Nivaldo Lemos

Nivaldo Lemos

n. 1951 BR BR

Brasileiro, jornalista/publicit

n. 1951-03-17, Floriano-PI

Perfil
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Reflexo

Fruta que se desintegra
Tem tudo de poema:
Pequenos pêlos, inúmeros cheiros
E uma noite muda
Em muda decomposição.
Fruta-bicho desarquitetando a vida
Silenciosa dilaceração
Saliva, susto, sublimação.
Será de bicho ou fruta esse cadáver em solidão?

É tanta melancolia em seu corpo
Tanta ausência em seus odores
Que me confundo no espelho.
Em vez de fruta é a mim que vejo:
Catedral vazia de amores
Turva simetria do desejo
Sem rastro, sem porta ou fecho.

Ela e eu apodrecemos no soneto
Fruta-abcesso, bicho-obsessão:
Loucas rimas da mesma solidão.
Bicho da noite/mulher
Fada fruta deflorada
Que tempo esse te transfigura?
Que mecanismo te empurra?
Será o avesso do cheiro
Ou apenas tua doçura?
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Biografia
Brasileiro, jornalista/publicitário, Rio de Janeiro. Redator/revisor em várias editoras, como José Olympio, Delta e Record, nos jornais O Dia/A Notícia, Última Hora, Jornal dos Sports, Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil, além da revista Manchete e da agência de publicidade Propeg. Atualmente, trabalho na agência carioca NBS. Poeta e contista inédito, sou co-autor dos livros “História das Sociedades Americanas” (Ed. Record) e “A Europa e as Américas no Século XX” (Ed. Ao Livro Técnico) com os professores Rubim Leão de Aquino e Oscar Guilherme Pahl Campos Lopes. Mantenho os seguintes blogs na internet: www.botequimdigital.blogspot.com / www.contoscombalidos.blogspot.com / www.tempomarambaia.blogspot.com / www.ayvupora.tumblr.com e wwwmmultiplosolhares.tumblr.com

Poemas

8

Os olhos do meu pai

Meu pai tinha uma plantação de dores nos olhos
De menino, eu sabia quando uma nova dor brotava
Pelo silêncio boiando nos rios rubros de sua córnea.
Com o tempo, fui aprendendo que nem toda dor nascia
No silêncio do olhar - havia as que gritavam como louco:
Eram mais dolorosas, fediam a álcool e doíam em todos.
Mas as piores, as piores dores, eram as dores daninhas.
Elas nasciam pra dentro dele, como flores ao contrário:
Despercebidas, como orvalho em chuva que não chovia.
Sem cheiro, sem cor, sem vida, como dor que não doía.
620

Retrato do poeta quando jovem

Não sei se sou poeta.
Apenas sei que de repente a minha têmpora arde
e, mesmo sem vontade, as mãos explodem
como trovões no infinito da memória,
buscando o trigo, a cevada que alimentam
a fome das palavras.

Ah, esta vontade de gritar a todas as terras,
a todos os povos, em todas as línguas,
este meu canto brasileiro, nordestino,
nutrido de cactos e mandacarus.
Sou selvagem e rasgo meus pés nesta caatinga,
onde se misturam homem e boi no mesmo pasto.

Que eu seja o mais puro dejeto desta terra,
a semente que sacia a fome, a carne escassa.
Que eu seja a mochila sedenta de bagagem,
o jagunço na caatinga, o desespero!
Que eu seja o facão no cipoal,
conversa de chicotes e costados, suor, sangue!

Não sei se sou poeta.
Mas é desta pele rota como a palha do milhal,
deste sangue desgovernado herdado de meu pai,
destes braços, destes olhos,
destas mãos caladas, desta mixórdia,
que componho o meu canto.

Eu, somente eu, começo e acabo minha estirpe!
Que se danem os nomes, as famílias,
o passado, o presente e o futuro.
Que se danem! Serei total!
Avalanche de raízes e pedras,
eletricidade de ossos e ideias!

Sou o grito resvalado pela serra,
o eco obstinado.
Sou a mão armada sobre as ondas,
sem governos, sem nada!

Porque é pelo fio do meu cabelo que começo.
E só termino na unha encravada do meu dedo mínimo!
677

Severino

Severino era gente. Tinha nome.
Tinha boca. Tinha fome. Tinha orelhas.
Tinha nariz. Tinha olhos. Tinha mãos.
Tinha amor. Tinha raiva e ódio.
Tinha tudo de gente.
Severino era gente.

O seu corpo torvo
Turvo estorvo
Como qualquer corpo
Estendido na calçada às 11 horas da noite
Sob as marquises de néon das lâmpadas
Acusava as cicatrizes do couro
E a engenharia dos ossos tiritando sob a pele
Sugeria a grotesca forma de um

S

Seu nome não era Marco
nem era Antônio nem Manoel
Seu nome era apenas homem
Nome sem significado aparente
Ferreiro das noites forjava sua fome
Sete dias na semana
Se alimentando de nada
Em sua marmita de lata
arroz feijão e loucura

Severino é bonito?
Talvez nem apenas...
Certamente é nordestino

Obreiro?
Porteiro de edifício?
Roceiro?
Ninguém soube ou saberia:
Mulher grávida
9 filhos 9 insônias 9 choros 9 fomes
E uma só agonia...
De não ser ferreiro ou marceneiro
De não ser porteiro nem tampouco roceiro
De nem saber-se mais Severino
Maranhense
Operário em desespero
Quase nada

Nordestino!

