A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Branco ou preto,
Verde ou vermelho,
Tanto faz para mim.
Só o azul do mar infinito,
Me acalma os sentidos.
Só os horizontes longínquos,
Me enchem a alma.
Esta ou aquela,
Loira ou morena,
Tanto faz para mim.
São adorno de festa,
À porta da minha ermida.
Só as loucas proscritas,
Me cativam o coração,
Nostálgico do seu olhar,
Perdido e vago tardio.
Deuses à escolha,
Árbitro ou vilão sádico,
Tanto faz para mim,
Só a perenidade da morte,
E a estética inusitada,
Me envolvem o ser,
No todo existencialista.
Só a bonança da irrelevância,
Me inunda de paz o discernimento.
Lx, 19-6-2010
666
Ao Longe
Estou tão longe,
E cada vez mais longe.
Estou longe da dúvida,
Estou tão longe,
Estou submerso nas profundezas,
Do mar calmo e silencioso,
Cada vez mais longe.
Estou longe da luz,
Estou tão longe,
Estou longe do Alfa,
Da razão existencial,
Cada vez mais longe.
Estou longe do berço estelar,
Estou tão longe,
Estou longe da realidade,
Mecânica e promiscua,
Cada vez mais longe.
Estou longe do próximo,
Reflexo da minha intolerância,
Estou tão longe,
Longe dos sorrisos,
Há tanto esquecidos,
Cada vez mais longe.
Estou longe do paraíso,
Estou tão longe,
Cada vez mais longe,
Do sonho um dia,
Idealizado e terno,
Tão longínquo Eu Sou.
Lx, 12-6-2010
799
O Medo
Não tenhas medo pequeno,
é só o perfume das flores do campo,
Não temas,
São um jardim de cores apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só a chuva a cair lá fora,
Não temas,
São gotas de água apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só o céu estrelado,
Não temas,
São pirilampos celestiais apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só um choro abafado,
Não temas,
São fados ancestrais apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só uma andorinha a voar,
Não temas,
São suspiros de liberdade apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só uma cova aberta,
Não temas,
São saudades tuas apenas.
Lx, 9-5-2010
733
És tu
Onde estás?
Onde moras?
O que me tens para dizer?
Quando irás aparecer para me afagar, com o teu corpo quente, perfumado a mel, tão doce e gracioso a latejar cheio de vida.
Pousada numa nuvem branca, surgirás jovial, preenchendo de contentamento o deserto do meu ser, varrido pelo vento norte.
Cairás como chuva fecunda, no meu tapete de pétalas de malmequeres amarelos, ansioso pela tua chegada na bruma da madrugada.
A cor do sol nos teus cabelos dourados e raiosos, ondulados onde me afogaria no azul-marinho do teu olhar carinhoso e cristalino.
Senil e inebriado nos teus braços prostrado, seria para sempre o teu cúmplice apaixonadamente angustiado.
Quando será minha flor?
Quando virás minha amada?
Minha amiga olvidada,
Meu amor.
Lx, 15-4-2010
729
Só Mais Uma Vez
Só mais um olhar enternecido,
Só mais um.
Só mais um par de mãos entrelaçadas,
Só mais um.
Só mais um suspiro,
Só mais um.
Só mais uma última dança,
Só mais uma.
Só mais um arfar no meu ouvido,
Só mais um.
Só mais um beijo meigo,
Só mais um.
Só mais um entardecer juntos,
Só mais um.
Só mais uma música no ar,
Só mais uma.
Só mais um abraço apertado,
Só mais um.
Só mais um afago,
Só mais um.
Só mais um poema murmurado,
Só mais um.
Só mais uma noite de luar,
Só mais uma.
Lx, 15-4-2010
662
Pesadelos
O Cosmos ousou sonhar,
Encarnou o Homem,
Em pesadelo se tornou,
à consciência largada.
Eu cidadão do Mundo,
Feito de Estrelas a estrear,
Percorro o caminho,
Esbatido ao luar,
Onde as sombras,
Abordam o meu passar,
Largando estridentes uivos,
De pesar.
Ladeiam-me constantes,
Vomitam jactos de fogo,
Das entranhas infernais,
O caminho em ponto de fuga,
A estrada da vida empinada.
Noite cerrada e escura,
As cores perdidas em parte incerta,
Ofegante percorro desalmado,
Este labirinto malfadado.
Ansioso pelo acordar,
Luminoso dum raio de Sol,
Por mim encarnado.
Lx, 7-3-2010
662
Simplicidades Minimalistas
Onde se encontra o subtil?
Na subtileza do desabrochar.
Onde mora a beleza?
No coração carente.
Onde fica o Paraíso?
No tempo pendente.
Onde está a omnisciência?
No âmago do ser.
Onde nasce o amor?
No cuidar sentido.
Onde brota a razão?
No nosso ressentimento.
Onde para o bom senso?
No correr do tempo.
Onde anda a luz?
Na gota do orvalho.
Onde ensina o mestre?
No cume da montanha.
Onde se fixa o olhar?
No infinito do mar.
Onde paira a música?
No sopro do vento.
Onde estávamos todos?
Nas estrelas a brilhar.
Lx, 6-12-2009
628
A Doença Do Corpo – A Morte
Quando a força se esvai,
Aos poucos e poucos,
Lentamente, devagar.
Quando ainda ontem podia andar,
Enérgico, esbelto e assaz,
Egocêntrico, egoísta e jovem,
Inteligente, equilibrado e mordaz,
Atlético, imortal e feliz.
Hoje jaz deitado e entrevado,
Impotente, enfezado e sujo,
Indesejado, insalubre e dorido,
Introvertido, Infeliz e mortal.
Desiste ingloriamente resignado,
Desmiolado, rejeitado e esquecido,
Desonrado, desconhecido e cansado,
Autómato não autónomo,
Monótono de olhar estarrecido,
Vazio, baço e sem claridade.
A carne já em chaga,
Purulenta e decomposta,
Exposta aos elementos finais,
Putrefacta,
Pela terra a arfar,
E o cheiro Deus meu,
E o cheiro que exala!
Lx, 8-9-2009
737
Insignificâncias
Incógnitas insignificâncias,
Pululam perdidas por aí,
Nascem e morrem todos os dias,
Com egos inconscientes,
Cegos à falta de razão,
Na sua singela existência.
Falsos demagogos hipócritas,
Escondidos no medo,
Da sua mortalidade,
Aprendizes ignotos,
Da essência natural,
Letargia moral e de carácter,
A rodos no seu bestial pensar.
Eles e elas, grandes e pequenos,
Novos e velhos, sábios e idiotas,
Todos prisioneiros cativos,
Da metafísica da boçalidade.
Se é esse o preço para vencer,
Deixai-me na minha parca indigência,
Se é esse o preço para ser feliz,
Deixai-me na minha doce tristeza taciturna,
Deixai-me na melancolia nostálgica,
Da minha própria insignificância.
Lx, 16-6-2009
669
Cansado
Cansado ao acordar,
À noite cansado de estar,
Cansado de mim,
E de vós acima de tudo.
Cansado do tempo a passar,
E do senhor sisudo,
Cansado da bonança,
Dos dias correntes,
E dos meus membros dormentes.
Cansado do fiel da balança,
E da consoada,
Cansado de fazer anos,
Em desalmada.
Cansado de sorrir,
Amestrado,
Cansado tão cansado,
De lamúrias suplicantes.
Cansado de choros e prantos,
Desencantos ofegantes,
Cansado de desencontros,
Oníricos latentes.
Cansado do passado,
Insipiente,
E do futuro poluente,
Cansado do sim e do não,
De ser testemunho vidente.