Lista de Poemas
O que somos
E o que somos se não seres ofuscados pelo próprio orgulho
E embriagados pelos próprios desejos?
Bússolas sem nenhum propósito
Verdadeiros receituários de como se alcançar a morte
Não somos nada de novo sob o sol
Ao contrário
Pisamos, esmagamos, oprimimos
Depois jogamos fora
E seguimos.
Meire Moreira
E embriagados pelos próprios desejos?
Bússolas sem nenhum propósito
Verdadeiros receituários de como se alcançar a morte
Não somos nada de novo sob o sol
Ao contrário
Pisamos, esmagamos, oprimimos
Depois jogamos fora
E seguimos.
Meire Moreira
925
Enquanto
Enquanto você continuar comprando o afeto de algumas pessoas, outras te odiarão de graça, pode acreditar.
Meire Moreira
759
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor são necessários dois.
Depois um.
Depois nenhum.
Meire Moreira
Depois um.
Depois nenhum.
Meire Moreira
846
A estupidez
É imperativo aprender certas coisas. Uma delas é que estupidez não se dilui, não se desfaz, não se dissolve. Uma criatura estúpida é assim e ponto. Se ela se maquiar, vai ser uma criatura estúpida maquiada. Se ela se travestir de qualquer persona, vai ainda assim, ser a estupidez fantasiada. Se, por ventura, calar-se, vai ser a estupidez passando-se por erudita, já que o silêncio ainda é tido por muitos como sinal de erudição. Não existe receita de convivência com gente estúpida. Não existe Tratado de Tolerância para se aturar gente assim. Não há mantra, nem yoga, nem reza brava que dê jeito. Por osmose, ela passa seu conteúdo, quer você aprecie ou não. Ficar perto já compromete o seu juízo, o seu senso, o seu humor. Não há o que fazer. Se o universo colocou em seu caminho seres assim, paciência. Faça o sinal da cruz, reze um pai-nosso, engula um rivotril e segura na mão de Deus. Ainda não inventaram cura para a estupidez. E você vai acabar sendo contaminado.
819
Quando morre alguém que amamos
Quando morre alguém que amamos, a primeira coisa que vem
à nossas cabeças é que estamos sendo punidos. Mas perder alguém não é um
castigo. É antes, um processo de aprendizado. É algo pelo qual teremos todos que
passar. É inevitável. Não há o que fazer.
Quando minha mãe perdeu uma
filha, ela ficou muito triste e chorou. Mas depois deixou as coisas se
acomodarem. E com o tempo, falava dela com o rosto tranquilo. Assim, sem
remorsos, sem dores extremas, sem mágoas ou rancores para com Deus ou para com
a vida.
Também não foi diferente
quando ela perdeu a mãe. A morte de minha avó aconteceu numa madrugada. Ela já
estava doente, acamada e fraca. Como ocorreu à noite, ficou em segredo para a
família. Minha mãe velou sozinha o corpo dela. Nós ficamos sabendo só no dia
seguinte. Ela assim quis que fosse. E assim ela fez. Passaram a última noite
juntas e sozinhas. Só as duas: mãe e filha.
Alguns anos depois meu pai
caiu doente. Naquela noite foi ela quem o segurou nos braços. E ela estava ali
quando ele morreu. Ficou escolhendo um terno bonito para ele ser enterrado.
Minha mãe chorou. Lembrou das coisas que ele gostava de dizer e fazer. Ficou o
tempo todo com ele num gesto de extremo amor e dedicação, como havia sido a
vida toda. E seguiu em frente.
A postura dela diante da
morte me ensinou lições valiosíssimas. A primeira é que não há nada que mude o
que está acontecendo. A morte consumada não permite volta. Não há grito, gesto,
dor, que abrande isso. Então, o jeito é aceitar. Pois aceitando ou não vai
continuar do mesmo jeito. Vai doer do mesmo jeito. Só que com menos espetáculo
para os olhos alheios.
A segunda lição é: Nada que
se diga nesse momento vai adiantar. Nada mesmo. Então o melhor é silenciar.
Basta um abraço sincero. Um rápido “sinto muito”. Ficar dizendo que foi melhor
assim, que foi a vontade de Deus, que isso ou aquilo, é bobagem.
Soa mais como uma tentativa
desesperada de se safar da dor. Mas para quem foi laçado por ela, não tem
jeito: vai ter que beber até o último gole. E depois ficar digerindo a dor por
dias e dias a fio, feito uma sucuri pançuda que engoliu um imenso objeto de
metal: não consegue expelir, não consegue por para fora. Fica ali, meio viva,
meio morta, se arrastando devagar.
Por fim a lição mais
importante: Não prolongar a dor. Esta é com certeza, a mais valiosa de todas.
Imagine a dor como uma vizinha fofoqueira e oportunista. Assim, que você der
chance, ela se aproxima para trazer notícias de coisas que não te dizem
respeito. Trazer à tona coisas que não te servem mais.
Se tem que sangrar, que
sangre.
Se tem que doer, que doa.
Mas que seja assim, de uma
só vez. Como um parto atravessado.
Não dá para ficar arrancando
a casquinha da ferida e acreditar que um dia ela vai sarar.
Minha mãe tem pouco estudo.
Mas sempre teve a sabedoria de seguir em frente.
De vez em quando, ela dá uma
olhadinha para trás. Mas para ter certeza que tudo ficou lá onde deveria. Que
não está arrastando com ela um passado morto. Não dá para ficar se lamuriando
quando a sua volta você vê histórias iguais ou piores que a sua. Destinos
piores. Dores mil vezes mais fortes.
