Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

Perfil
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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

18

O Homem e o Mundo




A complexidade da consciência à mercê da imaginação humana, do sonho ao pesadelo, fomenta toda a dialéctica metafísica inerente ao ser humano como pessoa una e indivisível.
O mundo é visto e sentido consoante as consciências dos biliões de Homens que dele fazem parte, cada um interpreta-o à sua maneira reproduzindo um quadro único e irrepetível do Universo.
Assim sendo, o Universo como entidade única é simples apesar do seu caminho para o infinito.
O Homem apesar da sua natureza finita, transcende e extrapola em todas as variações cognitivas possíveis de interacção com o Mundo, centralizando em si mesmo a razão de existência do próprio Cosmos.
Partindo do princípio de que o caminho para a resolução de problemas é geralmente o mais lógico e simples, questiono a excessiva verborreia existencialista que faz parte da vida do homem ao longo do seu trajecto efémero.
Em que acredita piamente que a luz que carrega é eterna, com a singularidade de tentar antropomorfizar a própria alma divina em quem confia.
Está assim também a própria essência do espírito a ser moldada tal e qual o Mundo à imagem de cada ser humano e a espalhar-se exponencialmente na retórica implícita das religiões.
O Homem existencialista livre de corpo, mente e espírito devia dominar toda a panóplia de entendimentos intrapessoais, e cada qual também à sua maneira, ou de forma pacífica e sóbria, ou tempestiva e pretensiosa.
O homem nasceu do acaso e não o acaso foi criado para que o Homem irrompesse. A causa efeito está nitidamente invertida. O Homem é filho do caos.
O Homem cria as leis, as penas a cumprir, define o Bem e o Mal, e é Ele próprio o juiz no dia do julgamento final.


Lx, 16-4-2006
674

Era Uma Vez



O Homem nasceu quando um dia o Cosmos se reconheceu ao espelho.
Do caos telúrico do Universo nasceu a ordem da evolução.
Da beleza da alma nasceu o sonho da arte.
Da sua contemplação nasceu a consciência do todo.
E a consciência gerou o caos metafísico.
A própria vida desenrola-se e esvai-se retoricamente ambivalente.
Só vindo a encontrar respostas ao se extinguir.
Quando os seus elementos primordiais se diluírem na fonte do esquecimento.
Eterno e omnisciente Mundo longínquo que ousou um dia sonhar acordado.
Encarnar um planeta azul de mil e uma personagens liliputianas únicas, perdidas no labirinto do seu egocentrismo.


Lx, 17-2-2006
692

O Pão Nosso


Cantares pela Seara ecoam,
Dão júbilos à fartura,
São o Povo de outrora,
As Almas que além Tejo povoam,
Saudosas do Sol sentir,
Quente a amadurecer o Pão,
Alimento para o corpo servir,
Cantares e lamentos de então,
Nostalgia saudosa febril,
São espectros deambulantes.

Trigais ao Vento ondulam,
Em uníssono e vigorosos,
Transmitem a calma à Vida,
De todos os que a procuram,
Ávidos de respostas sequiosas,
Eles lá continuarão pacientes,
Enamorados pelo Sol radioso,
Desvendarão o seu segredo,
Em farinha aos presentes,
Famintos no degredo.

E as avezinhas que pululam,
Por ali, por aqui, por aí felizes,
Depenicam o grão tal como,
Os petizes a jogar ao pião.
Serenos e livres vagueiam,
Dormitam à tardinha,
No estio do Verão,
Quentes e inocentes tal como,
O sonhar da ilusão.

Lx, 6-2-2006
671

Um Dia De Verão


Deitado na areia quente,
Fina e delicada como seda,
Paradigma tão eloquente,
Rodeado de Estrelas no Céu,
Como grãos infinitos na praia,
Aconchegados ao monte.
Saúdam o Mar calmo,
Sereno com reflexos de luar,
Onde me banho à Noite,
Ao fim de um dia de Verão.
Ouço soluçar a minha Alma,
Confusa mas serena,
Ansiosa pelo Sol raiar,
Virtuosa e livre,
Como a nuvem que passa só,
De passagem imperceptível,
Orgulhosamente só.
Mar imenso onde se afogam,
As lágrimas do Mundo,
Escondes os segredos,
Que eu mais queria desvendar,
A calma que emanas,
Quando mergulho em ti,
O meu pensar.

