monteiro_damaceno

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Velhice

Quando assalto as almas de ideias
E prendo-as no papel
Elas perdem tanto o seu primor.

Creio que seja o trauma sofrido por elas
De deixarem de ser além da matéria
E tornarem-se letras.

O trauma é, de tal modo,
que envelhecem bem novas,
E quando vou em suas folhas
Não me parecem ideias de outrora.

Fico caçando a ideia nas vírgulas
E tento-me achá-la em mim:
Mas ai lembro que a sequestrei
E tornei menos alma e mais gente.

Antes, uma cara vigorosa
Cheia de saúde
As veias que apareciam
Eram rígidas com vontade
Mas agora seus olhares são tão esmos
Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara;
Suas pernas, antes tão vigorosas,
Agora cheias de varizes irancudas
Sedentas de vingaça
Pela minha lesa à majestade.

A natureza faz de propósito
Para que eu não as admire mais
Mas eu, o que tenho a perder?
Apenas um júbilo a menos em meus dias
E as ideias, coitadas
Para sempre idosas na idade de 5
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Poemas

36

Velhice

Quando assalto as almas de ideias
E prendo-as no papel
Elas perdem tanto o seu primor.

Creio que seja o trauma sofrido por elas
De deixarem de ser além da matéria
E tornarem-se letras.

O trauma é, de tal modo,
que envelhecem bem novas,
E quando vou em suas folhas
Não me parecem ideias de outrora.

Fico caçando a ideia nas vírgulas
E tento-me achá-la em mim:
Mas ai lembro que a sequestrei
E tornei menos alma e mais gente.

Antes, uma cara vigorosa
Cheia de saúde
As veias que apareciam
Eram rígidas com vontade
Mas agora seus olhares são tão esmos
Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara;
Suas pernas, antes tão vigorosas,
Agora cheias de varizes irancudas
Sedentas de vingaça
Pela minha lesa à majestade.

A natureza faz de propósito
Para que eu não as admire mais
Mas eu, o que tenho a perder?
Apenas um júbilo a menos em meus dias
E as ideias, coitadas
Para sempre idosas na idade de 5
236

Musa

Essa minha mensagem é para você
Minha formosa musa
A enterna indigente da galáxia
Enterrada no fundo do cosmo
Com os vermes do acaso
Dilascerando seu corpo.

Tua pele é imperatriz
Um arco-íris de beleza:
É negra, é ébano;
É branca, é cor-de-neve;
É brozeada, pincelada pelo sol;
Cabelo ruivo, beijada pelo fogo;
Crespo, ondulado como o Atlântico;
Liso, calmo como o Pacífico;
É louro, dourado como tua alma;
É castanho, como os carvalhos de seu jardim
avizinhados das palmeiras,
dos coqueiros,
dos pinheiros;
É negro, como o véu que te encobre,
escondendo sua verdadeira beleza.

Seu rosto é alongado,
É curto,
É largo,
É fino;
Seu nariz estreito e chato;
Seus lábios magros como pinceladas de amor,
E grossos como força de teu calor.


Você é todo mundo,
Mas ninguém te conhece
Como eu te conheço.
Muitos pensam seus seus seios
Pequenos,fartos
Seus quadris,
Magros, gordos, retos e redondos;
Muitos te olham
Mas não te enxergam
Como eu te enxergo.

São poucos os homens que te vislumbram
Atráves da cortina carmesim
De onde tu se escondia por trás.
O holoforte projeta sua sombra na cortina
E todos ficavam loucos com sua dança.
Eles te estudavam
Amavam-te
Mas não como eu.

Dormi contigo
Sonhei contigo
Eu que vi o abismo de seus olhos;
Todos sabem de seus pecados
Mas só eu que vi
Seu clamor por redenção.

Pensamentos suicidas te cercavam,
Era esse seu pecado.
Machucava-se
Esfolava-se
Cortave-se sem perdão.
Sem ninguém para te amar,
Procurou,procurou
Mas ninguém lhe amou.
Não,não como eu te amei.

