Leio uns versos quaisquer Bonitos Bem consturidos Mas comuns. Li ele em uma ruela da vida E vi como deveria ver: Apenas uma pedra dentre demais. São lindas as viagens de cada letras Porém não indígenas: Quantos bardares Já vi tão iguais? Terminando a valsa Já julgo serem versos marginais De um exímio amador tal qual meu patamar Quando vejo o autor:
Fernando Pessoa.
Então eu vejo uma poesia.
Se Pessoa fosse apenas uma pessoa Se o papel em que escreveu tivesse sido esquecido Na frente da tabacaria Só seria tinta rabiscada em uma folha vagabunda.
Banho os interpérios de minha mediocridade Com palavras rebuscadas em demasia
Disfarço minha ignorância com sagacidade Com alegorias e fantasia
Comtemporâneos como eu,que possuem tal habilidade Fluem à favor da maresia
mesmo a contragosto; sinto esta tempestividade também nego, me engolfo em teimosia
Nós nos recusamos a admitir tamanha promiscuidade Equipararmo-nos com a ralé sem assepsia
Mas nós somos imbecis igual ao resto da cidade Não é justo tratar-lhes com tanta descortesia
158
Breve
A vida A rotina Tudo ao redor Tudo é uma piscina seca Que aprendemos a nadar sem água
180
Bonne nuit, Julia - O manequim
A chuva que nos coloniza Que ara a terra de nossa pele Que cai como Lúcifer em nossos pelos Cobre feito véu Nosso belo adeus.
Ela tenta, em vão Que todos os outros não vejam nosso partir Achando que suas gotas Vão tão grossas quando concreto Mas, entre todo esse universo entre elas Um intrometido qualquer pode avistar Nosso requíem de paixão Como uma criança Em uma fechadura feita de chuva.
O vento nos arranha igualmente Talvez por pura cólera Por dar fim nossa própria festa. Ou seja ele nos puxando Para perto um do outro Tão violentamente e dessesperadamente Que já começa a chorar de temor (a chuva, lágrimas suas, trovões, seus berros)
O neon do letreiro do cinema Falha e pisca Sua existência começar a falhar Ao ver o precipício do cadafalso.
A chuva para: O vento finalmente aceitou o fim de sagrado matrimônio, Como uma mãe que deixa para trás seu filho amado, Deitado no caixão. Mas o corpo apodrece, O corpo começa a feder. O miasma ali nasce. Quando o cheiro de mormaço sobe É o chão tentando nos avisar Do que será o mundo sem nosso amor.
Mas eu lhes digo que basta! Quando o cheiro sobre, já não vejo ela. Ela já virou a esquina. Já estou a caminho de casa. Mais um episódio de paixão De uma grande odisséia amorosa. Cada pessoa por quem me apaixonei Tornaram-se apenas paixão, O amor nunca veio. A única por quem eu tenho verdadeiro, genuino E inexorável amor É a própria paixão.
Eu amo a paixão: Todas as pessoas por quem me apaixono São apenas vestidos dessa bela mulher Que é só minha -Pelo menos,foi o que ela me disse.
Eu penso em como vivem esses homens e mulheres Que trocariam essa mulher pelo vestido: Jogando-a no lixo, E colocando um manequim no seu lugar Apenas para ver o vestido em alguma silhueta. O carmesim dessa seda é tão bela assim?
202
Depois dos créditos
Em lágrimas se afogou Tornou-se Ofélia que não era só sua
Debruçado aos gritos surdos da meia-noite Gritos iguais sussuros
Já não respira no leito No chão, já tinha sua cova
Viu a beleza da moça, mas acabou; Já tirou sua pele e carne, volta a terra
Naquela barro batido, os grãos sinalizam A beleza dela, justa pois finita
Mas não seja por isso. Que quando nascer de novo, cá estará ele.
154
Right In The End
As I wish for dearth Its grey eyes Avoid all my senses Am I unworthy? Am I a sinner? Why I cannot be happy Once in life? -Right in the end When no one will be disturbed? No one stay in the exit Only the smokers With black lungs And red speech
Exploing my head Without reason No poetry in death Only souless blood drops
149
Roteiro
O roteiro, em sua quintessência É a fúria em si É a cópia da realidade Que o autor tanto odeia Pois se não por isso Não estaria fingindo o real No pedaço de papel
É a refração da vida Na água de um copo prismado
É borrar um quadro já pintado De cores que não deviam estar lá
O único erro de um roteiro são as palavras É pintar um quadro com cores que já existe Enquanto uma nova cor não nascer O pintor não deixará de ser humano Mas quando o ser humano será pintor?