Lx, 24-11-2005
628

Ser Poeta Pode Ser



Nascer todos os dias e morrer sempre à noitinha,
Uma cabrinha a pastar com os lobos a deambular,
Vaguear todo o dia mas voltar sempre à tardinha,
Montar um cavalo selvagem sem nunca o amansar.


Amar ardentemente sem o fogo conseguir apagar,
Naufragar na tempestade para vir morrer na praia,
A tristeza triste duma criança órfã a soluçar,
Quando uma pobre catraia no mar se espraia.


Uma garrafa vazia à tona com a maré,
Uma caixa de música com a corda partida,
Uma mulher bonita no meio da ralé,
Um teólogo velho e de alma perdida.


O segredo dos Deuses à solta no manicómio,
Mil prisões e toda a fúria nelas contida,
Um adolescente carente à beira do promontório,
Uma fonte do caminho de água esquecida.


A solidão atroz das multidões em corrupio,
Lamentos e consolos sofridos afim,
As andorinhas na Primavera morrerem ao frio,
Esperar pacientemente a Morte ao fim.

Lx, 12-9-2001
625

Horas Certas



Que bom saber,
Ter o Sol hora marcada,
Para nascer.

Que bom saber,
Ter eu hora marcada,
Para morrer.

Que bom saber,
Não ter o vento hora certa,
Para soprar.

Que bom saber,
Não ter o vento direcção certa,
A tomar.

Que bom saber,
A alvorada preceder o dia nascer,
Tão quente.

Que bom saber,
A noite preceder a minha alma padecer,
Tão demente.

Que bom não saber,
Nada de nada,
E vaguear na estrada.

Que bom não saber,
Onde nos vai levar,
Nem quando lá chegar.

Que bom não saber,
Haver alguém a acenar,
A vir-me esperar.

Que bom não saber,
O caminho da entrada,
Nem ter mapa de chegada.

Que bom não saber,
A rudeza da caminhada,
E de nunca ser lembrada.

Que bom não saber,
Nada de nada,
Só ver o dia nascer por nascer,
Só ver o anoitecer por anoitecer,
E o vento soprar por tudo e por nada.

Lx, 8-8-1999
783

Seara


Uma seara me sorriu,
Foi hoje de manhazinha,
Ondulava ao vento que partiu,
Ficou tão sozinha,

Tão triste ela ficou,
Pelo vento abandonada,
Pisquei-lhe um olho e ela corou,
Ficou por mim enamorada.

Lx, 21-9-2000
655

Esvoaçar



Asas anseiam abrir-se ao vento,
Partilhando com ele a vida,
Voam sob grande tormento,
E a Lua reflecte-se impávida.

Voam por montes e campanários,
Por riachos, vales e feiras,
Matam a sede em fontanários,
De exaustão caiem nas beiras.

Voam ao sabor das correntes,
Ascendentes e descendentes pelo ar,
Asas planam transcendentes,
A tempestade murmura ao chegar.

Asas batem leve levemente,
A chuva não tarda enfim,
A enxurrada cai livremente,
A minha Alma poisa por fim.

Lx. 12-9-1999
639

Monte Estremunhado


Tão branca como as salinas,
A névoa embala as colinas,
Transpiram algo mais que a vida,
Muito para além da já tida,
Contam ao vento as mágoas,
Tão sentidas e choradas pelas lagoas.

O dia estremunhou devagar,
Levantam-se as trevas a bradar,
Escondem-se os espíritos ociosos,
Diluem-se pelos montes tortuosos,
As sombras imperam ao norte,
Ouvem-se sussurros de morte.

Lx, 10-1-2001
613

O Fim


Pareço viver desde o início dos tempos,
As minhas lágrimas criaram os mares,
Porque me abandonaste sem alentos,
Valia mais me cruxificares.

Deixaste-me angustiadamente só,
Nem o vento me acaricia os cabelos,
Nem o sol me aquece a alma em dó,
Nem a fonte sacia os meus apelos.

Trago a Humanidade aos ombros,
Nasci Poeta fatalista,
Sofro pela Humanidade aos tombos,
Morro Poeta idealista.

Nem as colinas do monte,
Nem as ondas do mar,
Nem a moça de fronte,
Me fazem encantar.

Lx, 24-7-2000
665

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