Lista de Poemas

IMORTALIDADE

O maior surto
Da imortal idade é dizer:
Tiro nenhum me abala



Haicais - www.psrosseto.com.br
209

CONCRETAS

Durmo estirado no chão
Fora desse colchão sem graça
Prefiro a pedra fria que me acolhe
Do que a macia espuma que finge que forra meus ossos
Que até aquece mas não me envolve e nem abraça

Descanso num banco de granito
Exposto ao relento na praça
Colado à calçada onde apressado você passa e nem nota
E se apercebe finge que não vê e se olha ainda faz troça
Ou desvia por temor a minha provável ameaça

Balanço na rede dependurada entre o piso o teto e a parede
Por ganchos de anzóis presos ao nada
Parafusados em buchas espremidas em concretas certezas
De que entre o pó do cimento a agua e a areia calcada
Existe apenas a vontade e o cuidado
Em não me soltarem no vazio da palavra

Assim vou ensaiando meu jeito tardio de entender
Que tudo o que faço além e batalho acima da contínua lavra
Permanecerá à flor da terra mesmo que virtualizado
Enquanto esse corpo que já mal ouve e quase nem fala
Cessará sob a lápide somado a qualquer punhado de terra
Mas não diferente do que o amanhã também te espera


-www.psrosseto.com.br -
176

DISCURSO DE POSSE NA ALBPS


“Eu canto porque O instante existe E a minha vida Está completa. Não sou alegre Nem sou triste Sou poeta”

Pretensões à parte, porém calcado no poema Motivo, de Cecília Meireles, inicio agradecendo o Altíssimo por me conceder a coragem e a ousadia da perseverança na literatura. Trago comigo a séria convicção de que não chego a ser, nem tenho pretensões da intelectualidade, mas unicamente em continuar a ser autor de poesias. Ainda assim atrevo-me a estar aqui com o objetivo de somar junto aos doutos e ilustres pares. Considero-me um humilde artesão dos versos, sendo minha maior matéria-prima, portanto, a palavra. E como bem diz Victor Hugo, “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade”. Assim, o que produzimos por vezes são brisas e por vezes, dedos que calcam feridas. Porém sempre justos e próprios pela grandeza da arte.

Parafraseando o poeta Carpinejar: ‘Todos somos poetas, entretanto alguns são autores’. Em assim sendo, respeitando a ótica de Carpinejar, além de poeta, também me atrevo a dizer que sou autor de poemas. E é por essa escola que venho me especializando através de ferrenho e continuado exercício da inspiração. E por assim ser, mais um sonhador; e por ser assim um mero aprendiz na labuta esmerilada das palavras, acredito-me pronto a também passar a colaborar com esta Casa em prol da Cultura, da Educação e dos bons costumes à nossa Sociedade junto às Senhoras e Senhores Acadêmicos, fazendo jus aos votos e à confiança que mui generosamente me foram dados.

Confesso que o cotidiano me tem proporcionado gratas e inexplicáveis saudáveis surpresas. E poder estar aqui em vosso meio hoje me é uma das mais engrandecedoras conquistas e das mais prazerosas alegrias alcançadas. Por isso, repito, sou muito grato à vida, a Deus, à família e aos senhores, partícipes desse meu cotidiano.

Quando ainda menino e pela juventude, muito escrevi, preguei, falei, apregoei poesia, caminhando por essa seara bastante espinhosa, porem deveras gratificante. Nasci ha dois mil quilômetros do mar, porém cantando com muita propriedade as belezas do Centro Oeste Brasileiro, minha origem, com muita transparência e sensatez. Tenho impregnadas nas ruas da minha amada Três Lagoas e Guaraçai, os ingredientes do Oeste Paulista e do Mato Grosso do Sul - uma ferrenha militância nas Letras, através de Jornais, Livros, Revistas, Escolas, Universidade, Instituições e sólidas parcerias e amizades sempre ainda presentes e até hoje muito altivas. Foram bons tempos falando de poesia e espalhando poemas por onde andei.

