Quando assalto as almas de ideias E prendo-as no papel Elas perdem tanto o seu primor.
Creio que seja o trauma sofrido por elas De deixarem de ser além da matéria E tornarem-se letras.
O trauma é, de tal modo, que envelhecem bem novas, E quando vou em suas folhas Não me parecem ideias de outrora.
Fico caçando a ideia nas vírgulas E tento-me achá-la em mim: Mas ai lembro que a sequestrei E tornei menos alma e mais gente.
Antes, uma cara vigorosa Cheia de saúde As veias que apareciam Eram rígidas com vontade Mas agora seus olhares são tão esmos Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara; Suas pernas, antes tão vigorosas, Agora cheias de varizes irancudas Sedentas de vingaça Pela minha lesa à majestade.
A natureza faz de propósito Para que eu não as admire mais Mas eu, o que tenho a perder? Apenas um júbilo a menos em meus dias E as ideias, coitadas Para sempre idosas na idade de 5
Quando assalto as almas de ideias E prendo-as no papel Elas perdem tanto o seu primor.
Creio que seja o trauma sofrido por elas De deixarem de ser além da matéria E tornarem-se letras.
O trauma é, de tal modo, que envelhecem bem novas, E quando vou em suas folhas Não me parecem ideias de outrora.
Fico caçando a ideia nas vírgulas E tento-me achá-la em mim: Mas ai lembro que a sequestrei E tornei menos alma e mais gente.
Antes, uma cara vigorosa Cheia de saúde As veias que apareciam Eram rígidas com vontade Mas agora seus olhares são tão esmos Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara; Suas pernas, antes tão vigorosas, Agora cheias de varizes irancudas Sedentas de vingaça Pela minha lesa à majestade.
A natureza faz de propósito Para que eu não as admire mais Mas eu, o que tenho a perder? Apenas um júbilo a menos em meus dias E as ideias, coitadas Para sempre idosas na idade de 5
236
Musa
Essa minha mensagem é para você Minha formosa musa A enterna indigente da galáxia Enterrada no fundo do cosmo Com os vermes do acaso Dilascerando seu corpo.
Tua pele é imperatriz Um arco-íris de beleza: É negra, é ébano; É branca, é cor-de-neve; É brozeada, pincelada pelo sol; Cabelo ruivo, beijada pelo fogo; Crespo, ondulado como o Atlântico; Liso, calmo como o Pacífico; É louro, dourado como tua alma; É castanho, como os carvalhos de seu jardim avizinhados das palmeiras, dos coqueiros, dos pinheiros; É negro, como o véu que te encobre, escondendo sua verdadeira beleza.
Seu rosto é alongado, É curto, É largo, É fino; Seu nariz estreito e chato; Seus lábios magros como pinceladas de amor, E grossos como força de teu calor.
Você é todo mundo, Mas ninguém te conhece Como eu te conheço. Muitos pensam seus seus seios Pequenos,fartos Seus quadris, Magros, gordos, retos e redondos; Muitos te olham Mas não te enxergam Como eu te enxergo.
São poucos os homens que te vislumbram Atráves da cortina carmesim De onde tu se escondia por trás. O holoforte projeta sua sombra na cortina E todos ficavam loucos com sua dança. Eles te estudavam Amavam-te Mas não como eu.
Dormi contigo Sonhei contigo Eu que vi o abismo de seus olhos; Todos sabem de seus pecados Mas só eu que vi Seu clamor por redenção.
Pensamentos suicidas te cercavam, Era esse seu pecado. Machucava-se Esfolava-se Cortave-se sem perdão. Sem ninguém para te amar, Procurou,procurou Mas ninguém lhe amou. Não,não como eu te amei.
Mas vocês não sabia. Nunca sentiu meu clamor para contigo. Deus sabe quantas noites eu chorei Porque vi você chorar Porque vi você sofrer Sangrar sem parar.
Quando te achei, já era muito tarde: No salão vazio, no canto da parede Tu jazia morta Afogada em pecado.
E ali você ficou: Ninguém havia te achado Todas as outras pessoas estavam longe E ali,naquele canto sem nome Você apodreceu.
Você já estava muito doente antes: Pálida,mas não era aquele seu pálido invernal, Era um pálido morimbundo Que amaldiçoava sua pele branca, que também era negra, amarela, bronzeada, parda.
Seus olhos,outrora sendo tudo Já não enxergavam nada e não tinham mais aquelas cores que pelas quais eu tanto me apaixonei.
Anos se passaram,e você continuou lá Sem lápide, sem epitáfio. E agora, volto para seu leito de morte E ainda admiro seu corpo, que já foi muito belo, mas mais bela ainda era sua alma. Muitos diriam que você era louca, era doente, que merecia morrer. O inferno para eles!,eles não sabem o que falam. Só queriam o seu corpo,todos eles! Só eu que quis tua alma.
