Quando assalto as almas de ideias E prendo-as no papel Elas perdem tanto o seu primor.
Creio que seja o trauma sofrido por elas De deixarem de ser além da matéria E tornarem-se letras.
O trauma é, de tal modo, que envelhecem bem novas, E quando vou em suas folhas Não me parecem ideias de outrora.
Fico caçando a ideia nas vírgulas E tento-me achá-la em mim: Mas ai lembro que a sequestrei E tornei menos alma e mais gente.
Antes, uma cara vigorosa Cheia de saúde As veias que apareciam Eram rígidas com vontade Mas agora seus olhares são tão esmos Tão fracos que parecem querer desgrudar da cara; Suas pernas, antes tão vigorosas, Agora cheias de varizes irancudas Sedentas de vingaça Pela minha lesa à majestade.
A natureza faz de propósito Para que eu não as admire mais Mas eu, o que tenho a perder? Apenas um júbilo a menos em meus dias E as ideias, coitadas Para sempre idosas na idade de 5
Em lágrimas se afogou Tornou-se Ofélia que não era só sua
Debruçado aos gritos surdos da meia-noite Gritos iguais sussuros
Já não respira no leito No chão, já tinha sua cova
Viu a beleza da moça, mas acabou; Já tirou sua pele e carne, volta a terra
Naquela barro batido, os grãos sinalizam A beleza dela, justa pois finita
Mas não seja por isso. Que quando nascer de novo, cá estará ele.
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Aplausos
Odeio de cor Os aplausos já esperados Depois de um corar de um poema Quebrando amoralmente A quietude da palavra
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Bonne nuit, Julia - O manequim
A chuva que nos coloniza Que ara a terra de nossa pele Que cai como Lúcifer em nossos pelos Cobre feito véu Nosso belo adeus.
Ela tenta, em vão Que todos os outros não vejam nosso partir Achando que suas gotas Vão tão grossas quando concreto Mas, entre todo esse universo entre elas Um intrometido qualquer pode avistar Nosso requíem de paixão Como uma criança Em uma fechadura feita de chuva.
O vento nos arranha igualmente Talvez por pura cólera Por dar fim nossa própria festa. Ou seja ele nos puxando Para perto um do outro Tão violentamente e dessesperadamente Que já começa a chorar de temor (a chuva, lágrimas suas, trovões, seus berros)
O neon do letreiro do cinema Falha e pisca Sua existência começar a falhar Ao ver o precipício do cadafalso.
A chuva para: O vento finalmente aceitou o fim de sagrado matrimônio, Como uma mãe que deixa para trás seu filho amado, Deitado no caixão. Mas o corpo apodrece, O corpo começa a feder. O miasma ali nasce. Quando o cheiro de mormaço sobe É o chão tentando nos avisar Do que será o mundo sem nosso amor.
Mas eu lhes digo que basta! Quando o cheiro sobre, já não vejo ela. Ela já virou a esquina. Já estou a caminho de casa. Mais um episódio de paixão De uma grande odisséia amorosa. Cada pessoa por quem me apaixonei Tornaram-se apenas paixão, O amor nunca veio. A única por quem eu tenho verdadeiro, genuino E inexorável amor É a própria paixão.
Eu amo a paixão: Todas as pessoas por quem me apaixono São apenas vestidos dessa bela mulher Que é só minha -Pelo menos,foi o que ela me disse.
Eu penso em como vivem esses homens e mulheres Que trocariam essa mulher pelo vestido: Jogando-a no lixo, E colocando um manequim no seu lugar Apenas para ver o vestido em alguma silhueta. O carmesim dessa seda é tão bela assim?
198
Arte
O espectador é a mais suprema forma de arte: versátil, ele a tudo se transforma e a tudo significa. A verdadeira beleza de uma obra está em que a admira, como se quem fosse espectador fosse a própria obra. A obra é apenas uma porta de entrada para o sentir, e quem a observa sente-a como ela nunca faria em retorno, e muito mais além do próprio sentir. A arte é estática, mesma as que representam cinemática, pois as mesmas são efêmeras,assim como nós. Talvez seja por isso que procuramos arte: ou um espelho quebrado de nossa própria natureza, ou então para assistir um espetáculo mais finitos que nós Para nos sentirmos além do fim.
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Colombo
Você é o meu Novo Mundo Você é a milha Marília Teu olhar já me exila Desconheço um mais profundo
Navego para além dos sentidos Para contornar o seu amor O vazio só me causar dor Suas terras já tinham nativos
Meu nome é Colombo Descobri o amor Achando que era coisa qualquer Carrego no ombro Tremenda dor A de que você não é minha mulher
Queria ter morrido antes de saber Que você não é uma Você é "A"
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Vertigem
Na entalpia de sua alma,me guio De rastros te sigo Por puro vertigo
Sim,vertigem tua alma me faz parir Assim não consigo te seguir Quer me fazer desistir?
Deve ser algum mecanismo de defesa Não quer que um homem de safadeza Macule sua interna beleza?
Vejo agora que não é tua intenção Ir com seu coração na minha contra-mão Pois sou uma sombra em tua escuridão
Tua indiferente alma me faz tremer Desejo voltar a me entender Cego-me para voltar a ver