Ninfa dos Deuses
Encanta-me essa tua filosofia primaveril,
Esses desencontros ao sol.
Esses acentues dos rituais que são nossos.
Eu, prazeroso pelo café e cigarro matutinos.
Tu, pitoresca na falda da cama.
Ninfa dos Deuses.
Este é o amor a que me agarro.
Este café que me aquece,
E a perfeição que não existe,
Mas que existe e se espreguiça,
Sorrindo para a janela,
Onde o fumo se vai escapulindo,
E se nos esvai o tempo.
E os pássaros que chilreiam
Canções fúnebres.
Este é o amor a que me agarro.
Essas vagas palavras
Ditas e desditas nos desencontros do mundo.
E que se apegam às paredes
Que as ouvem e as devoram,
E que nos abraçam e nos protegem.
E esse Cristo,
Que já veio ou há de vir.
Trazendo um novo amor.
Esse amor que senti ser meu,
Ao ver-te nua,
Buscando as roupas nos cantos da casa.
Rindo da situação irrisória,
Pois era o vizinho que te olhava
E a mulher que o repreendia.
Este é o amor a que me agarro.
Essa barbearia de sempre,
Que se encontra defronte,
Recebendo os mesmíssimos
Senhores, Doutores,
Pacatos homens de grande fé,
Gentilíssimos homens de fé nenhuma,
Homens de má índole,
Fanáticos de bola,
Empregados de Mesa.
Onde se eleva a conversa palpável,
A realidade indubitável de estarmos existindo.
De sermos seres circundantes da mesma esfera linguística,
E das mesmas naturezas humanas,
Que nos encaminham a um modo de vida similar.
É neste momento que desço,
Cumprimento o senhor da barbearia,
E oiço, com um certo regozijo sensitivo,
Que a conversa paira sobre o porcalhão,
Que havia olhado para aquela que me é.
A conversa pára abruptamente,
Os vários Senhores, Doutores,
Homens de tanta e tão pouca coisa,
Ficam estáticos, constrangidos.
Como se a realidade tivesse modos de se evitar.
Sendo ela tão própria de si própria,
E nós tão cheios do real.
Tu desces, dás-me um beijo,
E os nossos caminhos bifurcam-se.
Até que se complete o dia,
E nos encontremos defronte da barbearia.
Desconstrução como Arte
Desconstruir é a palavra.
Desconstruir é a palavra...
Desconstruir o medo,
Os pensamentos.
Desconstruir a agitação que nos assalta.
Desconstruir o Fado e os conceitos.
Desconstruir, desconstruir, desconstruir.
Mas desconstruir é arte.
Arte dos humanos,
Não dos Deuses.
Que arte é exploração.
Desconstruir é arte,
Não como quando o lobo mau
Destrói a casa de palha.
Nem como nos quedamos numa poça
E nos achamos no mar.
Desconstruir é um gigante foda-se
Dito aos céus.
Não aquele que se esvai prematuro,
Mas um que se lamboseia com a vertigem
E vai em frente, ao encontro das ondas.
Desconstruir é a minha matéria negra.
Sou um artista sem pincel, nem dedos.
E possivelmente sem cara, corpo e membros.
Sou um artista que está à deriva numa poça,
Com receio do Adamastor que vem nunca.
Onde se canta epopeias de coisa alguma,
Achando que a vida é isto.
Mas a vida, a vida é muito mais meus senhores.
Só que ela não me sabe ou não a sei eu.
Amor que se ofusca
Tantas as marés que nos escapam
Ao olhar, ao olfacto, ao tacto.
Deambulam-se em sonhos breves
Entre brumas renascidas dos nenhures do mundo.
Como evocamos no espírito um cheiro nostálgico
De um cozinhado típico
Por aqueles que já não são mais que pensamento,
Ou de um perfume que nos era querido,
Assim nos dão por cortesia as marés.
Os seus aromas efémeros,
As suas vertiginosas fantasias
De sereias enigmáticas,
Entoando sonhos adágios
Onde se perscruta as profundezas
De um Albinoni dadivoso e divino.
Onde monstros agrestes
Balançam os barcos
De encontro a Caronte
Que levar-nos-á,
Para a outra margem.
Se não fosse a pacificidade
De uma onda que nos restaura
A vida e a esperança.
A verdade é que nem tudo são flores pitorescas,
Caixoteiros de boa fé,
Vendendo fruta por tuta-e-meia.
Erva que nos ampara a queda
E mar que com a brisa nos envolve.
