monteiro_damaceno

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Mendigo

Leio uns versos quaisquer
Bonitos
Bem consturidos
Mas comuns.
Li ele em uma ruela da vida
E vi como deveria ver:
Apenas uma pedra dentre demais.
São lindas as viagens de cada letras
Porém não indígenas:
Quantos bardares
Já vi tão iguais?
Terminando a valsa
Já julgo serem versos marginais
De um exímio amador tal qual meu patamar
Quando vejo o autor:

Fernando Pessoa.

Então eu vejo uma poesia.

Se Pessoa fosse apenas uma pessoa
Se o papel em que escreveu tivesse sido esquecido
Na frente da tabacaria
Só seria tinta rabiscada em uma folha vagabunda.
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Poemas

36

Mendigo

Leio uns versos quaisquer
Bonitos
Bem consturidos
Mas comuns.
Li ele em uma ruela da vida
E vi como deveria ver:
Apenas uma pedra dentre demais.
São lindas as viagens de cada letras
Porém não indígenas:
Quantos bardares
Já vi tão iguais?
Terminando a valsa
Já julgo serem versos marginais
De um exímio amador tal qual meu patamar
Quando vejo o autor:

Fernando Pessoa.

Então eu vejo uma poesia.

Se Pessoa fosse apenas uma pessoa
Se o papel em que escreveu tivesse sido esquecido
Na frente da tabacaria
Só seria tinta rabiscada em uma folha vagabunda.
213

Pequena Nina

Pequena Nina de vida pouca
Nasceu e morreu chorando
Choro esse menor que o meu
Quanto te vi me deixando
Esquecendo a vida no apogeu

Minha alma já está rouca
Há anos que estou gritando
Pois minha voz já pereceu
Aos poucos me abandonando
Não há homem moribundo como eu

Você, solidão, está louca
Se acha que está me incomodando
Não sabes pois nunca sofreu
Perder um amor estando ainda amando
Não te vejo no meio deste breu

Não me importo com paixão tampouco
Que de todos eu fosse me isolando
Menos de meu pequeno anjo que já morreu
Não posso sentir teu corpo se aproximando
Pois de amores e felicidade,já sou ateu
153

Musa

Essa minha mensagem é para você
Minha formosa musa
A enterna indigente da galáxia
Enterrada no fundo do cosmo
Com os vermes do acaso
Dilascerando seu corpo.

Tua pele é imperatriz
Um arco-íris de beleza:
É negra, é ébano;
É branca, é cor-de-neve;
É brozeada, pincelada pelo sol;
Cabelo ruivo, beijada pelo fogo;
Crespo, ondulado como o Atlântico;
Liso, calmo como o Pacífico;
É louro, dourado como tua alma;
É castanho, como os carvalhos de seu jardim
avizinhados das palmeiras,
dos coqueiros,
dos pinheiros;
É negro, como o véu que te encobre,
escondendo sua verdadeira beleza.

Seu rosto é alongado,
É curto,
É largo,
É fino;
Seu nariz estreito e chato;
Seus lábios magros como pinceladas de amor,
E grossos como força de teu calor.


Você é todo mundo,
Mas ninguém te conhece
Como eu te conheço.
Muitos pensam seus seus seios
Pequenos,fartos
Seus quadris,
Magros, gordos, retos e redondos;
Muitos te olham
Mas não te enxergam
Como eu te enxergo.

São poucos os homens que te vislumbram
Atráves da cortina carmesim
De onde tu se escondia por trás.
O holoforte projeta sua sombra na cortina
E todos ficavam loucos com sua dança.
Eles te estudavam
Amavam-te
Mas não como eu.

Dormi contigo
Sonhei contigo
Eu que vi o abismo de seus olhos;
Todos sabem de seus pecados
Mas só eu que vi
Seu clamor por redenção.

Pensamentos suicidas te cercavam,
Era esse seu pecado.
Machucava-se
Esfolava-se
Cortave-se sem perdão.
Sem ninguém para te amar,
Procurou,procurou
Mas ninguém lhe amou.
Não,não como eu te amei.

Mas vocês não sabia.
Nunca sentiu meu clamor para contigo.
Deus sabe quantas noites eu chorei
Porque vi você chorar
Porque vi você sofrer
Sangrar sem parar.

Quando te achei, já era muito tarde:
No salão vazio, no canto da parede
Tu jazia morta
Afogada em pecado.

E ali você ficou:
Ninguém havia te achado
Todas as outras pessoas estavam longe
E ali,naquele canto sem nome
Você apodreceu.

Você já estava muito doente antes:
Pálida,mas não era aquele seu pálido invernal,
Era um pálido morimbundo
Que amaldiçoava sua pele branca,
que também era negra,
amarela,
bronzeada,
parda.

Seus olhos,outrora sendo tudo
Já não enxergavam nada
e não tinham mais aquelas cores
que pelas quais eu tanto me apaixonei.

Anos se passaram,e você continuou lá
Sem lápide,
sem epitáfio.
E agora, volto para seu leito de morte
E ainda admiro seu corpo,
que já foi muito belo,
mas mais bela ainda era sua alma.
Muitos diriam que você era louca,
era doente,
que merecia morrer.
O inferno para eles!,eles não sabem o que falam.
Só queriam o seu corpo,todos eles!
Só eu que quis tua alma.

