E para formar o rio O sereno se consumiu Em suas margens fez brotam árvores poéticas Impregnando cheiro de poesia no ar Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia É saudável Palatável Colorido Incomparável.
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais. Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais. Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras. Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)
Nem sei como começar. Não tenho prática. Nestes quarenta anos nunca te escrevi. A senhora sabe como é: correria, muito trabalho, compromissos diversos e afinal, ninguém é de ferro né mãe. Mas hoje, parei de encontrar desculpas e resolvi te escrever. Talvez eu tenha algumas novidades pra te contar. Saiba a senhora que já não sou mais aquele menino que tinha vergonha de te beijar, de te abraçar, que não sabia o quanto é maravilhoso dizer e ouvir um “eu te amo”. Cresci mãe, passei e passo meus momentos de dificuldades. Não só eu, os irmãos também. Pena que não te abracei mais, que não te beijei mais, que não demonstrei mais o meu amor por você. Eu não sabia que você partiria tão rápido. Talvez se soubesse teria feito diferente ou morreria antes para não sofrer esta perda. Mas estou sobrevivendo, lutando, buscando sempre acertar. Você sabe o quanto é difícil tocar em frente. Eu tento facilitar, pode acreditar, mas ás vezes desabo. Não vou negar que tenho minhas fraquezas e culpas, mas também vivo momentos ótimos, inesquecíveis e lindos. Puxa! Estou escrevendo e me dou conta que até meus cabelos estão parcialmente brancos. Lembro como se fosse hoje o dia que você teve que ir. Nossa. Tanto tempo, mas a memória não se esquece de nada. Todos me deram uma especial atenção, tentaram me distrair. Eu era tão menino, tão inocente, mas sabia o que significava aquele momento. Eu sabia que meu melhor pedaço de doce ficava ali. Por muitos anos não consegui falar em você sem chorar. Agora também estou em lágrimas. De saudades, de vontade de te ver, de saber que se você estivesse comigo poderia ser mais fácil. De saber que no caminho, por vezes, encontramos mais espinhos do que flores. Naquele inicio de ano de setenta e dois, nos afastamos para nunca mais eu ver teu rosto. Não sei se, em algum momento, viste o meu. Estou diferente agora. Perdi aquele sorriso, perdi parte do brilho dos olhos desde aquele dia e agora ainda mais. Acho que pra aliviar um pouco comecei a escrever. Assim, despretensiosamente. Nos anos 80 fiz algumas crônicas para jornais. Depois fui escrevendo algumas poesias. Em 87 participei da primeira antologia. Hoje são várias participações. Participo de um site literário, tenho recebido até elogios. Acredita mãe? Verdade. Pena que você não pode ver. Este ano tenho um projeto mais ousado, conto com teu apoio materno para que dê tudo certo. Confio no teu amor. Confio na tua intercessão. A parte triste é que não poderei te enviar, sequer, esta cata. Você promete me ajudar mesmo assim? Saiba que eu escrevo com o coração, com a sensibilidade e a saudade de um filho que não te esquecerá jamais. Quem sabe você, com teus poderes de mãe consiga ler. Tomara. Tomara mesmo. Se não for possível me deixa, ao menos, sonhar que lerá. Por hoje era isso mãezinha. Beijos. Ainda amo você muito mais do que a mim mesmo. Feliz ano novo pra você. Feliz ano novo para todos.
372
Patas do mundo
Gigantes patas movem o mundo. Pesadas fazem tremer. Um passo a cada segundo. Sobe uma pra outra descer.
Pisadas que esmagam se dó. Afundam a argila da felicidade. Marcam de uma vez só. Ignoram as dificuldades.
Fincando estacas lascadas Mesmo tenazes se desmancham. Rosto que respiram em mordaças Vida dos vermes que avançam.
Enterra com tuas pegadas Toda esperança contida. Ficam todas sepultadas Sem sonho. Sem vida.
395
Um dia
Um dia eu estive lá. Vi você correndo alegremente Com os cabelos soltos cheirosos Radiante feliz e sorridente.
Um dia eu vi você. Pular em meus braços. Apertar-me tão forte A mais não poder.
Um dia eu estive lá. Incontido em tudo. Desejoso de me afundar Na meiguice do teu olhar.
Um dia eu vivi lá. Passeamos abraçados Vontades e desejos entrelaçados E ao fundo... O mar.
Um dia contemplamos juntos O mais lindo entardecer. Te fizeste tão minha. Fiz-me tão você.
Um dia eu tive que voltar, A tristeza foi tanta que me corroeu. Enquanto meu eu doloria ao retornar Imagino que você também sofreu.
426
Tempos
Foi um tempo de bravura Tentando naquela altura Não desistir de buscar. Tomava o ônibus de ida. Pra voltar era aventura. Sem paga não pode andar. A pé sempre retornava, Uma hora de caminhada Marcado passos na madrugada.
O calcanhar machucado. O joelho inchado, O jeans velho já surrado. Batia a fome malvada Muito mais ele desejava A situação mudar.
Á Deus pedia saúde. A mão Ele estendia Conformado, Dormia de barriga vazia.
