monteiro_damaceno

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Red Fuji

Toda aquela tinta ordenada entre molduras
Linhas retas e curvas
Azul ministrado com calma, falhando para branco quando necessário
Pequenos círculos a imitarem gotas d'água
Todo esse conjunto de rabiscos
Uma maneira falha de embelezar o que é real
Imitando suas cores
E imaginando seus aromas
Pois a natureza não faz o seu trabalho por completo.
Nós coletamos, depois de alegrias e dores
As memórias de nossas vidas
O cair da água da cachoeira
O balançar dos galhos das árvores à moléstia do vento
O êxodo das águas de um limite do mundo ao outro
Todos esses contos
-Como não podemos leva-los conosco-
Os imitamos à nossa maneira e limite.
Aproveitamos o desgarro consentido do concreto sob a tela
Para colocarmos nossos ângulos e maneirismos.
Assim o azul é mais profundo
O vermelho é mais imperador
Tudo é mais tudo, e o nada também é tudo, onde tudo há de ter propósito.
Mas a natureza não é assim.
As ondas que se debruçam na areia da praia não a fazem por querer
O canto dos pássaros não é belo sem acaso
O vento não rebola os fios da donzela pois assim ela é mais bela ainda.
Toda a natureza, da sua gênese ao ômega, é improvisada e sem roteiro,
E por um belo acaso, foi um belo monólogo.
E o dia em que o vento chorar
O sol derramar
O negro brilhar
As estrelas criarem olhos,e por eles gritarem
E se tudo o mais perder a sanidade?
Então nós a perdemos.
E ai? O que há de se fazer?
Nada.
O sentido e a razão é um grande favor imaginário do universo a nós.
Toda a arte é por acaso
E pelo acaso, fazemos arte.
E realmente
Como são imperfeitos os traços
O quão finita é a tinta do quadro
Comparado ao real Fuji-san?
Mas realmente
Como são menos alegres e tristes suas sombras
O quão menos humana é a montanha
Comparado ao real quadro de Hokusai?
O que há de ganhar?
Dentro da moldura ou fora dela?
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Poemas

36

Aplausos

Odeio de cor
Os aplausos já esperados
Depois de um corar de um poema
Quebrando amoralmente
A quietude da palavra
169

Breve

A vida
A rotina
Tudo ao redor
Tudo é uma piscina seca
Que aprendemos a nadar sem água
178

Arte

O espectador é a mais suprema forma de arte:
versátil, ele a tudo se transforma e a tudo significa.
A verdadeira beleza de uma obra está em que a admira,
como se quem fosse espectador
fosse a própria obra.
A obra é apenas uma porta de entrada para o sentir,
e quem a observa
sente-a como ela nunca faria em retorno,
e muito mais além do próprio sentir.
A arte é estática, mesma as que representam cinemática,
pois as mesmas são efêmeras,assim como nós.
Talvez seja por isso que procuramos arte:
ou um espelho quebrado de nossa própria natureza,
ou então para assistir um espetáculo mais finitos que nós
Para nos sentirmos
além do fim.
183

Mendigo

Leio uns versos quaisquer
Bonitos
Bem consturidos
Mas comuns.
Li ele em uma ruela da vida
E vi como deveria ver:
Apenas uma pedra dentre demais.
São lindas as viagens de cada letras
Porém não indígenas:
Quantos bardares
Já vi tão iguais?
Terminando a valsa
Já julgo serem versos marginais
De um exímio amador tal qual meu patamar
Quando vejo o autor:

Fernando Pessoa.

Então eu vejo uma poesia.

Se Pessoa fosse apenas uma pessoa
Se o papel em que escreveu tivesse sido esquecido
Na frente da tabacaria
Só seria tinta rabiscada em uma folha vagabunda.
212

4th of July

When the rain falls around
I sing the anthem out loud
Don't call me whem I'm among the stripes
'cuz I'm the fool of the 4th of the July
154

Bonne nuit, Julia - O manequim

A chuva que nos coloniza
Que ara a terra de nossa pele
Que cai como Lúcifer em nossos pelos
Cobre feito véu
Nosso belo adeus.

Ela tenta, em vão
Que todos os outros não vejam nosso partir
Achando que suas gotas
Vão tão grossas quando concreto
Mas, entre todo esse universo entre elas
Um intrometido qualquer pode avistar
Nosso requíem de paixão
Como uma criança
Em uma fechadura feita de chuva.

O vento nos arranha igualmente
Talvez por pura cólera
Por dar fim nossa própria festa.
Ou seja ele nos puxando
Para perto um do outro
Tão violentamente e dessesperadamente
Que já começa a chorar de temor (a chuva, lágrimas suas,
trovões, seus berros)

O neon do letreiro do cinema
Falha e pisca
Sua existência começar a falhar
Ao ver o precipício do cadafalso.

