Lista de Poemas

ENGANO

Algum som
Grita dos confins

Voz que chama
Que declama
Benfazeja voz
Que pelo universo
Espalha-se

Mesmo que paciente ecoe
Tao perto de mim
Eis evidente o despreparo
Engano do meu ser:
Embora insista achar
Que Tua presença
Seja só um vento lá fora
Provas-me a crer

Às vezes não ouço nítida
Por entender que moras além
Dos interesses que mantém
O pouco que consigo escutar
Para bem sobreviver

Mas dobro-me
Sempre que meu espírito canta
Ou minha hora chora
308

SAUDADE

Não seria solidão
Simplesmente uma ausência
Dessas que a gente ganha
Quando se desmancha
Aquilo que a gente sonha

Na verdade é saudade
Dessa que se instala e apossa
Dói e continua doendo
Arrasta-se por um tempo sem fim
E permanece corroendo

Nem dá tempo de pensar
Quando vê já está sofrendo
Às vezes demora passar
Mas não seria solidão
E sim somente ausência
191

NOITE LENTA

Demoram as ideias a entenderem
Que não estás
Que não vens
Que não sabem por onde deitas

Demoro eu a perceber
Que a solidão me desfaz
Arrebenta-me
Intranquiliza e me aquebranta

Mas sabemos que não precisamos
Tocar-nos para estarmos completos
Tão repleta é nossa sintonia

Abraço-te na distancia e te envolvo no abraço
Que só existe no lado interno do peito

Deixe que as horas lerdas se sucedam
E que a noite lenta retarde meu sono
Assim mais e mais te sonho
E te imagino tão perto
A ponto de estar em ti
Apesar do abandono
195

RECOMEÇO

Pareço um menino amando
Cumprindo apaixonado
Quando derreto ao olhar teus olhos
Encantado ao ouvir o canto
Lírico intenso da tua voz

Adolesço ao sentir teu cheiro
Cumpro o que ordena o ímpeto
Dispenso as formalidades
Que me prendem
Aos teus mistérios insanos

Flutuo vendo tua beleza
Lembrando que remoço
Porque volto sempre ao começo
E te repito e recomeço
228

DESCALÇA

Esse tapete da sala
Nessa casa tão vazia
Em que você pisa descalça
Chama suas verdades
E você entedia

O sofá por onde deita
A cama em que namora
Hoje vai estar sozinha
Pela vidraça da janela
Seu olhar sai e passeia

Tudo de você me procura
Tudo em você me anseia
Porque sabe que a distância
Vigio os teus segredos
E você adora
198

INFINDÁVEL

Minha caravela singra solta em seu mar.
Velas içadas fartam-se aos doces ventos
Passeiam destemidas em suas profundezas
Sentindo livre o suave sabor de navegar.

Quando cruéis noites de inverno castigam
Necessito corrigir o rumo, tornar preciso
O equilíbrio exato entre as ondas e o cais
Ou ante as calmarias que a tudo desligam.

Sigo assim solitário em ti recitando a loucura
Entre não retroceder ou arriscar a deriva
Parecendo infindável e eterna a procura.

Marujo, a um só tempo capitão e timoneiro
Sou eu o leme, a ancora, o casco e a estiva
Dessa indelével nau da qual sou passageiro.
366

DETALHES

Existem coisas que a ninguém jamais contei
Mínimas porções que parecem insignificantes
Que o tempo se encarregaria de guardar e resguardar
Em cantos mínimos da memoria

Mas a você digo com intensa naturalidade
Que até parece estar recompondo detalhes
E revivendo determinados momentos

Assim trocamos impressões cotidianas
E vamos confessando e nos aprendendo
E nos apaixonando por nossa própria historia
193

PENSAS E SENTES

Sei de cor as palavras
Que gostas de ouvir de minha boca
Da fragrância do perfume que te inebria
Da cor que te atrai
Aroma que te desperta
Dos pontos que te põe ansiosa
Quando minha mão te toca

Dos teus gostos refinado
Teus desejos mais secretos
Tua fé inabalável no deus que acreditas

Tuas doces vaidades
Tuas doses de alegria
Conheço-te tão própria e intrínseca
Com tal e qual intensidade
Além do que de mim mesmo saiba
Pelo que pensas e sentes

Amo-te cara poesia
143

DIA A DIA

Delicie-se com aquilo que mansamente
Acaricia teu ego
Seja um pensamento
A lembrança de um vivo momento  
A presença de um sentimento
De uma saudade macia
Dessas que te põe perdida
De vontade de perder-se novamente

E quando estiver assim envolta em pura poesia
Dê-se ao consentimento da eterna delícia
Agarrada a si mesma
No íntimo contentamento
Digno das soberanas deusas
Ou da mulher que labuta e enfrenta a lida
Como qualquer pessoa dia a dia

Assim conseguirá saborear primorosas horas
Deliciadas ainda que na reclusa solidão
E se divididas com alguém que te apraz
Poderão talvez ser igualmente intensas e vividas
Abençoadas por também estarem sendo repartidas

Experimente embriagar-se de toda maneira
212

NOITE APRESSADA

Ah como é bom sentir a noite assim serena
Experimentando o frio da madrugada
Sem qualquer barulho, sem zoada
Protegido e deitado sobre a colcha macia
Descontraído à espera do novo dia

Há quem não tem as suas noites assim normais
Como tenho eu o privilegio em tê-las
Há quem sofre nas macas dos hospitais
Há quem perambula abandonado pelas ruas
Há quem corre fugidio por quintais
Há quem roube e assassine sem preceitos
Há quem treme sem cobertas e sem leito
Há quem cace bandidos pelas matas
Quem mata em desespero e suicide
Há quem sonhe poder sair a trabalhar
Há quem lute com seus próprios preconceitos
Quem chore por um amor perdido e desfeito

Minha noite passa lerda ao teu lado
Em plenitude e completa harmonia
Ainda que não percebas que existo
Porque sei que apressada é a fantasia
Dos meus sonhos te velando acordado
230

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.