Leio uns versos quaisquer Bonitos Bem consturidos Mas comuns. Li ele em uma ruela da vida E vi como deveria ver: Apenas uma pedra dentre demais. São lindas as viagens de cada letras Porém não indígenas: Quantos bardares Já vi tão iguais? Terminando a valsa Já julgo serem versos marginais De um exímio amador tal qual meu patamar Quando vejo o autor:
Fernando Pessoa.
Então eu vejo uma poesia.
Se Pessoa fosse apenas uma pessoa Se o papel em que escreveu tivesse sido esquecido Na frente da tabacaria Só seria tinta rabiscada em uma folha vagabunda.
Leio uns versos quaisquer Bonitos Bem consturidos Mas comuns. Li ele em uma ruela da vida E vi como deveria ver: Apenas uma pedra dentre demais. São lindas as viagens de cada letras Porém não indígenas: Quantos bardares Já vi tão iguais? Terminando a valsa Já julgo serem versos marginais De um exímio amador tal qual meu patamar Quando vejo o autor:
Fernando Pessoa.
Então eu vejo uma poesia.
Se Pessoa fosse apenas uma pessoa Se o papel em que escreveu tivesse sido esquecido Na frente da tabacaria Só seria tinta rabiscada em uma folha vagabunda.
213
Pequena Nina
Pequena Nina de vida pouca Nasceu e morreu chorando Choro esse menor que o meu Quanto te vi me deixando Esquecendo a vida no apogeu
Minha alma já está rouca Há anos que estou gritando Pois minha voz já pereceu Aos poucos me abandonando Não há homem moribundo como eu
Você, solidão, está louca Se acha que está me incomodando Não sabes pois nunca sofreu Perder um amor estando ainda amando Não te vejo no meio deste breu
Não me importo com paixão tampouco Que de todos eu fosse me isolando Menos de meu pequeno anjo que já morreu Não posso sentir teu corpo se aproximando Pois de amores e felicidade,já sou ateu
153
Musa
Essa minha mensagem é para você Minha formosa musa A enterna indigente da galáxia Enterrada no fundo do cosmo Com os vermes do acaso Dilascerando seu corpo.
Tua pele é imperatriz Um arco-íris de beleza: É negra, é ébano; É branca, é cor-de-neve; É brozeada, pincelada pelo sol; Cabelo ruivo, beijada pelo fogo; Crespo, ondulado como o Atlântico; Liso, calmo como o Pacífico; É louro, dourado como tua alma; É castanho, como os carvalhos de seu jardim avizinhados das palmeiras, dos coqueiros, dos pinheiros; É negro, como o véu que te encobre, escondendo sua verdadeira beleza.
Seu rosto é alongado, É curto, É largo, É fino; Seu nariz estreito e chato; Seus lábios magros como pinceladas de amor, E grossos como força de teu calor.
Você é todo mundo, Mas ninguém te conhece Como eu te conheço. Muitos pensam seus seus seios Pequenos,fartos Seus quadris, Magros, gordos, retos e redondos; Muitos te olham Mas não te enxergam Como eu te enxergo.
São poucos os homens que te vislumbram Atráves da cortina carmesim De onde tu se escondia por trás. O holoforte projeta sua sombra na cortina E todos ficavam loucos com sua dança. Eles te estudavam Amavam-te Mas não como eu.
Dormi contigo Sonhei contigo Eu que vi o abismo de seus olhos; Todos sabem de seus pecados Mas só eu que vi Seu clamor por redenção.
Pensamentos suicidas te cercavam, Era esse seu pecado. Machucava-se Esfolava-se Cortave-se sem perdão. Sem ninguém para te amar, Procurou,procurou Mas ninguém lhe amou. Não,não como eu te amei.
Mas vocês não sabia. Nunca sentiu meu clamor para contigo. Deus sabe quantas noites eu chorei Porque vi você chorar Porque vi você sofrer Sangrar sem parar.
Quando te achei, já era muito tarde: No salão vazio, no canto da parede Tu jazia morta Afogada em pecado.
E ali você ficou: Ninguém havia te achado Todas as outras pessoas estavam longe E ali,naquele canto sem nome Você apodreceu.
Você já estava muito doente antes: Pálida,mas não era aquele seu pálido invernal, Era um pálido morimbundo Que amaldiçoava sua pele branca, que também era negra, amarela, bronzeada, parda.
Seus olhos,outrora sendo tudo Já não enxergavam nada e não tinham mais aquelas cores que pelas quais eu tanto me apaixonei.
Anos se passaram,e você continuou lá Sem lápide, sem epitáfio. E agora, volto para seu leito de morte E ainda admiro seu corpo, que já foi muito belo, mas mais bela ainda era sua alma. Muitos diriam que você era louca, era doente, que merecia morrer. O inferno para eles!,eles não sabem o que falam. Só queriam o seu corpo,todos eles! Só eu que quis tua alma.
