Lista de Poemas

APESAR DE IMPERFEITO AO MENOS SER JUSTO

Um monte de gente feriu-se com a peste
Ainda restamos nós para contar a historia
Talvez sejamos a sobra da humanidade
Por algum motivo estarmos vivos agora

Mas não só da peste se escapa ou se morre
Diz-se que ninguém se vai antes da hora
Empreender esse estágio deve ser nossa meta 

Há tanta gente no entanto sem dor e já morta
Debelada por dentro estirpada por fora
Que se ainda lhe sopra o santo verbo da vida
Em vão desse dom faz uso e de forma indevida
Cego usurpa escraviza ultraja maltrata
Se achando imortal desdenhando o destino

Ainda que exausto cabe um custo ao pedreiro
O de andar por inteiro a brigar por equidade
Abraçado à carência de quem pede uma esmola
E de dedo em riste combater peito aberto
Enfrentar poderosos e sempre verdadeiro
Apesar de imperfeito ao menos ser justo
154

MINHA ESCRITORA

Essa menina nem sabe ler
Já põe o livro em seu instante

Estala as frases pagina as folhas
Rabisca as páginas com giz de cera
Reescrevendo à sua maneira
Novas histórias com outras letras
Nas prateleiras pela estante

Depois cansada deita serena
E faz com livros seu travesseiro
Cobre com as linhas as suas pernas
Colore as capas com os cabelos
Ilustra os contos de belos versos
E acorda rindo dos próprios sonhos

Minha menina nem sabe ler
Já ousa ser grande escritora


www.psrosseto.webnode.com
180

MISÉRIA

Sem luz a mata perde as cores
E metade do mundo quando é noite
Não come
Não por falta de fome
Nem por falta de dinheiro que compre
Também não por carência de alimentos

Não come por estarem dormindo acometidos
De grave dor no pescoço e na língua
Que os impedem de terem acesso à vida
De já não terem o paladar mais pela boca
Que não desperta mais a libido
Quando todos os manjares ausentes
Não fazem sentido além das vontades
Coibidas
 
E quando chega o sol
Ainda amam e sorriem 
Ao pedir um prato de comida



www.psrosseto.webnode.com
143

GRAÇAS

Pensei todo dia plantar uma árvore
Nas longínquas terras do meu País
Pelas rodovias do meu Estado
Ao longo das estradas de meu Município
No largo das avenidas da minha Cidade
Ou nas ruas de minha Vila

Elas cresceriam floresceriam frutificariam enraizariam
Convidariam pássaros sombreariam
Procriariam lagartas cigarras formigas
Atrairiam cupins
Porém são apenas glebas virtuais

Pensei começar pela estreita calçada
Contigua ao meu minúsculo quintal
Mas se as planto fora de casa
Elas se assanham espreguiçam largam folhas
Invadem os seus direitos e você acharia ruim

Desisti desse intento
Hoje somente faço poemas
Estes cabem em mim





www.psrosseto.webnode.com
132

INVERSOS

Benedito Poceiro sempre dizia
‘No buraco onde passo o dia
Busco agua para quem à flor da terra
Logo mais possa matar minha sede
Mas não a desperdice’

Uma vez uma lata com lama revolta
Caída da borda lhe partiu a cabeça
Foi-se o dito pelo não dito lá no fundo

Soterrado no fosso cumpriu a sentença
Houve menos agua gasta no mundo
179

ENTRE A NOTÍCIA E O POEMA

No meio do quarto despiu-se por inteira
E já saiu do banho com a roupa de dormir
- Um florido e confortável pijama
De pernas e mangas bastante longas
Que apesar de folgadas ajustavam 
À moldura ziguezagueada do seu corpo

Olhou pela ultima vez o celular:
UOL – “Dormir Nu Traz Mais Qualidade De Vida”
ESCRITAS.COM – “José – Poema de Carlos Drumond
                                                                            de Andrade”


www.psrosseto.webnode.com
160

FINADOS

Quem passa no derredor dos túmulos
Curioso lê os espaços resistidos
Entre uma data e outra
Sobre as lápides agravadas

Há quem tenha restado menos
Há quem tenha permanecido mais
No entanto todos experimentados
Os cúmulos da existência
Ao ter reaberto os olhos
Ao ater respirado o ar
Dito qualquer palavra
Ouvido além do silêncio soar

Quem passar pela minha cova
Imagina-me deitado sem cor
Sem ouvir mais nada da vida
Imóvel e sem falar
Como se nem estivesse ali
Como tantas vezes fiz

E ainda que haja dia ano e mês
Não tripudie do que o tempo quis
Qualquer hora será tua vez


www.psrosseto.webnode.com
182

NO ENTORNO DO FOSSO

Passeio de elevador
Mas temo que se soltem os ganchos
E rebelde ganhe os céus


Como saberei descer se tenho medo
Da altura da tua voz e do teu olhar?

Tua voz acusa e declama-me
Teu olhar seduz o que me vê

Não posso descolar da terra
Ir parar nas nuvens
Nem com os ventos por elas seguir

Portanto não destampe os edifícios
Cuide para que não se destelhem
E não me elevem além da cobertura

Está cedo
Ainda há poemas a fazer
No entorno do fosso 


www.psrosseto.webnode.com
167

BORDEJAR

Quão boa e nobre a sensação de circundar esse oceano
O sereno passear pelas bordas do teu lago intenso
Rudes ondas te escondem sob a saia de bons sonhos
E eu navego velejo tergiverso pairo sem querer voltar

Essa a arte verdadeira de bordejar sem pressa
E ao mesmo tempo apressado para alçar teus olhos
Ver-te precisa entre as ilhas da pele e as algas dos abrolhos
Dourados ao sol do norte ou ao vento minuano nos cabelos

Teu dorso é orla onde rola entre o pelo areia e sargaço
Abrigo e alimento da fragata de silhueta esguia
Essa arisca ave que guia meu mar escuro de ilusão
Quando alerta meu juízo das tempestades e marés
Quando vem quando passam quando advirão

Recolho-me à sensação de sentir toda a certeza
Dos rumos que as correntes irão singrar meu barco
Nalgum porto qualquer pelo teu corpo em viagem
Cuja miragem me distancia do cais e se apequena
E se eu perder-me em meio a essa correnteza
Salva-me com tua língua lambendo este poema


www.psrosseto.webnode.com
124

COMUNIDADE

Há um dente meu doendo
Apiedo-me com a dor nele
Sofrendo eu por inteiro

 Os demais dentes que ali convivem
 Incomodam-se do sofrimento ruim
 E comigo a mesma dor dividem

 Como acontece com as mãos
 Quando um dos dedos arde ou sangra
 Todo o meu corpo desanda

 Deveria ser assim entre irmãos
 Caso um não esteja bem
 Ninguém estará bem também

 Como os dentes convivem na boca
 Como os dedos residem entre as mãos
 Dividimos num mesmo peito um só coração


www.psrosseto.webnode.com
142

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.