Mas vocês não sabia.
Nunca sentiu meu clamor para contigo.
Deus sabe quantas noites eu chorei
Porque vi você chorar
Porque vi você sofrer
Sangrar sem parar.

Quando te achei, já era muito tarde:
No salão vazio, no canto da parede
Tu jazia morta
Afogada em pecado.

E ali você ficou:
Ninguém havia te achado
Todas as outras pessoas estavam longe
E ali,naquele canto sem nome
Você apodreceu.

Você já estava muito doente antes:
Pálida,mas não era aquele seu pálido invernal,
Era um pálido morimbundo
Que amaldiçoava sua pele branca,
que também era negra,
amarela,
bronzeada,
parda.

Seus olhos,outrora sendo tudo
Já não enxergavam nada
e não tinham mais aquelas cores
que pelas quais eu tanto me apaixonei.

Anos se passaram,e você continuou lá
Sem lápide,
sem epitáfio.
E agora, volto para seu leito de morte
E ainda admiro seu corpo,
que já foi muito belo,
mas mais bela ainda era sua alma.
Muitos diriam que você era louca,
era doente,
que merecia morrer.
O inferno para eles!,eles não sabem o que falam.
Só queriam o seu corpo,todos eles!
Só eu que quis tua alma.

Agora o véu de estrelas te cobre,perfeita:
Os pequenos pontos iluminados desenham seu rosto
E te tornam mais uma vez bela.

Já te chamaram por inúmeros nomes
Mas só eu que te ouvi sussurrar
Seu belo nome,

Ó,minha bela
Humanidade.
207

Estação à Saudade

O dia está chegando
O dia em que as músicas estarão todas surdas
Quando os quadros todos cegos
Quando os livros mudos
E o poeta sem mãos para escrever.

Ainda se lembra
Quando sabia ler?
Quando cantava e tocava
Como se quem era gente?
Quando sonhava em ser alguém?
Quando rimava?

Os meus pensamentos estão todos moldurados
Totalmente acorrentados
A poemas de outrora
O eu lírico que me tanto amiguei
Partiu de volta para suas terras
Das quais não sei a estrada de cor
E da estação, ainda vejo, lá longe nos trilhos
O seu trem para casa

Saio da estação e compro um jornal
Os absurdos do cotidiano impressos em papel apressado;
Leio sem ler
Com aquelas palavras engolfadas
Pelo meus suspiros de saudade
Perguntando-me
Se tu ainda me lembras;
Encontro-me perdido
No rodapé da folha.

Desisto da leitura, e procuro escrever
Gritos invioláveis à alma
Tatuadas no papel.
Sem papel
Sem caneta
E sem alma
O que há de fazer um poeta sem filho para parir?
171

Minhoca

O verde das plantas são o seu céu
Os galhos, os prédios que o rasgam
Mas entre os dois
Um brilho incomum...

Ela vai no caminho da luz
E em sua barriga ela já sente
Da terra fofa habitual
Ao novo avizinhado concreto.

É tão áspero, fere sua rosada pele
Mas continua seu caminho
Proposital ou não.

Muito duro para escavar
Já não tem mais casa.
Nenhum dos outros bixos é como ela
Sozinha naquele solo crapuloso de cinza.

Queria atravessar para o outro lado...
Ah! Mas é uma lástima!
A fina minhoca, esmagada por uma bota desmedida.
Triste fim para o iterrompido êxodo.

Não bastasse isso,
Ainda crucificaram a pobre depois da vida
Por enfeiar o local
De tando inseto mais bonito.

