão do amor. No último pulsar.
E ela! Ela ainda menina, ainda perdida. Desconhece a si. A criança se desfez!
Reencontro
Recomeço de ilusões, punição da carne insolúvel. Diversas versões inebriadas em dor.
No medo que persegue a insensatez dos sonhos. Em tons suaves, minúcias dedilhadas na pele eriçada.
Desbravado em nus de almas. Somente sós!
Olhares desconexos se despem em versos.
No toque que arqueja o ar e tremula o desejo.
Em lágrima, exprime o cais do corpo. Marcas debruçadas, expressão perdida!
Em voos esplêndidos, na língua flutuante dentro de caminhos sinuosos.
No tempo que consome e some, adormece na antiga fadiga.
De olhos fechados
Nos olhos em que as lágrimas embalam ao som de soluços, desbravam a face cálida. O que não se pode ver! Desespero do mundo.
Na tristeza que persevera, a saudade instaurada na dor, repugnante.
Aflição do desejo incontido.
A pele insensível, insolente. Acabou a arte!
No pensamento que vive, na morte que aprisiona a vida, sozinha.
No retrato empoeirado, sem importância.
Os dias são anos, o tempo tênue. Na alma esmorecida, incabível no horizonte.
A música que canta e não encanta. Relembra o sorriso perdido na face. Do dia que a noite roubou, da noite que escureceu os suplícios.
No grito ensurdecedor, âmago arrasado no precipício.
A destruição revelada no pessimismo insistente.
Na esperança da desesperança.
Do luto infindável que carrega-se por si e só.
A êxtase do martírio, no pulsar do sangue que não mais queima.
Na frieza, na rijeza dos sonhos inexistentes.
E a poesia soberba, de versos hipócritas. Na melancolia exibicionista, sem efeito.
A traição no abandono.
Da respiração que não mais alcança o perfume, intenso, evaporou, se desfez!
Apenas uma valsa
Há muitos anos, em ares remotos! Tão pequenina e indefesa. Ele conduziu a primeira valsa. A inocência perdurava na pureza da criança com ar de Cinderela com o seu príncipe. Mal escrevia os primeiros versos ou falava com a coerência de um ser.
Tempos mais tarde, na transição da semente em flor, onde os desejos foram aguçados pelo encantamento. Ainda pequena em teus braços, mas firme a bailar no teu ensejo. Nos olhares que se cruzavam e revelavam a impotência na adolescente persistente. Na delicadeza da música, no tom suave da tua mão ao conduzir os passos da vida adulta. A conclusão dos ensinos, lhe trouxe mais um passo, mal sabia que seria o último. Foi o mais intenso. Os sorrisos figurados, revelavam o fim de mais um capítulo, onde iniciaria de vez a caminhada com passos próprios.
As decisões, as eventuais dúvidas, se perduram na mente infantil. Passaram muitos danúbios azuis, ou pretos, cisnes de todos os lagos envelheceram e as flores murcharam na valsa que não mais valseia.
O ciclo se encerra e o que resta são adágios e noturnos, que se transfiguram na angústia infinda da dor.
O vestido rasgou, o salto quebrou, o batom borrou, os cabelos se emaranharam num rosto sem olhares.
A rosa que havia brotado se encheu de espinhos e atiçam a si por várias e muitas vezes, mas se tornou imune a dor.
N'alma esbagaçada aprendeu a suportar o maltrato físico.
Seria Sbelius ou Vivaldi? No ensejo de uma valsa triste ou nas estações já inerentes? De Baudelaire a Rimbaud. O ballet perdeu o classicismo, no mesmo instante que a poesia desencantou do lirismo.
Era para ser a última, a única! Os olhos fecham e refletem o devaneio inalcançável. E se esvai!
Em passos de valsa, em lágrimas soberbas, na solidão que valseja no coração inerte.