monteiro_damaceno

monteiro_damaceno

Perfil
5 583 Visualizações

Red Fuji

Toda aquela tinta ordenada entre molduras
Linhas retas e curvas
Azul ministrado com calma, falhando para branco quando necessário
Pequenos círculos a imitarem gotas d'água
Todo esse conjunto de rabiscos
Uma maneira falha de embelezar o que é real
Imitando suas cores
E imaginando seus aromas
Pois a natureza não faz o seu trabalho por completo.
Nós coletamos, depois de alegrias e dores
As memórias de nossas vidas
O cair da água da cachoeira
O balançar dos galhos das árvores à moléstia do vento
O êxodo das águas de um limite do mundo ao outro
Todos esses contos
-Como não podemos leva-los conosco-
Os imitamos à nossa maneira e limite.
Aproveitamos o desgarro consentido do concreto sob a tela
Para colocarmos nossos ângulos e maneirismos.
Assim o azul é mais profundo
O vermelho é mais imperador
Tudo é mais tudo, e o nada também é tudo, onde tudo há de ter propósito.
Mas a natureza não é assim.
As ondas que se debruçam na areia da praia não a fazem por querer
O canto dos pássaros não é belo sem acaso
O vento não rebola os fios da donzela pois assim ela é mais bela ainda.
Toda a natureza, da sua gênese ao ômega, é improvisada e sem roteiro,
E por um belo acaso, foi um belo monólogo.
E o dia em que o vento chorar
O sol derramar
O negro brilhar
As estrelas criarem olhos,e por eles gritarem
E se tudo o mais perder a sanidade?
Então nós a perdemos.
E ai? O que há de se fazer?
Nada.
O sentido e a razão é um grande favor imaginário do universo a nós.
Toda a arte é por acaso
E pelo acaso, fazemos arte.
E realmente
Como são imperfeitos os traços
O quão finita é a tinta do quadro
Comparado ao real Fuji-san?
Mas realmente
Como são menos alegres e tristes suas sombras
O quão menos humana é a montanha
Comparado ao real quadro de Hokusai?
O que há de ganhar?
Dentro da moldura ou fora dela?
Ler poema completo

Poemas

36

Minhas Letras Estão Mortas

Minhas letras estão mortas
e todos os meus demônios estão vivos
Me sinto sem eu mesmo
E sem minhas palavras para declamar
E sem letras,sem eu
Sem o meu eu,não há o que se dizer
Como uma ridícula simbiose

Estou sem mãos
Estou sem pés
Estou sem garganta
Para poder gritar
Sem corpo
Para poder ser alguém

Meus sentidos empatam todas as sensações
Do caloroso brilho de verão
Abafado pela estufa de nuvens
Habitando um céu nublado
De um sol que já habitou dias melhores

Queria tomar banho nessas belas ondas
Que se debruçam umas nas outras
Quebrando-se com uma violência magnífica
Mas tudo que vejo
Escuto
Cheiro
Sinto
É um fogaréu transvestido de sonho;
Um sonho vindo do outro lado do mar
Só me esperando para sonhá-lo
E assim dormir
Com um sorriso tatuado no rosto.

Não sei quem foi o desprovido de amor
Que matou o sonho em sua travessia
Rumo a minha felicidade;
Só sei que choro
Pelos buracos onde haviam olhos:
Onde não olho mais.

Um grito inaudível imunda o mundo
Um grito morimbundo
Que reabte nos infelizes e desgraçados por todo o espaço.
Mas é um som indiferente para eles
Pois só prestam atenção
Em tentar sentir
Suas próprias desgraças e desesperos.

Procuro todos os rostos:
Um rosto de um culpado.
Um rosto infanticida
Um rosto de sorriso churumoso
Com os dentes a cair
Rindo feito o inferno.
Procuro,mas sem olhos
Como poderei saber quem é?

Então tenho um terrível pesadelo:
Um mesmo rosto habitando os céus de labaredas
Escarnando-me.
Escarnando meu sonho
O meu belo sonho!
Choro de raiva
E me aproximo do vil ser
E seu rosto é um quadro impressionista
Sem contornos
Sem detalhes
Mas eu sei exatamente que rosto é aquele:
O meu.

