monteiro_damaceno

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Velhice

Quando assalto as almas de ideias
E prendo-as no papel
Elas perdem tanto o seu primor.

Creio que seja o trauma sofrido por elas
De deixarem de ser além da matéria
E tornarem-se letras.

O trauma é, de tal modo,
que envelhecem bem novas,
E quando vou em suas folhas
Não me parecem ideias de outrora.

Fico caçando a ideia nas vírgulas
E tento-me achá-la em mim:
Mas ai lembro que a sequestrei
E tornei menos alma e mais gente.

Antes, uma cara vigorosa
Cheia de saúde
As veias que apareciam
Eram rígidas com vontade
Mas agora seus olhares são tão esmos
Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara;
Suas pernas, antes tão vigorosas,
Agora cheias de varizes irancudas
Sedentas de vingaça
Pela minha lesa à majestade.

A natureza faz de propósito
Para que eu não as admire mais
Mas eu, o que tenho a perder?
Apenas um júbilo a menos em meus dias
E as ideias, coitadas
Para sempre idosas na idade de 5
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Poemas

36

Mendigo

Leio uns versos quaisquer
Bonitos
Bem consturidos
Mas comuns.
Li ele em uma ruela da vida
E vi como deveria ver:
Apenas uma pedra dentre demais.
São lindas as viagens de cada letras
Porém não indígenas:
Quantos bardares
Já vi tão iguais?
Terminando a valsa
Já julgo serem versos marginais
De um exímio amador tal qual meu patamar
Quando vejo o autor:

Fernando Pessoa.

Então eu vejo uma poesia.

Se Pessoa fosse apenas uma pessoa
Se o papel em que escreveu tivesse sido esquecido
Na frente da tabacaria
Só seria tinta rabiscada em uma folha vagabunda.
209

Colombo

Você é o meu Novo Mundo
Você é a milha Marília
Teu olhar já me exila
Desconheço um mais profundo

Navego para além dos sentidos
Para contornar o seu amor
O vazio só me causar dor
Suas terras já tinham nativos

Meu nome é Colombo
Descobri o amor
Achando que era coisa qualquer
Carrego no ombro
Tremenda dor
A de que você não é minha mulher

Queria ter morrido antes de saber
Que você não é uma
Você é "A"
161

Ruelas

Nado sem água
Respiro sem ar
Enxergo sem luz
Sinto sem pele

Queimo-me sem fogo
Falo sem boca
Penso sem mente
E morro sem vida

Tudo que me torno e sou
São em palavras escorregadias
Que me deslizam
Para lá e para cá
Atravessando suas ruelas
E vejo nas varandas das casas,
Todas as suas vidas, roubadas ou não.

Prosadas ou não,
Perfeitas ou não.
169

Right In The End

As I wish for dearth
Its grey eyes
Avoid all my senses
Am I unworthy?
Am I a sinner?
Why I cannot be happy
Once in life?
-Right in the end
When no one will be disturbed?
No one stay in the exit
Only the smokers
With black lungs
And red speech

Exploing my head
Without reason
No poetry in death
Only souless blood drops

148

Perfume

Nariz irritado
Com perfume de engano
Faz meu coração parar

Mas que mulher formosa
Cheia de lágrimas para doar
E criar

Seu olhos são um verdadeiro céu
Queria poder voar neles
Até chegar às estrelas de sua alma

Seu vestido azul irônico
Contrasta com seu pai
O Rei Carmesim

Consquistar o rei
Para casar-se com tua filha
Não sei se vale a pena

Mas o seu perfume engana,não é mesmo?
Cheira a promessa
Quero me casar com tuas promessas
De dias melhores

Estou no aguardo
Para a coroação da Rainha Celeste.

O pai dela me chama:
"Quer saber como me tornei carmesim?"
Eu respondi: "Eu já sei como se moldou.
Muito,mas muitos costureiros
Remendaram sua capa rubra
uma costura para cada um
assim sua capa faz sombra à todos"

O rei sorriu para mim.
"Não quer costurar também?"
Não pude negar.
Mas descobri porque tantos homens remendaram a capa do rei carmesim
Todos atraidos pelo perfume
Daquela mulher formosa
Mas seu perfume engana, não é mesmo?
173