No final dos anos 80, passando a residir na Costa do Descobrimento, fui eu, literalmente falando, o descobridor da felicidade plena ao ter tido o privilégio de ter sido tão bem identificado e criado meus laços e espaços entre vós, portosegurenses, gozando do afago nativo dessa gente baiana. As últimas três décadas, portanto, passei incubando valores literários os quais vieram à tona novamente e que, repito, graças à generosidade dos meus pares, me trouxeram até aqui. Confesso que até cobicei esse momento na Academia, mas em face a tanta intelectualidade existente nessa cosmopolita Cidade de Porto Seguro, não sentia acontecer tão rápido e hoje. Entretanto o Supremo Arquiteto do Universo assim o faz realizar. Por isso minha eterna gratidão a todos.

MEU PATRONO – CADEIRA Nº 18

Destarte, ao tomar posse da Cadeira de nº 18, reformulo meu compromisso com a literatura, prometendo honrar os ensinamentos do meu patrono LUIZ GONZAGA PINTO DA GAMA, sobre o qual passo agora a discorrer:
Quando me fora dada a opção de escolha da Cadeira 18, me chamou a atenção a vida e obra desse baiano nascido no dia 21 de Junho de 1830 na capital Salvador. Luiz Gama foi um rábula, orador, jornalista e escritor dos mais respeitados e admirados de sua época. Nascido de mãe negra africana livre, vinda da Costa da Mina (correspondente ao Golfo da Guiné, Litoral da África Ocidental) que ganhava a vida fazendo quitandas, e de um fidalgo português que vivia em Salvador, cujo nome o poeta nunca revelou. Em 1837, Luiza Mahin deixa a cidade e parte em direção ao Rio de Janeiro, ficando o filho aos cuidados do pai. Este, segundo o próprio Gama relata, era um homem de posses, apaixonado pela pesca, pela caça e principalmente pelas cartas. Vivia de uma herança que havia recebido em 1838 e, dois anos depois, já se encontrava em plena miséria.

Em novembro deste mesmo ano, portanto aos dez anos de idade, o menino Luiz Gama foi levado pelo pai a bordo do navio “Saraiva”, e lá vendido como escravo. Dias depois, ao desembarcar no Rio de Janeiro, foi levado para a casa de um negociante português que negociava escravos sob comissão. No mês seguinte, foi novamente vendido, junto com um lote de “cento e tantos escravos”, ao “negociante e contrabandista” Antônio Pereira Cardoso, que os levou para São Paulo.

Porém os escravos vindos da Bahia eram tidos como “desordeiros” e “revolucionários”, devido ao marco histórico que foi a Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador em 1835, da qual a mãe de Gama, Luiza Mahin, teria participado. A Revolta, portanto, foi um levante de escravos de maioria muçulmana na cidade de Salvador, capital da Bahia, que aconteceu na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835. Os Malês eram negros de origem islâmica, que organizaram o levante. Depois disso, os escravos oriundos dessa cidade eram preteridos pelos compradores, como deixa transparecer o depoimento do poeta: “Fui escolhido por muitos compradores, nesta cidade, em Jundiaí e Campinas; e por todos repelido, como se repelem cousas ruins, pelo simples fato de ser eu ‘baiano’”.

Sendo assim mais uma vez renegado por ser negro e pela origem, Luiz permaneceu por mera conveniência do destino, na casa do senhor Cardoso, onde foi encarregado dos serviços domésticos, tendo aprendido com outro escravo, também baiano, o ofício de sapateiro. Ali se estabeleceu, aos dezessete anos de idade, o primeiro contato de Luiz Gama com as letras, através de um hóspede que viera de Campinas para a capital, com o objetivo de estudar.

Em 1848, Gama fugiu da casa de seus senhores, tendo conseguido, logo depois, documentos que confirmavam a sua liberdade, uma vez que era filho de uma negra liberta. Em 1856, foi nomeado amanuense da Secretaria da Polícia, onde serviu até 1868, quando foi demitido por “bem do serviço público”. Para esclarecer o motivo real da demissão, o poeta faz a seguinte confissão em carta ao amigo Lúcio de Mendonça: ‘A turbulência consistia em fazer eu parte do Partido Liberal; e, pela imprensa e pelas urnas, pugnar pela vitória de minhas e suas ideias, e promover processos em favor de pessoas livres criminosamente escravizadas; e auxiliar licitamente, na medida de meus esforços, a alforria de escravos, porque detesto o cativeiro e todos os senhores, principalmente os reis.’