Eu matei meu sonho
Não com uma faca
Com uma arma
Ou com minhas mãos
Nem sequer o toquei
Mas o matei
Inocentemente e sem culpa o matei
Um crime sem culpado
Ele só morreu.

O sonho foi morto
E eu sou a vítima.
161

Trincheiras

No meio da aula, seus olhos concentraram-se em seu rosto: seu cabelo pintado de vinho com uma tinta completamente vagabunda, sua pele flácida e pálica, de rosto curto e mandíbula pequena, de nariz empinado e os seus olhos castanho-claros, aérios como nuvens. Ele enxergava suas expressões facias como bem desenhadas e definidas. O que ele imaginava era que o uso precose e irregulado do álcool e do cigarro na jovem moça tenham deteriorado sua pele indevidamente. Essa imagem lhe causava asco, e essa tal imagem tenha-lhe apodrecido sua vista nela. Trincheiras profundas num campo coberto de neve, era assim como ele via.
154

Vento e Ossos

Das festras de minha janela
O sol me beija
E vejo aquela terra
Morta e cansada
Com carrapatos
Mordendo sua pele.

Sou o rei apenas
Dos ventos que dançam das colinas
E dos ossos que se deitam junto a areia.
Mas o que os outros não sabem
É que o vento não sangra
E os ossos não morrem.

Eu conheço todos os reis deste mundo
E eles são reis pela coroa
Mas a coroa é pelo rei
E não pelo povo.
O povo é seu funcionário
E nada mais.

Aqueles moribundos camponeses
São tudo o que me restou.
Mas o que outros não sabem
É que eles também não são homens.
Mas não como o vento e os ossos.
Eles são crianças.
E crianças morrem.
E você sabe o que é maior que uma criança?
Minha espada.
180

Estação à Saudade

O dia está chegando
O dia em que as músicas estarão todas surdas
Quando os quadros todos cegos
Quando os livros mudos
E o poeta sem mãos para escrever.

Ainda se lembra
Quando sabia ler?
Quando cantava e tocava
Como se quem era gente?
Quando sonhava em ser alguém?
Quando rimava?

Os meus pensamentos estão todos moldurados
Totalmente acorrentados
A poemas de outrora
O eu lírico que me tanto amiguei
Partiu de volta para suas terras
Das quais não sei a estrada de cor
E da estação, ainda vejo, lá longe nos trilhos
O seu trem para casa

Saio da estação e compro um jornal
Os absurdos do cotidiano impressos em papel apressado;
Leio sem ler
Com aquelas palavras engolfadas
Pelo meus suspiros de saudade
Perguntando-me
Se tu ainda me lembras;
Encontro-me perdido
No rodapé da folha.

Desisto da leitura, e procuro escrever
Gritos invioláveis à alma
Tatuadas no papel.
Sem papel
Sem caneta
E sem alma
O que há de fazer um poeta sem filho para parir?
175

Colombo

Você é o meu Novo Mundo
Você é a milha Marília
Teu olhar já me exila
Desconheço um mais profundo

Navego para além dos sentidos
Para contornar o seu amor
O vazio só me causar dor
Suas terras já tinham nativos

Meu nome é Colombo
Descobri o amor
Achando que era coisa qualquer
Carrego no ombro
Tremenda dor
A de que você não é minha mulher

Queria ter morrido antes de saber
Que você não é uma
Você é "A"
164

O Vento

Sentado no pé da escadaria
Escuto o vento passar
Assobiar em meus ouvidos
Contos que não consigo entender

A vida da lavandeira
Estendendo sua roupa na varanda
Escarnando suas últiams dores do outro dia
Como se o vento fosse seu doutor

A vida do amante
Sonhando com a noite anterior
Dos beijos macios que deu nos seios da amada
Mas ela é de outro homem....
Ele não disse nada,
Só tragou o cigarro e expeliu a fumaça
E na fumaça,diziam todos os seus belos sonhos
-Todos com o nome dela

A vida do rapaz
Que acabara de perder a mãe
Berra igual sua estreia
Quando dormia nos colos dela.
Não se aguenta de pé um único momento,
E irancudo, condena o ar
Derrubando em suas costas
Todos os palavrões do mundo.
Mais tarde,ele volta chorar,
Mas chora fino
-Nem mesmo o vento consegue ouvir.