Depois dos créditos

Em lágrimas se afogou
Tornou-se Ofélia que não era só sua

Debruçado aos gritos surdos da meia-noite
Gritos iguais sussuros

Já não respira no leito
No chão, já tinha sua cova

Viu a beleza da moça, mas acabou;
Já tirou sua pele e carne, volta a terra

Naquela barro batido, os grãos sinalizam
A beleza dela, justa pois finita

Mas não seja por isso.
Que quando nascer de novo, cá estará ele.
151

Imbecilidade Ornamentada A Ouro

Banho os interpérios de minha mediocridade
Com palavras rebuscadas em demasia

Disfarço minha ignorância com sagacidade
Com alegorias e fantasia

Comtemporâneos como eu,que possuem tal habilidade
Fluem à favor da maresia

mesmo a contragosto; sinto esta tempestividade
também nego, me engolfo em teimosia

Nós nos recusamos a admitir tamanha promiscuidade
Equipararmo-nos com a ralé sem assepsia

Mas nós somos imbecis igual ao resto da cidade
Não é justo tratar-lhes com tanta descortesia
153

Bonne nuit, Julia - O manequim

A chuva que nos coloniza
Que ara a terra de nossa pele
Que cai como Lúcifer em nossos pelos
Cobre feito véu
Nosso belo adeus.

Ela tenta, em vão
Que todos os outros não vejam nosso partir
Achando que suas gotas
Vão tão grossas quando concreto
Mas, entre todo esse universo entre elas
Um intrometido qualquer pode avistar
Nosso requíem de paixão
Como uma criança
Em uma fechadura feita de chuva.

O vento nos arranha igualmente
Talvez por pura cólera
Por dar fim nossa própria festa.
Ou seja ele nos puxando
Para perto um do outro
Tão violentamente e dessesperadamente
Que já começa a chorar de temor (a chuva, lágrimas suas,
trovões, seus berros)

O neon do letreiro do cinema
Falha e pisca
Sua existência começar a falhar
Ao ver o precipício do cadafalso.

A chuva para:
O vento finalmente aceitou o fim de sagrado matrimônio,
Como uma mãe que deixa para trás seu filho amado,
Deitado no caixão.
Mas o corpo apodrece,
O corpo começa a feder.
O miasma ali nasce.
Quando o cheiro de mormaço sobe
É o chão tentando nos avisar
Do que será o mundo sem nosso amor.

Mas eu lhes digo que basta!
Quando o cheiro sobre, já não vejo ela.
Ela já virou a esquina.
Já estou a caminho de casa.
Mais um episódio de paixão
De uma grande odisséia amorosa.
Cada pessoa por quem me apaixonei
Tornaram-se apenas paixão,
O amor nunca veio.
A única por quem eu tenho verdadeiro,
genuino
E inexorável amor
É a própria paixão.

Eu amo a paixão:
Todas as pessoas por quem me apaixono
São apenas vestidos dessa bela mulher
Que é só minha
-Pelo menos,foi o que ela me disse.

Eu penso em como vivem esses homens e mulheres
Que trocariam essa mulher pelo vestido:
Jogando-a no lixo,
E colocando um manequim no seu lugar
Apenas para ver o vestido em alguma silhueta.
O carmesim dessa seda é tão bela assim?
198

4th of July

When the rain falls around
I sing the anthem out loud
Don't call me whem I'm among the stripes
'cuz I'm the fool of the 4th of the July
152

Maresia

Sempre procuro outros sonhos
Que não sejam amor:
Viajando na beirada das estrelas
Deslisando os dedos nos anéis de Saturno
Dormindo com nebulosas, estas chovendo em meus cabelos.

Essas icógnitas
São-me tão mais belas
Tão mais fáceis de namorar
Do que o amor
Esse matagal sem insetos ou animais
Só um verde simples
E eis que mora o ventre do perigo:
Sem desafios,,só se ver o belo verde
Onde se mergulha
E não se vê fim.
Se afoga no lamaçal em seus pés
E se enoja.
E quando escapa
Fica menos crente de suas belezas
Até que desiste.

Nunca beijei
Nunca transei
Mas nunca odiei quem o faz ou já fez;
Pesadelos meus não maculam sonhos alheios
Mas a alegria destes só sujam minhas vistas.
Mas,respiro fundo,
E limpo os meus olhos.

E,na enseada no fundo do cosmos,
Vejo a maresia ir e voltar,
As estrelas dançando como água,
E respingarem.
Eu espero,ansioso
O dia em que amarei e deixarei de amar
Para compartilhar com vocês
Meus devaneios e companhias.

Se são reais ou fantasia,
Só a maresia saberá.
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