Severino Severino
Com suas mãos calejadas
Pelo gesto e pelo ato sem sequer um desacato
Só a camisa barata
E os olhos embotados
(de sonhos)
Apenas o tempo a morte
(a fábrica)
E esta vida provisória
Que de vida talvez só reste
A expectativa da morte

Severino Severino
Dormemorre na calçada
Com mil falas esculpidas
Nas cáries do que foi dente
Com rugas dúvidas martírios
Na cara que já foi rosto
E no peito tanta dor
Pra tão pouco Severino
Que em resumo o que soma?
Soma o preço de sua vida
Ao preço do desencanto de Severino José
E o preço das injustiças
Ao preço que vale ser um Severino qualquer

Severino era gente. Tinha nome.
Tinha boca. Tinha fome. Tinha orelhas.
Tinha nariz. Tinha olhos. Tinha mãos.
Tinha amor. Tinha raiva e ódio.
Tinha tudo de gente.
Só não tinha trabalho.
Severino era gente?
613

Reflexo

Fruta que se desintegra
Tem tudo de poema:
Pequenos pêlos, inúmeros cheiros
E uma noite muda
Em muda decomposição.
Fruta-bicho desarquitetando a vida
Silenciosa dilaceração
Saliva, susto, sublimação.
Será de bicho ou fruta esse cadáver em solidão?

É tanta melancolia em seu corpo
Tanta ausência em seus odores
Que me confundo no espelho.
Em vez de fruta é a mim que vejo:
Catedral vazia de amores
Turva simetria do desejo
Sem rastro, sem porta ou fecho.

Ela e eu apodrecemos no soneto
Fruta-abcesso, bicho-obsessão:
Loucas rimas da mesma solidão.
Bicho da noite/mulher
Fada fruta deflorada
Que tempo esse te transfigura?
Que mecanismo te empurra?
Será o avesso do cheiro
Ou apenas tua doçura?
580

Insônia à la Poe

As horas passam no silêncio do meu quarto.
Pouco mais existe além de mim, além da noite.
Apenas, à luz de pixels, a silhueta do teu corpo,
Tuas costas nuas na cadeira do computador
E o crocitar aziago de um corvo na estante,
Jazigo negro onde descansa o poeta morto
Em cujo epitáfio a ave necrófaga me repete:
Nunca mais terás amor, nunca mais amor.
589

Transmudação

Houve um tempo em mim
em que a solidão, de tão vertiginosa,
submergia na espuma votiva do silêncio.
Tempo em que me cabiam a imobilidade das pedras
e o choro comburente dos jasmins.

É preciso hoje te falar daquele tempo,
quando o que me incandescia, antes do fogo,
era o deserto, como o bico feroz do esquecimento,
que, de tanta ausência, fabricava na espera o antitempo.
Mas, como a dor é sempre um parto em movimento,
um dia floresceu em mim o corpo nu da esperança,
como se um adocicado cacho de abelhas
reinventasse, na tristeza, a alegria,
no amor, o alimento.

Foi quando descobri o gosto de tua boca,
tua viçosa luz, essa transmudação!
Só então percebi que as línguas tinham sinos
e que os beijos, além de tudo,
eram crianças trapezistas,
como pequenos anjos bêbados
equilibrados ao som de violinos.

Obrigado, amor, pela doce desordem de tua língua.
Obrigado pela loucura justa dos teus seios.
Por teus beijos - poemas em desespero.
Por tua respiração arfando - terno murmúrio de esperança.
608

Gaivotas

Bailarinas que sobre
as águas planam
em si verso e reverso
da fixidez das pedras
que atiramos ao mar

Estáticas, mudas
a perfurarem os ventos
rasgando curvas oceânicas
existentes no espaço
de um voo e um imprevisto pouso

Em compasso lento as suas asas
traçam na vastidão dos (m)ares
poemas de imprecisas vidas
ponto qualquer no universo da dúvida:
- será o que está no ar?
- ou o que no mar adentra?

O desafio que em voo escrevem
em si prolonga distâncias
como lenços brancos em conveses
e como lentas ondas que das espumas surgem
entregam-se cansadas ao conforto
de um cais abandonado... e morrem.
592

Perfil da Primavera

Marinheiro das estrelas absolutas,
eu me afogava no crepúsculo invisível das estátuas,
sonâmbulo tronco, como o ventre da última colmeia,
onde meninos inventavam o mundo,
entre o doce pânico do mel e o violino das abelhas.

Na paisagem de minha solidão lunar,

apenas o arco distendido das angústias.
Mas, entre os corpos e a dança silenciosa,
o relâmpago de teus olhos serpenteou no infinito dos meus,
acordando as pálpebras assustadas do desejo
que brincavam na cereja púrpura do Campari,
como duas abelhas embriagadas.

Eras uma fogueira de jasmins incendiados,
como as espumas comovidas do oceano,
onde eu colhia o vinho, o trigo,
a rosa marítima de teus beijos.

Mas que anjo mágico ou pássaro planetário
esculpiu teus seios como quem inventa a febre,
o fogo, o lírio, a asa nua do prazer?
QueE mecanismo fez teus lábios flor de açúcar,
gota de aurora, brisa vertiginosa das salivas?

Abraço teu corpo como quem abraça a primavera!
Recebo teus beijos como quem desfruta estrelas!
Estranha geografia a do teu corpo,
em cuja pele habitam borboletas incendiadas
e onde os anjos açucarados das maçãs
fabricam a saudade a cada ausência,
como quem recolhe o perfume amarelo das laranjas:
entre a solene poesia e a infância transitória do silêncio!

Ah, amor!
O meu desejo é como um lírio acorrentado à lua,
à espera da bailarina ninfa do teu corpo.
Como um pássaro enamorado pelas nuvens
que descobre no infinito das manhãs
a pele macia da aurora nua.
596

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