monteiro_damaceno

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Velhice

Quando assalto as almas de ideias
E prendo-as no papel
Elas perdem tanto o seu primor.

Creio que seja o trauma sofrido por elas
De deixarem de ser além da matéria
E tornarem-se letras.

O trauma é, de tal modo,
que envelhecem bem novas,
E quando vou em suas folhas
Não me parecem ideias de outrora.

Fico caçando a ideia nas vírgulas
E tento-me achá-la em mim:
Mas ai lembro que a sequestrei
E tornei menos alma e mais gente.

Antes, uma cara vigorosa
Cheia de saúde
As veias que apareciam
Eram rígidas com vontade
Mas agora seus olhares são tão esmos
Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara;
Suas pernas, antes tão vigorosas,
Agora cheias de varizes irancudas
Sedentas de vingaça
Pela minha lesa à majestade.

A natureza faz de propósito
Para que eu não as admire mais
Mas eu, o que tenho a perder?
Apenas um júbilo a menos em meus dias
E as ideias, coitadas
Para sempre idosas na idade de 5
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Poemas

36

O Vento

Sentado no pé da escadaria
Escuto o vento passar
Assobiar em meus ouvidos
Contos que não consigo entender

A vida da lavandeira
Estendendo sua roupa na varanda
Escarnando suas últiams dores do outro dia
Como se o vento fosse seu doutor

A vida do amante
Sonhando com a noite anterior
Dos beijos macios que deu nos seios da amada
Mas ela é de outro homem....
Ele não disse nada,
Só tragou o cigarro e expeliu a fumaça
E na fumaça,diziam todos os seus belos sonhos
-Todos com o nome dela

A vida do rapaz
Que acabara de perder a mãe
Berra igual sua estreia
Quando dormia nos colos dela.
Não se aguenta de pé um único momento,
E irancudo, condena o ar
Derrubando em suas costas
Todos os palavrões do mundo.
Mais tarde,ele volta chorar,
Mas chora fino
-Nem mesmo o vento consegue ouvir.

A vida da dançarina
Na cama do bordel
Do lado do cliente
Suspirando amores d'outras vidas
Vidas que não aconteceram.
Olha para o teto escuro e sujo
E não exerga teto algum
Só um amanhã brihante e glorioso
Como se o brodel não estivesse ali.
Como se nunca tivesse chorado no parapeito da janela
Por um raio de sol mais bonito do que aquilo.

A vida do pobre cão
Que late de fome
Na frente da padaria
Todo fraco e raquítico
-Se tivesse crença, teria rezado a noite inteira
Por um calor em sua barriga
E por um chão mais confortável.

E o vento me conta tudo.....
Mas eu não entendo nada.
Só imagino vidas deitadas no ar
Só escuto sons sem palavras
-As palavras coloco eu.
Se ele quiser mais histórias, procure outrem
Que eu mesmo nunca tive vida
Só sentado aqui
No pé da escada.

Quando ele se vai, vejo que somos tão parecidos
Vivemos vidas alheias
Sem sentir
Ou ver
Ou ouvir
Mas todos passam por nós
E nunca nos veem.
Mas eu nunca serei imortal como você
Sou apenas mais um conto incompleto.
175

O Peregrino Da Perdição

Andando a esmo na orla do inferno
Tendo as pernas espetadas pelos grãos de areia
Carregados pelos ventos malditos
Seguindo o bradar do demônio interno
Sentindo a acidez do sangue fervente em sua veia
Escapando dos pensamentos bandidos

Marcha de almas penadas
Em direção das montanhas infernais
Em subida infinita para o paraíso
Apenas pensamentos tolos e incalculados
Vão em tentativas fracassadas
Nascidas nanimortas pois nos atos banais
Foram cruéis,podres,escarnavam a riso
Tentam apenas por instinto,eternos maculados

O peregrino das dunas infernais vê tudo
Olha triste,visão digna de pena
Mas também magnífica,em tom absoluto
Nunca vivenciou uma mais bela cena

Corpos podres e negros
Uma torre de corpos,que das nuvens utrapassava
Escorada nas montanhas,visão surreal e inumana
À esquerda,a queda rente da montanha
À direita,as silhuetas horrendas dos pecadores
Iluminados pela luz dos relâmpagos vermelhos
Do céu da perdição
169

O Último Sonhador

O último sonhador será o homem mais tolo da terra!
Menos tolos foram aqueles que não sabiam de nada!