Agora o véu de estrelas te cobre,perfeita: Os pequenos pontos iluminados desenham seu rosto E te tornam mais uma vez bela.
Já te chamaram por inúmeros nomes Mas só eu que te ouvi sussurrar Seu belo nome,
Ó,minha bela Humanidade.
207
Estação à Saudade
O dia está chegando O dia em que as músicas estarão todas surdas Quando os quadros todos cegos Quando os livros mudos E o poeta sem mãos para escrever.
Ainda se lembra Quando sabia ler? Quando cantava e tocava Como se quem era gente? Quando sonhava em ser alguém? Quando rimava?
Os meus pensamentos estão todos moldurados Totalmente acorrentados A poemas de outrora O eu lírico que me tanto amiguei Partiu de volta para suas terras Das quais não sei a estrada de cor E da estação, ainda vejo, lá longe nos trilhos O seu trem para casa
Saio da estação e compro um jornal Os absurdos do cotidiano impressos em papel apressado; Leio sem ler Com aquelas palavras engolfadas Pelo meus suspiros de saudade Perguntando-me Se tu ainda me lembras; Encontro-me perdido No rodapé da folha.
Desisto da leitura, e procuro escrever Gritos invioláveis à alma Tatuadas no papel. Sem papel Sem caneta E sem alma O que há de fazer um poeta sem filho para parir?
171
Minhoca
O verde das plantas são o seu céu Os galhos, os prédios que o rasgam Mas entre os dois Um brilho incomum...
Ela vai no caminho da luz E em sua barriga ela já sente Da terra fofa habitual Ao novo avizinhado concreto.
É tão áspero, fere sua rosada pele Mas continua seu caminho Proposital ou não.
Muito duro para escavar Já não tem mais casa. Nenhum dos outros bixos é como ela Sozinha naquele solo crapuloso de cinza.
Queria atravessar para o outro lado... Ah! Mas é uma lástima! A fina minhoca, esmagada por uma bota desmedida. Triste fim para o iterrompido êxodo.
Não bastasse isso, Ainda crucificaram a pobre depois da vida Por enfeiar o local De tando inseto mais bonito.
Será que em seus últimos momentos Ela sonhou com o seu hino nacional? O vento que se encosta nas folhas Os trompetes da nação.
184
Minhas Letras Estão Mortas
Minhas letras estão mortas e todos os meus demônios estão vivos Me sinto sem eu mesmo E sem minhas palavras para declamar E sem letras,sem eu Sem o meu eu,não há o que se dizer Como uma ridícula simbiose
Estou sem mãos Estou sem pés Estou sem garganta Para poder gritar Sem corpo Para poder ser alguém
Meus sentidos empatam todas as sensações Do caloroso brilho de verão Abafado pela estufa de nuvens Habitando um céu nublado De um sol que já habitou dias melhores
Queria tomar banho nessas belas ondas Que se debruçam umas nas outras Quebrando-se com uma violência magnífica Mas tudo que vejo Escuto Cheiro Sinto É um fogaréu transvestido de sonho; Um sonho vindo do outro lado do mar Só me esperando para sonhá-lo E assim dormir Com um sorriso tatuado no rosto.
Não sei quem foi o desprovido de amor Que matou o sonho em sua travessia Rumo a minha felicidade; Só sei que choro Pelos buracos onde haviam olhos: Onde não olho mais.
Um grito inaudível imunda o mundo Um grito morimbundo Que reabte nos infelizes e desgraçados por todo o espaço. Mas é um som indiferente para eles Pois só prestam atenção Em tentar sentir Suas próprias desgraças e desesperos.
Procuro todos os rostos: Um rosto de um culpado. Um rosto infanticida Um rosto de sorriso churumoso Com os dentes a cair Rindo feito o inferno. Procuro,mas sem olhos Como poderei saber quem é?
Então tenho um terrível pesadelo: Um mesmo rosto habitando os céus de labaredas Escarnando-me. Escarnando meu sonho O meu belo sonho! Choro de raiva E me aproximo do vil ser E seu rosto é um quadro impressionista Sem contornos Sem detalhes Mas eu sei exatamente que rosto é aquele: O meu.
Eu matei meu sonho Não com uma faca Com uma arma Ou com minhas mãos Nem sequer o toquei Mas o matei Inocentemente e sem culpa o matei Um crime sem culpado Ele só morreu.
O sonho foi morto E eu sou a vítima.
159
Alforria
Vagarosamente, Subo a serra...
No banco da praça, Observo as folhas...
Encostando na parede, Escuto os tijolos sussurarem...
No alvo céu, Enxergo todas as almas...
Da janela de minha casa, Vejo as árvores dançarem...
Na ala do hospital, Avisto um enfermo a sonhar...
Na minha cova, Atento ao meu epitáfio, Sem nada escrito. Nenhuma letra a me ditar Nenhum cinzel a trabalhar...
