Lista de Poemas

na serenidade da noite...

Levamos séculos a aprender
tantas coisas desta vida
outros tantos a desaprender
o que nos fere e penetra no corpo
e de algumas jamais
nos conseguimos desfazer
agora trazemos nas mãos calosidades
e no coração saudades
o cabelo embranquece
o olhar toma um modo transcendente,
e quem se lembra da gente?
Mas há gente,
que a gente não esquece.

Tempos de namoricos e paixões
visões que nos marcam toda a vida
e na quietude da noite
no meio da serenidade
surge sempre a saudade
a lua ilumina lá em baixo o rio
há uma ténue neblina
e lá estou eu ainda menina.
Contemplo a aparição
meu rosto lívido,
aos pulos meu coração.
Tempo de aprender toda a ternura
do mundo
tempo de balouçar o corpo ao andar
e aquele sorriso que dizia
sem nada dizer
levamos séculos a aprender
hoje cravo o olhar no chão
e guardo, guardo a recordação.

natalia nuno
292

prosa poética...

quase mágico seu rosto, o olhar estendido labirinto de memórias, olhos que soletram o sol são a linguagem dum silêncio arrebatado, onde as sílabas são substituídas por música que vem do coração, jamais se é o que se foi, jamais se respiram as fragrâncias de Setembro, agora que o inverno se inicia e a vida nos fala em sua mudez, uma rajada canta no arvoredo da memória, que ainda palpita, voa e sonha....

natalia nuno
243

no vai-vem do amor...

Espero que apareças...
Espero-te aqui na esquina
mas não esqueças!
Traz contigo o perfume campestre
o mesmo que me ofereceste
quando era menina.
Chorei,
no dia em que nos despedimos
só eu sei!
O gosto das lágrimas salgadas
as vozes enamoradas
o beijo exasperado
a lembrança de mão na mão
O coração trémulo, calado.

A nossa sede, o nosso abraço
A minha oração sem esperança
O meu rosto sem traço
Aquele que me viste em criança.

Sangue sem sangue, sem pulsação
E a noite, a mansidão?
Meu vestido branco, flores no cabelo
louco, louco este meu desvelo.
Com meus olhos digo que amo
Meu andar fica cativo
No meu sonho por ti chamo
Amo-te, amo-te!
Docemente te digo.

Espero que apareças
Recolhe-me no teu olhar
e não esqueças
traz contigo a magia do luar,
e uma ou duas lágrimas para às minhas juntar.
Faremos um lago a soluçar,
e dos meus olhos cairão rosas
que crescem ainda, por entre pedras preciosas.
E nossos dias serão de marfim
Falaremos de magnólias, de jasmim
enquanto os nossos sonhos adormecem.
E depois, por fim...
o tactear que buscámos tanto
Milagrosos sonhos que permanecem
E vamos sonhando por enquanto.

rosafogo
natalia nuno




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315

debruando a solidão...

teus olhos me olham com espanto
como quem me espia,
como se olhasses um retrato esmaecido
esse olhar que me queria tanto
e trazia meu corpo estremecido.
mas, meu rosto já não é mais poesia
é estrela que segue seu rumo
a esse olhar d'agora não me acostumo.

ainda escorre dos meus dedos
e das minhas mãos quebradas
segredos, tão nossos,
e saudades acordadas
o tempo, esse mistério sem fim
matou a flor que havia em mim,
hoje sou irmã do vento
com as entranhas a rasgar
e trago dele o lamento
nas palavras a praguejar

se nem eu sei quem sou
não te ponhas a olhar-me assim
em precipitada queda estou
breve, breve a chegar ao fim
já morri na primavera
da saudade desse olhar,
entre mil sonhos à espera
e cansada de esperar...
a solidão percorre meu corpo louco
e embrenhado no pensamento
a morte chega a pouco e pouco

os dias vão remendando a vida
de novo pouco ou nada recomeça,
trago os dias contados
na esperança, que não corram
depressa...
olha-me só e mais nada
como se fossemos ainda amor perfeito
que a lágrima é passada
quando me encosto ao teu peito.
vou debruando a solidão
e ouvindo bater teu coração
emudeço como pássaro que faz a despedida
da primavera, já não canta, já cantou!
e neste silêncio de ave ferida
o canto a abandonou...
ficou... em céus de melancolia,
com saudade que na sua cabeça floria.