Será que em seus últimos momentos
Ela sonhou com o seu hino nacional?
O vento que se encosta nas folhas
Os trompetes da nação.
184

Minhas Letras Estão Mortas

Minhas letras estão mortas
e todos os meus demônios estão vivos
Me sinto sem eu mesmo
E sem minhas palavras para declamar
E sem letras,sem eu
Sem o meu eu,não há o que se dizer
Como uma ridícula simbiose

Estou sem mãos
Estou sem pés
Estou sem garganta
Para poder gritar
Sem corpo
Para poder ser alguém

Meus sentidos empatam todas as sensações
Do caloroso brilho de verão
Abafado pela estufa de nuvens
Habitando um céu nublado
De um sol que já habitou dias melhores

Queria tomar banho nessas belas ondas
Que se debruçam umas nas outras
Quebrando-se com uma violência magnífica
Mas tudo que vejo
Escuto
Cheiro
Sinto
É um fogaréu transvestido de sonho;
Um sonho vindo do outro lado do mar
Só me esperando para sonhá-lo
E assim dormir
Com um sorriso tatuado no rosto.

Não sei quem foi o desprovido de amor
Que matou o sonho em sua travessia
Rumo a minha felicidade;
Só sei que choro
Pelos buracos onde haviam olhos:
Onde não olho mais.

Um grito inaudível imunda o mundo
Um grito morimbundo
Que reabte nos infelizes e desgraçados por todo o espaço.
Mas é um som indiferente para eles
Pois só prestam atenção
Em tentar sentir
Suas próprias desgraças e desesperos.

Procuro todos os rostos:
Um rosto de um culpado.
Um rosto infanticida
Um rosto de sorriso churumoso
Com os dentes a cair
Rindo feito o inferno.
Procuro,mas sem olhos
Como poderei saber quem é?

Então tenho um terrível pesadelo:
Um mesmo rosto habitando os céus de labaredas
Escarnando-me.
Escarnando meu sonho
O meu belo sonho!
Choro de raiva
E me aproximo do vil ser
E seu rosto é um quadro impressionista
Sem contornos
Sem detalhes
Mas eu sei exatamente que rosto é aquele:
O meu.

Eu matei meu sonho
Não com uma faca
Com uma arma
Ou com minhas mãos
Nem sequer o toquei
Mas o matei
Inocentemente e sem culpa o matei
Um crime sem culpado
Ele só morreu.

O sonho foi morto
E eu sou a vítima.
159

Alforria

Vagarosamente,
Subo a serra...

No banco da praça,
Observo as folhas...

Encostando na parede,
Escuto os tijolos sussurarem...

No alvo céu,
Enxergo todas as almas...

Da janela de minha casa,
Vejo as árvores dançarem...

Na ala do hospital,
Avisto um enfermo a sonhar...

Na minha cova,
Atento ao meu epitáfio,
Sem nada escrito.
Nenhuma letra a me ditar
Nenhum cinzel a trabalhar...

Mergulho em cada mundo
Cada vida que não é minha
Procuro onde deixei-me morrer...
Cada começo de sonho
Termino na beirada do cadafalso
Sem final para acordar.

Um eu lírico episódico;
Nunca fico para o final do poema
Para ouvir o que ele tem a dizer.

Já estou sem corpo;
Já estou sem alma;
Falta-me a mente
Para que eu torne ao início
De quando eu era nada;
De quando todos nós
Éramos um com o vazio.

Todos nós éramos livres
Até o dia em que nascemos;
Até quando nos acorrentamos
Nas vontades e nos sentidos.

Mas são doces correntes,
Não queremos nos libertar.
Pois que as minhas começaram a salgar.....

As palavras estão nuas
Sem seda para cobri-las
Como prostitutas em um bordel
Que não queriam estar ali.

E ao bordel? Perguntaram ao bordel
Se ele queria existir?

Não era para estar ali.
Caindo aos pedaços
Escondido no beco;
Eu encontro o eu lírico lá,
Fumando ópio
Com uma moça em seu colo
Gozando sem prazer;
Ele, ela, e o bordel.

Alforriei minha alma
Para que corresse atrás do que queria,
Mas já era tarde:
Já estava sem ar
Asfixiada na gargantilha

Olho,sem enxergar
O fundo daquela senzala
Esperando alma de outro alguém
Para poder libertar.