Mergulho em cada mundo Cada vida que não é minha Procuro onde deixei-me morrer... Cada começo de sonho Termino na beirada do cadafalso Sem final para acordar.
Um eu lírico episódico; Nunca fico para o final do poema Para ouvir o que ele tem a dizer.
Já estou sem corpo; Já estou sem alma; Falta-me a mente Para que eu torne ao início De quando eu era nada; De quando todos nós Éramos um com o vazio.
Todos nós éramos livres Até o dia em que nascemos; Até quando nos acorrentamos Nas vontades e nos sentidos.
Mas são doces correntes, Não queremos nos libertar. Pois que as minhas começaram a salgar.....
As palavras estão nuas Sem seda para cobri-las Como prostitutas em um bordel Que não queriam estar ali.
E ao bordel? Perguntaram ao bordel Se ele queria existir?
Não era para estar ali. Caindo aos pedaços Escondido no beco; Eu encontro o eu lírico lá, Fumando ópio Com uma moça em seu colo Gozando sem prazer; Ele, ela, e o bordel.
Alforriei minha alma Para que corresse atrás do que queria, Mas já era tarde: Já estava sem ar Asfixiada na gargantilha
Olho,sem enxergar O fundo daquela senzala Esperando alma de outro alguém Para poder libertar.
Queimo toda a plantação E me jogo nas labaredas para morrer, Mas não pereço. Percebo ali Que fui vetado da morte: Julgaram-me incapaz De ser libertado.
171
Vento e Ossos
Das festras de minha janela O sol me beija E vejo aquela terra Morta e cansada Com carrapatos Mordendo sua pele.
Sou o rei apenas Dos ventos que dançam das colinas E dos ossos que se deitam junto a areia. Mas o que os outros não sabem É que o vento não sangra E os ossos não morrem.
Eu conheço todos os reis deste mundo E eles são reis pela coroa Mas a coroa é pelo rei E não pelo povo. O povo é seu funcionário E nada mais.
Aqueles moribundos camponeses São tudo o que me restou. Mas o que outros não sabem É que eles também não são homens. Mas não como o vento e os ossos. Eles são crianças. E crianças morrem. E você sabe o que é maior que uma criança? Minha espada.
177
Trincheiras
No meio da aula, seus olhos concentraram-se em seu rosto: seu cabelo pintado de vinho com uma tinta completamente vagabunda, sua pele flácida e pálica, de rosto curto e mandíbula pequena, de nariz empinado e os seus olhos castanho-claros, aérios como nuvens. Ele enxergava suas expressões facias como bem desenhadas e definidas. O que ele imaginava era que o uso precose e irregulado do álcool e do cigarro na jovem moça tenham deteriorado sua pele indevidamente. Essa imagem lhe causava asco, e essa tal imagem tenha-lhe apodrecido sua vista nela. Trincheiras profundas num campo coberto de neve, era assim como ele via.
150
Título
O dia em que o poeta se tornará o poema E o seus versos, o título Nesse dia não dormirei feliz.
160
Acordar
A tempestade -Não sinto o chão Debaixo de mim
Que piada de mal gosto da vida Me fazendo acordar E me fazer arrepender Abrir os olhos, olhar para a curtina da janela Ver sua ida e volta com o vento E me fazer pensar que acordei na hora errada E nenhuma hora está certa Estão todas quebradas. Me querendo fazer não acordar. Acordar, e não ter nenhuma palavra para recitar Nenhuma alma para costurar versos A letra fica em toda garrancho A mão cança mais rápido Os olhos não leem tão rápido quanto antes, tropecando em cada vírgula e voltando para o início do parágrafo. E ter medo de dormir de novo Porque sei que vou acordar. Tento agora uma nova poesia Mas já vejo que francassei Nenhum sentimento novo criei Quantos entristecem, nesse mundo, quando a luz matutina lhe invade as córneas? E nenhuma de minhas palavras impera sobre o resto do dicionário Nada a ser mostrado na vitrine Um único adorno sequer. Verei se amanhã ou depois Minha alma acorda Se me dará bom dia Que só saiu de casa mais cedo, sem me acordar Que foi só um susto. Detesto todos os aspirantes à alguma coisa Já que nunca gostei de mim mesmo.
Existem fascículos de minha pessoa e vida que não me agradam Fardos perpétuos os quais desprezo Só a escrita para anestesiar a dor. Mas o que seria de mim sem a escrita? Ah, Mas não existe escrita Apenas sonho. Não existem pinturas Apenas sonho. Não existe melodias Apenas sonho. O ser humano É o sonho do próprio sonho Onde o fantástico e o além é costumeiro Ele sonha ser mais mundano. Acorda, sonho! Quero ver o teu mundano!
Quanto mais chamo o sonho Mais ele se afasta de mim. Queria o seu calor, Está tão frio no meu quarto. Já sinto os pingos da tempestade.