Em 1859, Gama publicou Primeiras trovas burlescas de Getulino, no qual consta o famoso poema “Quem sou eu”, mais conhecido como Bodarrada, no qual expõe o preconceito de cor na sociedade brasileira. O poema foi escrito em resposta ao apelido que os intelectuais da época tentaram lhe impor: bode - termo usado de forma depreciativa para designar os negros. Também como jornalista, Luiz Gama teve uma atuação política bastante intensa: foi aprendiz de tipógrafo do jornal O Ipiranga, e redator do Radical Paulistano, no qual colaboraram, entre outros, Castro Alves, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa. Foi ainda responsável pela redação de O Polichinelo – primeiro periódico político satírico da cidade de São Paulo, o que faz Alberto Faria atribuir a Luiz Gama a fundação da imprensa humorística paulistana.

Nos anos 60, o advogado autodidata Luiz Gama se esforçava para tratar dos casos de escravizações ilegais e de abolições individuais e coletivas do Estado de São Paulo. Costumava dizer: “Eu advogo de graça, por dedicação sincera à causa dos desgraçados; não pretendo lucros, não temo represálias”. Segundo consta, Gama teria sido o responsável direto pela liberdade de aproximadamente quinhentos escravos.

Além de advogar, Gama realizava conferências e publicava polêmicos artigos nos quais explicitava seus ideais abolicionistas, motivos pelos quais era perseguido e ameaçado de morte. Liberal exaltado, foi o primeiro negro brasileiro a lutar contra os ideais de branqueamento da sociedade e pelo fim da escravidão. Mesmo debilitado pela doença, saía carregado em uma maca, para atender seus clientes desejosos da liberdade. Faleceu em São Paulo, em 24 de agosto de 1882, deixando uma emocionante carta-testamento ao filho, que se configura para nós, seus leitores de hoje, como vivo exemplo de homem público e literato que, mesmo diante das vicissitudes da vida, não abandona seus ideais.

Existencial, num de seus nobres poemas indaga:

Quem sou eu?

E ele mesmo responde:

Que importa quem?
Sou um trovador proscrito, Que trago na fronte escrito Esta palavra — Ninguém! —

NOSSO COTIDIANO

Meus queridos: perdoem se acima tratei do lado um tanto sofrido e melancólico do Poeta Luiz Gama, digno patrono da Cadeira 18 desta Academia de Letras de Porto Seguro, da qual agora passo a ocupar. Mas assim o fizera no intuito de mostrar o quão a vida nos é por vezes ingrata, e o quanto diuturnamente necessitamos encontrar maneiras de dar a volta por cima, procurar reconstruir espaços mais dignos para nós e nossos filhos, e até contar com a sorte, ainda que seja a duras penas. Descrevemos acima, portanto um cenário de dois séculos atrás.

Porém quero citar neste momento, o jornalista Leonardo Sakamoto, em uma de suas recentes colunas no Uol deste Janeiro do ano do ano de 2020, século XXI:
“ Vivemos ainda hoje, em pleno século XXI - um contexto de ultrapolarização política. Nele, desumaniza-se quem defende posicionamentos diferentes dos nossos, não reconhecendo que essas pessoas tenham os mesmos direitos constitucionais. Pelo contrário, defende-se que sejam caladas e punidas por pensarem diferente. À força, se necessário. Passando por cima das leis, se preciso.”

Sem querer me alongar, faço apenas observar que os anos, as décadas, os séculos e gerações se sucedem e não conseguimos aparar as arestas, fazer as aparas do preconceito reinante num país tão grande, tão rico, tão oprimido e ao mesmo tempo opressor como é o nosso amado Brasil. Não é lástima, porque não choramos nem jamais lamentaremos em vão, e sim observações cabíveis a um grupo pensante e ativo como o nosso.

De uma coisa estamos convictos: a arte liberta, fala, é ouvida, demove, comove, impõe, modifica e nalgum momento renasce, floresce e produz seus frutos. Por isso é tão profusa, por isso tão significativa na vida de todos nós. Se existe algo que devamos diuturnamente questionar de nossos líderes e autoridades e também de nós mesmos como sociedade civil organizada - é que nos deem conta da saúde da Cultura e da Educação pelo menos dentro dos quadrantes do nosso Município. Se nos indignamos com o índice de analfabetismo em nosso gigante Brasil, quantas vezes indagamos dos nossos próceres, quantos ao alcance dos nossos olhos ainda não possuem acesso à escola, a um livro, e são privados de um mínimo de conhecimento para que possam dizer-se alfabetizados! Lembro Mario Quintana, a despeito da importância da Literatura: “O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.” Infelizmente são tão poucos que assim procedem. Com dignas e raras exceções, nossa gente tem dificuldade de pensar porque utilizam-se poucos mecanismos de apoio e incentivo à arte e à cultura.