A vida da dançarina
Na cama do bordel
Do lado do cliente
Suspirando amores d'outras vidas
Vidas que não aconteceram.
Olha para o teto escuro e sujo
E não exerga teto algum
Só um amanhã brihante e glorioso
Como se o brodel não estivesse ali.
Como se nunca tivesse chorado no parapeito da janela
Por um raio de sol mais bonito do que aquilo.

A vida do pobre cão
Que late de fome
Na frente da padaria
Todo fraco e raquítico
-Se tivesse crença, teria rezado a noite inteira
Por um calor em sua barriga
E por um chão mais confortável.

E o vento me conta tudo.....
Mas eu não entendo nada.
Só imagino vidas deitadas no ar
Só escuto sons sem palavras
-As palavras coloco eu.
Se ele quiser mais histórias, procure outrem
Que eu mesmo nunca tive vida
Só sentado aqui
No pé da escada.

Quando ele se vai, vejo que somos tão parecidos
Vivemos vidas alheias
Sem sentir
Ou ver
Ou ouvir
Mas todos passam por nós
E nunca nos veem.
Mas eu nunca serei imortal como você
Sou apenas mais um conto incompleto.
178

Pequena Nina

Pequena Nina de vida pouca
Nasceu e morreu chorando
Choro esse menor que o meu
Quanto te vi me deixando
Esquecendo a vida no apogeu

Minha alma já está rouca
Há anos que estou gritando
Pois minha voz já pereceu
Aos poucos me abandonando
Não há homem moribundo como eu

Você, solidão, está louca
Se acha que está me incomodando
Não sabes pois nunca sofreu
Perder um amor estando ainda amando
Não te vejo no meio deste breu

Não me importo com paixão tampouco
Que de todos eu fosse me isolando
Menos de meu pequeno anjo que já morreu
Não posso sentir teu corpo se aproximando
Pois de amores e felicidade,já sou ateu
153

Vertigem

Na entalpia de sua alma,me guio
De rastros te sigo
Por puro vertigo

Sim,vertigem tua alma me faz parir
Assim não consigo te seguir
Quer me fazer desistir?

Deve ser algum mecanismo de defesa
Não quer que um homem de safadeza
Macule sua interna beleza?

Vejo agora que não é tua intenção
Ir com seu coração na minha contra-mão
Pois sou uma sombra em tua escuridão

Tua indiferente alma me faz tremer
Desejo voltar a me entender
Cego-me para voltar a ver
164

Roteiro

O roteiro, em sua quintessência
É a fúria em si
É a cópia da realidade
Que o autor tanto odeia
Pois se não por isso
Não estaria fingindo o real
No pedaço de papel

É a refração da vida
Na água de um copo prismado

É borrar um quadro já pintado
De cores que não deviam estar lá

O único erro de um roteiro são as palavras
É pintar um quadro com cores que já existe
Enquanto uma nova cor não nascer
O pintor não deixará de ser humano
Mas quando o ser humano será pintor?
177

O Último Sonhador

O último sonhador será o homem mais tolo da terra!
Menos tolos foram aqueles que não sabiam de nada!

Imundo pelos pensamentos imundos de seus antecessores.
Aquele que agregará todos os sonhos da que a raça humana já propôs:
Esse homem será o mais imbecil que há!
Preenchendo lacunas com mentiras.
A única certeza é a ignorânica: todas as nossa conclusões,
setiradas de pontos de vistas limitados,
doravante
também serão limitadas.
A ignorância é a única coisa que torna um homem são

Homens,de todas as eras,estudam,estudaram e estudarão uma parede branca
Cada um tateia uma parte da parede:
tiram conclusões precisas sobre tal parte da parede.
O último homem,esse último sonhador,
detendo o conhecimento agregado de todos os mestre:
tods que tocaram a parede e,
junto ao próprio tato,
chegará na conclusão última de que:
tratava-se de uma parede.
Mas não enxergou a porta detrás dele,pois estava de costas.
Estamos de costas,meus amigos,mas não podemos virar.
Se não podemos sentir,acurar,verificar todos os elementos do universo ao
nosso redor,relevantes ao nosso estilo de vida ou não,
como poderemos atravessar a porta se nem sabemos:
onde ela está
se ela realmente existe
e se nem nos importamos com a própria porta.
Queremos chegar ao lado de fora pela quina.
179

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.