As flores murchas, espezinhadas
E da cor da morte,
São também reais.
É de igual vitalidade coexistir com elas
Conhecer seu cheiro tenebroso,
Ferrar-nos com seus espinhos da infâmia.
Deixarmo-nos guiar por obscuras nuvens
Até ao desespero.
Findarmo-nos nas cavernas sequiosas
Dos nosso piores fantasmas.
Que mais posso dizer do nosso amor.
Há-de voltar, quando a primavera ressurgir.
E a nós — a nós meu amor —
basta-nos,
Como aos homens de Platão,
Despontar dessas cavernas
Que nos ofuscam.
Deem-me a vossa loucura
Deem-me a vossa loucura
Pois estou sedento dela.
Sedento, como os Deuses estão
Das nossas desgraças.
Estes que nos perscrutam
No cume da nossa consciência.
Sempre tão caricatos,
Manejando-nos como fantoches.
Ai! Estou ébrio da vossa loucura!
Como não? Para ser mais e melhor
O que resta ao humano senão ser louco.
Sinto ao tocar nesse cálice impuro
Como se a existência ganhasse cor
E me cercasse dos Deuses,
Estando eu tão longe.
Gotículas de sangue trespassam a pele
E padecem junto aos murmúrios de outrora.
Bebo vagarosamente o líquido ébrio desse cálice,
E sinto passar essa linha entre a vida e a morte.
Não que a morte se encontre ao virar da esquina,
Mas sim que atinjo o apogeu da vida
E o mais que se segue é a morte.
Deem-me a vossa loucura
Que eu bebo-a de um trago,
Porque que caminho há a seguir,
Senão os trilhos dos Deuses,
Estes que habitam a nossa consciência
E que portadores são das maiores loucuras.
Eu sigo os loucos
Quer sejam homens ou não-homens,
Quer sejam Deuses ou não-Deuses.
Eu sigo-os porque eles convivem na minha consciência
E não há maneira de não beber a sua loucura.
O dia em que Borges leu de novo
Acordei deitado num chão frio.
Ao olhar para cima
Avistam-se infinitas divisões,
Que ao primeiro relance
Não me foi possível descortinar.
Mas julgo que o reconhecimento foi imediato,
Um clique na consciência.
Havia lido sobre este mundo
Muitos anos antes,
Numa terra longínqua a esta,
Num outro mundo.
Eu próprio era tão só
Uma projeção fantástica deste.
A divisão em que me encontrava,
Era exatamente igual às restantes.
Consistia num hexágono,
Que por uma escadaria,
Dava acesso aos hexágonos
Superiores e inferiores,
E assim sucessivamente.
O nome deste lugar,
Que nunca deixara de me pertencer,
Era simples e impetuoso.
Biblioteca de Babel.
Nas várias prateleiras
Avistam-se livros e livros
De uma simetria divina.
Tudo o que queria,
Era pegar no máximo números de livros
E desvendar os mistérios da existência.
Neste lugar, onde tudo está escrito.
Contudo, uma força maior
(Que também estará explicada num destes infinitos livros)
Lançou-me a subir para o hexágono 93,
Estando eu no 70.
Não foi pouco o meu espanto
Ao descobrir que este em questão,
Não se encontrava desabitado.
Quem o habitava,
Faz parecer qualquer noção do fantástico desenxabida.
Folheava um livro, sem o ler.
Isto, porque era cego.
Mas nada o proibia
De gozar a sensação
ao tactear o papel
Das 410 páginas a que todos obedeciam.
Parecia querer penetrar no livro,
Como tudo o que restasse dele
Fossem histórias.
Histórias de países inexistentes,
De homens sonhados,
De escritores reproduzidos.
Pedi-lhe que me deixasse ler em voz alta.
Sei que era seu costume
Ouvir alguém narrar-lhe uma história.
O dhcmrlchtdk (nome do livro)
Nada me dizia sobre o seu conteúdo,
Nem tinha qualquer significado
Na nossa língua corrente.
O tema podia ser sobre qualquer coisa.
Coisas quotidianas,
Como coisas nunca antes sonhadas.
Livros teóricos,
Como romances epistolares.
Não contive um enorme sorriso
Ao aperceber-me do seu conteúdo.
É dito que Deus escreve direito
Por linhas tortas.
Muito resumidamente,
Eram várias dissertações
Sobre como podem os cegos ler,
Os infinitos livros desta biblioteca.