Em assim sendo e considerando, somando-me aos demais Confreiras e Confrades desta Academia, desejo e prometo continuar no ofício da palavra não na intenção de apresentar respostas prontas ou insensatas, mas sim permanentemente questionar o quão possível é, o que a vida faz de nós, afetos da alcunha dos versos, e o que com ela contribuímos para minorar sofrimentos e injustiças tendo a arte por instrumento, através do belo, da fantasia, da realidade, do poema, dos textos elaborados que possam instruir, comover, permitir alegrias e gerar vida pensante seja em qual for a realidade.
Que nossas letras possam até estarem chochas, nuas ou gélidas quando de certa forma incomodamos, mas jamais desconexas ou fora de contexto quando tantos pretendem que possamos a qualquer preço e custo cultuar a mudez. Afinal como diz Nietzsche, “Nada é tão nosso quanto os nossos Sonhos”.

Continuemos a falar de amor, a cantar a vida em todas as suas nuances, a cultuar o belo, o prazer e a alma, e a também saber incomodar por meio dos severos pensamentos e do aclaramento das ideias e ideais, a sonhada liberdade, quando a realidade assim exigir de nós. Que através dos nossos versos, frases, parágrafos, cadernos, livros e palestras, consigamos disseminar o belo e a fantasia, ainda que a realidade por vezes se torne inóspita. Deus nos permita um longo tempo entre vós para que sejam plenos de realizações e graça, os nossos passos. Mas caso disso venhamos a ser privados, que ao menos “seja eterno enquanto dure (Vinícius de Moraes)”.

Viva a arte, viva esse momento, vivamos todos com dignidade, decoro, honradez e humildade. Mas sobretudo, sejamos fraternos difusores da arte e necessidade do pensar.

Porto Seguro, 14 de Fevereiro de 2020.

Paulo Sergio Rosseto

Referências:
• eBiografia
• Wikipedia
• Arcodacultura
• Letras UFMG

= www.psrosseto.com.br =
270

POR DENTRO DE CADA UM

Anda tanta gente por dentro de cada um
Imprimindo sensações lubricas, absolutas

Há em cada íntimo uma pessoa oculta
Intrépida, intrigante, esnobe, insana, incomum
Digitando regras, regendo normas
Tardiamente desperta para o bem
Secretamente agindo incubada em ócio
E que a qualquer momento
Aflora em lugar nenhum transparente
Por Infantis atitudes levemente adultas

Dorme tanta gente no interior poeta de onde vim
Que desaprumo irresoluto, mas asseguro:
Quando me acho único, máximo e adulto
Ajo expondo meu lamentável lado imaturo
E se recolhido percorro meu deserto árduo
Completo minhas buscas justamente por ser puro
O anjo menino que ainda se recolhe em mim


- www.psrosseto.com.br -
190

CURA

Já não envelheço tanto a cada dia
Aliás percebo horas sem envelhecer
Acontece quando determinadamente
Consigo poupar a língua
De inefáveis momentos de desdéns

Sinto indo embora a irremediável pressa do dia
Deixando de vomitar vontades por desatar enjoos
Mesmo o espelho agora me enxerga pequenino
Pois me apreende a entender o que ficou aquém

Paro enfim zombando de uma ou outra desventura
Acho que a nostalgia valoriza sinuosidades
E a idade cura onde nem mesmo a imagem
Atreveu-se a ferir ao colocar a mão e não estancou
Diminuindo tensões sem pressa de reduzir voltagens
Sem machucar por bobagens ao perder de vistas
Sem descontar na poesia o que não se desvendou

Ando envelhecendo menos a cada estendido dia
Pela expectativa obvia de ainda não ter vivido