Imundo pelos pensamentos imundos de seus antecessores.
Aquele que agregará todos os sonhos da que a raça humana já propôs:
Esse homem será o mais imbecil que há!
Preenchendo lacunas com mentiras.
A única certeza é a ignorânica: todas as nossa conclusões,
setiradas de pontos de vistas limitados,
doravante
também serão limitadas.
A ignorância é a única coisa que torna um homem são

Homens,de todas as eras,estudam,estudaram e estudarão uma parede branca
Cada um tateia uma parte da parede:
tiram conclusões precisas sobre tal parte da parede.
O último homem,esse último sonhador,
detendo o conhecimento agregado de todos os mestre:
tods que tocaram a parede e,
junto ao próprio tato,
chegará na conclusão última de que:
tratava-se de uma parede.
Mas não enxergou a porta detrás dele,pois estava de costas.
Estamos de costas,meus amigos,mas não podemos virar.
Se não podemos sentir,acurar,verificar todos os elementos do universo ao
nosso redor,relevantes ao nosso estilo de vida ou não,
como poderemos atravessar a porta se nem sabemos:
onde ela está
se ela realmente existe
e se nem nos importamos com a própria porta.
Queremos chegar ao lado de fora pela quina.
177

Breve

A vida
A rotina
Tudo ao redor
Tudo é uma piscina seca
Que aprendemos a nadar sem água
175

Arte

O espectador é a mais suprema forma de arte:
versátil, ele a tudo se transforma e a tudo significa.
A verdadeira beleza de uma obra está em que a admira,
como se quem fosse espectador
fosse a própria obra.
A obra é apenas uma porta de entrada para o sentir,
e quem a observa
sente-a como ela nunca faria em retorno,
e muito mais além do próprio sentir.
A arte é estática, mesma as que representam cinemática,
pois as mesmas são efêmeras,assim como nós.
Talvez seja por isso que procuramos arte:
ou um espelho quebrado de nossa própria natureza,
ou então para assistir um espetáculo mais finitos que nós
Para nos sentirmos
além do fim.
181

Red Fuji

Toda aquela tinta ordenada entre molduras
Linhas retas e curvas
Azul ministrado com calma, falhando para branco quando necessário
Pequenos círculos a imitarem gotas d'água
Todo esse conjunto de rabiscos
Uma maneira falha de embelezar o que é real
Imitando suas cores
E imaginando seus aromas
Pois a natureza não faz o seu trabalho por completo.
Nós coletamos, depois de alegrias e dores
As memórias de nossas vidas
O cair da água da cachoeira
O balançar dos galhos das árvores à moléstia do vento
O êxodo das águas de um limite do mundo ao outro
Todos esses contos
-Como não podemos leva-los conosco-
Os imitamos à nossa maneira e limite.
Aproveitamos o desgarro consentido do concreto sob a tela
Para colocarmos nossos ângulos e maneirismos.
Assim o azul é mais profundo
O vermelho é mais imperador
Tudo é mais tudo, e o nada também é tudo, onde tudo há de ter propósito.
Mas a natureza não é assim.
As ondas que se debruçam na areia da praia não a fazem por querer
O canto dos pássaros não é belo sem acaso
O vento não rebola os fios da donzela pois assim ela é mais bela ainda.
Toda a natureza, da sua gênese ao ômega, é improvisada e sem roteiro,
E por um belo acaso, foi um belo monólogo.
E o dia em que o vento chorar
O sol derramar
O negro brilhar
As estrelas criarem olhos,e por eles gritarem
E se tudo o mais perder a sanidade?
Então nós a perdemos.
E ai? O que há de se fazer?
Nada.
O sentido e a razão é um grande favor imaginário do universo a nós.
Toda a arte é por acaso
E pelo acaso, fazemos arte.
E realmente
Como são imperfeitos os traços
O quão finita é a tinta do quadro
Comparado ao real Fuji-san?
Mas realmente
Como são menos alegres e tristes suas sombras
O quão menos humana é a montanha
Comparado ao real quadro de Hokusai?
O que há de ganhar?
Dentro da moldura ou fora dela?
158

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