......................................
natalia nuno
261

estrela... perdida

num tempo emprestado
permaneço a ele atada,
minha estrela perdida
num céu de tudo e de nada.
meu sorriso é
uma envergonhada manhã
nasce e morre cinzenta,
trago saudade de mim...
uma dor fina no peito, que
mal se aguenta
e parece não ter fim.
num vazio tropeço
o pensamento fantasma
que mal conheço.

sou eu e não sou!
o que tenho a perder
se nada restou?!

natalia nuno
337

quadras soltas

Plantei rosmaninho n' quintal
Salva e pé de erva cidreira
Farei chá... que passo mal!
Amor por ti trago cegueira

Já o Mundo me encantou
Tudo o que era de encantar
E a Vida a correr passou
Minha amizade soube dar!

Mas como as arvores de pé
A amizade criou raízes!
Confiei e na boa fé!?
Fiz outros seres felizes.

natalia nuno

286

aconchego familiar...

Cada qual ocupava o seu lugar à lareira, quando o frio apertava e aconchegava-se o lume com mais uma cavaca e assim durava o serão que nunca ía muito além do jantar pois no dia seguinte o trabalho duro esperava e a manhã depressa chegava. A mãe conduzia a conversa cujo tema era geralmente os afazeres e as resoluções do dia seguinte, falavam pouco, parecia quererem guardar as forças para o trabalho que tinham p'la frente...o pai era sempre o primeiro a ir à deita e então lembro bem, perguntava à mãe: a cama está aberta? Há coisas que não se esquecem, tal como: o jantar está pronto? A mulher trabalhava por dois, a mãe trabalhava na fiação e tecidos onde era chefe de armazém de linhos, e chegada a casa tinha os filhos a sogra e o marido que não perdoava a hora certa desta refeição nocturna...lembro que a comida era feita num fogareiro que trabalhava a petróleo, ou então nas brasas da lareira e tudo levava imenso tempo, ali, mesmo na lareira também se aquecia água para o banho e para lavar a loiça, o banho era semanal dentro dum alguidar de zinco, não se apaga de facto mesmo nada da memória ... entretanto enquanto durava o serão eu era a rainha dos sonhos e numa embriaguês tamanha, numa exaltação meu coração transbordava de alegria, tudo me parecia ser verdade, via-me no trapézio, onde tudo me era fácil, enchia meus sonhos de figuras ágeis e animadas e eram intensas as sensações, ousada representava só para mim peças de teatro que eu própria criava e era extraordinário... como era bela a infância! Achava ter muitos admiradores, era uma comediante infantil cheia de sucesso e vivia numa alegria contínua...a alegria era fundamental...ou seria uma tristeza alegre? Apenas a pureza de coração e uma alegria ingénua e deliciosa...não posso dizer com certeza, que foi uma infância muito boa, mas foi com toda a certeza uma boa infância.

natalia nuno
374

os serões da minha memória...

Eram duas mulheres mais velhas, e uma jovem casadoira sentadas ao fresco nas noites de verão nas escadas da sua casa simples, feitas de adobos reforçadas de lages também elas frescas, ali ficava eu ouvindo com atenção as queixas e os ais do peso dos dias, do tempo que não corria de feição para o joeirar do trigo, dos seus homens que andavam fartos de cavar a terra, e o quanto era difícil dar conta da vida! A moça, ouvia e não dizia uma palavra, não esmorecia e não pensava noutra coisa que não fosse o dia do casório quase, quase a chegar... ía aprontando o enxoval com os parcos haveres, fazendo um picô, uma bainha, caseando uma almofada, para que tudo desse certo nos tempos que se aproximavam e que pensava ela seriam de eterna felicidade. Que teria sido feito dela? Chamava-se Cesária , o namoro só era permitido ao domingo sob o olhar da mãe que não arredava pé, por sinal descalço, creio que nunca a vi calçada, descia e subia vezes sem conta a ladeira que a levava ao rio ou à horta para colocar a burra à nora ou colher vegetais, seu nome Rosa cuja vida foi de espinhos tal como as vidas das restantes mulheres da aldeia. Tempos difíceis aqueles, ali passei muitos serões era ainda criança ouvindo muitas histórias, no céu um luar bonançoso e lá em baixo no rio o cantar das rãs que nos vinha aos ouvidos como uma música longínqua soando como se fosse uma harmónica incansável. Os vaga-lumes também nos faziam companhia ziguezagueando dum lado para o outro, enquanto a noiva suspirava pela noite de núpcias...eu, não arredava pé ouvindo as inquietações das mais velhas, até que a mãe da janela da cozinha erguia a voz chamando por mim e eu lá ía com meu perfume delicado e doce, flor pura sem inquietações e nenhum desejo em mim a não ser o conforto possível da casa onde nasci.Todo este aroma da infância o sinto nestas memórias neste recordar neste invocar o passado com todo o meu frenesim, passado longínquo mas não morto que recordo nestes dias que se apagam em si mesmo , tudo é visão presente, nada morre, continua pulsando o coração e o pensamento, e o sonho torna visível o invisível... cega de ternura me agarro a esse eco da infância, como um recém nascido se agarra ao peito da mãe.

