Perdoa-me
Perdoa-me pelo sorriso perdido, que ora se compõe nos lábios inesperadamente. Pelo riso não dado, fuga dos pensamentos hostis.
Pelo beijo que adormece o anseio, que como um raio inebria o inconsciente e padece na solidão da língua traiçoeira.
Perdoa-me pelas mãos que tocam e sentem e afagam e distorcem. Pelos dedos que acariciam, que prendem, envolvem e cessam o devaneio.
Pelo corpo que busca, objeto do prazer desmedido. Da carne impura, que sana a vontade da tua.
Perdoa-me pela saudade que esconde o breu da contemplação. No coração que desperta no gozo infindo.
Pelas manhãs arranhadas na desilusão dos sonhos.
Perdoa-me!
Só não perdoe o amor! Esse inconstante que tece no peito o desejo do olhar.
Somente
E na saudade se instaura a dor.
A desmedida solidão arrasa n'alma da mesma forma que o toque inebria o corpo. O que resta são fragmentos de pensamento, nos devaneios que torturam a mente.
Nas mãos que imploram pela carícia tenra na tez. A firmeza em que tomas a carne. A perversa lamúria da insensatez.
O beijo que arrasta mares, oceanos. Entre ondas de salivas, na língua que declama a poesia mais pura e ao mesmo instante percorre todos os instintos.
Os cabelos emaranhados caem nas costas e atravessam os dedos que se agarram.
Nas curvas sinuosas do desejo, movimentos impetuosos, dislexia de prazer.
O contorno das formas, à sombra da perfeição mais imperfeita.
Em suores que se misturam, num banho náufrago de perdição.
Na esquizofrenia da vida, se perdem caminhos...
... Obscuros, malditos, soturnos. Bastam-se!
Saudade
Hoje há mais dor na minha angústia; há mais solidão na minha saudade; há mais amor do que possa carregar.
Hoje o passado se revigora, o sentimento não cria forças e rouba a minha esperança. O coração partido carrega o que tanto martiriza. O corpo sobrevive da sensação de te ter como abrigo.
Hoje o sonho se distancia da realidade, a lembrança se apossa da fraqueza e torna o meu mundo mais solitário.
Sem sentir a lágrima torna à face, como súplica do tudo que foi tirado.
As palavras fogem perante o aperto e o ontem se tornou o presente mais doído.
Hoje há mais escuridão no meu olhar; há mais tristeza na minha decadência; há mais imagens do que minha mente possa aguentar.
Hoje o teu infinito permanece em mim; o teu amor se instaurou no peito e a tua voz tilinta em meu pensamento.
Hoje é o fim da minha estrada, mas meu caminho segue os teus passos, silenciosamente.
É o início da luta constante, com tudo o que faz arder na alma. O teu olhar, o teu sorriso, as tuas maiores lições, findaram em tudo que me compõe.
Hoje há mais angústia na minha dor; há mais saudade na minha solidão e há mais do ontem do que consiga suportar.
Desalento
E na melancolia da dor, se estagna a saudade, não do que se foi, mas do que se eternizou no peito.
As lembranças não se apagam, mas se confundem numa fúnebre procissão dentro da memória. No incabível. Na solidão perene. Na insensatez do pranto. No arquejar sôfrego.
A lágrima que reaviva os sentidos, o pulsar que instiga o coração cansado. E o nada que perpetua e preenche indecente o amargor da inexistência.
E na ausência do beijo, na amnésia das palavras, no carinho contido, morre a sanidade.
Invenção que atordoa, demência dos devaneios perdidos.
No ímpeto da clemência, a angústia roga uma prece. Que de olhos marejados, se junte os pedaços, cansados de andar descalço.
Personificação
O sorriso escorre da lágrima perversa. A falta da carne lateja entre os dentes.
Na sobridez do calor. O corpo títere em tuas mãos, na leveza que o conduz, macias na pele. Pluma suave que cavalga minuciosamente nos tênues flancos.
A língua cálida, na saliva branda que banha os delírios pérfidos, derrama-se nas costas nua, despida de candura. Lampeja no silêncio e se esvai.
Nas ondas abscônditas, perdem-se vias e estradas, definham-se em avareza.
Nos olhos entreabertos, os sonhos ébrios estancam na saudade ofegante.
Na tez que dança, nos movimentos inconstantes, na fúria amotina, corrói caminhos e prumos sem rumos.
O vento embala e balança os cabelos que caem nos dedos, aglutina.
No dédalo de martírios, a imagem se transfigura, rostos se confundem, se encantam, se perdem no esplendor da euforia.
E na sinfonia do sussurro, o canto se dissipa em melodia.
Adágio fúnebre
Segue o cortejo no peito, como um adágio infinito.
Como encontrá-lo onde não mais caminhas?
Na estrada perdida, só há escuridão na imensidão do olhar. No soturno alento do desalento, desalinho entre os versos lúgubres de Albinoni.
Ofuscado! O perfume das rosas se esvaiu do sepulcro.
No tormento insolente, da embriaguez indecente, a cegueira da desilusão. Metade do coração! Nada mais que a carne petrificada.
