monteiro_damaceno

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Mendigo

Leio uns versos quaisquer
Bonitos
Bem consturidos
Mas comuns.
Li ele em uma ruela da vida
E vi como deveria ver:
Apenas uma pedra dentre demais.
São lindas as viagens de cada letras
Porém não indígenas:
Quantos bardares
Já vi tão iguais?
Terminando a valsa
Já julgo serem versos marginais
De um exímio amador tal qual meu patamar
Quando vejo o autor:

Fernando Pessoa.

Então eu vejo uma poesia.

Se Pessoa fosse apenas uma pessoa
Se o papel em que escreveu tivesse sido esquecido
Na frente da tabacaria
Só seria tinta rabiscada em uma folha vagabunda.
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Poemas

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Vento e Ossos

Das festras de minha janela
O sol me beija
E vejo aquela terra
Morta e cansada
Com carrapatos
Mordendo sua pele.

Sou o rei apenas
Dos ventos que dançam das colinas
E dos ossos que se deitam junto a areia.
Mas o que os outros não sabem
É que o vento não sangra
E os ossos não morrem.

Eu conheço todos os reis deste mundo
E eles são reis pela coroa
Mas a coroa é pelo rei
E não pelo povo.
O povo é seu funcionário
E nada mais.

Aqueles moribundos camponeses
São tudo o que me restou.
Mas o que outros não sabem
É que eles também não são homens.
Mas não como o vento e os ossos.
Eles são crianças.
E crianças morrem.
E você sabe o que é maior que uma criança?
Minha espada.
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Minhas Letras Estão Mortas

Minhas letras estão mortas
e todos os meus demônios estão vivos
Me sinto sem eu mesmo
E sem minhas palavras para declamar
E sem letras,sem eu
Sem o meu eu,não há o que se dizer
Como uma ridícula simbiose

Estou sem mãos
Estou sem pés
Estou sem garganta
Para poder gritar
Sem corpo
Para poder ser alguém

Meus sentidos empatam todas as sensações
Do caloroso brilho de verão
Abafado pela estufa de nuvens
Habitando um céu nublado
De um sol que já habitou dias melhores

Queria tomar banho nessas belas ondas
Que se debruçam umas nas outras
Quebrando-se com uma violência magnífica
Mas tudo que vejo
Escuto
Cheiro
Sinto
É um fogaréu transvestido de sonho;
Um sonho vindo do outro lado do mar
Só me esperando para sonhá-lo
E assim dormir
Com um sorriso tatuado no rosto.

Não sei quem foi o desprovido de amor
Que matou o sonho em sua travessia
Rumo a minha felicidade;
Só sei que choro
Pelos buracos onde haviam olhos:
Onde não olho mais.

Um grito inaudível imunda o mundo
Um grito morimbundo
Que reabte nos infelizes e desgraçados por todo o espaço.
Mas é um som indiferente para eles
Pois só prestam atenção
Em tentar sentir
Suas próprias desgraças e desesperos.

Procuro todos os rostos:
Um rosto de um culpado.
Um rosto infanticida
Um rosto de sorriso churumoso
Com os dentes a cair
Rindo feito o inferno.
Procuro,mas sem olhos
Como poderei saber quem é?

Então tenho um terrível pesadelo:
Um mesmo rosto habitando os céus de labaredas
Escarnando-me.
Escarnando meu sonho
O meu belo sonho!
Choro de raiva
E me aproximo do vil ser
E seu rosto é um quadro impressionista
Sem contornos
Sem detalhes
Mas eu sei exatamente que rosto é aquele:
O meu.

Eu matei meu sonho
Não com uma faca
Com uma arma
Ou com minhas mãos
Nem sequer o toquei
Mas o matei
Inocentemente e sem culpa o matei
Um crime sem culpado
Ele só morreu.

O sonho foi morto
E eu sou a vítima.
162

O Vento

Sentado no pé da escadaria
Escuto o vento passar
Assobiar em meus ouvidos
Contos que não consigo entender

A vida da lavandeira
Estendendo sua roupa na varanda
Escarnando suas últiams dores do outro dia
Como se o vento fosse seu doutor

A vida do amante
Sonhando com a noite anterior
Dos beijos macios que deu nos seios da amada
Mas ela é de outro homem....
Ele não disse nada,
Só tragou o cigarro e expeliu a fumaça
E na fumaça,diziam todos os seus belos sonhos
-Todos com o nome dela

A vida do rapaz
Que acabara de perder a mãe
Berra igual sua estreia
Quando dormia nos colos dela.
Não se aguenta de pé um único momento,
E irancudo, condena o ar
Derrubando em suas costas
Todos os palavrões do mundo.
Mais tarde,ele volta chorar,
Mas chora fino
-Nem mesmo o vento consegue ouvir.

