Lista de Poemas

CIRURGICAMENTE IMPOSSÍVEL

Se Bianca ao meio partisse o meu peito
À procura de consertos nesse coração
Diagnosticaria saudades e segredos
De difíceis acessos e manuseios

Se Vitória auscultasse tomando meu pulso
Sentiria navegadas no interior da aorta
Chalanas repletas de alegrias ancoradas
Nessas vísceras arritmicamente quase mortas

Se Laís anotasse meus sinais vitais
Assustaria com esse íntimo transbordado
De diletos momentos e intensos amores
Misturados a prazeres e algumas dores

E se todas descontentes buscassem opinião
De alguém ponderado e bem mais experiente
Ouviriam: precisamos lhe nascer novamente
Dessa velha carcaça soçobraram defeitos

Mas o espírito, esse a gente bem poderia
Arquiva-lo translúcido no armário das almas
Onde nenhuma ilusão sequer tem acesso
Exceto a poesia, porque esta é completa



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FEMININA

Tua idade desconhece que a tens.
Acha-te criança com olhos de mãe,
Deita-te adulta certas horas por dia,
Debela as tuas orelhas e menina te põe
Sempre que teus desejos  
Rechaçam e tua consciência folia,
Rebobinando íntimas imagens
Dentro da tua retina.

Assim te fazes feminina mulher
Com mais fases sequer que as da lua ariana:
Tão exposta e ímpar que a si própria encanta,
Mesmo oculta vive santa e insana
Intensa e absoluta em sua resoluta rotina.




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ENTRE AMOR E AMANTES

Sempre ouvi dizer
Que a noite é dos amantes.
Mas posso amar antes?

Antes que a lua nasça
Amar seria pecado
Ou só sem graça?

E se estivermos amando
Ao chegar o sol e o dia
Continuaríamos?

Amar sem reservas
Preservaria os amantes
Dos não amores?

Quem sai e quem vem
Jura amor que renasce
Amando ou amante?

Ser toda forma
De amor permissível
Será possível?


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MOMENTOS

Distintos momentos
Dou-me ao prazer de busca-los nesse labirinto
Em algum lugar entre tardes e auroras

Quando ainda que equidistantes
Os construo num mínimo horizonte
Tantos em meu passado
Estes por agora
E quiçá outros à minha frente
Entendo que viver é não importar-se com o quanto
Mas sim que possivelmente se fizer por onde

Sei não sou eu o centro do universo
Mas cada gesto meu é portanto o que interessa
E qualquer préstimo que me tenha por resposta
Do pouco que faço pelo que talvez ainda assombre
Velar gratuito o sono dos meus entes
É sempre o mesmo que enquanto também durmo
Renascer contínuo de um ser tão puro que me apresta
A melhor ser todo o tempo que acordado
Puder enobrecer o amor que nos sustenta


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A SENSAÇÃO DE TOCAR ESTRELAS

Estou tão desacostumado de olhar horizontes
Que é como se estivesse desaprendendo de navegar

Nenhuma direção de vento me demove
Nenhum balanço de embarcação me faz assustar
Não sinto mais o salgado sabor dos respingos
Estou sem rumo, vou para onde o barco apontar
As correntes guiarem o casco
A vela distorcer e inflar
Levar para qualquer ilha
Parar em qualquer ilhéu
Rodopiar entre as ondas
Afastar-me do cais tanto faz

Amor, dá-me outra vez a sensação de tocar estrelas
Como um lego mudá-las de lugar


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REAPRENDIZ

Eu passaria novamente pelos mesmos caminhos
Inclusive repetindo todas as curvas que dobrei
Revendo quedas e descidas de esguias ladeiras
E também por elas voltando aos topos que já pude alçar

Tomaria ainda os mesmos atalhos das estradas vicinais
Talvez até conseguisse ainda encontrar destrancadas  
Cancelas que larguei abertas para você passar
Ou que alguém deixara livres a quem optasse ao regresso

E caso retomasse tais caminhos e não conseguisse
Novamente reencontrar todos os que comigo vieram
Duas certezas de pronto me caberiam: ou seguiram
Em frente e o promissor destino os tomou de abraços
Ou desgarraram por outros rumos dos quais desconheço

