monteiro_damaceno

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Velhice

Quando assalto as almas de ideias
E prendo-as no papel
Elas perdem tanto o seu primor.

Creio que seja o trauma sofrido por elas
De deixarem de ser além da matéria
E tornarem-se letras.

O trauma é, de tal modo,
que envelhecem bem novas,
E quando vou em suas folhas
Não me parecem ideias de outrora.

Fico caçando a ideia nas vírgulas
E tento-me achá-la em mim:
Mas ai lembro que a sequestrei
E tornei menos alma e mais gente.

Antes, uma cara vigorosa
Cheia de saúde
As veias que apareciam
Eram rígidas com vontade
Mas agora seus olhares são tão esmos
Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara;
Suas pernas, antes tão vigorosas,
Agora cheias de varizes irancudas
Sedentas de vingaça
Pela minha lesa à majestade.

A natureza faz de propósito
Para que eu não as admire mais
Mas eu, o que tenho a perder?
Apenas um júbilo a menos em meus dias
E as ideias, coitadas
Para sempre idosas na idade de 5
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Poemas

36

Red Fuji

Toda aquela tinta ordenada entre molduras
Linhas retas e curvas
Azul ministrado com calma, falhando para branco quando necessário
Pequenos círculos a imitarem gotas d'água
Todo esse conjunto de rabiscos
Uma maneira falha de embelezar o que é real
Imitando suas cores
E imaginando seus aromas
Pois a natureza não faz o seu trabalho por completo.
Nós coletamos, depois de alegrias e dores
As memórias de nossas vidas
O cair da água da cachoeira
O balançar dos galhos das árvores à moléstia do vento
O êxodo das águas de um limite do mundo ao outro
Todos esses contos
-Como não podemos leva-los conosco-
Os imitamos à nossa maneira e limite.
Aproveitamos o desgarro consentido do concreto sob a tela
Para colocarmos nossos ângulos e maneirismos.
Assim o azul é mais profundo
O vermelho é mais imperador
Tudo é mais tudo, e o nada também é tudo, onde tudo há de ter propósito.
Mas a natureza não é assim.
As ondas que se debruçam na areia da praia não a fazem por querer
O canto dos pássaros não é belo sem acaso
O vento não rebola os fios da donzela pois assim ela é mais bela ainda.
Toda a natureza, da sua gênese ao ômega, é improvisada e sem roteiro,
E por um belo acaso, foi um belo monólogo.
E o dia em que o vento chorar
O sol derramar
O negro brilhar
As estrelas criarem olhos,e por eles gritarem
E se tudo o mais perder a sanidade?
Então nós a perdemos.
E ai? O que há de se fazer?
Nada.
O sentido e a razão é um grande favor imaginário do universo a nós.
Toda a arte é por acaso
E pelo acaso, fazemos arte.
E realmente
Como são imperfeitos os traços
O quão finita é a tinta do quadro
Comparado ao real Fuji-san?
Mas realmente
Como são menos alegres e tristes suas sombras
O quão menos humana é a montanha
Comparado ao real quadro de Hokusai?
O que há de ganhar?
Dentro da moldura ou fora dela?
158

The Bullet

Escuto a bala evacuando da pistola
O vento é perfurado com raiva
O cartucho jogado para trás
Sinto a bala me perfurar
Beliscar minhas têmporas e entrar.

Então eu escuto alguém carregando a arma para atirar.
168

The Sound Of The Trumpets

Oh, I feel the angels singing....
I don't hear
But I feel

I feel
In each hair on my arm
The chords upon the clouds
Reciting my name
Echoing for all the paradise

I hear the run of the Horseman of Death...
I don't feel
But I hear

The steps that it lefts
Whips all the land
And where it stomps nothing grows anymore
But it doesn't matter, no one ever burnd there.

He becomes cloud
He covers the sun
His shadow is the perlude of the nightmare
-Oh,but mine is over.
However, I didn't wake up yet.

Why I don't woke up already?
Perhaps I have died in the dream
With that sickle falling like a sound
The sound of the trumpets.
146

Ruelas

Nado sem água
Respiro sem ar
Enxergo sem luz
Sinto sem pele

Queimo-me sem fogo
Falo sem boca
Penso sem mente
E morro sem vida

Tudo que me torno e sou
São em palavras escorregadias
Que me deslizam
Para lá e para cá
Atravessando suas ruelas
E vejo nas varandas das casas,
Todas as suas vidas, roubadas ou não.