Chamou-nos à atenção
Uma teoria avançada
Pelo senhor Cai Lun,
Sobre o material mágico deste papel.
A teoria afirmava
Que este papel não ardia ante o fogo
E que as letras com o aumento da temperatura
Tendiam a subir,
Criando assim relevo.
É certo que é uma hipótese rebuscada,
Mas feitas as experimentações,
Correta.
Agora esta Biblioteca,
Ilimitada e Periódica,
Terá para sempre
O seu Criador e Viajante Leitor
ab aeterno.
O Absurdo
De tudo, os sonhos absurdos
São os mais reais.
Como exprimir a realidade
Se é inexprimível.
E assim vamos,
Patetas de ilusões,
Apercebendo-nos
Que a maior lucidez está
No que não existe.
Metro sem destino
Vagueio entre a multidão,
Lúcido como nunca outrora fui.
Infinitas linhas ténues
Desvanecem-se ao redor,
Para a inexistência.
Inúmeras são as silhuetas
Que oscilam entre o ser e o não ser.
Umas passam cabisbaixas,
Derrotadas por qualquer força
Que não controlam.
Outras desengonçadas,
Ávidas de vida.
Um homem de vestes gastas
Perfaz a ideia do inconcebível.
Há quem me relembre
De um sonho
Que havia tido algures
No despertar da madrugada.
De um poema rasgado a meio,
Por falta de palavras para o continuar.
Do outro lado da linha,
Vários são os transeuntes
Que olham ingenuamente
Para um lado
Como para o outro,
Na pressa de uma carruagem apressada.
Sinto,
No calor das peles gastas,
A pressa fatídica
De chegar a um destino.
A pressa fatídica
De acelerar o presente
Para o futuro desconhecido.
Digo que estou lúcido,
Não em vão,
Mas como se a lucidez
Me tivesse habitado por momentos.
Como se o mundo
Se desprendesse das suas incertezas
E me se apresentasse cru.
Onde as cores se evaporassem
E o branco enaltecesse
A sua clarividência.
Observo as pessoas
E sinto-lhes o Fado.
O pesado Fado do rio
Que cessa enfim.
É sempre um mistério
O que nos apega à vida.
Vêmo-la desfalecer
Nesta rotina interminável,
Por vezes tão medíocre.
Resta a esperança
Que nos encarece a vida.
E nos luze o futuro.
Mas não é isto a morte?
A nossa esperança no futuro
Não mais é, enfim,
Que o caminhar para a morte.
Caminhar esperançosamente para um futuro
Sempre melhor que o presente.
É apressar o presente
Para atingir o que lhe advém.
E assim o é toda a vida.
A carruagem do metro chega
E entro,
Como tantos outros passageiros.
No meio das inúmeras caras desconhecidas
Sinto um elo que nos une.
Mais forte que a própria vida.
O mítico barco que,
Por mais caminhos percorridos,
Nos levará sempre a bom porto.
Até que chegue ao irrevogável porto.
Como é absurdo tudo isto,
Digo-o delirante.
E sinto,
Eterna pena da humanidade,
Que jamais viverá o presente
Do modo como o sonhou no passado.
E assim o é
Para toda a Eternidade.
Menina doce de olhos pretos
Roubei-te dos lábios um sorriso,
Menina doce de olhos pretos.
E com ele,
Toda a vida sorri.
Tenho em mim a felicidade,
A felicidade igual
À de uma criança
Ao receber um doce.
Entre os mistérios desta vida,
O maior encontra-se
Na amplitude de um largo sorriso.
Subi as colinas
Verdejantes do teu corpo
E acendi um cigarro passageiro.
Entre as linhas que dão relevo à vida,
Papoilas refrescam neste espaço imenso.
Basta-me passear
Entre as bermas do nada
E percorrer os recantos de tudo.
Retiro
De um molho de papoilas
Uma só,
Para adocicar
O fato preto que trago.
Uso o sorriso que me deste,
Pois perdi o meu algures.
Peço a Deus,
Pois não tenho
A quem mais pedir,
A sorte que me baste para te ter.
Menina doce
De olhos pretos,
Foste a alegria
Dos meus sonhos.
Contigo fui merlo
Entre os merlos.
Voámos pelos céus
Em busca do sonho perdido
E da ilusão que nos habitou.
Neste momento,
Onde a longitude do passado
Não passa de resquícios de espuma
De uma onda que passou,
Eu, corvo, procuro-te
Sabendo-te morta.
