Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

20

Simplicidades Minimalistas



Onde se encontra o subtil?
Na subtileza do desabrochar.
Onde mora a beleza?
No coração carente.
Onde fica o Paraíso?
No tempo pendente.
Onde está a omnisciência?
No âmago do ser.
Onde nasce o amor?
No cuidar sentido.
Onde brota a razão?
No nosso ressentimento.
Onde para o bom senso?
No correr do tempo.
Onde anda a luz?
Na gota do orvalho.
Onde ensina o mestre?
No cume da montanha.
Onde se fixa o olhar?
No infinito do mar.
Onde paira a música?
No sopro do vento.
Onde estávamos todos?
Nas estrelas a brilhar.

Lx, 6-12-2009
628

A Doença Do Corpo – A Morte



Quando a força se esvai,
Aos poucos e poucos,
Lentamente, devagar.
Quando ainda ontem podia andar,
Enérgico, esbelto e assaz,
Egocêntrico, egoísta e jovem,
Inteligente, equilibrado e mordaz,
Atlético, imortal e feliz.
Hoje jaz deitado e entrevado,
Impotente, enfezado e sujo,
Indesejado, insalubre e dorido,
Introvertido, Infeliz e mortal.
Desiste ingloriamente resignado,
Desmiolado, rejeitado e esquecido,
Desonrado, desconhecido e cansado,
Autómato não autónomo,
Monótono de olhar estarrecido,
Vazio, baço e sem claridade.
A carne já em chaga,
Purulenta e decomposta,
Exposta aos elementos finais,
Putrefacta,
Pela terra a arfar,
E o cheiro Deus meu,
E o cheiro que exala!

Lx, 8-9-2009
737

Insignificâncias



Incógnitas insignificâncias,
Pululam perdidas por aí,
Nascem e morrem todos os dias,
Com egos inconscientes,
Cegos à falta de razão,
Na sua singela existência.
Falsos demagogos hipócritas,
Escondidos no medo,
Da sua mortalidade,
Aprendizes ignotos,
Da essência natural,
Letargia moral e de carácter,
A rodos no seu bestial pensar.
Eles e elas, grandes e pequenos,
Novos e velhos, sábios e idiotas,
Todos prisioneiros cativos,
Da metafísica da boçalidade.
Se é esse o preço para vencer,
Deixai-me na minha parca indigência,
Se é esse o preço para ser feliz,
Deixai-me na minha doce tristeza taciturna,
Deixai-me na melancolia nostálgica,
Da minha própria insignificância.

Lx, 16-6-2009
669

Cansado



Cansado ao acordar,
À noite cansado de estar,
Cansado de mim,
E de vós acima de tudo.
Cansado do tempo a passar,
E do senhor sisudo,
Cansado da bonança,
Dos dias correntes,
E dos meus membros dormentes.
Cansado do fiel da balança,
E da consoada,
Cansado de fazer anos,
Em desalmada.
Cansado de sorrir,
Amestrado,
Cansado tão cansado,
De lamúrias suplicantes.
Cansado de choros e prantos,
Desencantos ofegantes,
Cansado de desencontros,
Oníricos latentes.
Cansado do passado,
Insipiente,
E do futuro poluente,
Cansado do sim e do não,
De ser testemunho vidente.

Lx, 19-4-2009
684

Anseio Primaveril




O frenesim dos pardais,
Perfeito.
O desabrochar das flores,
Perfeito.
As andorinhas ao alto,
Perfeito.
O bafo quente do Sol,
Perfeito.
Os odores exalados do campo,
Perfeito.
O vestir das árvores tão verde,
Perfeito.
A brisa fresca ao fim do dia,
Perfeito.
A Primavera chegou uma vez mais,
Perfeita, desejada e bela.
Tocou indelével no meu coração,
E ele chorou de alegria,
Ao abrir a janela à vida,
Inundando de aura luz,
A alma perdida,
De comoção.

Lx, 23-3-2009

692

Aflição Outonal



O frio chegou,
E a chama apagou.

A luz esbatida,
E a alma dorida.

