Fruta que se desintegra Tem tudo de poema: Pequenos pêlos, inúmeros cheiros E uma noite muda Em muda decomposição. Fruta-bicho desarquitetando a vida Silenciosa dilaceração Saliva, susto, sublimação. Será de bicho ou fruta esse cadáver em solidão?
É tanta melancolia em seu corpo Tanta ausência em seus odores Que me confundo no espelho. Em vez de fruta é a mim que vejo: Catedral vazia de amores Turva simetria do desejo Sem rastro, sem porta ou fecho.
Ela e eu apodrecemos no soneto Fruta-abcesso, bicho-obsessão: Loucas rimas da mesma solidão. Bicho da noite/mulher Fada fruta deflorada Que tempo esse te transfigura? Que mecanismo te empurra? Será o avesso do cheiro Ou apenas tua doçura?
Brasileiro, jornalista/publicitário, Rio de Janeiro. Redator/revisor em várias editoras, como José Olympio, Delta e Record, nos jornais O Dia/A Notícia, Última Hora, Jornal dos Sports, Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil, além da revista Manchete e da agência de publicidade Propeg. Atualmente, trabalho na agência carioca NBS. Poeta e contista inédito, sou co-autor dos livros “História das Sociedades Americanas” (Ed. Record) e “A Europa e as Américas no Século XX” (Ed. Ao Livro Técnico) com os professores Rubim Leão de Aquino e Oscar Guilherme Pahl Campos Lopes. Mantenho os seguintes blogs na internet: www.botequimdigital.blogspot.com / www.contoscombalidos.blogspot.com / www.tempomarambaia.blogspot.com / www.ayvupora.tumblr.com e wwwmmultiplosolhares.tumblr.com
Meu pai tinha uma plantação de dores nos olhos De menino, eu sabia quando uma nova dor brotava Pelo silêncio boiando nos rios rubros de sua córnea. Com o tempo, fui aprendendo que nem toda dor nascia No silêncio do olhar - havia as que gritavam como louco: Eram mais dolorosas, fediam a álcool e doíam em todos. Mas as piores, as piores dores, eram as dores daninhas. Elas nasciam pra dentro dele, como flores ao contrário: Despercebidas, como orvalho em chuva que não chovia. Sem cheiro, sem cor, sem vida, como dor que não doía.
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Retrato do poeta quando jovem
Não sei se sou poeta. Apenas sei que de repente a minha têmpora arde e, mesmo sem vontade, as mãos explodem como trovões no infinito da memória, buscando o trigo, a cevada que alimentam a fome das palavras.
Ah, esta vontade de gritar a todas as terras, a todos os povos, em todas as línguas, este meu canto brasileiro, nordestino, nutrido de cactos e mandacarus. Sou selvagem e rasgo meus pés nesta caatinga, onde se misturam homem e boi no mesmo pasto.
Que eu seja o mais puro dejeto desta terra, a semente que sacia a fome, a carne escassa. Que eu seja a mochila sedenta de bagagem, o jagunço na caatinga, o desespero! Que eu seja o facão no cipoal, conversa de chicotes e costados, suor, sangue!
Não sei se sou poeta. Mas é desta pele rota como a palha do milhal, deste sangue desgovernado herdado de meu pai, destes braços, destes olhos, destas mãos caladas, desta mixórdia, que componho o meu canto.
Eu, somente eu, começo e acabo minha estirpe! Que se danem os nomes, as famílias, o passado, o presente e o futuro. Que se danem! Serei total! Avalanche de raízes e pedras, eletricidade de ossos e ideias!
Sou o grito resvalado pela serra, o eco obstinado. Sou a mão armada sobre as ondas, sem governos, sem nada!
Porque é pelo fio do meu cabelo que começo. E só termino na unha encravada do meu dedo mínimo!
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Severino
Severino era gente. Tinha nome. Tinha boca. Tinha fome. Tinha orelhas. Tinha nariz. Tinha olhos. Tinha mãos. Tinha amor. Tinha raiva e ódio. Tinha tudo de gente. Severino era gente.
O seu corpo torvo Turvo estorvo Como qualquer corpo Estendido na calçada às 11 horas da noite Sob as marquises de néon das lâmpadas Acusava as cicatrizes do couro E a engenharia dos ossos tiritando sob a pele Sugeria a grotesca forma de um
S
Seu nome não era Marco nem era Antônio nem Manoel Seu nome era apenas homem Nome sem significado aparente Ferreiro das noites forjava sua fome Sete dias na semana Se alimentando de nada Em sua marmita de lata arroz feijão e loucura
Severino é bonito? Talvez nem apenas... Certamente é nordestino
Obreiro? Porteiro de edifício? Roceiro? Ninguém soube ou saberia: Mulher grávida 9 filhos 9 insônias 9 choros 9 fomes E uma só agonia... De não ser ferreiro ou marceneiro De não ser porteiro nem tampouco roceiro De nem saber-se mais Severino Maranhense Operário em desespero Quase nada Nordestino!
