A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
A complexidade da consciência à mercê da imaginação humana, do sonho ao pesadelo, fomenta toda a dialéctica metafísica inerente ao ser humano como pessoa una e indivisível. O mundo é visto e sentido consoante as consciências dos biliões de Homens que dele fazem parte, cada um interpreta-o à sua maneira reproduzindo um quadro único e irrepetível do Universo. Assim sendo, o Universo como entidade única é simples apesar do seu caminho para o infinito. O Homem apesar da sua natureza finita, transcende e extrapola em todas as variações cognitivas possíveis de interacção com o Mundo, centralizando em si mesmo a razão de existência do próprio Cosmos. Partindo do princípio de que o caminho para a resolução de problemas é geralmente o mais lógico e simples, questiono a excessiva verborreia existencialista que faz parte da vida do homem ao longo do seu trajecto efémero. Em que acredita piamente que a luz que carrega é eterna, com a singularidade de tentar antropomorfizar a própria alma divina em quem confia. Está assim também a própria essência do espírito a ser moldada tal e qual o Mundo à imagem de cada ser humano e a espalhar-se exponencialmente na retórica implícita das religiões. O Homem existencialista livre de corpo, mente e espírito devia dominar toda a panóplia de entendimentos intrapessoais, e cada qual também à sua maneira, ou de forma pacífica e sóbria, ou tempestiva e pretensiosa. O homem nasceu do acaso e não o acaso foi criado para que o Homem irrompesse. A causa efeito está nitidamente invertida. O Homem é filho do caos. O Homem cria as leis, as penas a cumprir, define o Bem e o Mal, e é Ele próprio o juiz no dia do julgamento final.
Lx, 16-4-2006
678
Era Uma Vez
O Homem nasceu quando um dia o Cosmos se reconheceu ao espelho. Do caos telúrico do Universo nasceu a ordem da evolução. Da beleza da alma nasceu o sonho da arte. Da sua contemplação nasceu a consciência do todo. E a consciência gerou o caos metafísico. A própria vida desenrola-se e esvai-se retoricamente ambivalente. Só vindo a encontrar respostas ao se extinguir. Quando os seus elementos primordiais se diluírem na fonte do esquecimento. Eterno e omnisciente Mundo longínquo que ousou um dia sonhar acordado. Encarnar um planeta azul de mil e uma personagens liliputianas únicas, perdidas no labirinto do seu egocentrismo.
Lx, 17-2-2006
695
O Pão Nosso
Cantares pela Seara ecoam, Dão júbilos à fartura, São o Povo de outrora, As Almas que além Tejo povoam, Saudosas do Sol sentir, Quente a amadurecer o Pão, Alimento para o corpo servir, Cantares e lamentos de então, Nostalgia saudosa febril, São espectros deambulantes.
Trigais ao Vento ondulam, Em uníssono e vigorosos, Transmitem a calma à Vida, De todos os que a procuram, Ávidos de respostas sequiosas, Eles lá continuarão pacientes, Enamorados pelo Sol radioso, Desvendarão o seu segredo, Em farinha aos presentes, Famintos no degredo.
E as avezinhas que pululam, Por ali, por aqui, por aí felizes, Depenicam o grão tal como, Os petizes a jogar ao pião. Serenos e livres vagueiam, Dormitam à tardinha, No estio do Verão, Quentes e inocentes tal como, O sonhar da ilusão.
Lx, 6-2-2006
671
Um Dia De Verão
Deitado na areia quente, Fina e delicada como seda, Paradigma tão eloquente, Rodeado de Estrelas no Céu, Como grãos infinitos na praia, Aconchegados ao monte. Saúdam o Mar calmo, Sereno com reflexos de luar, Onde me banho à Noite, Ao fim de um dia de Verão. Ouço soluçar a minha Alma, Confusa mas serena, Ansiosa pelo Sol raiar, Virtuosa e livre, Como a nuvem que passa só, De passagem imperceptível, Orgulhosamente só. Mar imenso onde se afogam, As lágrimas do Mundo, Escondes os segredos, Que eu mais queria desvendar, A calma que emanas, Quando mergulho em ti, O meu pensar.
