Lista de Poemas

tão cheia de nada...

a vida é uma longa estrada
às vezes enviesada,
no rosto,
não falta nenhuma linha
é como ver cair o dia
enquanto se caminha,
não dei conta e já anoitece
da manhã fiquei distante
mas é como se lá estivesse.

deixo cair as palavras
- delas sou amante!
tenho saudades de alguém
saudades de mim também.
rosa brava, solidão
que de amar ainda te consentes
trazes pássaros no coração
os dias são-te indiferentes.

varres a tua alegria
também a tua última dor
és agora folha tardia
caída ao chão por amor.

natalia nuno
Outubro 1996/Braga
205

porquê calar?...

à minha volta o silêncio
é tudo o que sobeja
tomba em qualquer lugar
não há quem veja
só eu o vejo chegar,
cada vez fica mais perto
sobre mim debruçado
a ceifar-me o pensamento,
a levar-me ao esquecimento
como quem não tem outro remédio
nesta vida,
e se vê num beco sem saída.

tenho voltas a dar
sair deste silêncio, desta solidão
anima-me um pouco de contentamento
a morte prometida vou deixar
Deus assim me consente
a vida vale mais que este tormento
porquê calar se me perco a cada passo
quando o amor anda ausente?
distante, fantasma, sonho e nada
vida acabada,
nocturna solidão sem um abraço,
minha alma a ficar adormecida
é  tempo de nova idade.
idade de ter saudade.

natália nuno
197

a solidão...

quando é evidente a solidão, nem levo a sério se dizes que me amas, o eco da tua voz fica na noite que desce sobre mim...faz fronteira com o inverno que me envolve, mas traz-me uma fugaz esperança ao coração, que obstinado ainda te quer ouvir...
168

as paredes da minha casa...

Agora sei do meu lugar
depois de tanta recordação amontoada
dos sonhos que trago do alvorar,
da palavra espantada, exaltada,
do fio do meu pranto
sei do meu lugar.

Este lugar de vã canseira
onde as mãos não param de se agitar
onde surge a palavra desesperada
e os primeiros esquecimentos,
aqui é o meu lugar...
antes que tarde seja
aqui deixo meus pensamentos.

Este é o meu lugar
onde ressuscito memórias
e conto meus dias no mundo
nada, nada depois que a vida acabar
eu posso como agora procurar,
no meu eu mais profundo
aqui, agora é meu lugar

Esta mão que escreve sabe,
que este é o seu tempo e seu lugar
até os olhos terem vida
e enquanto a morte apenas farejar.
Este é o meu lugar
onde me deixarei adormecida.

natalia nuno
211

último acto...

Antes do último acto terminar
saio de cena,
com o coração trespassado
o olhar espantado.
E se alguma coisa  quebrar
Vai ser a palavra... tenho pena!
Palavra que me reconfortava
e em mim fecundava.
Ela que se arremessou contra meu peito
Se levantou enlouquecida
E sem me ouvir...assim de qualquer jeito,
se quer fazer ouvida.

Cai o pano de improviso
Há gargalhadas p'lo ar
A balbúrdia é  geral
O terceiro acto correu mal.
Levo o coração quebrado
Muito ficou por dizer,
que escapou entre o esquecimento,
como a frescura da água por beber
Lamento...lamento...lamento!

Neste palco fiquei destruída
Definitivamente quebrada
Que esperança ter
numa nova jornada?
Teatro é a Vida
Nele há esperança de verdade
Mas acaba mal o sonho
Resta a saudade.

Acabou a insólita peça
Houve palmas, apupos, e até gritos!
Agora não há quem meça
os ruídos (do meu coração)
aflitos.
Fui até directora de cena
Declamei de improviso
corajosamente no meio da multidão
Saíu mal, tenho pena!
Por isso saio sem aviso.
Sem esperança, fé, ou resolução.

Largo o traje a rigor
Com que vos saudava então!
Dos aplausos levo o calor
E para o olhar final, levo a peça na mão.
Nestas mãos cansadas, parideiras
de versos tantos!
De saudades, atiradas em prantos,
onde a palavra se faz ouvir
Até no dito que não pronunciei
Nas folhas de outono a cair
Na jovem que não existe,
na dor que calei.

Levo  a interrogação na boca
que em mim não esquece
Por que será a vida tão pouca?
Que já o pano desce.
Saio de cena!

natalia nuno
183

versos finais...

não fechem minhas portas nem janelas,
deixam entrar o perfume
da madrugada,
deixem-me ouvir o canto dos rouxinóis,
quero sentir-me amada
deixem que entrem outros sóis.
na vida que levo saudosa, lembrada
deixem-me ver o anoitecer,
a lua que sobre mim se debruça
não quero o inverno a corroer
o meu peito que soluça...
quero ser ainda espantosa flor
essência dum grande amor.

quero olhar o infinito
encontrar o sentido de viver
e nesta esperança em que me agito
neste sonho em que me enleio
esquecer por instantes o medo de me
perder.

nestes versos finais
onde eu sou mais um, entre os demais
nada mais tenho a escrever
sou a vela que se apagou
que de tanto arder
a dor no peito deixou

deixem que o sonho em mim
se acoite
que eu volte pela última vez
à rua da minha infância
antes que seja noite.

natalia nuno
159

sonho de amor...

em sereno jeito
giro como um girassol.
ao teu redor,
trago-te no peito
sempre com amor maior.
corre o dia
já quase com um pé na noite
que aparece com brusquidão,
meus olhos se entregam à solidão.

como queria
ter-te aqui...
aqui me tens
espero por ti,
só a saudade
 me diz que vens.

minha mão arrefece
sem da tua a ternura
e a imensidade da hora
causa a minha loucura.
a tarde cai, mais um dia vai
soltam-se as aves no céu
procuram abrigo tal  como eu,
e o último raio de sol
habita o meu olhar,
giro, giro como um girassol
na esperança de te ver chegar.

na escuridão dos meus olhos
dou abrigo a mais uma lágrima
como dói querer-te!
trago-te na memória.
aposto em segredo que vens
mas tenho medo,
de não ter-te
por perto
quando do sonho desperto.

natalia nuno
150

restam as pedras que piso...