O Matos
Uma multidão percorre
A rua que me está defronte.
Olho-a da janela velha
E desumanizada.
O fumo do cigarro
Vai-se escapulindo
Entre as suas brechas,
Perdendo-se no ar matinal
Deste dia de Outono.
Percorro com os olhos este ajuntamento
E avisto alguns cartazes
Sobre estas lutas infindáveis
Que são invariavelmente
O âmago da humanidade.
Grito, sem falar,
Viva à Liberdade!
Continuo percorrendo com estes olhos,
Esta corajosa marcha
A que eu poderia muito facilmente pertencer.
Ensopado em suor,
Com um ilustrativo cartaz
Bramido aos Deuses.
Mas, o que é a Liberdade?
Sim, o que é?
A que cheira? Sente-se?
Vive-se?
Temo que não saiba responder.
No entanto, sinto na pele
O fulgor e a obrigação
De ter um cartaz na mão,
E lutar por ser livre.
Sento-me na poltrona
Que solitariamente enfeita a sala.
Uns raios de luz desnudam
O estofo velho e gasto.
Folhas outonais
Entram furtivamente pela janela
Com a brisa matinal.
Um espelho encontra-se defronte,
Mostrando uma cara embrutecida
E melancólica.
Lembro-me dos momentos em que saltava do lugar,
Enérgico e convencido de que ia mudar o mundo.
Para isso,
Bastava-me um poema fugaz
Ou um romance filosófico.
No entanto,
Quedo-me na segurança do meu lar,
Enquanto outros lutam
Pelas causas do mundo,
Sendo elas tantas!
Muitas vezes me questiono
Por que causas realmente devemos lutar
Estando tudo tão distorcido.
A realidade, se a houvera,
Muito possivelmente perdeu-se
Ante o abandono de Deus,
Com a mesma facilidade
Com que perdemos brincos
E pessoas.
Será essa a diferença?
Eu que nenhuma certeza tenho,
Ante a total certeza dos que lutam.
Não...é do espírito.
O meu não é de lutador.
Sou dos que se quedam em sonhos grandes
E feitos tão pequenos.
Sou dos que idealizam
Mudanças trágicas
E vitórias justas.
Mas que realizar-se-ão sempre
No dia depois deste.
Nunca fui a marcha alguma,
E a realidade arde-me como fogo.
Ouve-se um grito abafado
Que ecoa na humidade das paredes,
A marcha estagnou.
Hora do lanche.
Até as lutas têm as suas pausas,
Como não havia de ter a minha vida,
Estagnada há tanto tempo.
Desde o tempo
Em que a ilusão caiu
Como um vestido desprendido
No fulgor do momento.
Não sou mais que um rosto cansado,
Sem propósito algum.
Oiço mais um grito
E a marcha segue caminho.
Será o meu ponto de partida,
Mas estou cansado de mais.
A vida passou por mim
E nem dei por ela.
Prometi fazer tudo
E nada fiz.
Hoje almoço no Matos.
Desço pela calçada e,
Ao longe,
Protestos e lamentos
Ecoam tão profundos.
A minha apatia é tão gigante,
Que gela toda a exuberância
Que emana neste espaço.
Metamorfoseei-me do Camelo em Leão
Há muito tempo,
Enquanto percorria os pesados escombros dos espíritos.
Mas nunca derrotei o Dragão que me perseguia e,
Até ver,
Sempre me foi pesada esta noção de espírito.
Quedo-me pensativo
No meio dos transeuntes
Suados pelo arcar da marcha.
E pesa-me,
Como nunca me pesou,
A minha figura sólida
E a minha mente ativa.
Pesa-me a realidade,
Pesa-me a existência.
Os pés embrutecidos
Não me permitem andar.
Encontro-me entre o limiar do ser
E do não ser.
Entre se desejo a realidade
E luto por ela,
Ou se vivo estático,
Neste mundo próprio,
Impenetrável.
Vejo a marcha partir.
Entro no Matos
E cumprimento-o.
Boa tarde, Matos.
Peço o mesmo de sempre
E a monotonia dos dias
Atinge-me como um raio.
Ode à alegria
Oh!
De tempos em tempos
Sou alegria.
Saltito pelas bermas de tudo,
Tal qual
Uma criança ao receber um chupa.
Renasceu
A velha esperança que sempre vem
Ao encontro dos que sonham.
E na tenra névoa
Que é a Vida,
Sou dos que
Não precisam de razões,
Mas emoções
Para viver do mundo.