Severino Severino Com suas mãos calejadas Pelo gesto e pelo ato sem sequer um desacato Só a camisa barata E os olhos embotados (de sonhos) Apenas o tempo a morte (a fábrica) E esta vida provisória Que de vida talvez só reste A expectativa da morte
Severino Severino Dormemorre na calçada Com mil falas esculpidas Nas cáries do que foi dente Com rugas dúvidas martírios Na cara que já foi rosto E no peito tanta dor Pra tão pouco Severino Que em resumo o que soma? Soma o preço de sua vida Ao preço do desencanto de Severino José E o preço das injustiças Ao preço que vale ser um Severino qualquer
Severino era gente. Tinha nome. Tinha boca. Tinha fome. Tinha orelhas. Tinha nariz. Tinha olhos. Tinha mãos. Tinha amor. Tinha raiva e ódio. Tinha tudo de gente. Só não tinha trabalho. Severino era gente?
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Reflexo
Fruta que se desintegra Tem tudo de poema: Pequenos pêlos, inúmeros cheiros E uma noite muda Em muda decomposição. Fruta-bicho desarquitetando a vida Silenciosa dilaceração Saliva, susto, sublimação. Será de bicho ou fruta esse cadáver em solidão?
É tanta melancolia em seu corpo Tanta ausência em seus odores Que me confundo no espelho. Em vez de fruta é a mim que vejo: Catedral vazia de amores Turva simetria do desejo Sem rastro, sem porta ou fecho.
Ela e eu apodrecemos no soneto Fruta-abcesso, bicho-obsessão: Loucas rimas da mesma solidão. Bicho da noite/mulher Fada fruta deflorada Que tempo esse te transfigura? Que mecanismo te empurra? Será o avesso do cheiro Ou apenas tua doçura?
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Insônia à la Poe
As horas passam no silêncio do meu quarto. Pouco mais existe além de mim, além da noite. Apenas, à luz de pixels, a silhueta do teu corpo, Tuas costas nuas na cadeira do computador E o crocitar aziago de um corvo na estante, Jazigo negro onde descansa o poeta morto Em cujo epitáfio a ave necrófaga me repete: Nunca mais terás amor, nunca mais amor.
589
Transmudação
Houve um tempo em mim em que a solidão, de tão vertiginosa, submergia na espuma votiva do silêncio. Tempo em que me cabiam a imobilidade das pedras e o choro comburente dos jasmins.
É preciso hoje te falar daquele tempo, quando o que me incandescia, antes do fogo, era o deserto, como o bico feroz do esquecimento, que, de tanta ausência, fabricava na espera o antitempo. Mas, como a dor é sempre um parto em movimento, um dia floresceu em mim o corpo nu da esperança, como se um adocicado cacho de abelhas reinventasse, na tristeza, a alegria, no amor, o alimento.
Foi quando descobri o gosto de tua boca, tua viçosa luz, essa transmudação! Só então percebi que as línguas tinham sinos e que os beijos, além de tudo, eram crianças trapezistas, como pequenos anjos bêbados equilibrados ao som de violinos.
Obrigado, amor, pela doce desordem de tua língua. Obrigado pela loucura justa dos teus seios. Por teus beijos - poemas em desespero. Por tua respiração arfando - terno murmúrio de esperança.
608
Gaivotas
Bailarinas que sobre
as águas planam em si verso e reverso da fixidez das pedras que atiramos ao mar
Estáticas, mudas a perfurarem os ventos rasgando curvas oceânicas existentes no espaço de um voo e um imprevisto pouso
Em compasso lento as suas asas traçam na vastidão dos (m)ares poemas de imprecisas vidas ponto qualquer no universo da dúvida: - será o que está no ar? - ou o que no mar adentra?
O desafio que em voo escrevem em si prolonga distâncias como lenços brancos em conveses e como lentas ondas que das espumas surgem entregam-se cansadas ao conforto de um cais abandonado... e morrem.
592
Perfil da Primavera
Marinheiro das estrelas absolutas, eu me afogava no crepúsculo invisível das estátuas, sonâmbulo tronco, como o ventre da última colmeia, onde meninos inventavam o mundo, entre o doce pânico do mel e o violino das abelhas. Na paisagem de minha solidão lunar, apenas o arco distendido das angústias. Mas, entre os corpos e a dança silenciosa, o relâmpago de teus olhos serpenteou no infinito dos meus, acordando as pálpebras assustadas do desejo que brincavam na cereja púrpura do Campari, como duas abelhas embriagadas.
Eras uma fogueira de jasmins incendiados, como as espumas comovidas do oceano, onde eu colhia o vinho, o trigo, a rosa marítima de teus beijos.
Mas que anjo mágico ou pássaro planetário esculpiu teus seios como quem inventa a febre, o fogo, o lírio, a asa nua do prazer? QueE mecanismo fez teus lábios flor de açúcar, gota de aurora, brisa vertiginosa das salivas?
Abraço teu corpo como quem abraça a primavera! Recebo teus beijos como quem desfruta estrelas! Estranha geografia a do teu corpo, em cuja pele habitam borboletas incendiadas e onde os anjos açucarados das maçãs fabricam a saudade a cada ausência, como quem recolhe o perfume amarelo das laranjas: entre a solene poesia e a infância transitória do silêncio!
Ah, amor! O meu desejo é como um lírio acorrentado à lua, à espera da bailarina ninfa do teu corpo. Como um pássaro enamorado pelas nuvens que descobre no infinito das manhãs a pele macia da aurora nua.