Dou meia dúzia de voltas
tal qual como um pião
pouso sobre o papel a mão
e as palavras me saem soltas.
sobre a pressão dos meus dedos
escrevo ora a medo, ora sem medos
olho no céu as estrelas, mais de mil olho!
mas não tenho ilusões!?
são minhas lágrimas guarnições
com elas meu rosto molho.

- Fico neste meditar
espicaço meus sentimentos
coisas de ternura me vêem ao lembrar
momentos...
uns que foram como cristais
e outros partidos p'los vendavais.
um dia e outro em fileira
trazendo um tempo de obscuridade
e meu coração queira ou não queira!
deixa-me no aperto da saudade.
mas não trago mágoa não
desse tempo donde venho
lembranças fantasmas são,
do que tive e já não tenho.

Restam as pedras que piso
pois se em mim já tudo desaba?!
fico a pensar que já nada exijo
mas até o nada se acaba.

natalia nuno
164

a ti mãe...

Como é possível tudo ter passado?!
Não sei nada dessa viagem que fizeste sem querer
Lá nesse céu palidamente iluminado.
Revoltei-me com a dureza da partida
Que mais podia fazer?
Se eras minha mãe querida.

Cedo ao desejo constante de ao teu colo voltar
Não havendo nada que eu mais quisesse agora
Sensação única, autêntica que vou guardar
Assim comno a manhã serena em que foste embora.

Ontem lembrei o teu xaile negro
Aquele onde me protegias do frio e do vento
Onde convivíamos ambas em segredo
Enquanto teu olhar me envolvia sem cansaço nem
lamento.

A saudade às vezes me traz uma dor maior
Mas não quero o passado fechado
Quero lembrar-te com todo o meu amor
Sonhando sempre ter-te a meu lado.
A lembrança te leva ao meu eu mais profundo
E é lá que te vejo, minha mãe

A melhor mãe do mundo
E é lá que te vejo.

natalia nuno
241

saudade...

Saudade é a prisão da dor de quem espera
O desassossego da alma de quem desespera
É o pressentimento do não voltar a ter
É matar o tempo com a dor do não saber.
A agonia que cresce quando se contam os dias
A apatia em que se cai se não há notícias
É a nostalgia do beijo e do abraço
Uma inquietude onde nem o sono tem espaço.

Saudade é sentir longe quando se está perto
É o desespero de se perder o que se tem como certo
Sentir a voz de quem queres que te chame
Saudades sentes mesmo que já não te ame!
Saudade é a alma cheia de desejo
Um momento amargo doce, aguardando o ensejo
Adormecer esperando o dia com ansiedade
Sonhar o reencontro também é saudade.

As despedidas que ainda nem aconteceram
As esperanças dum regresso, que se perderam
A angústia de não saber quando
Saudade é o respirar o mesmo ar,as bocas colando
É um silêncio triste e obstinado!
Múrmurio que o vento traz do bem amado

Num lugar secreto onde mora a solidão
Mora a saudade que não nos larga o coração.


Natalia Nuno
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Comentários (11)

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natalia nuno

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.

Natural de Lapas/Torres Novas A Poeta nasceu na pequena aldeia Ribatejana chamada Lapas/ Torres Novas a 19/1, Estudou na Escola Industrial e Comercial de Torres Novas . Participou nas seguintes Antologias: «Entre o sono e o sonho III» «trago-te um sonho nas mãos», «por um sorriso», «poiesis vol. XIII» e «poiesis vol. XXIX», «Viva Outubro 2009» e «Viva outubro 2010», «Licença poética 2011» , « Alma gémea 2011 antologia brasileira», «Tu cá, tu lá II», «Horizontes da Poesia III 2011», « Digo não ao não», «Na magia da noite», «Entre o sono e o sonho III» , «Mãe», « Poetar Contemporâneo 2012», « Cruzada da Poesia», «Horizontes da Poesia IV», «Horizontes de Poesia V» Antologia Poética Contemporânea «Entre o Sono e o Sonho IV», «A Palavra é uma Espada», «Amantes da Poesia 2014», «Horizontes da Poesia IX» «Utopia(s)», «Poetas da Cidade»… Antologias editadas por diversas Editoras situadas em Portugal e Brasil. Colaborou no jornal da sua cidade natal «O Almonda» Prefaciou as obras: « No Chão de àgua » do Poeta Paulo César, O romance « Óh África...oh África Minha» do escritor José Silva, e « Encontro-me nas Palavras» da Poeta Maria Antonieta Oliveira. Livros seus editados/ de Poesia: «Pesa-me a Alma» em 2011 Editora Lua de Marfim e «A Melodia do Tempo» em 2014 pela mesma editora. Com o 3º livro de Poesia editado na Roménia com o nome de «Moldura da Saudade» ou «Margini de dor». O quarto livro «Estremecimentos d'Alma» editado pelo editor Vieira da Silva em 2017......................todos os meus poemas estão registados no IGAC Entre 2016 e 2018 participou em cerca de quatro dezenas de Antologias a convite........