Prosadas ou não,
Perfeitas ou não.
169

Roteiro

O roteiro, em sua quintessência
É a fúria em si
É a cópia da realidade
Que o autor tanto odeia
Pois se não por isso
Não estaria fingindo o real
No pedaço de papel

É a refração da vida
Na água de um copo prismado

É borrar um quadro já pintado
De cores que não deviam estar lá

O único erro de um roteiro são as palavras
É pintar um quadro com cores que já existe
Enquanto uma nova cor não nascer
O pintor não deixará de ser humano
Mas quando o ser humano será pintor?
175

Right In The End

As I wish for dearth
Its grey eyes
Avoid all my senses
Am I unworthy?
Am I a sinner?
Why I cannot be happy
Once in life?
-Right in the end
When no one will be disturbed?
No one stay in the exit
Only the smokers
With black lungs
And red speech

Exploing my head
Without reason
No poetry in death
Only souless blood drops

148

Breve

A vida
A rotina
Tudo ao redor
Tudo é uma piscina seca
Que aprendemos a nadar sem água
175

Perfume

Nariz irritado
Com perfume de engano
Faz meu coração parar

Mas que mulher formosa
Cheia de lágrimas para doar
E criar

Seu olhos são um verdadeiro céu
Queria poder voar neles
Até chegar às estrelas de sua alma

Seu vestido azul irônico
Contrasta com seu pai
O Rei Carmesim

Consquistar o rei
Para casar-se com tua filha
Não sei se vale a pena

Mas o seu perfume engana,não é mesmo?
Cheira a promessa
Quero me casar com tuas promessas
De dias melhores

Estou no aguardo
Para a coroação da Rainha Celeste.

O pai dela me chama:
"Quer saber como me tornei carmesim?"
Eu respondi: "Eu já sei como se moldou.
Muito,mas muitos costureiros
Remendaram sua capa rubra
uma costura para cada um
assim sua capa faz sombra à todos"

O rei sorriu para mim.
"Não quer costurar também?"
Não pude negar.
Mas descobri porque tantos homens remendaram a capa do rei carmesim
Todos atraidos pelo perfume
Daquela mulher formosa
Mas seu perfume engana, não é mesmo?
173

Pequena Nina

Pequena Nina de vida pouca
Nasceu e morreu chorando
Choro esse menor que o meu
Quanto te vi me deixando
Esquecendo a vida no apogeu

Minha alma já está rouca
Há anos que estou gritando
Pois minha voz já pereceu
Aos poucos me abandonando
Não há homem moribundo como eu

Você, solidão, está louca
Se acha que está me incomodando
Não sabes pois nunca sofreu
Perder um amor estando ainda amando
Não te vejo no meio deste breu

Não me importo com paixão tampouco
Que de todos eu fosse me isolando
Menos de meu pequeno anjo que já morreu
Não posso sentir teu corpo se aproximando
Pois de amores e felicidade,já sou ateu
149

O Vento

Sentado no pé da escadaria
Escuto o vento passar
Assobiar em meus ouvidos
Contos que não consigo entender

A vida da lavandeira
Estendendo sua roupa na varanda
Escarnando suas últiams dores do outro dia
Como se o vento fosse seu doutor

A vida do amante
Sonhando com a noite anterior
Dos beijos macios que deu nos seios da amada
Mas ela é de outro homem....
Ele não disse nada,
Só tragou o cigarro e expeliu a fumaça
E na fumaça,diziam todos os seus belos sonhos
-Todos com o nome dela

A vida do rapaz
Que acabara de perder a mãe
Berra igual sua estreia
Quando dormia nos colos dela.
Não se aguenta de pé um único momento,
E irancudo, condena o ar
Derrubando em suas costas
Todos os palavrões do mundo.
Mais tarde,ele volta chorar,
Mas chora fino
-Nem mesmo o vento consegue ouvir.

A vida da dançarina
Na cama do bordel
Do lado do cliente
Suspirando amores d'outras vidas
Vidas que não aconteceram.
Olha para o teto escuro e sujo
E não exerga teto algum
Só um amanhã brihante e glorioso
Como se o brodel não estivesse ali.
Como se nunca tivesse chorado no parapeito da janela
Por um raio de sol mais bonito do que aquilo.

A vida do pobre cão
Que late de fome
Na frente da padaria
Todo fraco e raquítico
-Se tivesse crença, teria rezado a noite inteira
Por um calor em sua barriga
E por um chão mais confortável.

E o vento me conta tudo.....
Mas eu não entendo nada.
Só imagino vidas deitadas no ar
Só escuto sons sem palavras
-As palavras coloco eu.
Se ele quiser mais histórias, procure outrem
Que eu mesmo nunca tive vida
Só sentado aqui
No pé da escada.

Quando ele se vai, vejo que somos tão parecidos
Vivemos vidas alheias
Sem sentir
Ou ver
Ou ouvir
Mas todos passam por nós
E nunca nos veem.
Mas eu nunca serei imortal como você
Sou apenas mais um conto incompleto.
175

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