178
Maresia
Sempre procuro outros sonhos Que não sejam amor: Viajando na beirada das estrelas Deslisando os dedos nos anéis de Saturno Dormindo com nebulosas, estas chovendo em meus cabelos.
Essas icógnitas São-me tão mais belas Tão mais fáceis de namorar Do que o amor Esse matagal sem insetos ou animais Só um verde simples E eis que mora o ventre do perigo: Sem desafios,,só se ver o belo verde Onde se mergulha E não se vê fim. Se afoga no lamaçal em seus pés E se enoja. E quando escapa Fica menos crente de suas belezas Até que desiste.
Nunca beijei Nunca transei Mas nunca odiei quem o faz ou já fez; Pesadelos meus não maculam sonhos alheios Mas a alegria destes só sujam minhas vistas. Mas,respiro fundo, E limpo os meus olhos.
E,na enseada no fundo do cosmos, Vejo a maresia ir e voltar, As estrelas dançando como água, E respingarem. Eu espero,ansioso O dia em que amarei e deixarei de amar Para compartilhar com vocês Meus devaneios e companhias.
Se são reais ou fantasia, Só a maresia saberá.
214
O Peregrino Da Perdição
Andando a esmo na orla do inferno Tendo as pernas espetadas pelos grãos de areia Carregados pelos ventos malditos Seguindo o bradar do demônio interno Sentindo a acidez do sangue fervente em sua veia Escapando dos pensamentos bandidos
Marcha de almas penadas Em direção das montanhas infernais Em subida infinita para o paraíso Apenas pensamentos tolos e incalculados Vão em tentativas fracassadas Nascidas nanimortas pois nos atos banais Foram cruéis,podres,escarnavam a riso Tentam apenas por instinto,eternos maculados
O peregrino das dunas infernais vê tudo Olha triste,visão digna de pena Mas também magnífica,em tom absoluto Nunca vivenciou uma mais bela cena
Corpos podres e negros Uma torre de corpos,que das nuvens utrapassava Escorada nas montanhas,visão surreal e inumana À esquerda,a queda rente da montanha À direita,as silhuetas horrendas dos pecadores Iluminados pela luz dos relâmpagos vermelhos Do céu da perdição
173
Candle
A tinta da caneta É a sombra da alma. Rouba-lhe o contorno, Mas só sob a luz A vida se revela.
A vela no meio da mesa Majesta no escuro, Que sem sua luz, As sombras, suas servas Não estariam ali.
Vivendo nos domínios do claro Não ousam viver na fronteira da vida, Pssando do real, Se mesclando com o vazio.
Elas todas Silhuetas de outrem, Nenhum conteúdo original, Sem núcleo no próprio ser.
Se a sombra de minha caneta Soubesse quem lhe empata a luz Ela não se chamaria de mais ninguém.
Se eu apagar a vela Eu cego ou eu sumo?
199
Alforria
Vagarosamente, Subo a serra...
No banco da praça, Observo as folhas...
Encostando na parede, Escuto os tijolos sussurarem...
No alvo céu, Enxergo todas as almas...
Da janela de minha casa, Vejo as árvores dançarem...
Na ala do hospital, Avisto um enfermo a sonhar...
Na minha cova, Atento ao meu epitáfio, Sem nada escrito. Nenhuma letra a me ditar Nenhum cinzel a trabalhar...
Mergulho em cada mundo Cada vida que não é minha Procuro onde deixei-me morrer... Cada começo de sonho Termino na beirada do cadafalso Sem final para acordar.
Um eu lírico episódico; Nunca fico para o final do poema Para ouvir o que ele tem a dizer.
Já estou sem corpo; Já estou sem alma; Falta-me a mente Para que eu torne ao início De quando eu era nada; De quando todos nós Éramos um com o vazio.
Todos nós éramos livres Até o dia em que nascemos; Até quando nos acorrentamos Nas vontades e nos sentidos.
Mas são doces correntes, Não queremos nos libertar. Pois que as minhas começaram a salgar.....
As palavras estão nuas Sem seda para cobri-las Como prostitutas em um bordel Que não queriam estar ali.
E ao bordel? Perguntaram ao bordel Se ele queria existir?
Não era para estar ali. Caindo aos pedaços Escondido no beco; Eu encontro o eu lírico lá, Fumando ópio Com uma moça em seu colo Gozando sem prazer; Ele, ela, e o bordel.
Alforriei minha alma Para que corresse atrás do que queria, Mas já era tarde: Já estava sem ar Asfixiada na gargantilha
Olho,sem enxergar O fundo daquela senzala Esperando alma de outro alguém Para poder libertar.
Queimo toda a plantação E me jogo nas labaredas para morrer, Mas não pereço. Percebo ali Que fui vetado da morte: Julgaram-me incapaz De ser libertado.