Riqueza não interessava. Tudo o que ele buscava, Pra mesa a própria comida.
A vitória pouco importava. Mas diante das injustiças Não podia se calar.
Hoje no céu batalha. Com certeza me ilumina. Não és de jogar a toalha. Acredite, aqui continuo a tua sina.
345
Se é amor
Se é amor... É natural. Nasceu sem semear. No inverno não vai murchar.
Se é amor... Tem seu sabor. E ninguém conseguirá comparar.
Se é amor... Basta um olhar. Palavras podem atrapalhar. Mantenha segredo, nem precisa contar.
Se é amor... Diga baixinho. Ninguém mais precisa saber, Só eu. E talvez você.
381
Duas e meia
Não vou atribuir à má sorte este ardor. A beira da estrada o sol queima sem pesar. São apenas duas e meia e calor, Piso solo quente pra a areia me castigar.
Pra alma não há árvores sombrias Nem portas pra ventilar. Prevalecem às tristezas sobre as alegrias E tempestades dignas de penar.
Elevo-te ao ponto mais alto vida,
Sorria-me ao menos em alguns segundos. Vejo a esperança tingida Afundando sonhos e mundos.
Azula-me céu límpido de raios acalorados Este sol perpassa meus íntimos desejos. Onde estão as nuvens densas enamoradas, Que trarão chuvas abundantes de festejos?
382
Letal
A fidelidade jurada foi carnal, Trair-te não me põe pecador. Devaneios não causam mal. Traio mais nego amor.
Pois se desejo, sou desejado. Excetuando as trapalhadas Não amo, nem sou amado, És letal nos sussurros das gargalhadas.
Seguimos indiferentes na condição Não é amor, apenas é bom. É carne. Nunca será pão.
Outro deleite bem casual Fitamos o universo a procurar. Mero acaso, nada proposital.
458
Sou
Sou sonho Que se escreve desejo. Sou esperança Que se escreve pó. Sou angústia Que se escreve nó. Sou amor Que se escreve talvez. Sou infância Que se escreve distante. Sou passo Que se escreve muleta. Sou criança Que se escreve doçura. Sou conta nova Que se escreve dívida. Sou desejo Que se escreve vontade. Sou ânsia Que se escreve chocolate. Sou busca Que se escreve tentativa. Sou “homem não chora” Que se escreve falso. Sou medo Que se escreve insegurança. Sou natureza Que se escreve extinta. Sou verdade Que se escreve dureza. Sou solidão Que se escreve tristeza. Sou o eterno Que se escreve “até onde der”. Sou ternura Que se escreve mulher. Sou o “estou bem” Que se escreve mentira. Sou sólido Que se escreve derrama. Sou poesia Que se escreve... Em versos.
346
Mix
MIX
1-Nunca diga ao seu subconsciente que não quer perder. O “não” vai prevalecer. Diga apenas que quer vencer. E vencerá.
2-Tentei fingir que chorava demonstração de sentimentos, quando me avisaram que era eu o morto.
3-Armei uma bomba no meio do mundo e quando explodiu parti-me em dois.
4-Tranquei as portas com chave, com tranca, mas esqueci de algo lá fora.
5-Nada pior do que encontrar a porta aberta e não ter vontade de entrar.
6-É melhor ouvir um sim de quem sabe, também, dizer não.
7-Quem aborta um amigo, furta um ideal.
8-Deixei o que fui pra viver o que sou.
9-Diga não, mas me deixe agir.
10-Do guerrilheiro: Silêncio! Acho que ouvi um tiro.
11-Um dia esta leoazinha vai se transformar em gata e, mansamente, deitara a cabeça, em minha coxa para eu acariciá-la. Será?
12-Quando temos tempo de tirarmos pétalas de uma rosa, temos a sensibilidade de sermos verdadeiramente, homens.
13-Do solitário:(Não falei solidário) repartiremos o meu sanduiche.
14-Não escrevo. Apenas grafo no papel as dores da minha alma.
15-O que eu quis dizer com isso? Como saberei.
16-As pessoas perguntam por que, na minha idade, ainda escrevo sobre o amor. Deve ser pela incerteza se terei netos.
17-O sucesso tá ali, a um passo. Vai desistir agora?
18-Se ela soubesse a falta que me faz certamente me deixaria.
19-Conheço, basicamente, dois tipos de mulheres na minha vida: as que amo e as que amo ainda mais.
20- Ainda que fosse por um momento eu gostaria de ser exatamente como sou.
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Gota de mundo
O calor do sol aos poucos desmancha A gota de mundo pingada em meus cabelos. E provoca no couro uma nova mancha Onde não cresce novos pelos.
Que motivos temos para viver, Se a frieza mata a esperança. Se os sonhos cultivados tentam se esconder E de tolice destruímos as marcas da presença.
Dentro de mim cultivo tudo com o mesmo ardor Mas isso quem vai querer saber? Morro, mas não mato o amor, Um dia quem sabe o mundo possa entender.
Aos que dizem que de amor não se morre, Quero um desafio proclamar, Certamente suplantam o amor que nas veias corre, Não sabem a intensa maneira que tenho de amar.