natalia nuno
363

o suavizar do dia

Ah se não fosse o ponto
esse minúsculo ponto
donde parti
pequenino, que me trouxe até
aqui,
me traçou o destino e é raiz
em mim.

Ah se não fosse essa linha
traçada, essa estrada
onde vive a minha liberdade
e a saudade
neste cair da tarde,
onde ainda mora em segredo
o sonho, sem medo.

Ah se não fossem os becos
da aldeia e o rio , lembrança
que à minha alma se enleia
tecendo teia
e é melodia ao ouvido,
vinda lá donde
era criança.

Ah se não fosse o salgueiro
a emprestar-me a raiz
e a suavizar-me a travessia
a destruir a barreira do tempo
até ser outra vez dia.

Ah se tardasse o anoitecer
como seria bom viver
renascer, habitar de novo
a vida em abundância
e voar, voar na estrada da distância.

Ah mas como tudo está longe,
longe e perto dos sentidos
ontem, hoje, aqui e agora
onde sonho acordada
onde agasalho como outrora
a vida.

natalia nuno
315

amor...saudade...

já não tenho mais palavras para dar-te. guardei-as nos teus olhos como se as sepultasse, para escrever mais tarde um poema que me amasse, me fizesse sentir viva, me falasse a tua língua e não esquecesse de me deixar ao teu beijo cativa...amor perfeito este que trago a latejar no peito, como uma festa de estio, amor que é rio, e é ponte que atravessa meu horizonte, tempestade e serenidade... amor que é saudade!

natalia nuno
337

Comentários (11)

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natalia nuno

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.

Natural de Lapas/Torres Novas A Poeta nasceu na pequena aldeia Ribatejana chamada Lapas/ Torres Novas a 19/1, Estudou na Escola Industrial e Comercial de Torres Novas . Participou nas seguintes Antologias: «Entre o sono e o sonho III» «trago-te um sonho nas mãos», «por um sorriso», «poiesis vol. XIII» e «poiesis vol. XXIX», «Viva Outubro 2009» e «Viva outubro 2010», «Licença poética 2011» , « Alma gémea 2011 antologia brasileira», «Tu cá, tu lá II», «Horizontes da Poesia III 2011», « Digo não ao não», «Na magia da noite», «Entre o sono e o sonho III» , «Mãe», « Poetar Contemporâneo 2012», « Cruzada da Poesia», «Horizontes da Poesia IV», «Horizontes de Poesia V» Antologia Poética Contemporânea «Entre o Sono e o Sonho IV», «A Palavra é uma Espada», «Amantes da Poesia 2014», «Horizontes da Poesia IX» «Utopia(s)», «Poetas da Cidade»… Antologias editadas por diversas Editoras situadas em Portugal e Brasil. Colaborou no jornal da sua cidade natal «O Almonda» Prefaciou as obras: « No Chão de àgua » do Poeta Paulo César, O romance « Óh África...oh África Minha» do escritor José Silva, e « Encontro-me nas Palavras» da Poeta Maria Antonieta Oliveira. Livros seus editados/ de Poesia: «Pesa-me a Alma» em 2011 Editora Lua de Marfim e «A Melodia do Tempo» em 2014 pela mesma editora. Com o 3º livro de Poesia editado na Roménia com o nome de «Moldura da Saudade» ou «Margini de dor». O quarto livro «Estremecimentos d'Alma» editado pelo editor Vieira da Silva em 2017......................todos os meus poemas estão registados no IGAC Entre 2016 e 2018 participou em cerca de quatro dezenas de Antologias a convite........