A vida da dançarina
Na cama do bordel
Do lado do cliente
Suspirando amores d'outras vidas
Vidas que não aconteceram.
Olha para o teto escuro e sujo
E não exerga teto algum
Só um amanhã brihante e glorioso
Como se o brodel não estivesse ali.
Como se nunca tivesse chorado no parapeito da janela
Por um raio de sol mais bonito do que aquilo.

A vida do pobre cão
Que late de fome
Na frente da padaria
Todo fraco e raquítico
-Se tivesse crença, teria rezado a noite inteira
Por um calor em sua barriga
E por um chão mais confortável.

E o vento me conta tudo.....
Mas eu não entendo nada.
Só imagino vidas deitadas no ar
Só escuto sons sem palavras
-As palavras coloco eu.
Se ele quiser mais histórias, procure outrem
Que eu mesmo nunca tive vida
Só sentado aqui
No pé da escada.

Quando ele se vai, vejo que somos tão parecidos
Vivemos vidas alheias
Sem sentir
Ou ver
Ou ouvir
Mas todos passam por nós
E nunca nos veem.
Mas eu nunca serei imortal como você
Sou apenas mais um conto incompleto.
180

Minhoca

O verde das plantas são o seu céu
Os galhos, os prédios que o rasgam
Mas entre os dois
Um brilho incomum...

Ela vai no caminho da luz
E em sua barriga ela já sente
Da terra fofa habitual
Ao novo avizinhado concreto.

É tão áspero, fere sua rosada pele
Mas continua seu caminho
Proposital ou não.

Muito duro para escavar
Já não tem mais casa.
Nenhum dos outros bixos é como ela
Sozinha naquele solo crapuloso de cinza.

Queria atravessar para o outro lado...
Ah! Mas é uma lástima!
A fina minhoca, esmagada por uma bota desmedida.
Triste fim para o iterrompido êxodo.

Não bastasse isso,
Ainda crucificaram a pobre depois da vida
Por enfeiar o local
De tando inseto mais bonito.

Será que em seus últimos momentos
Ela sonhou com o seu hino nacional?
O vento que se encosta nas folhas
Os trompetes da nação.
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Camarim

Te olho,mas não te vejo
Me enxergando
Apenas seus olhos
Me olhando
Oblíquo
Sem verem o que há detrás da cortina
Os bastidores de minh'alma

Imaginando fantasias
Que não fantasio
Se é que pensas
que fantasio com tuas fantasias
Que não são minhas
[e furto-as do mesmo jeito
Mas enxerga o eterno balé
Rodopiante no camrim
No chão de madeira do palco
enxarcado de lágrimas minhas
já de outrem

Tu não imaginas
só me enxergas
Não te enxergo mais
Depois de tantas fantasias

Também não enxergo teu balé
Mas eu aspiro tanto
Ser seu bailarino
Mesmo não sabendo dançar
[ou amar
Tu não me ouves
Tu nunca me quiseste
Como eu te quis

Quero não te querer mais, mas mostra-se uma tarefa árdua nessa madrugada de paixão.

O/v/e/r/s/e/i/r/o/i/n/a/n/i/m/a/d/o

Prosado
Versado
Envergado
Para o céu sem ninguém
Estrelas que nunca amaram alguém
São paixões de outrem
Olhando muito além
Mais profundo do que qualquer
[amém
Rimas de Santárem
Aqueles que as cantarem

Versos deformados e obscuros
Cujos sentidos escapam do próprio autor
Pois a verdadeiro obra está no leitor
no espectador
admirador

No fatal corte da solidão...
Não a sinto. Não. não.
Não há o que se doer
Em míseras palavras de
Adolescente.
212

Vertigem

Na entalpia de sua alma,me guio
De rastros te sigo
Por puro vertigo

Sim,vertigem tua alma me faz parir
Assim não consigo te seguir
Quer me fazer desistir?

Deve ser algum mecanismo de defesa
Não quer que um homem de safadeza
Macule sua interna beleza?

Vejo agora que não é tua intenção
Ir com seu coração na minha contra-mão
Pois sou uma sombra em tua escuridão

Tua indiferente alma me faz tremer
Desejo voltar a me entender
Cego-me para voltar a ver
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