E o que somos se não seres ofuscados pelo próprio orgulho E embriagados pelos próprios desejos? Bússolas sem nenhum propósito Verdadeiros receituários de como se alcançar a morte Não somos nada de novo sob o sol Ao contrário Pisamos, esmagamos, oprimimos Depois jogamos fora E seguimos.
Para viver um grande amor são necessários dois. Depois um. Depois nenhum.
Meire Moreira
859
O que somos
E o que somos se não seres ofuscados pelo próprio orgulho E embriagados pelos próprios desejos? Bússolas sem nenhum propósito Verdadeiros receituários de como se alcançar a morte Não somos nada de novo sob o sol Ao contrário Pisamos, esmagamos, oprimimos Depois jogamos fora E seguimos.
Meire Moreira
943
Silêncio
Às vezes você tem tanta coisa para dizer Mas ninguém que te escute Outras, você não tem nada para falar E é justamente o teu silêncio Que te denuncia.
Meire Moreira
666
A pedra
Uma pedra não é uma flor Não é um poema Não é um pão Não chega a ser uma casa...
Mas, ai, como dói uma pedrada!
Meire Moreira
912
bem me malmequer
De tanto te amar inutilmente Queria que você morresse Mas enquanto você não morre Morro eu.
Meire Moreira
852
Quando morre alguém que amamos
Quando morre alguém que amamos, a primeira coisa que vem à nossas cabeças é que estamos sendo punidos. Mas perder alguém não é um castigo. É antes, um processo de aprendizado. É algo pelo qual teremos todos que passar. É inevitável. Não há o que fazer.
Quando minha mãe perdeu uma filha, ela ficou muito triste e chorou. Mas depois deixou as coisas se acomodarem. E com o tempo, falava dela com o rosto tranquilo. Assim, sem remorsos, sem dores extremas, sem mágoas ou rancores para com Deus ou para com a vida.
Também não foi diferente quando ela perdeu a mãe. A morte de minha avó aconteceu numa madrugada. Ela já estava doente, acamada e fraca. Como ocorreu à noite, ficou em segredo para a família. Minha mãe velou sozinha o corpo dela. Nós ficamos sabendo só no dia seguinte. Ela assim quis que fosse. E assim ela fez. Passaram a última noite juntas e sozinhas. Só as duas: mãe e filha.
Alguns anos depois meu pai caiu doente. Naquela noite foi ela quem o segurou nos braços. E ela estava ali quando ele morreu. Ficou escolhendo um terno bonito para ele ser enterrado. Minha mãe chorou. Lembrou das coisas que ele gostava de dizer e fazer. Ficou o tempo todo com ele num gesto de extremo amor e dedicação, como havia sido a vida toda. E seguiu em frente.
A postura dela diante da morte me ensinou lições valiosíssimas. A primeira é que não há nada que mude o que está acontecendo. A morte consumada não permite volta. Não há grito, gesto, dor, que abrande isso. Então, o jeito é aceitar. Pois aceitando ou não vai continuar do mesmo jeito. Vai doer do mesmo jeito. Só que com menos espetáculo para os olhos alheios.
A segunda lição é: Nada que se diga nesse momento vai adiantar. Nada mesmo. Então o melhor é silenciar. Basta um abraço sincero. Um rápido “sinto muito”. Ficar dizendo que foi melhor assim, que foi a vontade de Deus, que isso ou aquilo, é bobagem.
Soa mais como uma tentativa desesperada de se safar da dor. Mas para quem foi laçado por ela, não tem jeito: vai ter que beber até o último gole. E depois ficar digerindo a dor por dias e dias a fio, feito uma sucuri pançuda que engoliu um imenso objeto de metal: não consegue expelir, não consegue por para fora. Fica ali, meio viva, meio morta, se arrastando devagar.
Por fim a lição mais importante: Não prolongar a dor. Esta é com certeza, a mais valiosa de todas. Imagine a dor como uma vizinha fofoqueira e oportunista. Assim, que você der chance, ela se aproxima para trazer notícias de coisas que não te dizem respeito. Trazer à tona coisas que não te servem mais.
Se tem que sangrar, que sangre.
Se tem que doer, que doa.
Mas que seja assim, de uma só vez. Como um parto atravessado.
Não dá para ficar arrancando a casquinha da ferida e acreditar que um dia ela vai sarar.
Minha mãe tem pouco estudo. Mas sempre teve a sabedoria de seguir em frente.
De vez em quando, ela dá uma olhadinha para trás. Mas para ter certeza que tudo ficou lá onde deveria. Que não está arrastando com ela um passado morto. Não dá para ficar se lamuriando quando a sua volta você vê histórias iguais ou piores que a sua. Destinos piores. Dores mil vezes mais fortes.
Lembro-me de uma história verídica acontecida na roça que minha mãe costumava sempre nos contar. A de uma vizinha que, perdendo o marido, saiu para o meio do terreiro correndo atrás de galinhas para preparar para os parentes que vinham de longe para o velório. Enquanto destroncava um a um, ela impassível, ia repetindo:
- O dono dos frangos morre, os frangos morrem também!
Meire Moreira
4 983
De onde?
De onde vem O amor A saudade O silêncio O vazio A dor A falta O abraço A luz O aconchego A partida A volta O adeus O agora A pressa O nunca A demora A presença O calor Eu Você Nós dois Sem pressa Nem depois.
921
Vazio
E o que vai nos manter em pé... As palavras que não dissemos Ou o amor que não fazemos?
665
A dor é deselegante
A dor é deselegante. Não bate à porta, não pede licença, não espreita se cabe. Entra, senta, se aloja e fica. E quando resolve ir, nos leva junto.
841
Finados
Hoje não é o dia de celebrar os mortos. É dia de celebrar os transformados.