Eu passaria ainda que tardio e sobre destroços
Novamente pelos caminhos repetindo as margens que vaguei
Mas desta vez evitaria ao menos parte dos tombos e tropeços
Reaprendendo as chances, colando cacos
Com as gomas que o próprio tempo me ensinou fazer



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AMOR E AMIZADE

Todos os amores me foram dados:
O de mãe sem qualquer mensura;
Esse permanente que nos escolhemos amantes;
Filial, imerso na evidente cumplicidade;
Entre irmãos, pela conjuntura rara;
Do meu pai, insigne e justo de eternidade
Sempre intensos, límpidos, vorazes
Transparentes de mil formas

Possível seja, claro, que não tenha eu tanto amado a todos
O quanto amaram-me sem cobrarem reciprocidade em nada;
Pouco desarmara o espirito quando necessitara
Enxergar no derredor a generosidade que se exige
De qualquer amante para que o amor se faça
 
De todos os amores que me foram dados
O que nos sustentara, vivifica e não passa
Dignifica-se a alicerçar-nos na fraterna amizade
Que a seu tempo jamais finda, se replica
E recomeça, por ser ela o elemento principal da alma


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PARA J FERNANDES

Seu manancial de palavras
Fala por si
É uma fértil fonte
Que jorra frases calculadas
Céleres, justas e pontuadas
Que nos remetem
A inesquecíveis e inesgotáveis viagens
Através de verdades e fantasias

Os seus textos
Sempre tiveram sabor brasileiro
Tempero baiano
E receita muito particular
Pois os ingredientes que utiliza
Para nos alimentar a alma
São próprios e da melhor qualidade

Segue esse seu caudaloso rio num menu
De singelas, precisas, saborosas e sábias histórias


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PEQUENA HISTÓRIA PRA BOI DORMIR

Quiseram ser donos apenas da terra
Derrubaram o arvoredo em desprezo a floresta
Plantaram centeio sem cuidado algum
Esquecendo-se do joio em seu meio
Hoje se veem rodeados de inapropriados fantasmas

Não mais existe respeito nem medo
De onças jaburus sacis e serpentes
Alias estas se fragmentaram
Em doentes mentes presas por arames de farpas
Não há mais floresta e sim homogêneo
Verde sem grilos besouros e formigas
De raízes rasas e densos repelentes
A insetos animais e a tantas pragas
Certamente incluindo-se à boa gente

Acabaram secos os pequenos córregos
Que escorriam mansos o suor da terra
Pela grande sombra das colinas suaves
Essa roça agora é solo plano nivelado em ranhuras
Uma terra árida que deseja chuva
Pede ajuda a imensas máquinas caras
Que transformam declives em folha parda
E que não leva a nada senão a si mesma

Agora descobrem que esse trigo não mata a fome
E ao invés de replantarem a floresta ou reaproveitar
O que ao menos ainda presta desse gado e cada rês
Protestam, queimam o grão e se retiram
Para outra festa ainda mais nefasta
O que fora árvore tornara-se madeira sem lei
E sobre as paginas desse livro há rasuras

Pobres moços contradizendo as leis da Ordem
Por modestos desejos de tornarem-se reis

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INSPIRAÇÃO

Deveria não vê-la todos os dias
Até perder o medo da saudade
Deixar de imaginar possibilidades
Excluir da rotina toda mania
Desvincular a ousadia de acreditar
Que tu ou dormes junto às estrelas
Ou vives entre todas para incandesce-las
Apagando a máscara azul do firmamento
Para que na densa negrura eu possa vê-las

Para o momento um bocejo
E mais tarde um banho de sereno
Tornará suave esse fardo de exageros
Enquanto rezo benfazejo
Os sacros ofícios das vésperas
Mastigando as contas de um rosário
Aguardo-te peregrina e eu romeiro

Eu sou a guia que se serve da cegueira fria
Dentre vocábulos antológicos de um dicionário
E tu meus dedos que te reescrevem candeeiros
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.