Queimo toda a plantação
E me jogo nas labaredas para morrer,
Mas não pereço.
Percebo ali
Que fui vetado da morte:
Julgaram-me incapaz
De ser libertado.

171

Vento e Ossos

Das festras de minha janela
O sol me beija
E vejo aquela terra
Morta e cansada
Com carrapatos
Mordendo sua pele.

Sou o rei apenas
Dos ventos que dançam das colinas
E dos ossos que se deitam junto a areia.
Mas o que os outros não sabem
É que o vento não sangra
E os ossos não morrem.

Eu conheço todos os reis deste mundo
E eles são reis pela coroa
Mas a coroa é pelo rei
E não pelo povo.
O povo é seu funcionário
E nada mais.

Aqueles moribundos camponeses
São tudo o que me restou.
Mas o que outros não sabem
É que eles também não são homens.
Mas não como o vento e os ossos.
Eles são crianças.
E crianças morrem.
E você sabe o que é maior que uma criança?
Minha espada.
177

Trincheiras

No meio da aula, seus olhos concentraram-se em seu rosto: seu cabelo pintado de vinho com uma tinta completamente vagabunda, sua pele flácida e pálica, de rosto curto e mandíbula pequena, de nariz empinado e os seus olhos castanho-claros, aérios como nuvens. Ele enxergava suas expressões facias como bem desenhadas e definidas. O que ele imaginava era que o uso precose e irregulado do álcool e do cigarro na jovem moça tenham deteriorado sua pele indevidamente. Essa imagem lhe causava asco, e essa tal imagem tenha-lhe apodrecido sua vista nela. Trincheiras profundas num campo coberto de neve, era assim como ele via.
150

Título

O dia em que o poeta se tornará o poema
E o seus versos, o título
Nesse dia não dormirei feliz.
160

Acordar

A tempestade
-Não sinto o chão
Debaixo de mim

Que piada de mal gosto da vida
Me fazendo acordar
E me fazer arrepender
Abrir os olhos, olhar para a curtina da janela
Ver sua ida e volta com o vento
E me fazer pensar que acordei na hora errada
E nenhuma hora está certa
Estão todas quebradas.
Me querendo fazer não acordar.
Acordar, e não ter nenhuma palavra para recitar
Nenhuma alma para costurar versos
A letra fica em toda garrancho
A mão cança mais rápido
Os olhos não leem tão rápido quanto antes, tropecando em cada vírgula e voltando para o início do parágrafo.
E ter medo de dormir de novo
Porque sei que vou acordar.
Tento agora uma nova poesia
Mas já vejo que francassei
Nenhum sentimento novo criei
Quantos entristecem, nesse mundo, quando a luz matutina lhe invade as córneas?
E nenhuma de minhas palavras impera sobre o resto do dicionário
Nada a ser mostrado na vitrine
Um único adorno sequer.
Verei se amanhã ou depois
Minha alma acorda
Se me dará bom dia
Que só saiu de casa mais cedo, sem me acordar
Que foi só um susto.
Detesto todos os aspirantes à alguma coisa
Já que nunca gostei de mim mesmo.

Existem fascículos de minha pessoa e vida que não me agradam
Fardos perpétuos os quais desprezo
Só a escrita para anestesiar a dor.
Mas o que seria de mim sem a escrita?
Ah,
Mas não existe escrita
Apenas sonho.
Não existem pinturas
Apenas sonho.
Não existe melodias
Apenas sonho.
O ser humano
É o sonho do próprio sonho
Onde o fantástico e o além é costumeiro
Ele sonha ser mais mundano.
Acorda, sonho!
Quero ver o teu mundano!

Quanto mais chamo o sonho
Mais ele se afasta de mim.
Queria o seu calor,
Está tão frio no meu quarto.
Já sinto os pingos da tempestade.
155

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