-----------------------
www.psrosseto.com.br
238

LÁ FORA

Bem sei que lá fora há riscos evidentes
Porem a ânsia do noturno fascina e clama

Entretanto não voo por temor mas razão frágil  
Permaneço quieto enquanto escuro
Ainda que as asas esgueiram-se ágeis
Entre galhos, lençóis e travesseiros
Às vezes passados, outras em frangalhos
Dobrados justapostos pela casa
Camuflado ninho de penas e folhas

Contenho ao ímpeto que me chama
Tão insone como tantas vezes faço
Equilibro imóvel como toda ave
Até que o sol em consideração
Volte dúbio num pio um raio à forra
Nesta vasta e ampla liberdade de sonho
Que não me tolhe e sim acolhe e ampara

São assim os limites de quem ama
Soturnas as amarras ainda que pense
Por não ser recíproco a quem lhe possa
Recolhe-se por amor à própria sorte
186

MANGA MADURA

A secreta procura está no tato
No passear leve dos dedos
Sobre a forma e a textura da fruta
E no sentir arrepiar-se pelo cheiro

Na ronda da língua entre os dentes
E na espera da pele pelo lábio
No entreabrir da boca provando a casca
Âmago lambendo desejo e êxtase
Hiato de ruído e silêncio - polpa e amêndoa

A candura verte evidente
Mel e bálsamo escorrendo a esmo
Minando a fonte
Banhando a face da semente
Umedecendo o dorso
Contraponto catarse
Em contato ao frescor olhar
Como suave brisa que alivia

Mormente quem sente esse íntimo desejo
Da cobiça a uma bela manga madura
Degusta a avidez da fome como se beijasse
Padecendo dessa doce sedução mística loucura
Que somente sara e sacia
Ante ao gesto ávido de mordê-la

==
www.psrosseto.com.br
201

CERTAMENTE MORREREI

Certamente morrerei mais tantas vezes
Pois meu orgulho poderá não desaparecer
E exigirá que me repita nesse ato final
O quanto necessário precise padecer

Já morri de amores, de imediato contentamento
Saudade, alegria, felicidade plena, frio e de rir
De inveja, medo, prazeres, desconfiança e sono
Na prescrição das dores que me fazem reviver

De repente a morte continue seu laboratório
E se experimente mais em minha espiritualidade
Aprimorando seu oficio em me matar por onde for

Apenas não gostaria de viver no abandono
De quem não sentirá pesar algum estando ausente
Ao recobrir na terra aberta meu ultimo momento
182

BAGUNÇA

Houve fina garoa sobre a poça
Que até então já aquietada
Sossegara brincando após
O primeiro chuvisco na praça

E assim enchendo-se novamente de chuva
Dessa vez na calmaria da rua
Transbordou vagarosa pelo declive
Ensopando as falhas entre as pedras
Cantante e desperta como toda água
Mansa, esguia, boa, límpida e fria

E lá embaixo depois de alguma andança
Espalhando-se feito enxurrada
Na lama do paralelo ao pé da calçada
De novo em descanso deu de cara com a lua
Espelhando-se em si de felicidade
Toda melada em risadas descontraída

Entra o vento apressado afeito criança
Nessa profusão de imagens fazendo bagunça
Rodopia e sacode lambendo a paisagem
Tremulando áspero entre ondas
As surpresas amigas que entredizem

- A que ponto chegamos, querida!
174

BOA PRAIA

Johw, você dormiu?

Não, ninguém mais consegue dormir em Taperapuan!

Estranho isso, amigo Toddy, uma madrugada de sexta que teve início ainda na noite da quinta, seria propícia para um bom sono, mas não se consegue relaxar com esse som altíssimo.

Mas Johw, é Gustavo Lima quem estava cantando, é bonito.

Sim, Toddy, também gostei, o som dele é mesmo bonito. Difícil foi aguentar os gritos dos escrachados animadores achando que faziam um ‘esquenta’ pra Gustavo.

Pior ainda foram os rojões, Johw.

Verdade, Toddy.

O que esses caras têm na cabeça? Soltam bombas à meia noite, às duas da madrugada, às quadro da matina... quanto desrespeito humano.

Humano e animal, cara!

Estou com o rabo entre as pernas de tanto medo até agora, amigo.

Sorte sua, Toddy. Eu nem isso tenho para enfiar em lugar nenhum.

Chegou o sol, irmão.

Chegou, mano.

Vou dormir e você?

Vou à praia virar latas.

Au au, então boa beach!
205

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.