Agora o véu de estrelas te cobre,perfeita:
Os pequenos pontos iluminados desenham seu rosto
E te tornam mais uma vez bela.

Já te chamaram por inúmeros nomes
Mas só eu que te ouvi sussurrar
Seu belo nome,

Ó,minha bela
Humanidade.
211

Colombo

Você é o meu Novo Mundo
Você é a milha Marília
Teu olhar já me exila
Desconheço um mais profundo

Navego para além dos sentidos
Para contornar o seu amor
O vazio só me causar dor
Suas terras já tinham nativos

Meu nome é Colombo
Descobri o amor
Achando que era coisa qualquer
Carrego no ombro
Tremenda dor
A de que você não é minha mulher

Queria ter morrido antes de saber
Que você não é uma
Você é "A"
164

Título

O dia em que o poeta se tornará o poema
E o seus versos, o título
Nesse dia não dormirei feliz.
165

Aplausos

Odeio de cor
Os aplausos já esperados
Depois de um corar de um poema
Quebrando amoralmente
A quietude da palavra
169

Ruelas

Nado sem água
Respiro sem ar
Enxergo sem luz
Sinto sem pele

Queimo-me sem fogo
Falo sem boca
Penso sem mente
E morro sem vida

Tudo que me torno e sou
São em palavras escorregadias
Que me deslizam
Para lá e para cá
Atravessando suas ruelas
E vejo nas varandas das casas,
Todas as suas vidas, roubadas ou não.

Prosadas ou não,
Perfeitas ou não.
173

Velhice

Quando assalto as almas de ideias
E prendo-as no papel
Elas perdem tanto o seu primor.

Creio que seja o trauma sofrido por elas
De deixarem de ser além da matéria
E tornarem-se letras.

O trauma é, de tal modo,
que envelhecem bem novas,
E quando vou em suas folhas
Não me parecem ideias de outrora.

Fico caçando a ideia nas vírgulas
E tento-me achá-la em mim:
Mas ai lembro que a sequestrei
E tornei menos alma e mais gente.

Antes, uma cara vigorosa
Cheia de saúde
As veias que apareciam
Eram rígidas com vontade
Mas agora seus olhares são tão esmos
Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara;
Suas pernas, antes tão vigorosas,
Agora cheias de varizes irancudas
Sedentas de vingaça
Pela minha lesa à majestade.

A natureza faz de propósito
Para que eu não as admire mais
Mas eu, o que tenho a perder?
Apenas um júbilo a menos em meus dias
E as ideias, coitadas
Para sempre idosas na idade de 5
238

Red Fuji

Toda aquela tinta ordenada entre molduras
Linhas retas e curvas
Azul ministrado com calma, falhando para branco quando necessário
Pequenos círculos a imitarem gotas d'água
Todo esse conjunto de rabiscos
Uma maneira falha de embelezar o que é real
Imitando suas cores
E imaginando seus aromas
Pois a natureza não faz o seu trabalho por completo.
Nós coletamos, depois de alegrias e dores
As memórias de nossas vidas
O cair da água da cachoeira
O balançar dos galhos das árvores à moléstia do vento
O êxodo das águas de um limite do mundo ao outro
Todos esses contos
-Como não podemos leva-los conosco-
Os imitamos à nossa maneira e limite.
Aproveitamos o desgarro consentido do concreto sob a tela
Para colocarmos nossos ângulos e maneirismos.
Assim o azul é mais profundo
O vermelho é mais imperador
Tudo é mais tudo, e o nada também é tudo, onde tudo há de ter propósito.
Mas a natureza não é assim.
As ondas que se debruçam na areia da praia não a fazem por querer
O canto dos pássaros não é belo sem acaso
O vento não rebola os fios da donzela pois assim ela é mais bela ainda.
Toda a natureza, da sua gênese ao ômega, é improvisada e sem roteiro,
E por um belo acaso, foi um belo monólogo.
E o dia em que o vento chorar
O sol derramar
O negro brilhar
As estrelas criarem olhos,e por eles gritarem
E se tudo o mais perder a sanidade?
Então nós a perdemos.
E ai? O que há de se fazer?
Nada.
O sentido e a razão é um grande favor imaginário do universo a nós.
Toda a arte é por acaso
E pelo acaso, fazemos arte.
E realmente
Como são imperfeitos os traços
O quão finita é a tinta do quadro
Comparado ao real Fuji-san?
Mas realmente
Como são menos alegres e tristes suas sombras
O quão menos humana é a montanha
Comparado ao real quadro de Hokusai?
O que há de ganhar?
Dentro da moldura ou fora dela?
161

Trincheiras

No meio da aula, seus olhos concentraram-se em seu rosto: seu cabelo pintado de vinho com uma tinta completamente vagabunda, sua pele flácida e pálica, de rosto curto e mandíbula pequena, de nariz empinado e os seus olhos castanho-claros, aérios como nuvens. Ele enxergava suas expressões facias como bem desenhadas e definidas. O que ele imaginava era que o uso precose e irregulado do álcool e do cigarro na jovem moça tenham deteriorado sua pele indevidamente. Essa imagem lhe causava asco, e essa tal imagem tenha-lhe apodrecido sua vista nela. Trincheiras profundas num campo coberto de neve, era assim como ele via.
154

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