Quando assalto as almas de ideias E prendo-as no papel Elas perdem tanto o seu primor.
Creio que seja o trauma sofrido por elas De deixarem de ser além da matéria E tornarem-se letras.
O trauma é, de tal modo, que envelhecem bem novas, E quando vou em suas folhas Não me parecem ideias de outrora.
Fico caçando a ideia nas vírgulas E tento-me achá-la em mim: Mas ai lembro que a sequestrei E tornei menos alma e mais gente.
Antes, uma cara vigorosa Cheia de saúde As veias que apareciam Eram rígidas com vontade Mas agora seus olhares são tão esmos Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara; Suas pernas, antes tão vigorosas, Agora cheias de varizes irancudas Sedentas de vingaça Pela minha lesa à majestade.
A natureza faz de propósito Para que eu não as admire mais Mas eu, o que tenho a perder? Apenas um júbilo a menos em meus dias E as ideias, coitadas Para sempre idosas na idade de 5
Sentado no pé da escadaria Escuto o vento passar Assobiar em meus ouvidos Contos que não consigo entender
A vida da lavandeira Estendendo sua roupa na varanda Escarnando suas últiams dores do outro dia Como se o vento fosse seu doutor
A vida do amante Sonhando com a noite anterior Dos beijos macios que deu nos seios da amada Mas ela é de outro homem.... Ele não disse nada, Só tragou o cigarro e expeliu a fumaça E na fumaça,diziam todos os seus belos sonhos -Todos com o nome dela
A vida do rapaz Que acabara de perder a mãe Berra igual sua estreia Quando dormia nos colos dela. Não se aguenta de pé um único momento, E irancudo, condena o ar Derrubando em suas costas Todos os palavrões do mundo. Mais tarde,ele volta chorar, Mas chora fino -Nem mesmo o vento consegue ouvir.
A vida da dançarina Na cama do bordel Do lado do cliente Suspirando amores d'outras vidas Vidas que não aconteceram. Olha para o teto escuro e sujo E não exerga teto algum Só um amanhã brihante e glorioso Como se o brodel não estivesse ali. Como se nunca tivesse chorado no parapeito da janela Por um raio de sol mais bonito do que aquilo.
A vida do pobre cão Que late de fome Na frente da padaria Todo fraco e raquítico -Se tivesse crença, teria rezado a noite inteira Por um calor em sua barriga E por um chão mais confortável.
E o vento me conta tudo..... Mas eu não entendo nada. Só imagino vidas deitadas no ar Só escuto sons sem palavras -As palavras coloco eu. Se ele quiser mais histórias, procure outrem Que eu mesmo nunca tive vida Só sentado aqui No pé da escada.
Quando ele se vai, vejo que somos tão parecidos Vivemos vidas alheias Sem sentir Ou ver Ou ouvir Mas todos passam por nós E nunca nos veem. Mas eu nunca serei imortal como você Sou apenas mais um conto incompleto.
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O Peregrino Da Perdição
Andando a esmo na orla do inferno Tendo as pernas espetadas pelos grãos de areia Carregados pelos ventos malditos Seguindo o bradar do demônio interno Sentindo a acidez do sangue fervente em sua veia Escapando dos pensamentos bandidos
Marcha de almas penadas Em direção das montanhas infernais Em subida infinita para o paraíso Apenas pensamentos tolos e incalculados Vão em tentativas fracassadas Nascidas nanimortas pois nos atos banais Foram cruéis,podres,escarnavam a riso Tentam apenas por instinto,eternos maculados
O peregrino das dunas infernais vê tudo Olha triste,visão digna de pena Mas também magnífica,em tom absoluto Nunca vivenciou uma mais bela cena
Corpos podres e negros Uma torre de corpos,que das nuvens utrapassava Escorada nas montanhas,visão surreal e inumana À esquerda,a queda rente da montanha À direita,as silhuetas horrendas dos pecadores Iluminados pela luz dos relâmpagos vermelhos Do céu da perdição
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O Último Sonhador
O último sonhador será o homem mais tolo da terra! Menos tolos foram aqueles que não sabiam de nada!