Lx, 24-11-2005
631
Ser Poeta Pode Ser
Nascer todos os dias e morrer sempre à noitinha, Uma cabrinha a pastar com os lobos a deambular, Vaguear todo o dia mas voltar sempre à tardinha, Montar um cavalo selvagem sem nunca o amansar.
Amar ardentemente sem o fogo conseguir apagar, Naufragar na tempestade para vir morrer na praia, A tristeza triste duma criança órfã a soluçar, Quando uma pobre catraia no mar se espraia.
Uma garrafa vazia à tona com a maré, Uma caixa de música com a corda partida, Uma mulher bonita no meio da ralé, Um teólogo velho e de alma perdida.
O segredo dos Deuses à solta no manicómio, Mil prisões e toda a fúria nelas contida, Um adolescente carente à beira do promontório, Uma fonte do caminho de água esquecida.
A solidão atroz das multidões em corrupio, Lamentos e consolos sofridos afim, As andorinhas na Primavera morrerem ao frio, Esperar pacientemente a Morte ao fim.
Lx, 12-9-2001
628
Horas Certas
Que bom saber, Ter o Sol hora marcada, Para nascer.
Que bom saber, Ter eu hora marcada, Para morrer.
Que bom saber, Não ter o vento hora certa, Para soprar.
Que bom saber, Não ter o vento direcção certa, A tomar.
Que bom saber, A alvorada preceder o dia nascer, Tão quente.
Que bom saber, A noite preceder a minha alma padecer, Tão demente.
Que bom não saber, Nada de nada, E vaguear na estrada.
Que bom não saber, Onde nos vai levar, Nem quando lá chegar.
Que bom não saber, Haver alguém a acenar, A vir-me esperar.
Que bom não saber, O caminho da entrada, Nem ter mapa de chegada.
Que bom não saber, A rudeza da caminhada, E de nunca ser lembrada.
Que bom não saber, Nada de nada, Só ver o dia nascer por nascer, Só ver o anoitecer por anoitecer, E o vento soprar por tudo e por nada.
Lx, 8-8-1999
787
Seara
Uma seara me sorriu, Foi hoje de manhazinha, Ondulava ao vento que partiu, Ficou tão sozinha,
Tão triste ela ficou, Pelo vento abandonada, Pisquei-lhe um olho e ela corou, Ficou por mim enamorada.
Lx, 21-9-2000
657
Esvoaçar
Asas anseiam abrir-se ao vento, Partilhando com ele a vida, Voam sob grande tormento, E a Lua reflecte-se impávida.
Voam por montes e campanários, Por riachos, vales e feiras, Matam a sede em fontanários, De exaustão caiem nas beiras.
Voam ao sabor das correntes, Ascendentes e descendentes pelo ar, Asas planam transcendentes, A tempestade murmura ao chegar.
Asas batem leve levemente, A chuva não tarda enfim, A enxurrada cai livremente, A minha Alma poisa por fim.
Lx. 12-9-1999
640
Monte Estremunhado
Tão branca como as salinas, A névoa embala as colinas, Transpiram algo mais que a vida, Muito para além da já tida, Contam ao vento as mágoas, Tão sentidas e choradas pelas lagoas.
O dia estremunhou devagar, Levantam-se as trevas a bradar, Escondem-se os espíritos ociosos, Diluem-se pelos montes tortuosos, As sombras imperam ao norte, Ouvem-se sussurros de morte.
Lx, 10-1-2001
616
O Fim
Pareço viver desde o início dos tempos, As minhas lágrimas criaram os mares, Porque me abandonaste sem alentos, Valia mais me cruxificares.
Deixaste-me angustiadamente só, Nem o vento me acaricia os cabelos, Nem o sol me aquece a alma em dó, Nem a fonte sacia os meus apelos.
Trago a Humanidade aos ombros, Nasci Poeta fatalista, Sofro pela Humanidade aos tombos, Morro Poeta idealista.
Nem as colinas do monte, Nem as ondas do mar, Nem a moça de fronte, Me fazem encantar.