A chuva para:
O vento finalmente aceitou o fim de sagrado matrimônio,
Como uma mãe que deixa para trás seu filho amado,
Deitado no caixão.
Mas o corpo apodrece,
O corpo começa a feder.
O miasma ali nasce.
Quando o cheiro de mormaço sobe
É o chão tentando nos avisar
Do que será o mundo sem nosso amor.

Mas eu lhes digo que basta!
Quando o cheiro sobre, já não vejo ela.
Ela já virou a esquina.
Já estou a caminho de casa.
Mais um episódio de paixão
De uma grande odisséia amorosa.
Cada pessoa por quem me apaixonei
Tornaram-se apenas paixão,
O amor nunca veio.
A única por quem eu tenho verdadeiro,
genuino
E inexorável amor
É a própria paixão.

Eu amo a paixão:
Todas as pessoas por quem me apaixono
São apenas vestidos dessa bela mulher
Que é só minha
-Pelo menos,foi o que ela me disse.

Eu penso em como vivem esses homens e mulheres
Que trocariam essa mulher pelo vestido:
Jogando-a no lixo,
E colocando um manequim no seu lugar
Apenas para ver o vestido em alguma silhueta.
O carmesim dessa seda é tão bela assim?
200

Depois dos créditos

Em lágrimas se afogou
Tornou-se Ofélia que não era só sua

Debruçado aos gritos surdos da meia-noite
Gritos iguais sussuros

Já não respira no leito
No chão, já tinha sua cova

Viu a beleza da moça, mas acabou;
Já tirou sua pele e carne, volta a terra

Naquela barro batido, os grãos sinalizam
A beleza dela, justa pois finita

Mas não seja por isso.
Que quando nascer de novo, cá estará ele.
153

Maresia

Sempre procuro outros sonhos
Que não sejam amor:
Viajando na beirada das estrelas
Deslisando os dedos nos anéis de Saturno
Dormindo com nebulosas, estas chovendo em meus cabelos.

Essas icógnitas
São-me tão mais belas
Tão mais fáceis de namorar
Do que o amor
Esse matagal sem insetos ou animais
Só um verde simples
E eis que mora o ventre do perigo:
Sem desafios,,só se ver o belo verde
Onde se mergulha
E não se vê fim.
Se afoga no lamaçal em seus pés
E se enoja.
E quando escapa
Fica menos crente de suas belezas
Até que desiste.

Nunca beijei
Nunca transei
Mas nunca odiei quem o faz ou já fez;
Pesadelos meus não maculam sonhos alheios
Mas a alegria destes só sujam minhas vistas.
Mas,respiro fundo,
E limpo os meus olhos.

E,na enseada no fundo do cosmos,
Vejo a maresia ir e voltar,
As estrelas dançando como água,
E respingarem.
Eu espero,ansioso
O dia em que amarei e deixarei de amar
Para compartilhar com vocês
Meus devaneios e companhias.

Se são reais ou fantasia,
Só a maresia saberá.
214

Imbecilidade Ornamentada A Ouro

Banho os interpérios de minha mediocridade
Com palavras rebuscadas em demasia

Disfarço minha ignorância com sagacidade
Com alegorias e fantasia

Comtemporâneos como eu,que possuem tal habilidade
Fluem à favor da maresia

mesmo a contragosto; sinto esta tempestividade
também nego, me engolfo em teimosia

Nós nos recusamos a admitir tamanha promiscuidade
Equipararmo-nos com a ralé sem assepsia

Mas nós somos imbecis igual ao resto da cidade
Não é justo tratar-lhes com tanta descortesia
157

Camarim

Te olho,mas não te vejo
Me enxergando
Apenas seus olhos
Me olhando
Oblíquo
Sem verem o que há detrás da cortina
Os bastidores de minh'alma

Imaginando fantasias
Que não fantasio
Se é que pensas
que fantasio com tuas fantasias
Que não são minhas
[e furto-as do mesmo jeito
Mas enxerga o eterno balé
Rodopiante no camrim
No chão de madeira do palco
enxarcado de lágrimas minhas
já de outrem

Tu não imaginas
só me enxergas
Não te enxergo mais
Depois de tantas fantasias

Também não enxergo teu balé
Mas eu aspiro tanto
Ser seu bailarino
Mesmo não sabendo dançar
[ou amar
Tu não me ouves
Tu nunca me quiseste
Como eu te quis

Quero não te querer mais, mas mostra-se uma tarefa árdua nessa madrugada de paixão.

O/v/e/r/s/e/i/r/o/i/n/a/n/i/m/a/d/o

Prosado
Versado
Envergado
Para o céu sem ninguém
Estrelas que nunca amaram alguém
São paixões de outrem
Olhando muito além
Mais profundo do que qualquer
[amém
Rimas de Santárem
Aqueles que as cantarem

Versos deformados e obscuros
Cujos sentidos escapam do próprio autor
Pois a verdadeiro obra está no leitor
no espectador
admirador

No fatal corte da solidão...
Não a sinto. Não. não.
Não há o que se doer
Em míseras palavras de
Adolescente.
212

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