Lista de Poemas

ENCONTRO

Tua voz acordou o meu nome
De forma elogiosa e doce
Elegante como se cantasse ciranda
Delicada como se desenhasse um retrato
Infinita como se pintasse uma tela
Decidida como se me fotografasse

Eu não sei quem precipitou o instante
Se me olhaste após a surpresa da fala
Ou por ímpeto me chamaste antes
Que a velocidade do olhar nos cegasse
Que o sorriso então se acendesse
Que o coração tão forte pulsasse

Apenas sei que quando isso acontece
Um perfume de rosas exala

Depois desaparece
Depois vai embora
Depois permanece
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A VIDA NÃO ME PESA

Se a vida não me pesa tanto
Enquanto estou acordado
É que o mistério da noite
Calca-me o dorso que dorme
Para que a alma afugente
A lassidão vulnerável da carne

É ilusão que remoço e descanse
Estendido na cama inerte
Que revivo ou então envelheço
Enquanto durmo e não penso
Ou quando me torno reverso
Ausente da consciência

Sonho mesmo é recolhido
No silêncio da madrugada
Palavreando as esperas
Aguardando o sol que nasce
Igual surgi entre entranhas
Do amor que me fizeste

Esse corpo é mera carcaça
Amigo impessoal do espírito
Que tenta dar-me a imagem
De um vulto que desconheço
Do instrumento que preciso
Para escrever-lhe meus versos
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ETERNAMENTE

O violão que dorme no quarto
Pousado intacto sobre a cama
Teus dedos não conseguem fazer vibrar
- Engraçado
Ainda te sinto tocar!

As tuas musicas atravessam as paredes
E rompem o silêncio dos meus medos
Para poder te ouvir escutar os cantos
- Engraçado
Pareço te ouvir cantar!

Tantas guarânias e lá lá lás e os lero-leros
Das rimas apaixonantes sem compassos
Nos passos das valsas e boleros
- Engraçado
É como se te visse dançar!

Toca canta dança
Deixa tua arte explodir teus encantos
Como antigamente
Para que te ouça sinta e veja
Amar-nos eternamente!
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NOTURNAS

A mais bela parte do dia é noite
De matiz preto e único
Que se parte esbranquiçada e láctea

A imensidão do escuro
Brinca de forma lúdica
Acendendo no firmamento 
Se dividindo em auroras

Por isso a profusão das cores
Na vastidão do universo
A ilusão das passagens
A compilação dos mundos
As miragens

Nossos olhos não são noturnos
Carecemos da luz das alturas
Entre as negritudes lindas

Somos criaturas feitas de paisagens
Se a noite evapora nas horas
Também os dias claros vão embora

Eu não temo a efemeridade do tempo
De todas as visagens
Apenas não amar me apavora
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BAILARINA

Depois de brilhar no palco
Depois de dançar na chuva
Tanto pular calçadas
Tanto correr a rua

Pliés tendus jetes

De tanto saltar nos arcos
De tanto pisar a areia
Tanto saltar nas nuvens
Tanto ensaiar no espelho

Fondus adagios frapés

Sem sequer rasgar as sapatilhas
Sem sequer molhar as sapatilhas
Sem sequer sujar as sapatilhas
Minha bailarina tem os pés descalços
E dorme nos meus braços
Um sono tão profundo
Como se bailasse no espaço
E acordasse iluminada
Pelo holofote da lua
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CIO

Beira de rio costuma haver lugar macio
Onde a onda bate suave sem quebrar
Nem machucar o mato que margeia

É como se pedaços de agua pausassem da correria
E se deitassem na margem para descansar

As aguas que batem pelas beiradas
Brotam debaixo da saia das ondas
Que vazam do meio das pernas do rio
E seguem direto do rumo do leito
Do lado esquerdo ou direito das bordas
Sabedoras de jamais voltar

O rio entretanto alonga e alaga nas cheias
Endoidece que até perde o prumo
Quando vaza saltitante na corredeira
Depois novamente amansa o cio
E se transborda é de tanta história
Louco para contar ao mar

Toda essa agua que esguia passeia
Canta cantigas que somente escuta
Quem navega nos rios da vida
E mergulha na sorte de se deixa levar


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FAGULHAS

Teu olhar sustenta os meus olhos
Na plenitude máxima e intensa da luz
Onde reverbera o som das esferas
Que circundam as fagulhas
Das densas intenções

Eu absorvo cada segredo que esse olhar me revela

Não é de solidão que sofro agora
Apenas aquieto as vontades e desperto a memória
Para lembrar-te tão prevista quanto bela

Hoje à tarde nossos olhos dançaram tão íntimos
Que incendiaram mútuos

Depois se perderam de vista
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PARTES

Ao longo do dia divido-me em partes:
A parte que recolhe olhares e os reveste em cores
Outro tanto que reparte palavras para explicar-lhes
A soma que recobre sonhos e os acorda tarde
Uma enormidade que pretende tudo e do nada sabe
Um pouco que encoraja a voz a emular milagres
O muito que dilata o pouco ainda que desmanche
O mínimo que concilia a timidez à arte

Nas partes que reparto unifico-me transparente
Insigne como coleção de máximas ausentes
Significantes por não pertencerem mais ao choro

Tudo é feito com propriedade
Tantas partes dividem-me por motivos tantos
Ante a obviedade do nada que sangra ou arde

O que não faço é adormecer a sombra
Dos motivos óbvios a desconhecer
O que me fora dado sem que houvera lágrima
Pois somente assim me valoriza o todo
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JÁ ÉS TÃO QUERIDA!

Mesmo antes de nascer, já és tão querida,
Amada por pessoas que ansiosas te aguardam, 
Recebes a vida destes que te acolhem com amor;
Iluminarás o sol com os sorrisos da infância
Alegrando nossos dias com a doçura da inocência.

Olhos brilhantes acenderão qual estrelas que
Lembrarão mil flores em jardins de primavera,
Irradiando a luz que contagia-nos ao teu redor.
Viveremos por ti, Maria Olívia Maria,
Inspirados no teu jeito meigo e encantador.
Amor puro e verdadeiro é o que trarás ao mundo!
 
        Paulo Sérgio Rosseto
Porto Seguro, Ba, 28/04/2023
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MELODIA

Em volta da casa bege
Havia uma fortaleza na terra crua
De um tempo que jamais volta

Nada de asfalto nem calçada e cimento
No máximo um caminhamento
Aproveitado do levadiço das pedras
De musgo verde embrenhado nas gretas
Sem muro nem cerca nem sarjetas
Onde a poeira vermelha e fina ardia

Por todo lado havia jardins
E canteiros e mais canteiros de jasmins
Que floriam nossos olhos de areia

Por entre nós a infância e as horas
Corriam naquelas ruas abertas
Depois conosco dormiam cheirosas
E novamente voltavam despertas
Para nova sessão de cinema

Até que um dia
A estrela cansou de cantar
Como encerram atriz e cantor
Como terminam cena e melodia

Ainda ouço sua voz amena e macia
Quarando os panos da barbearia:
“Oh oh oh filme triste que me fez chorar”



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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.