Nas ruínas da ausência, a saudade se reconstrói, no martírio da súplica não atendida.
A canção perdeu a poesia mais bela! A alma não mais acampa na paixão!
No fim, da fotografia despedaçada, das palavras indescritíveis, dos amores inalcançáveis, onde mora a modéstia da angústia.
E no que dissipa os conceitos, preceitos, cai nas asas de voo intenso. Desenfreadas sem rumo, nas alças da solidão, preâmbulo do calabouço das inverdades não ditas.
E na lágrima insolúvel, rodopio da bailarina, vertigem do pensamento. Vai-se a desgraça abstrata, descabida, desprovida nas lamentações.
Na inconstância do que se perdura. Encanto! Onde se perdeu o espelho do vislumbre?
Fim do mundo
Navegaste em minhas ilusões e acorrentaste as lamentações.
No suplício da tua angústia, desbravaste o meu mar.
Deixaste pedaços de ti em minhas ilhas. Uma a uma.
Ancoraste a tua voluptuosidade nas ondas do meu corpo perverso.
O desejo impuro foi fisgado pelo o meu chamariz.
No lampejo dos sonhos afogo-me em teus furacões. Devassa, nefasta, impura, mundana na tua fruição.
As terras se dispersaram, o dia anoiteceu, a lua enclausurou o sol no meu paraíso. As nuvens carregadas do profano.
Relâmpagos e trovões do meu íntimo. Jorram-se águas dos mares infindos da nossa lascívia.
Universos destruídos, nosso leito, meu mar no teu mar, fim do mundo!
Perdida
O desejo imprudente que sobe nas vísceras. Ardente e obsceno; fugaz e sereno. Cobiça da pele que queima e ateia o juízo.
Da saudade perdida no meu refúgio e liberta da insensatez do teu sorriso. No grito cerrado, preso na garganta do meu silêncio.
Na voz que ensurdece, declínio da carne, se entrega, me entrego no eclipse da boca que enseja a língua travessa. E percorre o meu infinito afoito, envolto, dentro de nós, se desfazem os nós.
Imersa, submersa, na saliva que penetra no horizonte dos devaneios. Nas curvas tênues, sinuosas da aurora do meu domínio.
E com o corpo tece o meu ímpeto, costura, desenha, remodela o poente. É do teu sabor diluído por dentro, que se adentra, devora, derrama o clamor e embriaga a volúpia concisa, onde me perco na veemência dos teus lençóis.
Segredo
A saudade invadiu o escondido, onde os olhos penetram marejados.
A mão que percorre sozinha o corpo, calejada se esvai.
A mente que traz na lembrança a doçura do beijo tentador. O mel escorre no fel da boca.
O vinho do sangue derramado nas curvas, estala na língua atraente. Perdeu-se no último suspiro, no ar que respira ofegante no ouvido, suave, descrente.
Lateja nas entranhas, o gozo irracional, no suor do crepúsculo, que goteja ao anoitecer. A carne que desliza nos dedos, na firmeza do toque, no que prende, repreende, repuxa.
Nos cabelos emaranhados, na saliva obscena, afogada na angústia.
No ímpeto que viaja, embriagada. Sufoca!
No pensamento que maltrata.
No calor da tua sombra, no brilho do olhar insano, lascivo dentro do que preenche.
No arrepio que cai na pele perspicaz.
No que acompanha cada detalhe, nos sentidos que aguçam o pecado engasgado no mistério.
No que faz derramar sagazmente, na chuva inóspita dentro de mim.
Naquilo que a fraqueza não apaga. E novamente o beijo! Ah! O beijo que enclausura alheiamente. Sem querer, forçadamente!
E toma, me tomas, nos tomamos! E na língua se proclama o veneno que alimenta, desnuda, sobrevive!
No sal que mata a sede. No silêncio que declara. E no que retrai, traz vida, incansavelmente!
Livros, apenas
Não desejo ver-te pelo ângulo de livros definhando nas prateleiras e nem na poeira enraizada nas mãos trêmulas.
Ainda não consigo ler-te!
O cheiro que traz vívida as lembranças de outrora. Pensamento enclausurado na ânsia do amargor.
Nas páginas folheadas, uma nova história. A mesma, a de sempre. Palavras que não descrevem a angústia indescritível. Nem Poe, Baudelaire, Neruda ou Shakespeare, meros apenas em sua própria arte, desdém dos sentimentos, apenas isto.
Não quero lembrar os momentos que apenas ficaram e fincaram. Nem ao menos sentir novamente o que já tomas demasiado e inexplicavelmente.
O toque é imortal e basta apenas enxergar o que os olhos jamais atingirão.
O caminhar das letras que se formam, na palavra ilegível que surge a cada delinear, no pulsar paulatinamente da carne que ouve Chopin, o mesmo, o de sempre, igual e diferente a cada noturno.
Não desejo ver-te! Não preciso lamentar-me!
Mas há pedaços em todos os cantos, em todos os contos, em todas as poesias, nas lágrimas de solidão e no coração dilacerado.