Imundo pelos pensamentos imundos de seus antecessores. Aquele que agregará todos os sonhos da que a raça humana já propôs: Esse homem será o mais imbecil que há! Preenchendo lacunas com mentiras. A única certeza é a ignorânica: todas as nossa conclusões, setiradas de pontos de vistas limitados, doravante também serão limitadas. A ignorância é a única coisa que torna um homem são
Homens,de todas as eras,estudam,estudaram e estudarão uma parede branca Cada um tateia uma parte da parede: tiram conclusões precisas sobre tal parte da parede. O último homem,esse último sonhador, detendo o conhecimento agregado de todos os mestre: tods que tocaram a parede e, junto ao próprio tato, chegará na conclusão última de que: tratava-se de uma parede. Mas não enxergou a porta detrás dele,pois estava de costas. Estamos de costas,meus amigos,mas não podemos virar. Se não podemos sentir,acurar,verificar todos os elementos do universo ao nosso redor,relevantes ao nosso estilo de vida ou não, como poderemos atravessar a porta se nem sabemos: onde ela está se ela realmente existe e se nem nos importamos com a própria porta. Queremos chegar ao lado de fora pela quina.
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Breve
A vida A rotina Tudo ao redor Tudo é uma piscina seca Que aprendemos a nadar sem água
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Arte
O espectador é a mais suprema forma de arte: versátil, ele a tudo se transforma e a tudo significa. A verdadeira beleza de uma obra está em que a admira, como se quem fosse espectador fosse a própria obra. A obra é apenas uma porta de entrada para o sentir, e quem a observa sente-a como ela nunca faria em retorno, e muito mais além do próprio sentir. A arte é estática, mesma as que representam cinemática, pois as mesmas são efêmeras,assim como nós. Talvez seja por isso que procuramos arte: ou um espelho quebrado de nossa própria natureza, ou então para assistir um espetáculo mais finitos que nós Para nos sentirmos além do fim.
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Red Fuji
Toda aquela tinta ordenada entre molduras Linhas retas e curvas Azul ministrado com calma, falhando para branco quando necessário Pequenos círculos a imitarem gotas d'água Todo esse conjunto de rabiscos Uma maneira falha de embelezar o que é real Imitando suas cores E imaginando seus aromas Pois a natureza não faz o seu trabalho por completo. Nós coletamos, depois de alegrias e dores As memórias de nossas vidas O cair da água da cachoeira O balançar dos galhos das árvores à moléstia do vento O êxodo das águas de um limite do mundo ao outro Todos esses contos -Como não podemos leva-los conosco- Os imitamos à nossa maneira e limite. Aproveitamos o desgarro consentido do concreto sob a tela Para colocarmos nossos ângulos e maneirismos. Assim o azul é mais profundo O vermelho é mais imperador Tudo é mais tudo, e o nada também é tudo, onde tudo há de ter propósito. Mas a natureza não é assim. As ondas que se debruçam na areia da praia não a fazem por querer O canto dos pássaros não é belo sem acaso O vento não rebola os fios da donzela pois assim ela é mais bela ainda. Toda a natureza, da sua gênese ao ômega, é improvisada e sem roteiro, E por um belo acaso, foi um belo monólogo. E o dia em que o vento chorar O sol derramar O negro brilhar As estrelas criarem olhos,e por eles gritarem E se tudo o mais perder a sanidade? Então nós a perdemos. E ai? O que há de se fazer? Nada. O sentido e a razão é um grande favor imaginário do universo a nós. Toda a arte é por acaso E pelo acaso, fazemos arte. E realmente Como são imperfeitos os traços O quão finita é a tinta do quadro Comparado ao real Fuji-san? Mas realmente Como são menos alegres e tristes suas sombras O quão menos humana é a montanha Comparado ao real quadro de Hokusai? O que há de ganhar? Dentro da moldura ou fora dela?