Lembro-me de uma história
verídica acontecida na roça que minha mãe costumava sempre nos contar. A de uma
vizinha que, perdendo o marido, saiu para o meio do terreiro correndo atrás de
galinhas para preparar para os parentes que vinham de longe para o velório.
Enquanto destroncava um a um, ela impassível, ia repetindo:
- O dono dos frangos morre,
os frangos morrem também!
Meire Moreira
à nossas cabeças é que estamos sendo punidos. Mas perder alguém não é um
castigo. É antes, um processo de aprendizado. É algo pelo qual teremos todos que
passar. É inevitável. Não há o que fazer.
Quando minha mãe perdeu uma
filha, ela ficou muito triste e chorou. Mas depois deixou as coisas se
acomodarem. E com o tempo, falava dela com o rosto tranquilo. Assim, sem
remorsos, sem dores extremas, sem mágoas ou rancores para com Deus ou para com
a vida.
Também não foi diferente
quando ela perdeu a mãe. A morte de minha avó aconteceu numa madrugada. Ela já
estava doente, acamada e fraca. Como ocorreu à noite, ficou em segredo para a
família. Minha mãe velou sozinha o corpo dela. Nós ficamos sabendo só no dia
seguinte. Ela assim quis que fosse. E assim ela fez. Passaram a última noite
juntas e sozinhas. Só as duas: mãe e filha.
Alguns anos depois meu pai
caiu doente. Naquela noite foi ela quem o segurou nos braços. E ela estava ali
quando ele morreu. Ficou escolhendo um terno bonito para ele ser enterrado.
Minha mãe chorou. Lembrou das coisas que ele gostava de dizer e fazer. Ficou o
tempo todo com ele num gesto de extremo amor e dedicação, como havia sido a
vida toda. E seguiu em frente.
A postura dela diante da
morte me ensinou lições valiosíssimas. A primeira é que não há nada que mude o
que está acontecendo. A morte consumada não permite volta. Não há grito, gesto,
dor, que abrande isso. Então, o jeito é aceitar. Pois aceitando ou não vai
continuar do mesmo jeito. Vai doer do mesmo jeito. Só que com menos espetáculo
para os olhos alheios.
A segunda lição é: Nada que
se diga nesse momento vai adiantar. Nada mesmo. Então o melhor é silenciar.
Basta um abraço sincero. Um rápido “sinto muito”. Ficar dizendo que foi melhor
assim, que foi a vontade de Deus, que isso ou aquilo, é bobagem.
Soa mais como uma tentativa
desesperada de se safar da dor. Mas para quem foi laçado por ela, não tem
jeito: vai ter que beber até o último gole. E depois ficar digerindo a dor por
dias e dias a fio, feito uma sucuri pançuda que engoliu um imenso objeto de
metal: não consegue expelir, não consegue por para fora. Fica ali, meio viva,
meio morta, se arrastando devagar.
Por fim a lição mais
importante: Não prolongar a dor. Esta é com certeza, a mais valiosa de todas.
Imagine a dor como uma vizinha fofoqueira e oportunista. Assim, que você der
chance, ela se aproxima para trazer notícias de coisas que não te dizem
respeito. Trazer à tona coisas que não te servem mais.
Se tem que sangrar, que
sangre.
Se tem que doer, que doa.
Mas que seja assim, de uma
só vez. Como um parto atravessado.
Não dá para ficar arrancando
a casquinha da ferida e acreditar que um dia ela vai sarar.
Minha mãe tem pouco estudo.
Mas sempre teve a sabedoria de seguir em frente.
De vez em quando, ela dá uma
olhadinha para trás. Mas para ter certeza que tudo ficou lá onde deveria. Que
não está arrastando com ela um passado morto. Não dá para ficar se lamuriando
quando a sua volta você vê histórias iguais ou piores que a sua. Destinos
piores. Dores mil vezes mais fortes.
Lembro-me de uma história
verídica acontecida na roça que minha mãe costumava sempre nos contar. A de uma
vizinha que, perdendo o marido, saiu para o meio do terreiro correndo atrás de
galinhas para preparar para os parentes que vinham de longe para o velório.
Enquanto destroncava um a um, ela impassível, ia repetindo:
- O dono dos frangos morre,
os frangos morrem também!
Meire Moreira
4 970
De que somos feitos
Somos feitos de um monte de coisas. Coisas boas e ruins.
As coisas boas ficam escondidas.
As coisas ruins fazem aleluia na cara dos outros.
As coisas boas ficam escondidas.
As coisas ruins fazem aleluia na cara dos outros.
590
A vida
A vida vai mudar você.
Vai moldar você.
Não adianta resistir.
Aceite.
Curta.
Aproveite que ainda pode ser mudado.
E melhorado, às vezes.
639
A morte
A morte não espera você arrumar a casa
Nem a mala
Nem a sala
A morte não lhe pergunta se você quer ir
Ela chega e te arrebata
A morte não é sua inimiga
Nem tampouco sua confidente
Por isso, cuidado na ribanceira
na estribeira
na cabeceira
Se queres te demorar um pouco mais
Respeita a sua fragilidade
Reconhece o pouco que és.
Meire Moreira
Nem a mala
Nem a sala
A morte não lhe pergunta se você quer ir
Ela chega e te arrebata
A morte não é sua inimiga
Nem tampouco sua confidente
Por isso, cuidado na ribanceira
na estribeira
na cabeceira
Se queres te demorar um pouco mais
Respeita a sua fragilidade
Reconhece o pouco que és.
Meire Moreira
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