Agora o véu de estrelas te cobre,perfeita: Os pequenos pontos iluminados desenham seu rosto E te tornam mais uma vez bela.
Já te chamaram por inúmeros nomes Mas só eu que te ouvi sussurrar Seu belo nome,
Ó,minha bela Humanidade.
211
Colombo
Você é o meu Novo Mundo Você é a milha Marília Teu olhar já me exila Desconheço um mais profundo
Navego para além dos sentidos Para contornar o seu amor O vazio só me causar dor Suas terras já tinham nativos
Meu nome é Colombo Descobri o amor Achando que era coisa qualquer Carrego no ombro Tremenda dor A de que você não é minha mulher
Queria ter morrido antes de saber Que você não é uma Você é "A"
164
Título
O dia em que o poeta se tornará o poema E o seus versos, o título Nesse dia não dormirei feliz.
165
Aplausos
Odeio de cor Os aplausos já esperados Depois de um corar de um poema Quebrando amoralmente A quietude da palavra
169
Ruelas
Nado sem água Respiro sem ar Enxergo sem luz Sinto sem pele
Queimo-me sem fogo Falo sem boca Penso sem mente E morro sem vida
Tudo que me torno e sou São em palavras escorregadias Que me deslizam Para lá e para cá Atravessando suas ruelas E vejo nas varandas das casas, Todas as suas vidas, roubadas ou não.
Prosadas ou não, Perfeitas ou não.
173
Velhice
Quando assalto as almas de ideias E prendo-as no papel Elas perdem tanto o seu primor.
Creio que seja o trauma sofrido por elas De deixarem de ser além da matéria E tornarem-se letras.
O trauma é, de tal modo, que envelhecem bem novas, E quando vou em suas folhas Não me parecem ideias de outrora.
Fico caçando a ideia nas vírgulas E tento-me achá-la em mim: Mas ai lembro que a sequestrei E tornei menos alma e mais gente.
Antes, uma cara vigorosa Cheia de saúde As veias que apareciam Eram rígidas com vontade Mas agora seus olhares são tão esmos Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara; Suas pernas, antes tão vigorosas, Agora cheias de varizes irancudas Sedentas de vingaça Pela minha lesa à majestade.
A natureza faz de propósito Para que eu não as admire mais Mas eu, o que tenho a perder? Apenas um júbilo a menos em meus dias E as ideias, coitadas Para sempre idosas na idade de 5
238
Red Fuji
Toda aquela tinta ordenada entre molduras Linhas retas e curvas Azul ministrado com calma, falhando para branco quando necessário Pequenos círculos a imitarem gotas d'água Todo esse conjunto de rabiscos Uma maneira falha de embelezar o que é real Imitando suas cores E imaginando seus aromas Pois a natureza não faz o seu trabalho por completo. Nós coletamos, depois de alegrias e dores As memórias de nossas vidas O cair da água da cachoeira O balançar dos galhos das árvores à moléstia do vento O êxodo das águas de um limite do mundo ao outro Todos esses contos -Como não podemos leva-los conosco- Os imitamos à nossa maneira e limite. Aproveitamos o desgarro consentido do concreto sob a tela Para colocarmos nossos ângulos e maneirismos. Assim o azul é mais profundo O vermelho é mais imperador Tudo é mais tudo, e o nada também é tudo, onde tudo há de ter propósito. Mas a natureza não é assim. As ondas que se debruçam na areia da praia não a fazem por querer O canto dos pássaros não é belo sem acaso O vento não rebola os fios da donzela pois assim ela é mais bela ainda. Toda a natureza, da sua gênese ao ômega, é improvisada e sem roteiro, E por um belo acaso, foi um belo monólogo. E o dia em que o vento chorar O sol derramar O negro brilhar As estrelas criarem olhos,e por eles gritarem E se tudo o mais perder a sanidade? Então nós a perdemos. E ai? O que há de se fazer? Nada. O sentido e a razão é um grande favor imaginário do universo a nós. Toda a arte é por acaso E pelo acaso, fazemos arte. E realmente Como são imperfeitos os traços O quão finita é a tinta do quadro Comparado ao real Fuji-san? Mas realmente Como são menos alegres e tristes suas sombras O quão menos humana é a montanha Comparado ao real quadro de Hokusai? O que há de ganhar? Dentro da moldura ou fora dela?
161
Trincheiras
No meio da aula, seus olhos concentraram-se em seu rosto: seu cabelo pintado de vinho com uma tinta completamente vagabunda, sua pele flácida e pálica, de rosto curto e mandíbula pequena, de nariz empinado e os seus olhos castanho-claros, aérios como nuvens. Ele enxergava suas expressões facias como bem desenhadas e definidas. O que ele imaginava era que o uso precose e irregulado do álcool e do cigarro na jovem moça tenham deteriorado sua pele indevidamente. Essa imagem lhe causava asco, e essa tal imagem tenha-lhe apodrecido sua vista nela. Trincheiras profundas num campo coberto de neve, era assim como ele via.