O grito I
Ao gritares
aprecia o eco
faz bem ouvir
a própria alma.
Sobre portas e janelas IV
Tantas portas e janelas
não evidenciaram a trama
dos caminhos sem retorno
das cancelas improvisadas.
E afoitos como o vento
atropelando dores e risos
negligentes e perdulários
descuramos a beleza do grito.
Sobre portas e janelas III
"Incólumes dos naufrágios
nossos entes vem sempre à tona
na incansável busca ao abraço.
Átimo da verdade
artimanhas do tempo.
de onde os eflúvios da saudade?
Inexorável e lenta
a noite da vigília se arrasta
trespassando as vergas do espanto
ante a dúbia incompreensão dos fatos".
Sobre portas e janelas II
Havia uma porta
que permanecia entreaberta
e o ranger das dobradiças
perturbava o silêncio
que descia lentamente
pelos fios da inexorável espera.
Sempre me perguntei
porquê nunca se fechava
"talvez estrategicamente localizada
permitisse-nos visualizar
o horizonte fundir-se à estrada".
Sobre portas e janelas I
Havia uma janela
aberta ao desconhecido
que instigava a curiosidade
e o indomável instinto
dos descompromissados voos
sobre a silhueta do destino.
Margeavam a estrada
figueiras e hibiscos
e esparramados à sombra
entre duendes e mitos
não imaginávamos
que em futuras janelas
sequer postigos haveria.
Beirais III
O relógio dissolve idílios
E com a sutileza dos sábios
urde insídias.
Por que a idiossincrasia
De postar-se à frente
na batalha
Reivindicando medalhas
guarida?
E no lusco-fusco que se anuncia
Sentinela a observar o mar agitado
Perscruto: haverá beirais
Para um eventual pouso forçado?
Beirais II
Sob rútilo amanhecer
Sobeja vivacidade
E as certezas são vagas
No redil dos incautos.
De onde esse voo
Displicente e inefável
Que prefere a turbulência
A beiral seguro e calmo?
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Beirais I
De onde essa dor
Que não se mostra
Recôndita detrás
De invisíveis portas?
De onde esse voo
Alçado sobre destroços
A ausência de beirais
Ao pássaro acaso importa?
do livro "Beirais" - 2007
Abstrações 4
Nada a dizer do poeta
Com seus lamentos infindáveis
E escritos esquecidos
Em gavetas inabitáveis...
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Abstrações 3
No céu de diamantes
um aeroplano levita
ou será a sombra
do menino teimoso
que avesso às tarefas
empina a sua pipa?