O vento exaltou,
E o lobo uivou.

A lareira apagada,
E a voz magoada.

A chuva caiu,
E a mulher pariu.

Um olhar sofrido,
E o desejo cumprido.

Mais um infeliz,
Um pobre petiz.

Enxugado de luz,
Já cheio de pus.

Sempre tão ébrio,
Imolado pelo tédio.

Tão escuro ficou,
Nada contemplou.

Tudo desabou,
E pouco restou.

Lx, 12-11-2008
617

Áurea Solar




O Sol brilha quente,
Lisonjeador e afortunado,
Aquece as almas doridas,
Afaga-nos o corpo desnudado.

Ente querido criador,
Dás esperanças esperançado,
Às vidas que permitiste gerar,
Deambulando sob alçado.

Pela Terra a quem poupaste,
Ser teu regaço de chamas,
Agora esventrada à dor atroz,
Lancinante em voraz agonia.

Decalcada de almas sós,
Embriagadas com mil quimeras,
Voláteis sentimentalistas,
Vagueiam proscritas e infames.

Rogamos-te ó Sol,
Carrasco de primogénitos,
Tal como outrora precioso,
Ergamos as mãos ao alto.

Em uníssono suplicamos,
A luz da tua indulgência,
Apaziguadora e terna,
Sobre os nossos corações.

Frios e cansados,
Há muito quebrados,
Ansiosos pela fulgura,
De estrela mãe tão pura.

Lx, 3-10-2008
674

Inutilidades




Inútil andar amparado,
E viver aprisionado.

Inútil correr a viver,
E angustiado morrer.

Inútil questionar,
Sem nunca perguntar.

Inútil vir a amar,
Sem nunca ter odiado.

Inútil ter acordado,
E jamais ter sonhado.

Inútil ter nascido,
Para não ser preciso.

Inútil trabalhar,
Para o tempo passar.

Inútil ser indulgente,
E cair no esquecimento.

Inútil o quotidiano,
Fugaz e boçal.

Inútil ter ganho a batalha,
Sem altruísmo na partilha.

Inútil a conversa fiada,
Sem uma face encarada.

Inútil um réquiem,
A uma alma finada.

Lx, 24-4-2008
619

Que Pena




Que pena não poder correr,
Desalmado pela areia da praia,
Que pena não poder nadar,
Abençoado pelo sal do mar.

Que pena não poder amar,
O amor duma vida a brincar,
Que pena a luz se apagar,
Aos poucos irreversivelmente.

Que pena o destino vingar,
Não dar tréguas a ninguém,
Que pena este pesadelo arcar,
Sem direito a segunda via.

Os lamentos da minha alma,
Exasperam lancinantes a soluçar,
Os sonhos desmoronaram-se,
Desvanecendo-se com a noite.


Noite longa de desespero,
Onde vagueio acordado,
Ciente de tudo deambulo,
Pelo fio da navalha da vida.

O rei vai nu,
A rua apinhada,
O orgulho morreu,
A forca sorriu,
À minha passagem.

Lx, 7-1-2008

669

Loucura




Desespero ansioso,
Desânimo sepulcral,
Espectro num abismo,
De olhar fixo e vazio,
De coração selado,
Quebrado.

Alma arreada fugida,
Os gritos de terror,
Contínuos e lancinantes,
Ecoam em arrepios,
Alma presa na masmorra,
Da vã intolerância.

Os pesadelos reais,
Fantasmas de preto,
A deambularem,
Na escuridão estéril,
Onde a luz se esvaiu,
Há muito tempo.

O labirinto onde jaz,
Perdida a consciência,
Numa viagem de ida sem volta,
Ao avesso da humanidade,
Agora desvendado,
Desencarnado.

Os segredos escondidos,
Agora violados, esventrados,
Aviltados pela demência,
Engolidos de vez pelo todo,
Diluídos no esquecimento dos elementos,
No caos telúrico existencial,
Mergulhados na matéria negra,
Da metafísica sensorial.

Lx, 10-11-2007
632

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